Guerra: quando a Política acaba

BAB1971021W00011/07Esta é uma crítica teológico-política. Marx já lembrou a gente que a crítica teológica é a primeira crítica política. Também podemos inverter: a crítica política é a primeira crítica teológica. Dizer que é uma crítica teológica não significa que falaremos de Deus. Significa que falaremos de “crenças”: de estruturas significativas que não tem outro lugar a não ser a experiência da relação humana, do “entre nós”. Dizer que é uma crítica política não significa que falaremos da guerra. A guerra começa quando a política cai. Significa que falaremos de todos os caminhos para impedir a guerra. Se a guerra começa, seja ela santa ou não, é porque a política e a teologia foram deixadas de lado: se tornaram ferramentas nas mãos de arquitetos sem escrúpulos

Aqui começa a guerra: quando o “entre nós” ficou entupido de lixo. Quando o vazio que há entre dois sujeitos se encheu de sedimentos. Quando não há mais espaço para a vida; quando não há mais tempo relacional. Quando um ou outro suprimem o que há de mais importante: o entre. Aquela abertura que era para ser “vazia” de coisas e cheia de vida cai; deixa de ser fundamento para a produção de instituições, decisões, da própria vida, e passa a ser um “meio”. Um ou outro se toma a si mesmo como fundamento, e o “entre” é suprimido para dar lugar à guerra. O vazio é preenchido por canhões.

O buraco do tamanho de Deus que Agostinho dizia ter no coração não ficava dentro dele. Esse buraco, esse coração, esse vazio do tamanho de Deus, é o espaço entre um e Outro – entre o Eu e o Próximo. A referência, o ponto de partida, é este sem lugar que há no “meio do caminho”. Sem lugar tem uma palavra específica: utopia. É o espaço verdadeiramente público: não um espaço social, que pode ser ocupado, desocupado, invadido, construído, destruído, possuído… É público: não pode ter dono. A experiência ética e a prática política são os campos que nos permitem tentar manter esse “espaço”. São possibilidades para (nas palavras de Dussel) a produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana.

Vida humana tem um caráter peculiar: é a única que permite essa experiência entre sujeitos, sustentada no “nada” – nada além do nós mesmos e nossas crenças, significados e justificativas. Sem esse espaço do “nada”, tudo pode ser tocado, possuído. Na disputa, a Guerra se torna iminente! Não há mais o “sagrado”. Porque? Porque tudo pode ter dono, até o espaço entre um e Outro. Não há mais Próximo, porque este é substituído pelo “Meu”. Próximo é aquele que sempre está perto, mas nunca se identifica comigo ou conosco. Próximo é o que está com a gente, mas ao mesmo tempo tem um espaço de distância. Não é um “nós” pleno; é um próximo. O “nós” pleno, sem espaço, é justificativa última da Guerra. Ele pode vir travestido de “eu”, também – mas não tem tanta força. O “nós” não-pleno, ou melhor, o “nós” simplesmente é o verdadeiro: aquele que se une, mas mantém a separação entre um e Outro. Respeita a autonomia. Possibilita a “liberdade”.

Liberdade, de acordo com Enrique Dussel, é a possibilidade de manejar o máximo possível de mediações que possibilitem a vida – a produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. Não a minha ou a “nossa plena”; a vida humana, simplesmente. A vida humana, e “nada para além”. O campo que produz essas “mediações” é a Política. A formação de instituições que realizem e permitam e preservação do “espaço público”, o entre nós, depende de uma ação e construção Política. Política não é Guerra: Política é a resistência àquilo que procura dominar o “fundamento”, o vazio, o nada entre nós, o nada que origina o modo de viver propriamente humano.

Liberdade, de acordo com Pepe Mujica, é ter tempo para fazer aquilo que nos motiva. Quem permite essa experiência é a Política, o exercício da Política. O que nos motiva não é o para mim ou para alguém. Nem o para nós pleno. É o retorno ao fundamento: àquilo que há entre nós. Realizar para os próximos, enquanto próximos. Kierkegaard escreveu que quando o fundador do cristianismo diz que “deve-se amar o Próximo como a si mesmo”, ele pergunta, depois de contar a história do Samaritano, “quem foi o próximo do homem caído?”. Isso indica algo fundamental: o dever de antes de “eu ser eu mesmo”, tenho que me fazer Próximo. O Próximo, primeiramente, precisa ser Eu.

Fazer-se Próximo é tomar parte de um “nós” simplesmente. Estou com quem está na minha frente sem dominá-lo, sem fazê-lo meu. Apenas me aproximo, me torno Próximo. Ele se torna meu Próximo na medida em que eu me faço Próximo dele: o espaço entre nós é mantido. Este é o fundamento relacional da Política. As instituições devem ser meios que nos permitam realizar este princípio: me aproximar sem fazer dele meu objeto, idêntico a mim, um instrumento. É a relação que determina a ação Política. Se a relação de proximidade é rompida, nasce a Guerra: devo conquistar.

Este imperativo é categórico. “Devo conquistar”. Ele pode ser composto, também, de “dividir para conquistar” ou “eu conquisto, logo existo”. É o princípio da Guerra. Ele é justificado, hoje, pela tradição do pensamento político. Talvez porque não se tenha feito a devida crítica teológico-política. De onde nasce a Política entendida como Guerra? Quando entendemos o homem – como imagem de Deus – como um ser solitário, poderoso, que exerce de sua força para e por si mesmo, enquanto indivíduo. É um Hobbes da vida: indivíduos lutam, cada um por si mesmo, em um estado de natureza hipotético (não real e nem verdadeiro) para sobreviver. Todos contra todos: cada um por si. Desse espaço lotado de forças, vem um Estado, um Leviatã, que preenche todos os “vazios”…

Como, hoje, em 2015, podemos ainda crer que nascem indivíduos isoladamente? Como ainda nos firmamos em um estado de natureza hipotético de guerra de cada um contra cada outro para justificar as ações sem escrúpulos de estadistas? Como aceitamos tranquilamente que a “política é uma guerra”? Não! A Política é o esforço para impedir a guerra! No estado “de verdade”, real, somos uma espécie. Nascemos de mãe e pai; somos formados por uma comunidade de pessoas – nos relacionamos uns com os outros. Há relações de proteção e dependência. Nascemos necessitados. Desse estado real, nasce a necessidade de um Estado: uma instituição que produza mediações que possibilitem a manutenção e realização da experiência primeira, que protejam o fundamento. Instituições que possibilitem a manutenção das relações, da vida humana, não sua aniquilação.

Como pode o Governador do Estado de São Paulo declarar guerra a estudantes para “reorganizar escolas”? Qual o fim disso? A declaração de guerra é manifestação da corrupção original na política: nada está sendo feito para as pessoas e suas relações, mas para conquistar um “nós” pleno. Não há espaço entre um e Outro, não há Próximos. Como haverá diálogo? Ou há o projeto imposto ou não há nada. É o fim! Fim da Política, começo da Guerra. Começo não. A guerra sempre esteve aí! Ela se tornou sinônimo de Política. E todo aquele que se levantar contra o Estado beligerante, será massacrado. Resistir é o caminho…

Resistir não é ser passivo. Resistir não é aderir à Guerra. Resistir é se posicionar contra ela: nela eu não entro, não participo. Resistir é ocupar escolas e organizá-las de verdade. Resistir é mostrar como é possível a manutenção do espaço entre nós, entre pessoas, a autonomia e auto-determinação de povos. Resistir é apresentar o fundamento, a “utopia”: o vazio que nos sustenta em última instância.

Por fim, escrevo. Como já fui, serei, novamente, criticado por “escrever”. Fala bem, mas isso “não muda nada”. Ok. Mas esse é o trabalho que sei realizar. A filosofia é o método de produzir sistemas significativos de justificação: organizar os sentidos e significados de expressões que constituem a vida humana – o que faz ponte “entre nós” sem preencher o vazio. É estruturar discursos. Sozinho, isso não serve de nada. Mas em conjunto, na resistência, é modo de preservar o público, é mediação para a realização de instituições que nos garantam a produção, reprodução e desenvolvimento da vida. Resistir é preciso – e não é fácil. Evitar a Guerra é necessário. A Política depende de discursos para evitar que caiam os canhões sobre a gente…

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s