Teologia do poder corrompido

portinariEm alguns rascunhos de teologia antigos, encontrei uma proposta que hoje, mais madura, me é muito cara. O fundamento de uma teologia não é a “crença”, mas a experiência viva e necessariamente comunitária de fé. Vivemos determinadas experiências em comunidade, concretamente e em situações precisas, que se tornam a base, o chão, o firmamento do desenvolvimento teológico posterior. Aí, sim, entram as “crenças”. É depois de uma experiência viva, comum, cotidiana e encarnada que se desenvolve em forma de discurso uma teologia, uma sistematização de expressões de fé, dogmas, etc. Meu pai dizia: primeiro você se converte, depois vem alguém te dizendo o que você deve fazer ou repetir…

A experiência primeira de fé é comum, viva, espontânea e concreta. É a “epifania”, o momento místico cheio de emoção, corporalidade, concretude. Isso deveria ser o que nos firma. Logo em seguida aprendemos e/ou desenvolvemos um discurso teológico; afirmações de fé e dogmas. Assim, o que possibilitou nossa conversão não foram as palavras ou afirmações teológicas isoladas, mas a experiência comunitária viva, de verdade, corporal, dura, em um determinado dia e momento. A fé se funda nesse dia. Isso não se muda, não transforma. Mas o discurso, sim. A teologia que vem em seguida não é menos autêntica: ela só não é a “verdade” ou o fundamento da fé. Ela pode ser fruto, produto da vida concreta e real, da experiência que vivemos em determinado dia, mas nunca o próprio fundamento.

Quando o discurso teológico, as afirmações de fé, tomam a si mesmas como o fundamento da fé – como se fossem elas a causa de nossa conversão e não a experiência encarnada com o Cristo -, vivemos uma fetichização da fé: uma corrupção da experiência religiosa. Isso não desmerece uma em detrimento da outra; só devemos colocá-la em seus devidos lugares, suas posições. Enrique Dussel apresenta uma estrutura análoga: a experiência de fé encarnada é entendida como teologia fundamental (ou primeira), mas no processo de libertação do povo é necessário uma instituição mais complexa que se faça meio de possibilidade para a continuação da vida de fé. A partir de uma fé viva, é-se preciso uma vida de fé – e para que ela aconteça, são necessários meios: o desenvolvimento de uma Teologia estrita, em outras formas além daquela primeira, determinada.

O discurso teológico, assim, muda e se transforma enquanto são exigidos pela experiência de fé concreta e viva novos e outros meios que possibilitem a vida de fé. Os movimentos de renovação, reforma, revolução ou reavivamento na história das comunidades de fé cristãs podem ser entendidos dentro desta categoria: as experiências vivas de fé, concretas, reais, diárias e comuns da comunidade precisavam ou exigiam outros meios além dos que estavam à disposição para que a vida de fé prosseguisse. Era necessário produzir, criar, nova instituição: em forma de rito, discurso, música, igreja… Assim como na vida do sujeito de trabalho vivo em Marx precisa produzir meios que possibilitem a reprodução e continuidade da vida, a experiência de fé viva precisa produzir meios que possibilitem a vida de fé.

O subtítulo do livro As obras do amor, de Soren Kierkegaard, é “algumas considerações cristãs em forma de discursos”. Isso já ensina para a gente bastante coisa: o discurso é uma forma,  não o conteúdo. Kierkegaard propõe em sua filosofia o “além”: uma exterioridade que excede qualquer totalidade de um sistema. Seja discurso, seja parede, seja música, seja experiência científica… Há uma excedência que constitui verdadeiramente o conteúdo. A vida é o conteúdo, o fundamento último. As considerações posteriores são meios que possibilitam a reprodução do sujeito que vive – seja religiosamente, produtivamente, politicamente, etc. O discurso é importante e crucial; porém não é o fundamento. Assim como a igreja, o culto, uma música, o Estado, a escola, o mercado… São  meios, são formas, mas não fundamentos.

Precisamos ter isso bem claro em nossas experiências cotidianas. Tomar uma instituição como fonte, fundamento, é corromper a experiência viva e da vida: fetichizar as experiências, subjugar os sujeitos à religião, à política, à pedagogia, à economia. Estas instituições são meios para os sujeitos; não o contrário!

Dussel escreve em Ética Comunitário o seguinte: “a nova legalidade se baseia numa lei nova, que repousa inteira sobre um princípio absoluto (não universal) e no entanto sempre concreto (não abstrato)”. Este princípio absoluto é a experiência viva, determinada, concreta, comunitária e real de fé. Ela não é “universal” e nem “abstrata”. É princípio material, efetivo, verdadeiro, determinado. É “nova legalidade” porque os meios, sim, são alteráveis. A corrupção fundamentalista acontece não quando uma teologia é “normativa”, mas quando o discurso teológico é tomado como princípio, como fundamento, e não a experiência viva de fé! Não é a organização do discurso que o torna ou não fundamentalista, mas a fetichização das relações: quando o produto da vida é tomado como mais importante do que a vida que o produziu. Quando o fruto da fé é tomado como mais importante que a fé viva que o possibilitou.

Aqui chegamos no ponto central: a teologia do poder corrompido. Creio que no dia-a-dia, na vida comum da gente, vivemos nossas experiências de fé e nela nos firmamos. Creio que seja essa experiência que nos une como corpo de Cristo: não o discurso posterior, mas o encontro real, concreto e e determinado que aconteceu em certo dia n’alguma comunidade. Isso é vivo, verdadeiro e absoluto. Nossas afirmações, não. Mas a teologia do poder corrompido toma o discurso como o fundamento da fé e como a questão a ser “resgatada”. Essa estrutura se perde da vida que a originou, das experiência dos fiéis, do cotidiano e comum aos crentes. Ela toma a si e se assume como absoluta: controla Deus, os homens e as verdades. Ela entende a si mesma como libertadora e transformadora da vida e da realidade. Ela se fetichiza. Torna-se ídolo e idolátrica!

É do poder corrompido porque toma a si mesma como sede do poder. Se corrompe. Não em dinheiro, necessariamente; se corrompe como estrutura. A fé que é do povo e nasce do povo se torna o meio para a manutenção da teologia; e não o contrário! Deveria ser a teologia meio para a manutenção da fé do povo! Aliás, é teologia como forma de discurso, não o conteúdo mesmo da fé. O conteúdo da fé é a experiência fundamental e principial com o Cristo. Seja com um discurso tradicional determinista que repete os preceitos e dogmas imutáveis da fé; seja com o discurso que diz mover a mão de Deus; ou seja com o discurso que diz o que Deus é ou não é, todos são por princípio fetichizados. Ao tentar abarcar toda a fé, controlar o poder de Deus ou desvendar os limites de Deus, morrem em si mesmos. São teologia do poder corrompido. O que torna um discurso verdadeiro e real são seus frutos: possibilitam a vida de fé da comunidade? Ou impedem que a vida prossiga, exigindo uma série de técnicas e conhecimentos mínimos e prévios? Alargam e expandem a vida de fé ou restringem a certas categorias?

Para finalizar, no As Obras do Amor, Kierkegaard diz que não se deve determinar Deus e as experiências de fé. Seria o mesmo que querer olhar diretamente para o Sol para esquadrinhá-lo em forma de discurso. Ficaríamos cegos e não atingiríamos o objetivo. Kierkegaard diz que devemos é olhar para as sombras que o Sol produz: elas pressupõe a experiência viva, comum e cotidiana da luz do Sol. Indiretamente, ele nos ensina que devemos parar de olhar para cima em busca do conhecimento e começar a olhar para o chão. De maneira mais profunda, Lévinas diz que são dois momentos: um de olhar e outro de ouvir. Existe o firmamento debaixo e o de cima: o debaixo nos possibilita ver o horizonte enquanto há Sol; o de cima é para onde olhamos quando não há mais luz nenhuma. Não olhamos para enxergar alguma coisa, mas para ouvir alguma voz que venha nos dar socorro. Até o dia seguinte, quando seguiremos viagem, novamente, olhando para o horizonte… É a co-determinação de discurso teológico (olhar) e experiência viva de fé (ouvir).

Bruno Reikdal Lima

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