O que está acontecendo?

Ocupações nas escolas, atividade conturbada na Câmara dos Deputados, CPI da CBF no Senado e manifestações de atletas, manifestações (estranhas) divulgando o impedimento de mandato da Presidenta, manifestações contra o processo de impedimento, cassação de mandatos, investigação sobre políticos importantes, conversas de facebook, notícias de jornal, petições, discussões, confusões… O que está acontecendo?

A atividade Política está superaquecida – não só no Brasil. Antes daria para nos contentarmos com a justificativa de que “estamos cansados de políticos”. Mas quando esta atividade extrapola a relação de “representação” tal como está posta e vai para escolas, para organizações sociais, empresas e até pra o futebol, não dá para dizer que o problema é simplesmente cansaço com “políticos”. É uma questão mais profunda, mais dura, estrutural: surge a necessidade de se mudar/transformar o modo como funcionam politicamente nossas instituições. É um problema de “projeto”: não se tem cumprido praticamente nem produtivamente com o necessário. Não se tem cumprido teoricamente e nem empiricamente com o necessário. Não se tem cumprido materialmente e nem sistemicamente. Não se tem cumprido concretamente e nem abstratamente no atendimento às necessidades e desejo-de-viver do povo.

Claro, tenho respirado Política – minha pesquisa em filosofia tem sido a formação, a função e a corrupção das instituições. Parecia que o tema se restringiria ao Estado e etc. Mas quando vemos adolescentes exigindo autonomia sobre a escola e participação nas decisões enquanto afetados pelo projeto de outras instituições, vemos que Política é mais profundo do que o que engravatados decidem no Congresso. Quando há uma CPI para investigar a Confederação Brasileira de Futebol e ex-atletas e instituições como o Bom Senso Futebol Clube que cria uma página chamada #OcupaCBF, em que o principal motivo é: “Faz-se urgente um novo sistema eleitoral na CBF. O atual modelo impede que as eleições sejam verdadeiramente democráticas […] É preciso facilitar a entrada de uma oposição realmente independente dentro da entidade” – está-se criticando o funcionamento político das relações, não de uma ou outra instituição.

Está em crise a capacidade de certo projeto de atender e corresponder a necessidade do povo, que é a fonte do poder dessas instituições: é por ele, por causa dele e para ele que as instituições são criadas e mantidas. As alterações necessárias fundamentais são políticas. Nas escolas, por exemplo, a ocupação mobiliza um modo de se relacionar com a própria escola e um engajamento em seu processo. O Bom Senso em suas revindicações tem exigido a participação popular nas decisões sobre o futebol brasileiro. É a necessidade dos afetados – que são ao mesmo tempo os criadores e mantenedores das instituições – de decidirem e participarem direta e ativamente da organização e do desenvolvimento do projeto.

Enrique Dussel mostra em sua Política que instituições são necessárias: ferramentas criadas para produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana, da comunidade, do povo. O povo é a fonte do poder, mas este poder necessita de uma estrutura política que o sustente, que possibilite que esse poder se reverta efetivamente e concretamente em desenvolvimento da vida. Nessa estrutura temos duas questões fundamentais para serem discutidas: o que é poder e o que é povo.

Poder normalmente é entendido como dominação e violência: controlar e oprimir para mandar. Isso, como Dussel mostra, não é poder: é fetichização do poder, é CORRUPÇÃO do poder. Poder, primeira e originalmente, é o desejo-de-viver de uma comunidade política. A necessidade de produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana requer a criação de meios (instrumentos, ferramentas, modos de se relacionar) para sua satisfação. Para se alimentar uma pequena cidade, foi necessário desenvolver uma instituição chamada agricultura. Para possibilitar a reprodução de nossa espécie em seus contextos, foi necessária a instituição família. Para organizar uma cidade foi necessário criar instituições como o Estado. Essa relação de necessidade e criação de uma instituição não é fundamentalmente negativa, opressora, dominadora. Ela pode vir a ser. Mas quando e se isso acontece, é um processo de corrupção que precisa ser combatido. Poder, assim, é desejo-de-viver, é a vontade e necessidade da comunidade de continuar vivendo e existindo. É afirmação positiva e forte da vida!

Se entendemos poder como algo negativo, ruim, “odiamos” política. Não a Política, verdadeira e atuante sempre, mas a atividade corrompida.  Por isso é preciso resgatar o “poder fundamental”. O que as ocupações nas escolas, os movimentos sociais, revindicações e etc., tem apresentado é o resgate desta experiência: o poder tem como sede a vida da comunidade política, e por isso é a ela que as instituições devem se reportar. Instituições são instrumentos para possibilitar a vida da comunidade, quando não mais o fazem, precisam ser transformadas: e este processo de crítica e transformação é um processo político – talvez o político por excelência!

Quando esta comunidade toma este caráter político e consegue transformar e desenvolver instituições, numa luta contra a corrupção e a dominação, ela se torna povo. Dussel faz um movimento genial que nos ajuda a entender os processos: alunos não são povo no campo pedagógico; mas se tornam povo quando agem no campo político resgatando esta experiência fundamental do poder como desejo-de-viver e lutam para que isso seja possível. Uma classe social não é povo, mas se torna povo quando luta para resgatar a Política. O povo, assim, é uma categoria escatológica: surge e é no campo político na luta contra a corrupção e opressão. Corrupção, aqui, entendida não como um ato isolado, mas fundamentalmente: quando uma instituição ou ator político toma a si mesmo como fonte do poder e executa o poder de modo negativo, não mais para a produção, reprodução e desenvolvimento da vida da comunidade, mas pela simples execução.

A questão é que o projeto que sustenta nossas instituições está corrompido. O funcionamento interno não consegue superar esse vício, a corrupção fundamental, e nisso tem acontecido espontaneamente e quase que “miraculosamente” expressões e movimentos populares, de sujeitos que atuam como povo. O objetivo é alterar e transformar as estruturas,  os sistemas que são corrompidos. A loucura é que alunos não pedem o fim da escola, ex-atletas não pedem o fim da organização do futebol, manifestantes não pedem o fim do Estado. O fim desejado é um novo modo de se relacionar politicamente. Novas instituições, transformações de ordens, estatutos, participação popular…

Por fim, quem hoje executa funções dentro de instituições deve cuidar e se reorganizar a partir desses processos. Não pela manutenção de “cargos”, mas para garantir a produção, reprodução e desenvolvimento da vida da comunidade. Deve alterar e transformar as estruturas, os processos, o sistema interno.

Hoje, particularmente, me preocupo com algo que é caro para mim e para próximos: as estruturas religiosas. Claro que no meio de um projeto que considera (ingenuamente) experiências religiosas como algo “menor” e sem importância, não é fácil conseguir apoio e engajamento. Nem os próprios “religiosos” se preocupam com isso. Um pastor chamado Ed René Kivitz, por exemplo, tem atacado o que chama de “religião institucionalizada”, apelando para as experiências pessoais (quase que individuais) dos fiéis. Se esse princípio não é entendido criticamente, simplesmente despolitizamos a Igreja, a Mensagem de Jesus (um homem político, engajado e crítico por excelência) e permitimos o “continua como está por que isso não é importante”. Continue dando dízimo sem pensar na administração, se conformando com o modo como as coisas são conduzidas e etc., porque a religião “institucionalizada” é um mau necessário; deixe que “nós” cuidamos dela e vocês cuidem da fé que é importante…

Não! Igreja também é instituição e tem Política, a verdadeira e fundamental, em sua base. É o desejo-de-viver de uma comunidade político-religiosa que fundamenta tudo o que acontece dentro de uma igreja. Marx já dizia que a crítica teológica é a primeira crítica política. Além disso, para quem considera a experiência religiosa algo “menor” e que não carece de engajamento e luta, não se esqueça que o Congresso hoje é (desculpe a expressão) uma merda porque utilizaram das instituições religiosas (igrejas evangélicas) como curral eleitoral. Não se esqueça que o abandonar as igrejas por elas mesmas, se distanciando do diálogo, impossibilitou transformações estruturais e mantém a bagunça e poder corrompido que é hoje. A religião e a instituição religiosa é, também, uma experiência politizadora, de engajamento, que forma socialmente, culturalmente e politicamente pessoas. E são as pessoas enquanto povo o fundamento do poder Político.

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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