A expectativa do fazer e a necessidade do parar

Desliga. Desacelera. Pára! Silêncio… Já corremos demais, já demos muitas braçadas. Pra quê?  Pra quem? Por quê? Por quem? Desejo de fazer sem meios e sem saber o que fazer resultam no nada. Não trabalhamos por trabalhar. Trabalhamos por um instante. Mas exige calma, paciência, pausa. Demorei para aprender e para crer nisso. É tempo de parar. Chega! Expectativa e exigência demais; aparente necessidade de “fazer a máquina girar”. Mas e se a máquina for o problema? Precisamos parar. Silêncio. Vamos sentar, ouvir, pensar…

Sempre cri que ser prático era “fazer alguma coisa”. Faça isso! Faça aquilo! Não pare nunca. Fale isso! Fale aquilo! Não fique em silêncio. Cri errado. Ser prático não é “fazer alguma coisa”; é fazer o certo por alguém. Alguém que a gente vê; que sabe que está ali, na nossa frente. É ouvir a voz de quem está na nossa cara, na nossa frente. É ficar quieto um pouco para escutar. No meio do barulho e da “fazeção” de coisa sem consistência a gente vai caminhar sem sair do lugar. É vagar sem promessa. É prometer sem ter caminhos.

Acontece uma catástrofe que aparece na tv ou na internet e já temos que nos posicionar. Temos que falar alguma coisa. Enquanto isso, tem o carro do vizinho na rua de casa com a janela aberta (devia fazer horas) e ninguém parou para avisar ele. Tem que correr para comparecer ou realizar algum trabalho que junta gente. Enquanto isso, tem gente que só precisava receber um oi diariamente. Tem que fazer, tem que falar, tem que aparecer, “se posicionar”. Mas nunca ouvir, sumir, parar e verdadeiramente saber onde se está.

Tomar posição não é dizer se concorda ou discorda; fazer ou deixar de fazer. Essas coisas vem depois. Tomar posição é, primeiro, saber onde se está e para onde se vai. Podemos estar em um lugar ou em uma pessoa; podemos ir para um canto ou para uma pessoa. Esses destinos e partidas tem a ver com os momentos e projetos. Mas o tomar posição é o mesmo movimento: ter consciência de onde estamos.

Mas pra isso tem que parar. Se nos direcionamos para um lugar, é para “um lugar”. Se nos direcionamos para uma pessoa, é para “uma pessoa”. Não é “o mundo” e nem “as multidões”. Só dá para cuidar de “um por vez”. Talvez seja esse nosso problema: não assumimos nossa posição limitada; não paramos. Só queremos falar e fazer para tudo e para todos, sempre megalomaníacos. Não dá. Tem limite. Precisa de consciência. Pra isso temos que parar, silenciar. É necessário.

Sou ansioso, desses que correu sempre e por tudo e pra tudo. Mas numas noites, antes de atravessar um rio e ter que enfrentar a dura realidade do meu passado – sempre tentei pegar os atalhos e tentar fazer a vida a qualquer custo e do jeito que desse -, lutei com Deus, até de manhãzinha. Tomei uma “paulistinha” na coxa e fiquei manco. Não dá mais para sair correndo e fazendo. Agora sou manco. Cresci. Deixei de ser o “malandro” que enganava a mim mesmo e passei a ser o teimoso que “lutou com Deus e teve a sorte de sair vivo”. Não porque fui forte e fiz algo. Mas porque parei: desisti da correria e me apeguei a única coisa que importa. Parei de tentar fazer a qualquer custo: me agarrei na esperança e na dependência de uma promessa. Não está na minha mão. Meu lugar não é “tudo”: é aqui antes do rio, onde estou. Minha direção não é o mundo: é aquele um ou outro que encontrarei no caminho.

Não tem que mudar as cores de uma foto numa rede social; não precisa falar. Não é necessário fazer o que te mandam e nem seguir porque é o esperado, a expectativa. A necessidade é de parar um pouco. A necessidade é se aquietar e olhar para o que estão precisando aqui. É planejar não em cima da média do que se espera, ansiosamente desejoso por realizar um trabalho que valha a pena. O mundo não é movido por grandes eventos. Isso fica pra História. O mundo é movido por instantes, por ações que não percebemos cotidianamente. Coisas “bestas”, mas fundamentais. Movido pelos lugares onde estamos. Ninguém precisa saber…

Talvez a tecnologia nos dê a impressão de “mundialidade”. Talvez a tecnologia e as conversas a distância nos deem impressão de que estamos sempre e todos conectados. Talvez tenhamos a impressão de que nelas nos posicionamos para o mundo. Talvez tenhamos a sensação de que nela nos tornamos um. Não. Ela fala e faz, mas nunca para. Tecnologia não sabe o que é descanso, o que é silêncio, o que é ouvir de verdade, ver de verdade, conversar de verdade. Ela só aumenta a ansiedade, a expectativa. Sem pausas, sem posição, sem lugar.

A gente só se junta com uma pessoa por vez; só fala de uma coisa por vez; só faz uma coisa por vez. Pare…

Bruno Reikdal Lima

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