“Ninguém quer ser José”: sobre economia política

Mundo-716x393Alguns amigos mais velhos diziam essa frase quando eu era adolescente: “Ninguém quer ser José, né?!”. Tinham muitas referências (desde um “Zé” qualquer até “José” marido de Maria, que assumiu um filho que “não era seu”…), mas vamos redirecionar o sentido: ninguém quer administrar crises. José do conto semita – aquele que é vendido como escravo e depois de interpretar sonhos se torna governador do Egito – tem que resolver um problema: sustentar a economia de uma nação durante um longo período de escassez. Pior, esse período vem imediatamente após um período equivalente de fartura. Coincidentemente, vivenciamos um período de fartura recente e temos entrado em um momento equivalente de escassez. Nesse momento, é importante adequarmos nossas categorias (ferramentas interpretativas) para enxergar o que está acontecendo

No texto bíblico, José tem a habilidade de interpretar sonhos. José sabe fazer previsões: tanto dos êxitos quanto das desgraças. Ele não é “sonhador”; é intérprete dos sonhos, dos desejos, dos possíveis efeitos das relações familiares, institucionais e econômicas. Assim, ele diz: “Virão 7 anos de fartura, em que haverá alimento em todo o Egito. Depois virão 7 anos de fome. E a fome será tão terrível que ninguém lembrará do tempo de fartura, em que havia excedente” (Gênesis 41: 29-31).  O efeito de uma série de relações, de desejos e ações, será duplo e sazonal: excedente e fartura, falta e fome. Por causa dessa habilidade de previsão, o faraó o encarrega de governar a crise: é da responsabilidade de José gerir o excedente de produção no período de fartura para que seja possível a superação do período crítico de recessão. O problema: ninguém lembrará do tempo de fartura.

Essa é uma das dificuldades que José terá de enfrentar: ninguém vai se lembrar do crescimento recente. Os processos econômicos não são previsíveis por si, mas em constante relação política: é das determinações da administração pessoal das relações e da gestão do excedente que nasce a possibilidade de enfrentamento de crises. Nos acostumamos a enxergar a “economia”  através de números – e isso nos esconde aquilo que “realmente acontece”. Cremos, por exemplo, que economia é uma ciência e todas as ações administrativas calculáveis. Mas, ao mesmo tempo, não percebemos o óbvio: os “economistas” não conseguem prever as crises e apenas descobrem as “causas” depois que elas acontecem. Ou seja: a economia não gere excedente e nem apresenta o que está acontecendo, mas tem agido apenas como ferramenta de análise posterior. Sem “José” a economia por si só não consegue superar a crise.

O governo Dilma tem sido criticado por causa da crise econômica – tem sido essa a bandeira da “oposição”. Nesse período de vacas magras, esquece-se do período anterior das vacas gordas: os anos de fartura foram abandonados na memória por causa do surgimento de anos de recesso. Apenas por números, os economistas criticam a desaceleração de “crescimento”, mas escondem que ainda há excedente de produção disponível e que aquilo que fora produzido é mais que suficiente para a superação de crises. O problema primeiro, anterior e ulterior não é a administração de “agora”, isolada das relações indeterminadas. As vacas magras “uma hora chegam”, e as pressões “externas” não estão sob controle daquele que administra. O que está na mão de quem gere é a capacidade de previsão, apenas.

Aí a falta e a falha da economia: portando-se e reportando-se aos números, escondendo que a produção não nasce sozinha, mas da relação entre materiais disponíveis e trabalhadores com acesso a eles, não prevê o que “vai acontecer”, mas apenas acusa aquilo que está acontecendo enquanto acontece. Cabe ao gestor do excedente prever e realizar a boa governança. Problema: o gestor do excedente de produção não é o mesmo que o dono dos meios que produzem. Ou seja: diferente de José, prever e administrar a crise não está nas mãos da mesma instituição – muito menos de um mesmo projeto! Assim, temos duas categorias ocultas: a origem da produção e a gestão do excedente.

Esses “economistas” tomam como origem da produção a preferência de um mercado. Assim, trabalha-se não para satisfazer necessidades pessoais de gente real, de carne, concreta, mas para atender as preferências de alguém que compra produtos. Mas, de verdade, o trabalhador não trabalha porque prefere consumir alguma coisa, mas trabalha porque necessita de meios que permitam-no manter-se vivo! A origem, ou melhor, a fonte de produção, não é a preferência do consumidor, mas a necessidade de uma pessoa de reproduzir sua vida. No outro espaço, os economistas responsabilizam a ordem estatal (o governo) pela gestão dos recursos produzidos como se fosse ele o “dono e responsável” pelos meios de produção, quando, na verdade, os excedentes de produção ficam em sua gigantesca parte nas mãos de quem é dono de uma empresa, fábrica, indústria ou qualquer outra entidade que atenda às preferências de consumo. Quem gere efetivamente o excedente são vários indivíduos em suas propriedades particulares, não o governante; e quem produz efetivamente são pessoas necessitadas, não consumidores.

“Ninguém quer ser José”, porque ninguém quer assumir esse duplo movimento: gerar e gerir. Ninguém quer trabalhar efetivamente na previsão da crise, mas há a preferência de se aproveitar dela. O objetivo de José no conto, por exemplo, é não deixar que o povo morra com a fome. O objetivo de um desses “economistas” é impedir que os números parem de “aumentar”. José tem que lidar com crises pessoais, de gente de verdade, inclusive “fantasmas de seu passado” de sofrimento, no olho no olho, nas relações políticas envolvidas. Os “economistas” apenas querem lidar com as taxas de inflação e valorização de uma moeda estrangeira.

Nisso temos que expôr mais. Claro que ocorreram equívocos administrativos no governo petista dos últimos anos. Não me refiro aos escândalos de corrupção presentes em todos os partidos e que tem sua origem muito mais profunda – em breve escreverei um texto a respeito disso. A ordem política do mundo está fundada na corrupção. Refirmo-me à política-econômica ou economia-política. Mas o ponto é que o projeto desenvolvido nos anos recentes souberam gerir o excedente de produção no período de vacas gordas. Não houve crescimento em números, mas efetivo e real: pessoas melhor empregadas, trabalhos mais “rendativos”, trabalhadores com ascensão real (não de classes, mas de manutenção, produção e reprodução da vida). Os “preços” se alteraram, mas na prática a vida concretamente conseguiu reter mais valor em relação ao passado. Hoje é-se exigido e necessário uma boa administração em crise – que, comparativamente aos outros países e aos outros gestores em suas situações, tem sido boa. Claro que em comparação com o período as vacas gordas estamos mal; mas essa é a sazonalidade das relações! É normal! Apenas em números para economistas cínicos a taxa de “crescimento” é constante – e isso precisa ficar claro em nossa mente.

Por fim, Adam Smith (pai da “economia”) escreveu seu Riqueza das nações como parte de seu curso de Moral e Ética. Na primeira página do livro ele explica que “primitivamente” os homens disputavam de maneira desigual as propriedades, pois uns eram livres e outros escravos; mas que nas relações modernas, havia a possibilidade de se superar essa desigualdade, colocando homens que seguindo determinações morais seriam capazes de redistribuir livremente os excedentes de produção. Smith era moderno e vivia numa pequena comunidade política moderna. Tomou, assim, essas relações de “igualdade moral” como princípio da economia, escondendo seu fundamento: o trabalhador com necessidades e as desigualdades do “primitivo”.

Nossos economistas de “oposição” passam desapercebidos por essas páginas iniciais. Com isso, perdem a capacidade de criticar, prever e administrar crises. Apenas analisam: expõe aquilo que esquematicamente está acontecendo. Abrem mão de ser José, não se colocam e nem se dispõem a essa tarefa. Eles não preveem, não tem essa capacidade. Por isso, também não gerem. O que, afinal, dá para eles o poder de acusar o que acontece? Nossa crença mística nos sonhos (nos números)! Não sabemos interpretá-los, então confiamos naqueles que dizem que interpretam. Mas eles nunca acertam e nem preveem! Deveríamos parar de ouvi-los. Devemos ouvir e dar poder aos “José’s”, àqueles que sabem interpretar, que saem das abstrações e se voltam para o “profundo”, o real, o concreto: que apresentam o que está oculto. Que partem da realidade da necessidade de pessoas que produzem e que sabem que aquele que é dono do excedente não tem sido o mesmo que o gere como governante.

Que faremos, então? Olhemos novamente para nossa realidade, nosso momento, a atualidade. Lembremos das vacas gordas e encontremos o verdadeiro problema:  não é a Dilma, o Lula, o Papa ou o Aécio. O problema é que ninguém quer ser José…

Bruno Reikdal Lima

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