Expressões: uma crônica

ExpressõesADVERTÊNCIA: este texto é escrito para um grupo de adolescentes de uma comunidade religiosa evangélica específica da zona sul de São Paulo. Quanto mais distante deste lugar, talvez tudo isso faça menos sentido. É bom lembrar que distância não é só uma questão de  tempo e espaço…

Sábado, 28 de novembro de 2015.

 

Com o clássico atraso brasileiro, as luzes se apagaram. A capela de uma comunidade religiosa evangélica da zona sul de São Paulo ficou sombria. No fundo, a silhueta de uma cidade escura toda pixada. Se destacava um “EXPRESSÕES” bem no meio de tudo. O tema “Indiferança: a indiferança mata” estava saltava na tela. Vimos entrar algumas pessoas – pelo menos a sombra delas. Não eram muito altas, andavam e se moviam a seu próprio modo. Mas firmes, seguras, imponentes. Adolescentes. Todos adolescentes.

Um violão swingado e agressivo puxa o som e uma bateria entra pesado. Numa versão própria e toda estilizada, uma pancada bateu nos ouvidos e no peito de nós, que assistíamos: “Não existe amor em SP”! Não importava mais se o som estava impecável ou se a técnica era de outro mundo. A Verdade veio com força através da boca, das mãos e dos corpos de uma molecada pulsante. A primeira música tocada por um grupo de adolescentes de uma igreja evangélica fechou com barulhentos: “Não precisa morrer pra ver Deus” e “Aqui, ninguém vai pro céu”… Com cara fechada, ar pesado, meninos e meninas cheios de vida verdadeiramente expressaram a vida indiferente em SP. A mensagem batia forte não pela técnica, pelo som, notas, sei lá. Batia forte porque era Verdade! Não uma verdade demonstrada. Era verdade vivida.

Um rapaz, adolescente, deixou a voz em transição soar como um trovão. Foi voz de Deus, foi voz de profeta. Os olhos dele se fixavam em todos ao mesmo tempo. As mãos se moviam de maneira firme, direta. Não se fazia uma acusação qualquer; era uma denúncia! Ali já não fazia diferença o tamanho ou a idade de quem estava falando. A voz não temia, mas meu ouvido tremia. Um texto escrito por outro menino inspirado pelo Espírito invadiu o ambiente escuro e chocou a capela assim:

“Mendigo de rua, Cidade nua e crua! Tudo se passa despercebido nessa sociedade imunda. A ganância de nossos almirantes vêm primeiro Pena não ter como fugir e pedir a Moisés Abrir o mar vermelho. Vejo um garoto ser violentado A cor negra fazendo-o ser Novamente massacrado… Esse espírito hitlerista já não desce na garganta Torço para o negro vencer essa ignorância. Na caminhada vejo fumaças É a poluição gerando sinal de desgraça… O Congresso Nacional vive de trapaças, esse é um país onde a indiferença mata…”

Um salmo bíblico escrito ou uma profecia expressada por um adolescente da zona sul de São Paulo. Era um Amós fazendo a Terra tremer; um Ageu denunciando a injustiça. Verdade! O mundo não ficou sabendo disso. Nós ficamos. Todos nós. Nós trememos. Nossa responsabilidade de “adultos” foi convocada por adolescentes.

De música em música a mensagem ficava mais forte, a cidade mais tensionada. “Alguém transforme este lugar!”; “Se o povo não conhece a própria história, está condenado a repeti-la! “; “Até quando as mãos estarão tão fechadas? Até quando estarão nossos braços cruzados?”; “Senhor, piedade! Piedade dessa gente careta”; “Em nome da Justiça!”. O que mata é a indiferença.

Novamente a voz surgia em cena, declamava uma mensagem: “A indiferença mata”.  A gente não percebe. Ele entrou, fez sinais em libras junto a outra adolescente que traduziu tudo o que aconteceu para os surdos ali presentes, e só percebemos que ele tinha feito isso quando ele parou. Não percebemos o que está na nossa frente! A indiferença mata:

“Quem disse que é o ódio que mata? Fome, dor, frio, morte Você olha e finge que não vê E assim você vai (sobre) vivendo Sem realmente viver”.

Um provérbio que poderia estar no Eclesiastes escrito por uma adolescente. Sabedoria, serenidade, seriedade, denúncia, Verdade. Era o Espírito soprando e encarnando naquelas palavras, naquelas músicas, naquele teatro… O teatro! Chorei, muito…

Uma pantomima regada por uma música fúnebre, tensa, forte. Uma mulher-mãe dando um trato em casa, uma moça-filha chegando em casa depois de estar com as amigas, um pai chegando do trabalho. Cada um chega e fica em seu canto, faz de seu modo. Uma pausa para a selfie com sorriso (e a música fúnebre tocando ao fundo) e em segundos uma confusão total: uma discussão “muda”, movimentos bruscos e o homem levanta a mão para acertar um tapa na cara de sua mulher com a filha desesperada ao lado. O tapa para no ar, a cena congela, a música pára. A menina vira para nós, vai baixando a cabeça até cair de joelhos no chão clamando: “A gente nasce sozinho. Cresce sozinho. Vive sozinho. E morre sozinho”. 

Silêncio. Arrepio na espinha. Olhos cheio d’água. Alguém grita no meio da gente: “E se tudo mudasse?”; uma menina diz “E de repente A gente entendesse?”; e outra “E se tudo mudasse?”; todos caminham para o meio do palco enquanto um diz: “Nós iríamos conquistar”, o pai: “Reconquistar”, e a mãe “Prosperar”… De mãos dadas, todos: “E nos realizar”. E se a gente amasse mais???

Choro incontido. Era Verdade! A insuportável Verdade! Profecia, denúncia, convocação para fazermos alguma coisa. Adolescentes. Um vídeo passou perguntando para meninas adolescentes da comunidade religiosa evangélica da zona sul de São Paulo sobre a importância da “estética” e o valor de verdade. No fim, a pergunta: “Quem dá o seu valor?” foi respondida com “Eu dou o meu valor”. Um grupo de meninas lindas subiu para cantar uma música em inglês dizendo para se levantarem, sorrirem, encontrar caminhos contra a indiferença. Um coro lindo, angelical… Um conforto verdadeiro… Sopro suave…

A denúncia se tornava o chão para a construção de um novo mundo, o “Wonderfull World”… Os amigos eram inspiração, a parceria. O grupo de próximos era surgia no horizonte como caminho para salvação. Deus ascendia agora uma chama no meio daquela escuridão. As luzes da capela pareciam acender aos poucos. Tudo ganhava um brilho diferente. Engajado sempre, mas contente. Feliz por saber que algo era possível.

O grupo de adolescentes que tinha cantado que “Não precisa morrer pra ver Deus” provou isso. O grupo que tinha cantado “Aqui ninguém vai pro céu” fez disso algo bom: o Céu veio até nós. “Se a noite cai, espera o amanhecer, um novo dia vem, um novo alvorecer”… Estávamos todos presos em “laços de amor”. Descobrimos que, no fim, estávamos todos nós lá por um único motivo. Olhamos uns nos olhos dos outros, encontramos no nosso meio o rosto de Deus. Miramos bem pra Ele e cantamos: “Vim para adorar-te, vim para prostrar-me, vim para dizer que és meu Deus”. Ali a fé foi expressada e encarnada…

Foi um presente pra mim. Pessoalmente, um presente especial para mim.

Antes de tudo isso, lá pelo fim de tarde, conversei um tanto com eles. Estava todo orgulhoso por tudo o que tinham feito. Não o EXPRESSÕES. Não, mesmo! Estava orgulhoso porque eles, naquele dia, estavam apenas expressando o que tinham vivido o ano todo. Não, não viveram ensaios e esforços para fazer algo “impecável”. Viveram uma vida comunitária, de ministério. No final disso teria um dia chamado “Expressões”, em que apresentariam em forma de canto, fala, vídeo, dança e teatro a vida vivida num ano.

Eles estavam em paz. Claro, ansiosos para mostrar para os pais e amigos a execução de uma apresentação. Mas estavam serenos, firmes, confiantes. Eles entendiam e sabiam que a vida já tinha falado mais alto. Eles sabiam que já tinham feito o necessário: uma Igreja. Eram corpo de Cristo. Não precisava de mais nada; apenas comemoração. Foi como uma ceia! Celebração, festa. Chorei, choramos. Sorri, sorrimos. As luzes estavam todas acesas, todos estavam lá na frente, pulando, cantando, olhando pra gente. Agora era a nossa vez de fazer alguma coisa…

A iniciativa foi deles, o planejamento deles, as escolhas deles, as músicas deles, as artes, os textos, o teatro… Foram autônomos. E sem arrogância! Quando o cerco apertava, corriam pedir auxílio. Estavam apoiados e suportados. Se suportavam, suportavam a Igreja e eram suportados. Tudo em amor. Foi serviço. Foi trabalho de vida. No fim cantariam essa vida. Eles viveram e estruturaram um ministério. Por si mesmos, autonomamente. Cresceram em 365 dias mais do que eu em anos. Firmaram estacas, encontraram limites. Fizeram besteiras, deram mancadas. Não eram “impecáveis”; foram graciosos. Viveram a Graça e proporcionaram um dedinho dessa Graça para nós, que fomos prestigiar. Fomos presenteados.

Deus abençoe essa molecada hoje e sempre. Vendo o que eles fizeram, o que os adolescentes de SP estão fazendo, vejo que essa geração já ocupou a História. Uns ocuparam escolas, outros uma Igreja. Que dessas ocupações, deixemos de ser desocupados e nos ocupemos uns dos outros. Como Jesus disse: “Ocupe-se do Próximo como você se ocupa em si mesmo”…

 

 

Bruno Reikdal Lima

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