Manifestação e Movimento: uma distinção fundamental

revolution_wallpaper___by_jeevayNuma conversa produtiva no facebook a respeito das manifestações de ontem (16/8) que ocorreram em alguns bairros de algumas cidades do Brasil, descobri ser importante fazer a distinção entre manifestaçãomovimento. Nossa organização atual do Estado é recente, assim como o envolvimento cidadão diretamente com e na Política. Ainda estamos maturando, crescendo como comunidade política. Isso não significa que estamos nos tornando parecidos com algum outro Estado, mas que estamos nos descobrindo e tendo a possibilidade de nos inventarmos e criarmos nosso modo de trabalhar o político. Nesse quadro, é necessário realizar a distinção

Manifestar é tornar aparente aquilo que estava “oculto”, escondido, “nas sombras”. Manifestação não depende de uma organização estratégica de um grupo de pessoas. Ela pode tanto ser realizada conjuntamente como solitariamente. É a experiência de expressar, pôr para fora, o fruto de relações. No caso da manifestação política, relações que acontecem dentro do campo político.

Movimento, por sua vez, já não parte de uma expressão fruto de reações e experiências relacionais dentro do campo político. Movimento já entra numa postura mediada: é organização determinada que busca promover alterações no campo político. Diferente da manifestação, que quase que imediatamente se expõe, o movimento é estratégico: requer uma institucionalização das forças e dos desejos de atores políticos – nos quais podem se encaixar os manifestantes. Movimento tem projeto. Ele promove ou se torna um meio que visa realizar/efetivar os desejos decididos conscientemente e em concordância de uma comunidade política. Em termos mais “aristotélicos”, o movimento é a atualização daquilo que estava em potência de forma determinada.

Se consideramos a expressão da manifestação como matéria e uma comunidade como forma, o movimento é aquilo que a determina e torna em ato sua potência. É relação mediada, não imediata. Uma madeira, por exemplo, é matéria; o marceneiro pode conferir a ela diferentes formas; quando ele a corta visando vendê-la para determinado local, a determina como mesa ou cadeira dependendo da relação em que está envolvido. Manifestação e movimento não são o mesmo.

Manifesto comunista, por exemplo, é um folhetim. Não é a “obra-prima” e nem a totalidade do projeto de Marx. O marxismo que se pauta nesse folhetim perde o caráter de movimento como projeto e organização, e tende a se tornar apenas manifestante: sem determinações e finalidades, sem organização, sem ser meio para alcançar a realização de projetos (isso ajuda a gente a entender a série de micro partidos de esquerda que não se sustentam). O manifesto tenta expressar o “espectro” que rondava a Europa (procurava tornar aparente o que estava oculto). Mas o movimento propriamente dito dependia de um passo mais profundo: a organização de partidos, as reuniões em comunidades, a concordância entre os atores políticos, etc.

Do mesmo modo, manifestantes juntos num mesmo lugar não estão de acordo e nem representam um movimento. Movimento necessariamente depende de comunidade e de concordância. Por isso podemos afirmar que essas manifestações recentes não fazem parte de um movimento organizado, mas são um movimento forçado. Pior, os pequenos movimentos não são voz efetiva dos manifestantes e se aproveitam de indignações individuais fruto de experiências relacionais no campo político para dar peso a seus projetos egoístas. Isso é nojento, baixo e podre. Mas, para esses movimentos, é mera estratégia justa…

Antes de terminar o texto (pois aquilo a que ele se pretendia já foi realizado), é importante ressaltar que o primeiro passo para um movimento conseguir traçar seus objetivos e para que indivíduos possam ou não se incluir em determinado movimento, é responder três questões: o que é política? Quais os limites do campo políticoComo é possível atuar nesse campo?

Creio que ao responder essas perguntas e comparar com as respostas dos movimentos que tentam se estruturar, realizamos um primeiro debate importante, tomamos nossa primeira dose de conscientização política. É tempo de fazermos isso, de constituirmos criativamente nossa política, o que é o político e como é possível sermos atores políticos. Manifestar indignação é direito e dever. Mas permitir que utilizem de nossa expressão, que os frutos das relações no campo político sejam manipulados por outros, que sejamos apenas manobra, já é suicídio político. Demonstraria um excesso de imaturidade de nossa parte. Sim, ainda estamos crescendo, mas não podemos manter os erros e as infantilidades. É preciso atualizar, fortalecer.

Bruno Reikdal Lima

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2 comentários sobre “Manifestação e Movimento: uma distinção fundamental

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