Engajamento político na religião: uma porta estreita

futuroeeAssistindo um programa esportivo que discutia a CPI da CBF, ouvi um comentarista dizendo que o problema era a “política ter entrado no futebol”. Dá para entender o que ele quer dizer: a corrupção estraga os processos e corrói as instituições. Mas o problema é que política não é o mesmo que corrupção. Está implícita uma compreensão de política como algo ruim, mal, corrupto e dominador. Se entendemos que Política não é isso, conseguimos perceber que o problema não é a política, mas a corrupção, a atividade corrompida na política

Num grupo de estudo bíblico em que atuo com adolescentes de uma comunidade religiosa, um dos meninos participantes disse, a partir da leitura do livro de Miquéias, que “tudo é Política”. Discutimos esse assunto e nos questionamos o que isso significava. Miquéias fazia ali uma denúncia política e religiosa. Então ficou a pergunta: política e religião juntas? E o consenso como resposta foi: sim; se religião é uma atividade humana, está fundamentada numa relação Política.

Nas discussões, outro menino citou Aristóteles, afirmando que “somos animais políticos”. Nas conversas, perguntei o que era política, e muitas coisas surgiram: organização das relações, ordenamento para realizar fins, estrutura de hierarquia, exercício do poder. Um dos exemplos que surgiu da molecada foi: “se vamos comer pão, não comemos só o pão: há o processo de produção do pão, o caminho até chegar em casa, a divisão dele em casa e se teremos casa para poder comer lá o pão”.

Não sei se eles sabem, mas essa é a constatação econômico-política que fez Marx analisar o capitalismo: processos de produção, distribuição, troca e consumo que se co-determinam mutuamente. A parte de “distribuição” e “troca” são relações políticas – enquanto que produção e consumo, econômicas. O que está posto é que há nas relações humanas, sempre, fundamento político – e não dá para se livrar disso!  Quando acontece, é uma “mentira” ou ilusão.

Por alguma razão, é assustador dizer, por exemplo, que política é intrínseco à religião, que não há como separar as duas coisas. Na verdade, dá pra saber a razão: o esforço por separar Estado de Igreja dentro de um projeto “moderno”. Mas separar Igreja e Estado é o trabalho de reorganizar instituições. Separaram-se duas instituições. Porém, política e religião não são instituições; são conteúdos! Talvez usar o termo “religiosidade” ajudasse melhor a entender o assunto; mas não para nosso fim (já já entenderemos o porque). Igreja e Estado são instituições; religião e Política são conteúdos. Ao transformar as duas instituições a partir de um novo projeto é uma atividade precisa, mas não se pode confundi-las com seus conteúdos peculiares. A Política continua sendo fundamental para a religião; a religião continua sendo caminho do exercício político.

“Tudo é política”, disse o adolescente. Religião também é dependente de relações Políticas. Uma Igreja, enquanto instituição, tem um componente estrutural estritamente político. Uma instituição (seja Estado, Igreja ou agricultura) é um instrumento, um meio, criado para realizar o desejo-de-viver de uma comunidade. Poder é esse desejo-de-vida, vontade, gana por viver: por produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana.  A necessidade de alimentar uma cidade funda a instituição agricultura. A necessidade de se reproduzir enquanto espécie fundamenta regras familiares, incesto, etc. A necessidade de manter uma tradição ou crenças funda uma religião. A de transmitir conhecimentos (pedagogia) funda a escola. A necessidade de organizar/efetivar/concretizar as relações sociais, funda, por exemplo, o Estado. Instituição é o aparato que sustenta e possibilita a realização do desejo-de-viver de uma comunidade em diversos campos. No campo religioso é uma Igreja, por exemplo; enquanto que no campo político é o Estado, por exemplo.

Toda essa volta é para explicar que Política é atividade fundamental e constituinte da religião – assim como o inverso, mas este tema fica para outro texto. Nessas é que Marx afirma que a crítica teológica é a primeira crítica política. Schleimacher, ao falar sobre religião, não trabalha a partir dos dogmas ou crenças, mas como prática social: dependente de organização e vida comunitária ativa. É fundamental entender isso: a prática religiosa, a religião, que instaura uma instituição chamada Igreja, depende de estrutura e interações políticas. O engajamento político e a formação política não se resumem ao Estado, mas às experiências institucionais que sujeitos humanos tem.

As Ocupações nas Escolas de São Paulo expuseram este caráter: adolescentes se envolveram politicamente com a escola, interferindo inclusive na decisão do Estado. A preocupação é com a escola, instituição pedagógica local. Mas o exercício é político, de conteúdo político: participação ativa na construção e transformação da escola. Esses meninos e meninas estão num processo de formação política, que envolve a escola, a família, o trabalho, a igreja…

Está-se vivendo e produzindo Política. O problema é que quando este tema toca a religião, as instituições religiosas, imediatamente tanto religiosos quanto não-religiosos “surtam”: “não se deve misturar as coisas”, “instituição é sempre corrompida”, “tradicionalmente somos assim”, e sei lá mais o que. Sejam os “progressistas” ou os “conservadores” no âmbito religioso (não em referências aos procedimentos do Estado), os “modernos” ou os “tradicionais”, a condenação ao engajamento político é imediata. Lembre: não estou me referindo à discussão ou participação no Estado; engajamento político, aqui, é quanto ao conteúdo: atuar politicamente na estrutura institucional das igrejas, nos fundamentos religiosos propriamente ditos.

Assisti um vídeo de uma moça mórmon que era ativista feminista dentro da igreja mórmon: criticava e lutava contra a exclusão das mulheres nas decisões da igreja. Ela comentava que para ela a religião era importante  e precisava alterar seus rumos. Os “não-religiosos” e os “ortodoxos” diziam: “não gosta desta religião, saia dela”, como se não tivesse relevância se engajar politicamente ali, onde ela estava! Desejar o melhoramento ou transformação daquela instituição não era condição – afinal, era “apenas” religião. Não gosta, é só trocar…

Então, o engajamento político na religião é um caminho difícil, uma porta estreita. Quando se confunde Estado com política e/ou corrupção com política, impede-se qualquer transformação interna. Se afirmamos que política é uma atividade que vai além de “votar” e do Estado, temos que entender que ela está presente nas instituições que participamos, que vivemos. Igreja é uma delas! Se tem importância e é fundamental para mim e meus próximos, se é inestimável, porque não levá-la verdadeiramente a sério e alterá-la? Lutar, se mover e engajar? O discurso de despolitização dentro da religião tem ganhado muita força – como disse, tanto para progressistas quanto conservadores.

Não se deve confundir participação e formação política com o Estado. Certo. Assim, já afasto qualquer desejo de se colocar um “pastor” para ser deputado ou presidente. O envolvimento político na religião não é com o Estado, mas com a Igreja. Agora, também não se pode confundir política com corrupção, impedindo o engajamento dos fiéis nos processos institucionais para o “bem deles”. A formação política também ocorre nas experiências comunitárias em Igrejas! Veja as revoluções, as transformações sociais na história. Veja um Antônio Conselheiro, Dom Oscar Romero, Pedro Casaldáliga, Ignacio Ellacúria, Martin Luther King, Gandhi, Madre Teresa, Jesus de Nazaré… Aliás, cada crítica de Cristo à religião esteve, em algum momento, dissociada de um forte embate  político???

A formação dos revolucionários! O envolvimento não depende apenas de ideias, mas de participação ativa na escola, grêmios estudantis, sindicatos, organizações familiares e, até, igrejas! Não se aprende política nos livros, se vive política naturalmente. É constante processo de formação.

Se o Congresso Nacional está abarrotado de canalhas, em grande parte é porque se utilizou uma instituição “intocada” e “abandonada” como curral eleitoral. Instituições religiosas que estão formando politicamente cidadãos num projeto que ninguém critica ou altera. Quando se engaja politicamente na instituição, não se recebe apoio nem dos de fora (que simplesmente dão de ombros e pedem para que os incomodados que se mudem) que menosprezam a religião, e nem dos de dentro, que desejam que tudo permaneça como está. Nisso o projeto se mantém e o mundo está acontecendo…

Por fim, não se pode deixar que pastores se metam no Estado. Mas isso não acontece rejeitando a religião, mas alterando ela, dentro dela, a partir dela. É engajamento político interno! Também não se pode deixar que um discurso vazio de espiritualidade cansada afirme que a religião que importa é aquela “sem instituição”. O princípio, em parte, é correto;  mas precisa ser recebido e trabalhado criticamente – senão cai no vazio. O que sustenta uma religião é a experiência mística, não a igreja; mas ela não é individualizada e não-comunitária. Assim, ela não se sustenta por si só, mas depende de relações e estruturas políticas (instituições) que possibilitem sua realização. A fé vivida pelo povo depende de meios para produzir, reproduzir e desenvolver a vida do próprio povo.

Mesmo certos “progressistas” não tem entendido e nem incentivado o engajamento político, a formação política, dentro de suas igrejas. Talvez por não saber lidar ou por estarem cansados, mas apenas se afastam das ações realizadas por outras instituições e rechaçam o que chamam de “religião institucionalizada”. O problema, no fundo, não é a política ou a instituição, mas a corrupção. Confundindo as duas coisas, não mudam e impedem mudanças estruturais. Assim as instituições continuam corrompidas e se tornam um tipo de “mal necessário”. Não! Não são mal necessário e nem menos relevantes. Mal é a corrupção; instituições são necessárias. Quando elas cumprem com o dever de produzir, reproduzir e desenvolver a vida, quando elas  formam politicamente gente ativa e engajada, dando autonomia e participação, realizam o bem.

Tem-se que tomar cuidado, porque o discurso de despolitização e não-engajamento nas instituições religiosas promove um descompromisso com instituições em geral, manutenção da corrupção. É quase que um “não se preocupe com isso, é um mal necessário que eu terei o sacrifício de realizar por você; continue dando o dízimo e deixa esse esforço para outros”. Esse discurso promove o que Juan Arias chamou de desalegria: um cansaço vindo do desamparo institucional que pode acabar com a esperança. Estaríamos desamparados e não poderíamos nos engajar. Se nos engajarmos, não teremos apoio. O que fazer?

É uma porta estreita.

 

 

Bruno Reikdal Lima

 

 

 

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