Ubuntu: comunidade que se sustenta

Construções bem fundamentadas se seguram naquilo que não aparece. Estruturas fortes dependem de um fundamento profundo, que independentemente do que virá “por cima”, estará mantido, forte, firmado. É da base, do fundamento, que se começa uma obra. Obras que parte da e para a superfície não duram; caem. A metáfora da casa construída na rocha e na areia: o fundamento determina a duração de nossa casa…

Ubuntu, “sou porque somos”, se tornou uma expressão famosa – talvez porque ela apele para algo que não trabalhamos: relações firmes, construídas “pra sempre”. É uma convocação para a superação do modo como vivemos: de encontros casuais e eventuais. Não sou porque faço ou apareço: sou porque somos. Não sou pelo reconhecimento dos olhos do mundo, mas dos olhos de alguém próximo. Sou reconhecido enquanto vivente no meio de um nós. Independentemente do que aconteça, do que apareça, há algo entre nós.

É um apelo à construção de uma comunidade. Não existem muitas “comunidades” de verdade. O nome circula bastante, tem sido usado bastante, mas não efetivamente. É como a metáfora de Kierkegaard: as folhas podem enganar, mas é o fruto que manifesta se a árvore é de certa espécie ou de outra. É o critério de Jesus: pelo fruto a gente reconhece a árvore. Dá para dizer que comunidade de verdade é coisa rara. experiências pontuais aqui e ali. A necessidade de se construir uma é urgente! Ainda mais em nosso país. Não constituímos um povo, não temos identidade, afirmação comunitária. Precisamos construir…

Resgatar uma expressão africana, ubuntu, é uma revelação magnífica dessa nossa necessidade de comunidade. Somos povo eventualmente: jogo de futebol, Olimpíadas, talvez numa ou noutra eleição, quando nos sentimos parte de um “trabalho” em uma empresa ou projeto. Eventualmente somos comunidade. Somos porque “eventuamos”. Participamos de algum instante aparente. Na verdade, não somos – ainda. Clamar por um “sou porque somos” é mergulhar no fundamento, naquilo que vai pra baixo da terra, entre a gente, é “invisível”. É mudar o direcionamento de nosso olhar. É procurar ampliar certa identidade, certo pertencimento.

Procuramos lugares e momentos que nos propiciem algum benefício. Enquanto uma igreja, uma escola, um emprego, um celular ou determinado programa confere saciedade ou bem-estar, enquanto gera informação no nosso meio, nos sentimos parte. Quando avistamos um desprazer ou começa a faltar alguma coisa, quando não “convergimos”, sem nenhum projeto em vista, nos distanciamos. Trocamos de igreja, companheiro@ ou grupo como se trocássemos de celular. Não conseguimos nos firmar em nenhum lugar. Isso por dois movimentos: individual de não querer trabalhar nos problemas que se apresentam e “comunitário” de encontrar lugares que não criam ambientes e possibilidades para a construção de uma nova comunidade, firmada não em aparências, eventos e benefícios, mas em relações mais profundas: na estruturação do “nós”.

Ubuntu é a implementação silenciosa de unidade. É a ampliação de identidades que agregam distinções e diferenças, que suportam contradições e discussões em nome do “nós”, da construção e compreensão do “somos”. É encarnar um projeto que não trabalha por um dia, mas para sempre. Relações eventuais morrem, estão na areia. Nossos projetos, planos, se realmente querem se estruturar em “ubuntu” precisam sair da parede e ir para a fundação. Precisamos pensar em gente que se une para falar do que crê, para se expôr, para desenvolver uma intimidade que apenas se consegue no silêncio. Precisamos da participação do “nós” em projetos: precisamos ser somente enquanto somos.

Ubuntu é saber que o erro cometido também é culpa minha. Ubuntu é saber que se alguém foi posto pra fora, a responsabilidade é minha. Assim como o processo de inclusão, construção, desenvolvimento, também é responsabilidade minha. Mas isso exige que primeiro saibamos quem somos nós. Exige primeiro termos determinado um lugar e o que queremos com ele. Exige abrirmos espaço para o nós.  Exige construirmos os fundamentos que ninguém vê e ir para o lugar que ninguém quer ver: pra debaixo da terra.

Quando não somos mais, precisamos parar. Se não há “nós”, ele precisa ser construído. Só posso afirmar que “sou porque somos” se o somos vier primeiro. É o nós e a disposição para deixar o nós surgir, nos entregarmos para o silêncio. É abrir o espaço para mais conversa, mais exposições, mais espaços em que aquilo que dói em mim seja dor do nós. Comunidade só é comunidade quando o “nós” sabe quem são os “eu’s” que dele nascem. Comunidade só é comunidade quando o que nos reúne não são os trabalhos, mas o próprio desejo de continuar vivendo o nós. É a certeza de que sem o “somos” eu não sou.

Hoje há um medo tremendo de se trabalhar nossos fundamentos. Há um medo tremendo de expormos nossas crenças mais profundas, colocar em questão quem somos e o que desejamos. Hoje há um medo tremendo de se entregar para projetos que vão além de um dia. Hoje há um medo tremendo de arriscar ficar sem “aparências”. “O que pensarão de nós?”. Mas se não há nós, quem vai pensar e quem vai ser pensado?

Ubuntu exige ir aos fundamentos. Ubuntu exige exposição. Ubuntu exige conversa aberta. Ubuntu exige projeto eterno. Ubuntu exige deixar de lado o medo do silêncio. Ubuntu exige nos colocarmos à margem, na sombra, no silêncio fazendo aquilo que ninguém está fazendo: construindo o nós sem “ninguém além de nós” saber. Nós que se expande. Não eventualmente, mas para a eternidade.

Bruno Reikdal Lima

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