Esquerda e direita: vamos organizar a discussão

De uns tempos pra cá, uma série de situações críticas e ações políticas acirraram posicionamentos ideológicos e intensificaram o uso dos termos “esquerda/direita”. Talvez por tradição, falta de novas categorias, paciência ou necessidade de atacar imediatamente antagonistas políticos, sei lá, a análise e as acusações bipolares reduziram debates, conversas e limitaram nossa capacidade de produção de conteúdo e propostas para soluções de problemas. Mas depois da prova do ENEM nesse fim de semana, em que questões que tocavam o tema do feminismo foram consideradas doutrinação de “esquerda”, temos que organizar a casa. Pior, quem se considera de “esquerda” comemorar uma questão feminista e se sentir representado por ela, também preocupa. Estamos nos reduzindo e reduzindo nossos debates

Assim, nesse texto a ideia é tentar propor uma “organização da nossa casa”. Ironicamente, é exatamente pela ordem ou norma da casa, economia, que precisamos começar a discussão. Uma das marcas do século XX é a “doutrina econômica”. A defesa ideológica de um livre mercado e diminuição do aparelho do Estado contra a defesa de uma planificação econômica e fortalecimento das instituições políticas, marcaram os blocos estadunidense e soviético: bem-vindos à Guerra Fria. É claro que a guerra não pode ser resumida a isso. Porém, a redução do debate ao modo como deve ser organizada a economia determinava, em última instância, se determinado grupo era de direita ou de esquerda.

Tanto direita quanto esquerda reduziam seu discurso à economia. A “doutrinação” das escolas de formação liberal-neoliberal e das escolas socialistas-comunistas restringiam o problema à economia. Nesse sentido, as duas discordavam do modo como se deve “organizar” o mundo, mas tinham um pressuposto comum: o que é o mundo. No caso, a economia.

Desse jeito era fácil determinar na década de 90 quem era “esquerda” e quem era “direita”. Estávamos girando tradicionalmente sobre o conteúdo econômico – e ele se confundia com o político. Nesse ponto, como leitor de Marx, preciso criticar a esquerda, que a-criticamente permitiu reduzir sua bandeira às questões de Mercado, considerando ingenua e erroneamente a política como uma “superestrutura” menos importante e a economia como “infraestrutura” fundamental – coisa que não faz sentido nenhum! Dogmaticamente produziu uma doutrina irrefletida e limitada, dando, inclusive, o braço a torcer para a doutrina econômica de direita…

Hoje as questões sociais, as discussões políticas, lutas por direitos e tudo mais não se restringem à economia. O “fim da história” de Fukuyama (que hoje voltou atrás em sua afirmação no início dos anos 2000) pode se tornar um marco interessante: com o fim da disputa econômica, na “vitória”  de um dos lados, parecia mesmo que os problemas tinham acabado. Não porque efetivamente não existiam mais, mas porque o excesso de olhares para a economia e exclusivamente para a economia limitaram o óbvio: no mundo há mais do que Estado e Mercado.

Guerras, direitos civis, questões religiosas, imigração, globalização e exclusão, as inúmeras disputas morais e mais uma infinidade de coisas surgiram, do nada, na nossa frente. O mundo não tinha chegado ao “fim”, mas nossa cabeça. O mundo “bipolar” limitado à economia não cabia mais. As coisas estavam complexas. Novos sujeitos, novos atores, novas gerações. Nosso século XXI. Nele não cabem mais as reduções, mas não desenvolvemos outras categorias que nos permitam entender o que é que está acontecendo e onde nos posicionaremos?

Nesse sentido encontrei em Dussel um marco categorial complexo, impressionante, cativante e profundo. Não necessariamente ele dá conta dos problemas, mas apresenta caminhos distintos dos tradicionais. Além da originalidade de posição a partir da América Latina, vamos tentar utilizar algumas de suas propostas para “organizar a brincadeira”. Não estamos mais falando de “direita e esquerda” reduzidas ao campo econômico. Falaremos de processos de libertação que se co-determinam simultaneamente em diferentes campos com diferentes atores.

Na Política da Libertação, Dussel toma de Pierre Bourdiere a categoria de “campos”. Existem trocentos campos para as trocentas atividades humanas. Campo político, campo social, campo religioso, campo “desportivo”… No meio deles também tem o campo econômico. Eles se co-determinam e encontram intersecções. Dentro de cada campo, existem diferentes sistemas. Então, no campo político, por exemplo, você tem sistema totalitário, democrático, oligárquico, etc. Enquanto no campo econômico você tem sistema liberal, neoliberal, socialista, mercantil, etc. Assim, podemos ter a co-determinação de um Estado politicamente totalitário e economicamente socialista; ou um Estado politicamente totalitário e economicamente liberal. Possibilidades são infinitas; e posicionamentos, também. Sempre de modo complexo.

Num campo chamado “gênero”, por exemplo, podemos ter um sistema machista. No campo étnico, um sistema racista, exclusivista, inclusivo ou plural, por exemplo. E o que determina sua posição não é ser de “esquerda” ou de “direita”; mas, a partir do sistema hegemônico atual, aquele que vigora e está dado, se nos posicionamos junto àqueles que são excluídos e/ou oprimidos por esse sistema nesse campo ou se nos posicionamos em defesa da manutenção do sistema atual. Isso não impede que um racista no campo étnico seja plural no campo de gêneros; ou que um democrático no campo político seja socialista no campo econômico. O ponto é saber que os sujeitos sempre excedem suas atuações sociais-políticas-econômicas.

Jung Mo Sung, em Sujeitos e Sociedades Complexas, apresenta esta proposta: os sujeitos estão para além de suas atuações.  E isso permite que se transite entre campos de maneira complexa, assumindo diferentes papéis sempre. A questão é se o assumir destes papéis é consciente, planejado e organizado ou não. Além disso, se o posicionamento a favor ou contra os excluídos também é fruto de um processo de conscientização (no sentido da pedagogia de Paulo Freire).

“Esquerda” e “direita” podem ser categorias interessantes e aplicáveis em certos campos e determinados sistemas se, calma e estruturadamente, souberem assumir e delimitar sua atuação. Então, hoje, no campo econômico continua sendo mais simples o posicionamento e a determinação. Mas, por outro lado, o campo econômico não é especial ou está num patamar superior ou inferior aos demais. Ele pode ser mais ou menos urgente, mas o que determina este ponto são as condições históricas. E não se deve tomar a postura frente á economia como base para todos os demais campos. São atuações diferentes. Não saia “acusando” ninguém de esquerda e direita, por favor. Assim como não se assuma de um jeito ou de outro se não depois de passar por um exercício consciente e complexo através dessas categorias de campo e sistema.

Por fim, em Dussel, se há algo que é determinante para o sujeito, não é um campo ou outro; mas a única experiência que escapa aos campos: o ético. A experiência ética é determinante para o sujeito e sua atuação. Se este teve um encontro efetivo, concreto e verdadeiro junto ao excluído, face-a-face o sofrimento e a opressão, se há a manifestação dos sujeitos isolados e oprimidos dos sistemas e, a partir desta experiência, a tomada de posição junto a estes, ele passa a participar engajadamente do processo de libertação. Não mais “esquerda” ou “direita” reduzidamente; mas comprometido ou não com os sujeitos esmagados e impedidos de viver pelos sistemas fechados atuais de nosso mundo…

Bruno Reikdal Lima

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