Religião e instituição corrompida

Para quê criamos instituições? Seja Estado, família, dinheiro, partido ou religião, pra quê? Pra quê igreja? Numa discussão moderna, bem distante do dia-a-dia e da vida comum da gente, instituição é entendida como meio de dominação e controle. O Estado tem como característica o uso legítimo de violência para dominar as pessoas. A religião serve para controlar o “rebanho”, manipular fiéis. Dinheiro é uma corrente demoníaca em si mesmo. Família é uma instituição castradora. E por aí vai… As instituições são entendidas diretamente como meio de dominação. Para se libertar, então, deve-se (na cabeça de quem abraça essa ideia) acabar com as instituições…

Mas aí tá errado o processo. Abraçar uma ideia para daí entender o mundo não faz muito sentido. Se fazemos isso, dificilmente conseguimos ser críticos, dificilmente conseguimos enxergar a real. O processo é o contrário: olhando para o que acontece aqui no duro, no cara-a-cara, no cotidiano, encontramos o lugar de onde devemos partir para produzir uma ideia. Não é da ideia que se produz o dia-a-dia; mas do dia-a-dia que podemos produzir uma ideia. A ideia produzida é ferramenta a ser utilizada nesse dia-a-dia. Agora estamos no processo que faz sentido: com os materiais aqui, à nossa mão, conseguimos desenvolver uma ferramenta útil para resolver os problemas que estão a nossa frente, no nosso meio. Esse processo, sim, pode apresentar a real.

A real nasce da gente, do nosso meio. Tem como fundamento, como matéria-base, aquilo que vivemos no chão. Aliás, assim como as ideias, parece que as instituições nascem do mesmo jeito: a partir da gente e da vida comum conseguimos material para instituir alguma coisa. Enrique Dussel faz uma crítica ao Estado Moderno aplicando este processo ao político: ele não nasce do desejo de controle e dominação, de violência, mas desejo de viva, vontade-de-viver. É porque queremos viver, temos essa potência, projetos, planos, esse poder aberto, que instituímos como meio que possibilita a realização de nossa vontade concretamente o Estado, ou o corpo político. Dussel faz este processo para a instituição política, o Estado, o governar. Façamos a passagem para a religião: será ela necessariamente projeto de dominação e manipulação? Ou essa é a corrupção da religião?

Marx mostra que a fonte do capital é o trabalho vivo do sujeito humano que se mata para continuar vivo, produzindo um objeto que se tornará meio para reprodução da vida. Dussel propõe que a comunidade política que deseja viver produz uma instituição que será meio para a reprodução da vida comunitária. Nós arriscaremos mostrar que a religião é o mesmo processo: nasce de uma comunidade de fé que deseja viver-em-abundância e institui uma igreja como meio para a encarnação desta vida em abundância. A religião nasce do chão; é produto da vida em comunidade, vida de fé. É religião de “chão de fábrica”.

A religião assimilada como uma ideia e a partir desta, descolada das experiências concretas, comuns, cotidianas e comunitárias de gente de verdade, será sempre manipuladora. Será instituição de controle, discussão moderna. Mas nós não estamos necessariamente e nem vivemos inevitavelmente ela. A religião que acontece de verdade, na real, aqui, nasce da vida de pessoas de verdade, do desejo verdadeiro da vida em abundância, da entrega e do serviço de fé. Gente que se compromete comunitariamente no chão da fábrica; não é estruturado numa ideia, mas na divisão do pão e da água, do vinho. Na divisão dos serviços e dos dons, em que cada um se oferece para o excedente, para o além do diário.  Continuar lendo

Aos 26

2626 de agosto, 26 anos (apesar da cara de 17). Um dedinho a mais que 1/4 de século. Não sou capaz e nem estou pronto para “aconselhar” ou dizer que sei alguma coisa sobre a vida. Tudo o que falo, tenho plena consciência de que está bem delimitado em mim e nas minhas experiências próximas. Comecei a ter a sensação de que consigo reconstituir minha história de maneira diferente, reorganizar meu passado. Mas só. Isso é bom. Cai a máscara de “maduro”, entra a de “adulto”: não posso direcionar sabiamente a vida de Outro, mas sei onde a minha está fincada. Hoje sei em que chão meus pés pisam; e é este chão que venho compartilhar…

Ano passado, antes de completar 25, vivi intensamente crise: frustrado por não conseguir acelerar minha independência financeira e me estabelecer profissionalmente, e desiludido com os espaços que me constituem – igreja, universidade, escola, família. Ouvi uma música que dizia: “Há 10 anos eu planejava conquistar o mundo, 10 anos se passaram e eu não conquistei […] Não imaginava que chegaria aos 26 sem norte ou sul”. O som bateu. As pernas tremeram. Tive medo de chegar assim nos meus 26. Frustrado, desiludido… Com medo de perder até o encanto: a paixão pela filosofia, o amor por minha comunidade, minha vocação e a fé. A única segurança que eu tinha: gente.

Meu avô me ensinou uma coisa rara e para mim muito cara: “quem tem amigos não precisa de dinheiro”. É verdade. Tomei chacoalhões de irmãos. Fui cuidado. Lutaram comigo e por mim. Devo muito à minha casa, ao meu irmão-mais-velho e à minha linda magrinha. Eles me constituem. Devo muito a companheiros e companheiras que cuidaram e cuidam de mim sem nem eu saber. Acreditaram mais em mim do que eu mesmo. Esse é o fundamento primeiro do chão que eu piso: eu sou, porque nós somos. É ubuntu, que quem me ensinou a viver e entender foram outros dois irmãos-reis: Jarino Junio e Pedro Conceição. Gente que me constitui como sujeito. Não somos isoladamente; só somos em relação. Nasci dependente de mãe, pai, família e casa. Fui dependente de professores, amigos, mestres, comunidades… Gente que me construiu, me constituiu, me ajudou e ajuda a me tomar como sujeito, como pessoa.

Somos, sempre, em comunidade. Dussel define sujeito como sendo sempre intersubjetivo: só é em relação e comunitariamente – não existe gente que vem “do nada”. Sempre vem de alguém. Os chacoalhões, as caminhadas, as conversas, o cuidado e o carinho encheram e enchem o espírito. Força nova, vida nova, outro combustível – sem preço! Comecei uma pós em Ciência Política. Prestei processo seletivo no Mestrado para Filosofia Latino-Americana. Segundo fundamento do meu chão: nossa paixão precisa ser útil para a comunidade em que vivemos. Tive fôlego porque vi que alguém apostava em mim e, do mesmo modo, meu trabalho deveria se direcionar, sempre, para alguém. Nossa produção não é para nós mesmos, mas sempre para alguém. Minha linda magrinha me inspira e me motiva. Quero ser um presente para minha casa. Quero ser útil para minha comunidade, meu povo. Estou estudando Dussel, com a paixão pela filosofia firme, porque tenho o dever de produzir algo que possibilite a vida dos meus, dos outros. Como Dussel disse: “ser útil é uma relação”. Continuar lendo

Manifestação e Movimento: uma distinção fundamental

revolution_wallpaper___by_jeevayNuma conversa produtiva no facebook a respeito das manifestações de ontem (16/8) que ocorreram em alguns bairros de algumas cidades do Brasil, descobri ser importante fazer a distinção entre manifestaçãomovimento. Nossa organização atual do Estado é recente, assim como o envolvimento cidadão diretamente com e na Política. Ainda estamos maturando, crescendo como comunidade política. Isso não significa que estamos nos tornando parecidos com algum outro Estado, mas que estamos nos descobrindo e tendo a possibilidade de nos inventarmos e criarmos nosso modo de trabalhar o político. Nesse quadro, é necessário realizar a distinção

Manifestar é tornar aparente aquilo que estava “oculto”, escondido, “nas sombras”. Manifestação não depende de uma organização estratégica de um grupo de pessoas. Ela pode tanto ser realizada conjuntamente como solitariamente. É a experiência de expressar, pôr para fora, o fruto de relações. No caso da manifestação política, relações que acontecem dentro do campo político.

Movimento, por sua vez, já não parte de uma expressão fruto de reações e experiências relacionais dentro do campo político. Movimento já entra numa postura mediada: é organização determinada que busca promover alterações no campo político. Diferente da manifestação, que quase que imediatamente se expõe, o movimento é estratégico: requer uma institucionalização das forças e dos desejos de atores políticos – nos quais podem se encaixar os manifestantes. Movimento tem projeto. Ele promove ou se torna um meio que visa realizar/efetivar os desejos decididos conscientemente e em concordância de uma comunidade política. Em termos mais “aristotélicos”, o movimento é a atualização daquilo que estava em potência de forma determinada.

Se consideramos a expressão da manifestação como matéria e uma comunidade como forma, o movimento é aquilo que a determina e torna em ato sua potência. É relação mediada, não imediata. Uma madeira, por exemplo, é matéria; o marceneiro pode conferir a ela diferentes formas; quando ele a corta visando vendê-la para determinado local, a determina como mesa ou cadeira dependendo da relação em que está envolvido. Manifestação e movimento não são o mesmo.

Manifesto comunista, por exemplo, é um folhetim. Não é a “obra-prima” e nem a totalidade do projeto de Marx. O marxismo que se pauta nesse folhetim perde o caráter de movimento como projeto e organização, e tende a se tornar apenas manifestante: sem determinações e finalidades, sem organização, sem ser meio para alcançar a realização de projetos (isso ajuda a gente a entender a série de micro partidos de esquerda que não se sustentam). O manifesto tenta expressar o “espectro” que rondava a Europa (procurava tornar aparente o que estava oculto). Mas o movimento propriamente dito dependia de um passo mais profundo: a organização de partidos, as reuniões em comunidades, a concordância entre os atores políticos, etc. Continuar lendo

“O político”: trecho do projeto

 10568902_770775982960838_6013329346446243723_nO intenso e delicado momento do Brasil – de eleições conturbadas, escândalos de corrupção, manifestações sociais, greves, debates sobre reformas políticas, representação e legitimidade do poder – tem colocado em evidência e recorrentemente trazido à mesa as discussões sobre o político e a política. Se por princípio não se pode determinar que algo “está errado”, pode-se, pelo menos, afirmar que algo está acontecendo. A partir desse ponto, resta responder qual o fundamento disso que está acontecendo – e o lugar onde nos posicionaremos para trabalhar a questão é de suma importância

Em Enrique Dussel encontramos a tese central de que a fundação ontológica da crise do político é a fetichização do poder. Esta fetichização é origem do entendimento do político (conteúdo) e da política (atividade) como dominação e como corrupção. O autor comenta que o “conceito do político supõe primeiramente a descrição ontológica do poder político, conceito que passa inadvertido e que na Modernidade se identificou frequentemente com a dominação”. Esta dominação é fruto de uma corrupção originária: quando os executores do poder (que, como veremos, será explicitado por Dussel com a determinação de potestas) tomam a si mesmos como fonte do poder (que, por sua vez, será, na verdade, a comunidade política determinada como potentia) – o que caracteriza a chamada fetichização. O resultado é: “fetichizado o poder delegado […] toda outra corrupção é possível”.

O desenvolvimento teórico que conduz a essa tese tem como ápice de sua sistematização a obra Política de la Liberación, dividida em três volumes: Historia mundial y crítica, Arquitectónica e Crítica – sendo que o terceiro ainda não foi publicado. O primeiro volume procura compor um novo paradigma histórico para a filosofia política. O segundo, por sua vez, procura descrever ontologicamente o fundamento do poder político. Em seguida, a pretensão é que se critique o que fora construído anteriormente. Por nossa parte, situar-nos-emos no momento metódico de explicitação dos fundamentos do político – desenvolvido no segundo volume da obra.

“É tempo de descolonizar a cabeça” – assim o filósofo latino-americano dá início à primeira aula do curso de filosofia da libertação na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), em 28 de janeiro de 2015. A conhecida e cada vez mais pesquisada crítica à filosofia europeia construída por Dussel, com seu método analético de filosofia, propõe que a exterioridade do sistema hegemônico seja o ponto de partida – tomada de posição que caracteriza a filosofia da libertação. Deste modo, tomando os rumos gerais do método, para compreendermos o que está acontecendo não devemos lançar mão das categorias do próprio sistema – ainda mais na questão do político, pois, como vimos, seu conceito passou inadvertido pela Modernidade enquanto compreendido como dominação. Mas, posicionando-nos para além dele, faz-se possível a explicitação de seu fundamento e sua articulação, abrindo caminho para uma crítica direcionada, efetiva e concreta.

No “Prólogo” ao segundo tomo da Política de la Liberación, Dussel escreve:

“Nesta Arquitectónica, exporemos de maneira abstrata e como introdução ao volume da Crítica de maior complexidade, mais concreta, uma descrição fundamental, ontológica, dos momentos que têm relevância para uma política global, planetária, por sua vez observada de modo especial a partir da periferia, do Sul, e particularmente desde a América Latina. Será toda uma implementação do poder político, que irá ocupando o campo político até chegar ao final […] havendo dado conta suficientemente, levando em consideração os momentos necessários, de uma “ordem do político vigente” , anterior, de maneira abstrata e sem contradições ainda; sem conflitos, metodicamente postergados para a seção seguinte da Crítica.”

Seu propósito, portanto, neste momento arquitetônico, é descrever os fundamentos do político de maneira complexa, necessária, mínima e suficiente – momento abstrato de descrição ontológica. A disposição das categorias que constituem o político permitirá a compreensão de sua crise: sua corrupção originária e o entendimento fetichizado do poder como dominação. Além disso, no passo metodológico seguinte, a crítica concreta da libertação encontra caminho aberto. É o processo de “ascensão do abstrato ao concreto” – expressão que Dussel empresta de Karl Marx.

Interpretando criticamente os Grundrisse, Dussel encontra o seguinte quadro: “Marx pode ver com novos olhos, pode criticar o próprio ser do capitalismo […] a partir de uma exterioridade prática que lhe exige explicitar para os oprimidos uma teoria que explique aos trabalhadores o fundamento de sua alienação”. Isso significa que, para Dussel, Marx pôde construir um novo sistema de categorias que permitia explicitar o fundamento escondido porque tomou posição de exterioridade ao sistema capitalista – posição dos trabalhadores, alienados. Tendo-o feito, possibilitava a crítica ao próprio sistema.

Do mesmo modo, o filósofo latino-americano estabelece que, guardadas as proporções e a analogia epistêmica necessária, faça-se o mesmo quanto à filosofia política. Então, como citado, é necessário nos posicionarmos a partir da periferia – a América Latina, o Sul como exterioridade, como possibilidade crítica ao poder como dominação e à corrupção originária. Deste lugar de exterioridade, devemos observar a “ordem do político vigente”, descrevendo ontologicamente suas determinações, suas categorias articuladas, seu fundamento. Estas categorias e determinações colocam em questão a origem ontológica do político e permitem melhor compreensão do processo de fetichização do poder político.

Dussel também recorda que Marx descobriu a “comunidade vivente” como categoria fundamental – a via de acesso à distinção entre “trabalho vivo” e “trabalho objetivado”. Mantendo pedagogicamente o processo de analogia, sempre levando em conta as diferenças dos âmbitos da economia e da politica, afirma:

“Assim como a crítica da economia política de Marx partia da “comunidade de viventes” dos que trabalham, e onde cada trabalhador era considerado como “trabalho vivo” […] da mesma maneira a crítica da filosofia política da libertação parte de uma categoria fundamental que organiza todo o sistema das categorias restantes. Esta categoria é a do poder político.”

Deste modo, Dussel nos indica que, no desenvolvimento da política da libertação, a categoria fundamental é o poder político. As demais categorias que compuserem o sistema serão dispostas em torno desta centralidade. Continuar lendo

Concreto, material, teoria, prática… Diferenças necessárias

grafite arte urbana QBRK (11)[8]Utilizamos uma série de termos para organizar nossos discursos, projetos, propostas e justificar nossas ações. O significado destes termos precisa sempre estar bem determinado: saber suas posições, oposições e diferenças é fundamental para delimitarmos nossas justificativas: nossos sistemas significativos de justificação. Muitas vezes lemos a oposição entre “teoria e prática”, mas sem sabermos as determinações de cada termo. Trabalhamos sem refletir como dada a diferença entre “material” e… Qual o oposto de material? Aliás, qual a diferença entre “material” e “concreto”? É comum ver estes termos como sinônimos e confusos. Por exemplo: soa estranho uma “teoria prática”? E uma teoria “concreta”? Uma abstração “material”? Bem, é preciso organizar…

Aqui entra boa parte do trabalho filosófico: produzir e organizar sistemas significativos de justificação. Me arriscando nesse exercício, seguem algumas diferenças e oposições que creio serem relevantes para a organização de nossos projetos, discursos e ações. Ao final do texto, cito as fontes de onde tiramos o seguinte quadro:

Prático x Poiético

Normalmente trabalha-se a diferença entre “teoria e prática”. Mas, após ter contato com Enrique Dussel, ver suas interpretações e indicações, encontrei uma proposta muito interessante: prático em oposição ao poiético. Para Dussel, lendo Aristóteles, prática é a produção de alguma coisa que tem como direção final outra pessoa. É o trabalho relacional. Poiético, por sua vez, é o trabalho pelo trabalho, a produção pela produção. Quando um sapateiro produz para entregar o sapato para alguém determinado, é um exercício prático. Quando um trabalhador de uma fábrica de sapatos produz sapato por manutenção da produção, é poiético. Tal diferença é importante porque rompe com uma limitação: a impossibilidade comum de se desenvolver uma “teoria prática”. A produção teórica que tem como direcionamento uma “pessoa determinada”, é, sim, prática. Já a produção teórica pela produção teórica, voltada ao próprio exercício produtivo, é “teoria poiética”.

Teoria x Empiria

Teoria é distinta de prática e poiética, diferente e oposta à empiria. Teoria é o trabalho “contemplativo”: a produção reflexa de organização de esquemas, sistemas, discursos, modelos… É a representação esquemática de determinada situação que possibilita uma experimentação sem consequências radicais e imediatas. Oposto à empiria: que é a experiência radical, determinada, concreta que altera imediatamente e sem possibilidade de regressão e digressão a situação experienciada. Não é exercício representativo, mas direto, imediato.

Material x Sistêmico

Material é o “núcleo duro” trabalhado: seja poieticamente, praticamente, em exercício teórico ou empírico, é aquilo que de modo bruto, em sentido especial “internamente indissociável”, que abre possibilidade para um ponto de partida seguro para o trabalho, a produção, o exercício. Então seja um tanto de barro na mão de um artesão, seja madeira na mão do marceneiro ou o “conceito geral” em Marx, é este núcleo o “material”. Marx consegue fundar seu materialismo histórico e seu materialismo dialético ao estipular/determinar o “homem trabalhador em geral”: qual o núcleo histórico que constitui qualquer trabalho efetivamente? A resposta, a constituição do “trabalho em geral”, possibilitou a entrada material na história do homem. O contrário, tradicionalmente, sempre foi tomado como “o ideal” ou “o espiritual”. Entretanto, depois de revoluções científicas, tecnológicas, etc, estes termos perderam certo significado. Neste sentido, tomando certo cuidado na interpretação de Bourdieu, o termo “sistema” explica melhor: já não é um núcleo duro a ser trabalhado, mas as relações institucionais, pessoais, estruturais… Enfim, as determinações relacionais nas quais certo objeto está imerso. Não seria mais o “trabalho em geral”, seguindo o exemplo de Marx, mas o trabalho no “sistema capitalista”; as regras do jogo e como se comportam suas “peças”. Estas regras não são “materiais” como núcleo bruto, mas são compreendidas e compreensíveis na relação: nas situações, ações e efeitos que surgem entre os “objetos”, os “materiais”, os “atores” do sistema e no sistema. Continuar lendo