Concreto, material, teoria, prática… Diferenças necessárias

grafite arte urbana QBRK (11)[8]Utilizamos uma série de termos para organizar nossos discursos, projetos, propostas e justificar nossas ações. O significado destes termos precisa sempre estar bem determinado: saber suas posições, oposições e diferenças é fundamental para delimitarmos nossas justificativas: nossos sistemas significativos de justificação. Muitas vezes lemos a oposição entre “teoria e prática”, mas sem sabermos as determinações de cada termo. Trabalhamos sem refletir como dada a diferença entre “material” e… Qual o oposto de material? Aliás, qual a diferença entre “material” e “concreto”? É comum ver estes termos como sinônimos e confusos. Por exemplo: soa estranho uma “teoria prática”? E uma teoria “concreta”? Uma abstração “material”? Bem, é preciso organizar…

Aqui entra boa parte do trabalho filosófico: produzir e organizar sistemas significativos de justificação. Me arriscando nesse exercício, seguem algumas diferenças e oposições que creio serem relevantes para a organização de nossos projetos, discursos e ações. Ao final do texto, cito as fontes de onde tiramos o seguinte quadro:

Prático x Poiético

Normalmente trabalha-se a diferença entre “teoria e prática”. Mas, após ter contato com Enrique Dussel, ver suas interpretações e indicações, encontrei uma proposta muito interessante: prático em oposição ao poiético. Para Dussel, lendo Aristóteles, prática é a produção de alguma coisa que tem como direção final outra pessoa. É o trabalho relacional. Poiético, por sua vez, é o trabalho pelo trabalho, a produção pela produção. Quando um sapateiro produz para entregar o sapato para alguém determinado, é um exercício prático. Quando um trabalhador de uma fábrica de sapatos produz sapato por manutenção da produção, é poiético. Tal diferença é importante porque rompe com uma limitação: a impossibilidade comum de se desenvolver uma “teoria prática”. A produção teórica que tem como direcionamento uma “pessoa determinada”, é, sim, prática. Já a produção teórica pela produção teórica, voltada ao próprio exercício produtivo, é “teoria poiética”.

Teoria x Empiria

Teoria é distinta de prática e poiética, diferente e oposta à empiria. Teoria é o trabalho “contemplativo”: a produção reflexa de organização de esquemas, sistemas, discursos, modelos… É a representação esquemática de determinada situação que possibilita uma experimentação sem consequências radicais e imediatas. Oposto à empiria: que é a experiência radical, determinada, concreta que altera imediatamente e sem possibilidade de regressão e digressão a situação experienciada. Não é exercício representativo, mas direto, imediato.

Material x Sistêmico

Material é o “núcleo duro” trabalhado: seja poieticamente, praticamente, em exercício teórico ou empírico, é aquilo que de modo bruto, em sentido especial “internamente indissociável”, que abre possibilidade para um ponto de partida seguro para o trabalho, a produção, o exercício. Então seja um tanto de barro na mão de um artesão, seja madeira na mão do marceneiro ou o “conceito geral” em Marx, é este núcleo o “material”. Marx consegue fundar seu materialismo histórico e seu materialismo dialético ao estipular/determinar o “homem trabalhador em geral”: qual o núcleo histórico que constitui qualquer trabalho efetivamente? A resposta, a constituição do “trabalho em geral”, possibilitou a entrada material na história do homem. O contrário, tradicionalmente, sempre foi tomado como “o ideal” ou “o espiritual”. Entretanto, depois de revoluções científicas, tecnológicas, etc, estes termos perderam certo significado. Neste sentido, tomando certo cuidado na interpretação de Bourdieu, o termo “sistema” explica melhor: já não é um núcleo duro a ser trabalhado, mas as relações institucionais, pessoais, estruturais… Enfim, as determinações relacionais nas quais certo objeto está imerso. Não seria mais o “trabalho em geral”, seguindo o exemplo de Marx, mas o trabalho no “sistema capitalista”; as regras do jogo e como se comportam suas “peças”. Estas regras não são “materiais” como núcleo bruto, mas são compreendidas e compreensíveis na relação: nas situações, ações e efeitos que surgem entre os “objetos”, os “materiais”, os “atores” do sistema e no sistema.

Concreto x Abstrato

A diferença importante entre “concreto” e “abstrato” é a complexidade: abstração é delimitação simplificadora, enquanto que concretização é uma determinação complexificadora. Torna-se um exercício abstrato aquele que delimita, recorta, certo campo de modo a simplificar sua constituição, facilitar seu manuseio. O exercício é concreto quando “ascende” de uma simplificação ao “complexo”: à inclusão de determinações em sua constituição. Tomado certo campo, certa delimitação, encontrar suas determinações internas, reconhecer sua constituição, é complexificar: é trabalhar com o concreto, com maior concretude.

Perspectivas

Saber utilizar estas oposições e conceitos, lançar mão de suas diferenças e desenvolver combinações, é fundamental para a produção de um sistema significativo de justificação – exercício da filosofia. Teoria prática, poiética material, sistema concreto, e por aí vai… Nossos discursos, nossos projetos, ações e etc, precisam de justificação adequada, de reorganização, de “meios” que possibilitem a produção do novo, de outro mundo, outra possibilidade. Filosofia é um “método”, um meio, que possibilita a produção de sistemas significativos de justificação.

Este trabalho teórico que desenvolvi pode se tornar material para a construção de um sistema – seja prático ou poiético. Apresento algumas fontes que possibilitaram esse texto em forma de indicação bibliográfica:

  • Tópicos; PoéticaPolítica – livros de Aristóteles.
  • A Produção Teórica de Marx; Ética Comunitária; Hacia una filosofia política critica; 20 teses de política – livros de Enrique Dussel
  • Experiência e Natureza – John Dewey
  • Hermenêutica – Richard Palmer
  • Fenomenologia e Hermenêutica – João Paisana
  • A visão em Paralaxe; Primeiro como tragédia, depois como farsa – livros de Slavoj Zizek
  • Vivendo na Esperança – José Comblin
  • Sujeito e Sociedades Complexas – Jung Mo Sung

Espero que tenha sido útil…   😉

Bruno Reikdal Lima

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