Os Profetas de Hoje

FC Lucas TeixeiraO primeiro “estilo” musical que assumi como parte da minha identidade foi rap. O primeiro CD que ganhei foi Arrependa-se, do Apocalipse 16 – com a primeira formação: Lou, Charles e Beitico. Tenho ele até hoje… A voz grave, batida forte, letra pesada e só pancada no som marcaram minha infância. Lá pelos meus 7/8 anos. Aliás, a primeira música que fiz (nos meus rabiscos de compositor), aos 9, foi um rap chamado Sonho que virou realidade. Ganhamos até um concurso com ele lá na minha cidade, Lavras, em Minas. Minha mãe que me introduziu no rap. Apesar de boyzinho, ter nascido no período que minha família entrava na Classe Média, ser um “privilegiado” pro mundo, apendi com dona Gi que rappers eram os profetas bíblicos que restaram no nosso tempo: eles falavam as verdades que precisavam ser ouvidas…

Nesse tempo duas manchetes me deixaram em crise: num período muito próximo, o Facção Central (que eu ouvia escondido na MTv UHF dos anos 90) foi detido pela Justiça por ser considerado um grupo que faz apologia ao crime e, depois, o Mv Bill estava sendo processado por fazer um show com uma arma na cintura. Na tv as manchetes eram de “assombro” – não como aquele que me encantava no som do Apc, mas daquele de indignação e de bandidagem. Minha mãe me dizia que o rap era profecia, o jornal que era criminoso. Eu, boyzinho, ainda não entendia…

Voltamos pra SP. Apesar de agora estar do lado dos caras que me formaram, me distanciei do som. Afoguei ou escondi a paixão, a fé e o tesão que eu tinha de ouvir as denúncias, ficar em crise, protestar, tremer de medo e me encher de coragem ao mesmo tempo. Tava entrando na adolescência. 12 pra 13 anos, chegando de volta, indo para uma escola de outros boyz, numa cidade em que a Classe Média está bem mais longe da vida real. A comunidade religiosa da qual eu fazia parte agora também era outra: menos diversificada, mais burguesa, onde rap não tocava. Quando eu era criança tinha conhecido um rapper nesse lugar; mas não tinha mais. A denúncia girava em torno de outros ares, outros cantos, outros temas. Entrei numa comunidade de ensino; não mais de profecia. Cresci muito, aprendi muito, me formei em outro sentido. Mas a profecia estava morta: não tem rap, não tem profeta. E eu? Bundão, medroso, sem culhão, não sustentei o rap. PlayBoyzei no lugar que não podia: naquilo que me fundou.

Sem profecia, não tem Igreja. José Comblin ensinou isso aí. Mas quem são os profetas? Minha mãe está certa: os rappers. De crises e experiências recentes, meu fundamento ficou abalado; rachou. Bundão, de novo, tremi. Precisava recomeçar e refundar. Mas quais pedras vou utilizar? Encontrei uma que estava esquecida, perdida, lá embaixo, mas que era a mais firme, segura, dura e resistente: a profecia, o rap. Profecia é denúncia: expôr o mal, não se contentar com migalha de bom, atacar a injustiça. O CD que estava só enfeitando a prateleira voltou a tocar. Aquele primeiro do Apc. Mas só o primeiro. Os seguintes também deixaram de ser profetas. Pararam de denunciar, de atacar a injustiça. Começou a se fechar pra longe do mundo. Aí não é profeta. Continuar lendo

Teologia do poder corrompido

portinariEm alguns rascunhos de teologia antigos, encontrei uma proposta que hoje, mais madura, me é muito cara. O fundamento de uma teologia não é a “crença”, mas a experiência viva e necessariamente comunitária de fé. Vivemos determinadas experiências em comunidade, concretamente e em situações precisas, que se tornam a base, o chão, o firmamento do desenvolvimento teológico posterior. Aí, sim, entram as “crenças”. É depois de uma experiência viva, comum, cotidiana e encarnada que se desenvolve em forma de discurso uma teologia, uma sistematização de expressões de fé, dogmas, etc. Meu pai dizia: primeiro você se converte, depois vem alguém te dizendo o que você deve fazer ou repetir…

A experiência primeira de fé é comum, viva, espontânea e concreta. É a “epifania”, o momento místico cheio de emoção, corporalidade, concretude. Isso deveria ser o que nos firma. Logo em seguida aprendemos e/ou desenvolvemos um discurso teológico; afirmações de fé e dogmas. Assim, o que possibilitou nossa conversão não foram as palavras ou afirmações teológicas isoladas, mas a experiência comunitária viva, de verdade, corporal, dura, em um determinado dia e momento. A fé se funda nesse dia. Isso não se muda, não transforma. Mas o discurso, sim. A teologia que vem em seguida não é menos autêntica: ela só não é a “verdade” ou o fundamento da fé. Ela pode ser fruto, produto da vida concreta e real, da experiência que vivemos em determinado dia, mas nunca o próprio fundamento.

Quando o discurso teológico, as afirmações de fé, tomam a si mesmas como o fundamento da fé – como se fossem elas a causa de nossa conversão e não a experiência encarnada com o Cristo -, vivemos uma fetichização da fé: uma corrupção da experiência religiosa. Isso não desmerece uma em detrimento da outra; só devemos colocá-la em seus devidos lugares, suas posições. Enrique Dussel apresenta uma estrutura análoga: a experiência de fé encarnada é entendida como teologia fundamental (ou primeira), mas no processo de libertação do povo é necessário uma instituição mais complexa que se faça meio de possibilidade para a continuação da vida de fé. A partir de uma fé viva, é-se preciso uma vida de fé – e para que ela aconteça, são necessários meios: o desenvolvimento de uma Teologia estrita, em outras formas além daquela primeira, determinada.

O discurso teológico, assim, muda e se transforma enquanto são exigidos pela experiência de fé concreta e viva novos e outros meios que possibilitem a vida de fé. Os movimentos de renovação, reforma, revolução ou reavivamento na história das comunidades de fé cristãs podem ser entendidos dentro desta categoria: as experiências vivas de fé, concretas, reais, diárias e comuns da comunidade precisavam ou exigiam outros meios além dos que estavam à disposição para que a vida de fé prosseguisse. Era necessário produzir, criar, nova instituição: em forma de rito, discurso, música, igreja… Assim como na vida do sujeito de trabalho vivo em Marx precisa produzir meios que possibilitem a reprodução e continuidade da vida, a experiência de fé viva precisa produzir meios que possibilitem a vida de fé.

O subtítulo do livro As obras do amor, de Soren Kierkegaard, é “algumas considerações cristãs em forma de discursos”. Isso já ensina para a gente bastante coisa: o discurso é uma forma,  não o conteúdo. Kierkegaard propõe em sua filosofia o “além”: uma exterioridade que excede qualquer totalidade de um sistema. Seja discurso, seja parede, seja música, seja experiência científica… Há uma excedência que constitui verdadeiramente o conteúdo. A vida é o conteúdo, o fundamento último. As considerações posteriores são meios que possibilitam a reprodução do sujeito que vive – seja religiosamente, produtivamente, politicamente, etc. O discurso é importante e crucial; porém não é o fundamento. Assim como a igreja, o culto, uma música, o Estado, a escola, o mercado… São  meios, são formas, mas não fundamentos.

Precisamos ter isso bem claro em nossas experiências cotidianas. Tomar uma instituição como fonte, fundamento, é corromper a experiência viva e da vida: fetichizar as experiências, subjugar os sujeitos à religião, à política, à pedagogia, à economia. Estas instituições são meios para os sujeitos; não o contrário! Continuar lendo