Aos 26

2626 de agosto, 26 anos (apesar da cara de 17). Um dedinho a mais que 1/4 de século. Não sou capaz e nem estou pronto para “aconselhar” ou dizer que sei alguma coisa sobre a vida. Tudo o que falo, tenho plena consciência de que está bem delimitado em mim e nas minhas experiências próximas. Comecei a ter a sensação de que consigo reconstituir minha história de maneira diferente, reorganizar meu passado. Mas só. Isso é bom. Cai a máscara de “maduro”, entra a de “adulto”: não posso direcionar sabiamente a vida de Outro, mas sei onde a minha está fincada. Hoje sei em que chão meus pés pisam; e é este chão que venho compartilhar…

Ano passado, antes de completar 25, vivi intensamente crise: frustrado por não conseguir acelerar minha independência financeira e me estabelecer profissionalmente, e desiludido com os espaços que me constituem – igreja, universidade, escola, família. Ouvi uma música que dizia: “Há 10 anos eu planejava conquistar o mundo, 10 anos se passaram e eu não conquistei […] Não imaginava que chegaria aos 26 sem norte ou sul”. O som bateu. As pernas tremeram. Tive medo de chegar assim nos meus 26. Frustrado, desiludido… Com medo de perder até o encanto: a paixão pela filosofia, o amor por minha comunidade, minha vocação e a fé. A única segurança que eu tinha: gente.

Meu avô me ensinou uma coisa rara e para mim muito cara: “quem tem amigos não precisa de dinheiro”. É verdade. Tomei chacoalhões de irmãos. Fui cuidado. Lutaram comigo e por mim. Devo muito à minha casa, ao meu irmão-mais-velho e à minha linda magrinha. Eles me constituem. Devo muito a companheiros e companheiras que cuidaram e cuidam de mim sem nem eu saber. Acreditaram mais em mim do que eu mesmo. Esse é o fundamento primeiro do chão que eu piso: eu sou, porque nós somos. É ubuntu, que quem me ensinou a viver e entender foram outros dois irmãos-reis: Jarino Junio e Pedro Conceição. Gente que me constitui como sujeito. Não somos isoladamente; só somos em relação. Nasci dependente de mãe, pai, família e casa. Fui dependente de professores, amigos, mestres, comunidades… Gente que me construiu, me constituiu, me ajudou e ajuda a me tomar como sujeito, como pessoa.

Somos, sempre, em comunidade. Dussel define sujeito como sendo sempre intersubjetivo: só é em relação e comunitariamente – não existe gente que vem “do nada”. Sempre vem de alguém. Os chacoalhões, as caminhadas, as conversas, o cuidado e o carinho encheram e enchem o espírito. Força nova, vida nova, outro combustível – sem preço! Comecei uma pós em Ciência Política. Prestei processo seletivo no Mestrado para Filosofia Latino-Americana. Segundo fundamento do meu chão: nossa paixão precisa ser útil para a comunidade em que vivemos. Tive fôlego porque vi que alguém apostava em mim e, do mesmo modo, meu trabalho deveria se direcionar, sempre, para alguém. Nossa produção não é para nós mesmos, mas sempre para alguém. Minha linda magrinha me inspira e me motiva. Quero ser um presente para minha casa. Quero ser útil para minha comunidade, meu povo. Estou estudando Dussel, com a paixão pela filosofia firme, porque tenho o dever de produzir algo que possibilite a vida dos meus, dos outros. Como Dussel disse: “ser útil é uma relação”.

Sou feito e existo graças a pessoas, a minha comunidade, minha família. Quero ser útil, me relacionar, cuidar da relação e da vida da minha comunidade. Que meu trabalho possa fazer isso! E porque? Para que? Por amor, para amor. Aprendi com o professor Benedito Elizeu Cintra que “amar é não matar e fazer de tudo para que o Outro viva”. Pois bem, é isso! Não quero matar minha gente, minha comunidade, meu povo. Não quero fazer deles “propriedade”. O “minha/meu” é inclusão: sou isso, parte disso, eles me constituem, possibilitam eu ser. Comungo, logo existo. É amor por minha comunidade: não matá-la e fazer de tudo para que ela viva. O tudo que eu tenho é meu trabalho. Meu trabalho é filosofia.

Na comunidade, no desejo por estar nela e com ela, em comunhão, que sei e vivo minha vocação. Vocação é chamado. Sou chamado a fazer alguma coisa. Quem é chamado, é sempre chamado por alguém. Primeiro vem o Outro. Ele me chama. Agora tenho uma vocação. Sou con-vocado junto ao Outro; Pro-vocado pelo Outro; In-vocado comigo Mesmo. A prioridade é o Outro. Esta é minha vocação. Estar de ouvidos atentos, coração disposto, braço pronto a servir. Atender ao chamado, ao convite, ao grito, ao riso. Vocação.

A religião liberta. A verdadeira religião liberta. Na Bíblia religião é servir: cuidar do órfão e da viúva. Cuidar do excluído: daquele que está sem comunidade, que se sente ou se estabelece em crise: fora do nós. Sem comunhão, não tem existido. Aquele que foi posto ou se colocou para o lado de lá, distante. A religião liberta. Aprendi com Luiz Israel Júnior,  em uma reunião recente dos Jovens Betesda, parte de minha comunidade, que religião é “religar”: reconectar os Próximos. Melhor: tornar os “distantes”, os Eu’s isolados e solipsistas, em Próximos. A fé é o estabelecimento dessa confiança entre dois: entre Deus e o homem, entre homens. Fé: confiar. Religião só é religião enquanto comunitária: enquanto do povo e para o povo. Enquanto nossa.

Sou porque somos. Desejo servir, ser útil para nós. Comungo, logo existo. Religiosamente sou firmado nisso, assim. Este é o chão que meus pés pisam, o fundamento. Aqui estou firmado. Trabalho aqui, nesse espaço, como gente e com gente, com a gente. Sei que é divertido sonhar, viajar, planejar… Mas o importante é o preço do nosso pão, as questões cotidianas, nossos problemas aqui, concretos à nossa frente. Sei que é bom curtir o sol ou uma viagem. Mas a gente só tira foto para mostrar para Outros o que temos vivido. Então o importante e o fundamental não é a viagem ou o sol, mas a comunidade anterior, que nos constrói, para quem fazemos o que fazemos. Sou feliz. Sou firmado. Quem tem amigos não precisa de dinheiro. As relações não são isoladas e nem por mérito. Somos. Sou porque somos. Se cheguei aqui, não foi sozinho. Foi graças a Deus, foi graças aos meus…

26. Sem norte nem sul, mas com o Alto de onde me vem o socorro, com o povo de onde vem a possibilidade de libertação. Como na música do Emicida: “há de vir uma chuva de amor para espantar a dor desse povo sofredor”. Ainda tem muito “há de vir” pela frente…

Só Isso – Emicida

Bruno Reikdal Lima

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