Como assim esperança?

oprimido1Inacreditavelmente hoje é 21 de dezembro. O Natal é nessa semana, já, e mal se vê luzes e o clima de festa. Nem as propagandas de televisão ou na internet entraram ou forçaram o “espírito”. Aliás, essa é a palavra: o Espírito que paira por aqui não é natalino. Nas conversas com amigos, colegas e gente no trem, deu para perceber uma coisa: há um sentimento no nosso meio, um ar, uma atmosfera diferente de todos os natais que já vivemos. Esse ano não estamos nem em tempo iluminado e nem em tempo de ilusão. O Espírito é outro: desalegria

Juan Arias inventou esse termo – desalegria – em sua coluna no El País: Como ele explica, não é um sentimento de tristeza ou infelicidade; é a sensação de desamparo institucional, de falta de vontade e desilusão que mina a esperança. Acho que é isso que estamos vivendo, só que piorado com a impressão de que 2014 não acabou; só colou em 2015 e nos empurrou pra baixo. Chegar no fim de mais um “ano eterno” lembra a gente que o calendário é só uma convenção, que a virada de 31 de dezembro pra 1 de janeiro não é como a virada de um livro: a cada folha mais perto do fim desejado. Lembra que não tem nada de mágico e que a vida não segue “em frente”, mas gira em torno do Sol, sola no meio de um nada sem medida.

As alegrias, planos e sonhos que temos dependem de certa segurança; de certa estabilidade (mesmo que pendurada numa crença simples e desconexa). Sentir-se desamparado por instituições é o encontro com a falta de segurança, o “zero” de estabilidade. É desalegria. Quando falamos de instituições, falamos de todas: família, divisão de trabalho, casa, escola, igreja, Estado, códigos legais, convenções, parcerias, tradições culturais, etc. Até futebol entra na conta. Quando nada disso “funciona”, quando não garante nem uma gota de segurança e estabilidade, a desalegria está garantida. Em quem confiar? Não cremos mais em ilustres e nem nos meios que deveriam garantir as possibilidades de nossa vida. Chega o Natal; mais um traço cultural que, no fim do ano, não inspira muita coisa. O Espírito não é de esperança. Ela está minada.

Eliane Brum escreveu em sua coluna, também do El País, sobre a esperança. Texto sensacional: Em defesa da desesperança. É, a esperança está minada, este é o Espírito do nosso tempo, hoje. E daí? Com muita ousadia a Eliane pergunta: “e daí que estou sem esperança?”. Talvez seja exatamente esse o momento de amadurecermos, de criarmos raízes na terra, não nas nuvens. Talvez isso ajude, inclusive, a entendermos o que é que é essa tal de esperança que faz tempo que não vemos. No texto, a jornalista escreve: “Talvez tenha chegado a hora de superar a esperança […] Quero afirmar aqui que, para enfrentar o desafio de construir um projeto político para o país, a esperança não é tão importante. Acho mesmo que é supervalorizada. Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. O que vai costurar os rasgos do Brasil não é a esperança, mas a nossa capacidade de enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder […] Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético.”

Hora de superar o que a gente entende por esperança. Hora de trabalhar a ideia de que é “só seguir em frente e tudo vai dar certo”. Não! Não tem “em frente”. Tem a vida, e ela não é um livro. Não tem o final desejado; tem o trabalho diário. É hora de entender que temos que desenvolver projetos.  Hora de reinventar o modo de realizar nossas tarefas, nosso jeito de ser, de viver, de executar nossas funções e cumprir com propósitos.

É nesse sentido que entendo o que José Comblin escreveu: “Seria uma ilusão crer que a esperança é espontânea no ser humano. Espontâneos são os desejos, os sonhos, as projeções tecnológicas, mas não a esperança. Esta deve ser cultivada. É uma tarefa perseverante e sistemática […] Educa-se a esperança”. Não é um sentimento que existe sempre ou deve existir sempre. É uma experiência conduzida, construída, educada. Eliane Brum em seu texto mostra que quem se diz desesperançado é tratado como doente. Porque? Precisamos superar isso, superar as ilusões. Ficar animado não é esperança. Se iludir sobre o amanhã muito menos. Não há tempo para ter o luxo de ser iludido. Como o próprio Comblin disse: Esperança não é movimento irracional para o futuro. Não é salto cego para o desconhecido, nem fuga para uma ilusão de futuro […] A verdadeira esperança constrói-se acima das ruínas das ilusões perdidas, dos esforços desiludidos, dos sonhos traídos”. É em cima da “desesperança”, ou melhor, da desalegria que se constrói a verdadeira esperança.

Esperança não é o salto cego para o futuro. É construção, educação, desenvolvimento. É um projeto que não almeja “um futuro melhor em algum dia”; não, esperança deseja “o dia”, aquele único momento e instante que realiza e dá sentido ao que foi feito, alimentando uma promessa de possibilidade de sentir um instante novamente. Como Zizek conta em um de seus livros, Obama ser eleito não encerrou a história e cumpriu com suas esperanças. Não, por um segundo ele se sentiu livre. Por um segundo, apenas. Essa experiência única de realização de projeto, de amparo institucional, de organização do mundo e do “deu certo” é sinal de esperança. É a partir disso que se educa e constrói um novo caminho para, quem sabe, poder viver esperança. Mas não para sempre e nem por obrigatoriedade. Se pôde viver a esperança, agradece aos céus pela oportunidade rara…

Vivemos por um momento, pela construção de um mundo. Não vivemos por causa da esperança, mas para tê-la. Construir esperança dá trabalho, é trabalho. Não precisa ser esperançoso e estar esperançado para construir possibilidades de esperança. Não. Precisa estar vivo e lutar/criar por dever, como imperativo ético – só. O texto de Eliane Brum termina com uma convocação: não se deve ser esperançoso. Deve-se lutar pelo e como dever. Esperança é uma experiência possível, mas não pré-requisito: deve ser cultuvada, educada. Mas não é naturalmente constituinte dos vivos.

Nem tudo está bem e muito menos acabará necessariamente bem. Não vamos nos iludir nem nos enganar. Um texto muito citado é o versículo 21 de Lamentações que diz “Todavia, lembro-me do que pode me dar esperança”… A esperança que aqui o profeta bíblico fala é: “Graças ao amor do Senhor é que não estamos consumidos, pois suas misericórdias são inesgotáveis”. A esperança que ele lembra é: ainda não fui destruído. Não é ânimo iludido sobre o futuro. É realidade desalegre, mas convicta e madura. Firme. A desalegria também deve ser combatida. Mas não com ilusão ou tentativa de controle sobre a esperança. Combatida com trabalho consciente, projetos factíveis.

Por fim, José Comblin escreveu um livro chamado Viver na esperança. Não viver “com” esperança; mas na esperança. É fincado, enraizado. O Espírito desalegre que está no nosso meio pode ser caminho para uma verdadeira esperança. Não para os sorrisos e festa instantânea; mas para o sinal, para a promessa, para o fortalecimento, para a realização do dia. Trabalho. Muito trabalho. Como padre Zé escreveu no seu livro:

“O significado comum da palavra cria o perigo de entender a esperança no sentido de uma disposição puramente interior […] esperança consiste, em primeiro lugar, num modo de ser e de agir no meio do mundo. Não é um sentimento, mas uma qualidade da ação. Os sonhos têm utilidade e são necessários. Mas não representam a esperança […] Não existe nenhuma sensação própria de esperança. A pessoa pode sentir ou não sentir, viver uma grande agitação interior ou uma grande calma. A esperança manifesta-se apenas pela orientação real da vida, pelo modo de atuar e de enfrentar os problemas da existência […] Uma vez adotado o projeto novo, o conjunto da existência precisa se reorganizar. A conversão acontece em dois tempos. O primeiro é rápido: é a percepção da necessidade de abandonar o projeto de vida antigo e de substituí-lo por um novo, juntamente com uma decisão radical de mudança. Em seguida, vem a segunda etapa. Esta é mais demorada. Consiste em reinventar condutas novas e todas as situações da vida.”

Talvez seja este nosso momento: construir um novo projeto e, em seguida, reinventar todo o nosso modo de enfrentar as situações problemáticas. Nas palavras de Brum: “superar a esperança”.

 

 

Bruno Reikdal Lima

 

 

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