Cansei de corrupção

revolution_wallpaper___by_jeevayA gente pensa em corrupção a partir de problemas pontuais: roubalheira ou politicagem (de engravatados distantes da gente); colar em prova ou “atalhos” (mais próximos do nosso dia-a-dia). E o combate à corrupção segue na tentativa de repreender essas atitudes isoladas, sem trabalhar no fundamento delas. Cansei de corrupção! Não das “aparentes”, mas das profundas. Instituições e modos de organizar nossa vida estão corrompidas em sua base: desde o princípio, no fundamento

Talvez esteja incomodado com este tema por dois motivos: 1. minha pesquisa no mestrado é mostrar a formação das instituições e a origem de sua corrupção; 2. vivo crises institucionais por ver essa corrupção na minha frente todo dia e ter que me segurar para não me tornar um incendiário. De qualquer modo, este texto está carregado de desabafo, mas tentarei me conter e explicar que instituições são NECESSÁRIAS para a vida; mas se elas estão corrompidas, precisam ser criticadas desde seu fundamento, senão apenas reproduzirão em suas ações processos corrompidos. Política não é corrupta por natureza; instituições não são corruptas por natureza. Nem são “mau necessário”. Elas podem se corromper – assim como podem se transformar!

Na abertura de um livreto chamado “20 teses de política”, Enrique Dussel escreve: “A política [como conteúdo] se corrompe como totalidade quando sua função essencial fica distorcida, destruída em sua origem […] A corrupção originária da política – que denominaremos fetichismo do poder – consiste em que o ator político crê poder afirmar sua própria subjetividade ou instituição na qual cumpre uma função […] como fonte do poder político […] Porquê? Porque todo exercício do poder de toda instituição (desde o presidente até a polícia) ou função política, tem como primeira e última referência o poder da comunidade política [o povo]”. Ou seja: quando uma instituição ou quando um governante toma a si mesmo como referência e manda, como se o poder fosse dele e dependesse dele sem nenhuma conexão com o povo, há corrupção.

O problema é mais profundo: de onde vem o poder? Quem é a fonte do poder? A resposta é “o povo”, que entrega sua confiança (suas vidas!) nas mãos de uma instituição ou de líderes – na esperança de que eles cumpram com algo fundamental: possibilitem a produção, manutenção e desenvolvimento da vida desse povo. Dussel, assim, adverte: “a política consiste em ter ‘a cada manhã ouvidos de discípulo’, para que os que ‘mandem, mandem obedecendo”. Não que mandem mandando! Quem manda deve mandar obedecendo: ouvindo e atendendo ao povo. A medida que a instituição ou os executores dessa instituição se afastam do povo, acostumam-se em decidir sem perguntar, em fazer sem responder, em nunca prestar contas ou ouvir os rumos, desejos, anseios e necessidades da vida do povo.

Bem vindos às ocupações das escolas em São Paulo! No meio das minhas crises – com várias instituições – e da minha pesquisa, ocorrem as ocupações. Vi na minha frente acontecendo um movimento político a partir do povo, clamando para que os que mandam, mandassem obedecendo. O que o Governador Geraldo Alckmin e sua equipe fizeram foi realizar o de sempre: ações políticas e decisões que passam por cima do povo. Quando em entrevista ele disse que “tem política misturada no meio dessas manifestações”, não foi de sacanagem: na cabeça dele (e dessa geração política) política é só a ação do Estado ou de instituições. “Povo não age politicamente”, ou não deve agir. É doentio! Está corrompido desde as bases. A corrupção de Geraldo (ou de qualquer político) não parte do uso da máquina a seu favor, mas antes: de entender que política é o uso da máquina, que o Estado é a sede e fonte do poder, não o povo.

Acompanhei algumas escolas. Em uma delas, na Maria José (Mazé!), tive a oportunidade de conversar sobre política com a molecada. Foi sensacional! Vi, na minha frente, a mesma indignação com decisões arbitrárias e desejo por mudanças, por uma política comunitária, que parta do povo e se volte para o povo. Adolescentes agindo e conversando sobre autonomia, responsabilidade e organização política da comunidade. Adolescentes que sabem mais de política e tem muito mais responsabilidade para com o povo (seus irmãos, irmãs, pais, mães, vizinhos, etc…) que governadores, presidentes, deputados, vereadores, senadores, diretores, professores, padres e pastores. Vi a História na minha frente.

Quando perguntados sobre política, só apareceu a palavra “Estado” depois de “organização”, “ação” e “comunidade”. Então perguntei o que era “Estado”, e a conversa se perdeu um pouco. Porque? Porque as instituições estão tão corrompidas que ninguém enxerga nelas mais a política necessária para a produção e desenvolvimento da vida do povo. Estávamos numa mesa, com copos e refrigerante (era essa a aula!). Então peguei o copo e disse: “Estado é um instrumento; como este copo. Nós, como comunidade, precisamos beber água para matar nossa sede. Beber na mão demora, não dá para carregar de um lado para o outro, levar para alguém que esteja longe, reservar para mais tarde. Criamos, então, um copo: instrumento muito mais útil e aproveitável. O Estado é um instrumento com mesmo princípio: precisamos organizar nossas relações e produzir meios para a reprodução de nossa vida. Então criamos o Estado; como este copo”…

E porque da corrupção? Porque o copo ou a quem é entregue a confiança para que a instituição cumpra com a finalidade de preservar a vida do povo, toma a si mesmo como fonte, não mais se enche de água e nem leva água para ninguém. Decide como e o que deve fazer o ser independentemente da sede (das necessidades) do povo, de quem precisa da água.

Na conversa, perguntei como poderíamos construir um projeto de uma nova escola (que também é uma instituição (um copo), como o Estado ou a igreja). E as respostas foram fantásticas! Sonhos, estruturas, caminhos incríveis que talvez nenhum pedagogo ou “design” de projetos de educação pensou. Porque? Porque não ouve o povo, não retorna à ele. A escola se corrompe quando funciona para si mesma. Na Mazé, por exemplo, depois que os alunos ocuparam, pegaram as chaves e foram abrindo as salas. Descobriram (e eles não sabiam!) que tinha uma sala de recursos, com computadores e internet. Abriram (depois de séculos) a biblioteca. Puderam entrar num laboratório de química (que vive trancado a chaves). Ocuparam um salão com um palco e multimídia (fizeram oficinas, teatro, sarau…). A escola corrompida: funcionando para si mesma, sem retornar aos alunos e suas necessidades.

Roubalheira? Delitos? Isso vem muito depois. A corrupção fundamental é essa: se perder do povo. Isso já é corrupção! E eu me cansei dela! Chega. O mundo tem problemas demais para ficarmos quietos vendo a vida passar. Devolver ao povo o que é do povo: começamos a luta contra a corrupção!

Tem muita instituição que não apresenta (oficialmente) nenhum dado de roubo ou delito. Mas fundamentalmente está corrompida: usa, abusa e se aproveita da confiança e boa-fé (vontade/necessidade) do povo. Decide sem retornar àqueles que a sustentam: o povo. Age sem prestar contas, dar ouvidos: manda mandando. Nunca se põe como discípulo, pois é sempre mestre de si mesma. Isso é o princípio e a origem da corrupção…

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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