2016: Amanhã não será maior, nem melhor

wallNão sejamos pessimistas. Apesar do título, esse não é dos textos catastróficos e depressivos. Não! Na verdade esse deve ser o primeiro texto efetivamente esperançoso escrito nesse blog. Sem dúvida é um texto desiludido. Não é ufanista e nem animador (no pior sentido que essa palavra possa ter). Estamos longe de propor um efeito “motivacional”. Seria tosco, leviano, pecaminoso, ofensivo e irresponsável prometer um dia de sol no meio de um dilúvio. Esse é um texto de esperança. Não qualquer esperança. Esperança de verdade

No prefácio ao terceiro volume da sequência de Porque pensar não é pecado, escrito no final de 2013, mencionei o grito que vez por outra soltávamos nas manifestações de julho daquele ano: “amanhã será maior, amanhã será melhor”. Na ocasião comentei que era óbvio que nós, manifestantes, sabíamos que não seria melhor e nem maior necessariamente. Mas, de qualquer modo, nos agarrávamos ao chavão como grito de esperança. Quer dizer, achávamos que aquilo era esperança. Não era. Era uma crença – um “torcer pra dar certo”. Um ânimo sonhador e valente, mas ainda muito imaturo e infantil. Poderia ser, talvez um grito de “desejo”, mas não de esperança. Esperança de verdade não ousa gritar sobre o amanhã. Esperança de verdade não fala sobre a passagem do “tempo” cronológico, mas sobre um lugar…

Nem maior e nem melhor. O grito era certo; mas não expressava esperança, apenas nosso desejo. E cumpriu com seu papel: saciado o desejo, findou todo o movimento. Se fosse esperança de verdade, não morreria. Esperança não é apenas a “última que morre”; ela nasce da experiência com a morte, ela nasce junto ou talvez até da morte. Esperança não é um acreditar no progresso e melhoria do amanhã. É uma qualidade de nosso trabalho. Esperança é trabalhar ou projetar com os materiais disponíveis e a partir daquilo que já se foi, sobre o chão que está sob nossos pés, nossa história, nosso castelo. É esperançoso o vivente que constrói uma nova casa apesar de ter visto aquela em que morava ser destruída por um incêndio. É esperançoso quem tem filhos apesar de ter visto a morte dos próprios pais. É esperançoso o desejo de produzir a vida mesmo sabendo como é o trabalho de parto.

Comblin dizia que esperança não é sensação ou sentimento, mas qualidade da ação. Esperança não é o frio na barriga por acreditar no melhor ou maior de amanhã. Isso é desejo, ânimo, expectativa, ansiedade até. Pode ser, sem maldade ou sentido negativo, uma ilusão. Esperança é qualidade de nossa ação: o modo de realizar projetos. Mais que isso: o que é transmitido àquilo que produzimos com nosso trabalho cotidiano. Somos trabalhadores. Trabalhar é gastar energia para lutar contra a perda total de energia: se matar para não morrer. O trabalho pode ou não ser esperançoso. O que determina não é a sensação enquanto se trabalha; mas a consciência do lugar em que se está trabalhando: os limites, os materiais disponíveis, a história do trabalho passado. Esperança depende de um processo de conscientização.

Não é o grito! É o processo de conscientização. Esperança exige maturidade – até um pouco de rudeza, de ser casca grossa. Conscientização não é saber o que está acontecendo, estar ciente do mundo. Conscientização é, como Paulo Freire aprendeu-ensinou, um modo de agir no mundo: “não pode existir fora da práxis, ou melhor, sem o ato ação-reflexão […] conscientização é um compromisso histórico: é inserção crítica na história, implica que os homens assumam papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo. Exige que os homens criem sua existência com um material que a vida lhes oferece”. Esse é o processo de conscientização que possibilita a verdadeira esperança: permite que o trabalho seja ou não esperançoso, produtor de esperança.

Paulo Freire aprendeu-ensinou que é no processo de conscientização que qualifica a ação humana que se constrói uma “nova realidade”. Isso quer dizer, nas palavras do mestre-discípulo, que: “conscientização nos convida a assumir uma posição utópica frente ao mundo, posição esta que converte o conscientizado em fator utópico”. Assim, o que temos é que o trabalho consciente carrega em si esperança não como um sentimento ou sensação, mas como qualidade (se é produtor ou não de esperança), e que o processo nos convida a tomar posição utópica. Utopia significa “sem lugar”: é um lugar sem lugar. Esperança não fala do “tempo” cronológico, de um amanhã melhor ou maior,  mas de “outro lugar”, de um lugar diferente, de um lugar que não é aqui mas que pode ser aqui. Esperança está firmada no lugar.

Não estamos falando de horizonte. Não nos coloquemos no lugar do burro de desenho animado que corre atrás de um vegetal preso a uma vara nas mãos de seu condutor. Não somos burros; e não devemos ter condutores que nos enganam com comida que nunca sacia a fome. Estamos falando daqui. Dessa merda de lugar que moramos, desse sistema diabólico que nos cerca, da política nojenta que está na nossa frente, dos políticos escrotos que abusam de seus cargos, do poder corrupto e corrompido que nos seduz todo dia. É daqui. Nossa esperança depende disso aqui. É o que temos para hoje. Utopia não é aqui, mas pode ser aqui. O que há de comum nesses dois pólos? O aqui, o lugar. Este lugar. Levante a cabeça, olhe em volta, tome consciência, bem-vindo ao mundo. Agora a opção é trabalhar: com qual qualidade? Eis a questão.

Sobre utopia Paulo Freite disse: “Para mim utópico não é o irrealizável; a utopia não é o idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar: o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia também é compromisso histórico. A utopia exige o conhecimento crítico. É um ato de conhecimento. Eu não posso denunciar a estrutura desumanizante se não a penetro para conhecê-la. Não posso anunciar se não conheço […] Por isso mesmo somente os utópicos – quem foi Marx se não um utópico? quem foi Guevara se não um utópico? – podem ser proféticos e portadores de esperança […] A conscientização está evidentemente ligada à utopia, implica em utopia. Quanto mais conscientizados nos tornamos, mais capacitados estamos para ser anunciadores e denunciadores, graças ao compromisso de transformação que assumimos”. Conscientização que possibilita trabalho de esperança depende de um conhecimento bruto: a realidade daqui e o que aqui deveria ser.

Por fim, como escreveu Comblin, “A esperança não se baseia na constatação da evolução real da sociedade, mas sim numa necessidade de crer por causa da frustração da revolta. Aqui também, no funo, se trata de um problema de incapacidade de lidar com os limites humanos […] A prova da autenticidade da esperança exige que a pessoa faça realmente a experiência da realidade da vida, viva plenamente a vida presente nesta terra. A prova do valor da esperança será feita por pessoas que atingem certa maturidade. É preciso ter aceitado a realidade da vida com as oportunidades que ela oferece e os limites que impõe. Não querer fugir da realidade por mais difícil que seja sua aceitação […] nenhuma revolução transforma radicalmente o desafio de viver. A vida nesta terra foi dada para ser vivida, não rejeitada como má ou indigna de consideração, indigna de ser vivida […] esperança consiste em primeiro lugar num modo de ser e de agir no mundo. Não é um sentimento, mas uma qualidade da ação. Os sonhos tem sua utilidade e são necessários. Mas não representam a esperança […] O futuro não será construído por nós, mas por nós, que sempre faz o imprevisto e desconcerta as falsas esperanças […] Não existe nenhuma sensação própria de esperança. A pessoa pode sentir ou não sentir, viver uma grande agitação interior ou uma calma. A esperança se manifesta apenas pela orientação real da vida, pelo modo de atuar e enfrentar os problemas da existência”.

2016 não será maior e nem melhor. São Paulo será poluída, mas pode ser mais limpa. Política estará corrompida por aqui, mas pode ser refundada aqui mesmo. Aqui na Vila Isa, no Jardim Marajoara, em São Bernardo, Taboão da Serra, Jardim das Fontes ou no Sacomã, aqui ou ali, será assim. Mas aqui ou ali pode ser. Não um dia, mas aqui ou ali. É consciente da merda e da possibilidade que o termo central, que une a distopia e a utopia, o aqui, o lugar, o “tópico” onde estamos, que podemos trabalhar. A com o material que temos e a partir dele. É o que temos para hoje: nem maior e nem melhor. Temos. Podemos…

A tarefa dos idealistas modernos se tornou muito mais fácil pelo fato de sempre lhes terem ensinado que se algo foi derrotado, foi refutado. Logicamente, o que se dá é sem dúvida o contrário: as causas perdidas são exatamente aquelas que poderiam ter salvado o mundo. – G. K. Chesterton

 

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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