Ele vem e intervem!

herege_joao_hus_concilio_constancaTrabalhar com teologia e filosofia política é sempre um problema. Acabamos sendo criticados tanto por liberais quanto por conservadores. No fundo, as duas correntes estão presas ao mesmo poste: não se deve misturar “as coisas” – como se houvesse um puro espaço sem teologia e um puro espaço sem política. Uma ilusão, ou melhor, uma ideia fetichizada que se torna dogma: um chavão pronto que evita nos colocar em situações complexas que requerem trabalho duro. Mas ao mesmo tempo ninguém se arrisca a dizer isso lendo Platão, Hobbes, Rousseau, Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Vattimo, Sloterdijk… Todos utilizam da teologia para desenvolver suas teorias políticas. Nos termos de Marx, a crítica teológica é a primeira crítica política!

Carl Schimdt tenta mostrar em seu comentário ao pensamento de Hobbes que as estruturas da teoria política moderna são teológicas. Em sua análise a conclusão é esta: o Estado Moderno depende de uma teologia forte. Isso indica (ou deveria indicar) que mesmo com a ideia fetichizada de que “as coisas não devem ser misturadas”, elas efetivamente são misturadas – principalmente pelos “papas” da filosofia política. Nesse caminho, animado por encontros de estudo bíblico com adolescentes na comunidade religiosa que participo, pretendo trabalhar uma questão teológica “clássica” que foi resgatada recentemente de um modo um pouco mais empobrecido para expor uma insuficiência política – tanto das instituições religiosas quanto nas laicas. Contarei um tanto da minha própria história, pois vivenciei de perto o debate empobrecido sobre a intervenção de Deus na História.

Em 2004, quando houve o Tsunami na região do Oceano índico, um debate surgiu sobre a intervenção e a não intervenção de Deus nos acontecimentos da História. Uma parte impactada pelo desastre levantou a bandeira de que Deus não poderia ter relação com aquele acontecimento. A outra, preocupada com a tradição e, mais que isso, com as consequências de se tirar Deus do controle da História, colocou em pauta o dogma da Soberania de Deus. Lembro que em trocas de textos na internet se destacaram Ricardo Gondim (do lado da não intervenção) e Augustus Nicodemus (do lado da intervenção). De qualquer modo, em minha comunidade, tomei na época posição junto aos não-intervencionistas – digamos assim. O problema é que se “não-intervinha”, que fazemos agora? Em que teologia estamos firmados? Em que cremos?

E aqui começa o furdúncio. Me deparei de novo com esta questão no encontro de estudos bíblicos com os adolescentes da minha comunidade. São adolescentes, como eu era, só que, diferente do meu caso, eles não tomaram posição imediatamente. Abriram as duas hipóteses e a complexificaram: se Ele não intervem, o que fazemos com o Cristo? Se ele intervem, o faz em que medida e como? São bem mais espertos e fiéis do que eu era na idade deles…

O nosso problema na época foi tomar posição sem pensar e começar a acelerar, sem nunca olhar para trás e refletir, realmente, sobre o que nós estamos fazendo e no que nós, como comunidade, cremos. As respostas, poucas, quando tinham, eram individualizadas. Eis um problema: havia um debate, mas apenas havia tomada de posição, sem efetivamente um diálogo, uma construção coletiva. Não havia uma assembleia para a produção de teologia ou até troca de experiências de fé. Apenas a negação de que Deus intervinha na História. Havia argumentação, mas não crítica e nem diálogo produtivo. Operavam-se logicamente argumentos, mas não se produzia conteúdo. Assim, a questão não  saía de si mesma, pois:

I. Doutrina

O grupo dos não-intervencionistas procurava superar a doutrina; mas não sabia como e nem em que se firmar. Apenas negavam logicamente a intervenção divina. Então contas como “se Jesus é a Imagem e o Filho de Deus e Deus é amor, porque mataria pessoas?” eram realizadas e realmente deixavam os “opositores defensores da doutrina” de saia curta; mas não resolvia o problema e nem saciava a necessidade de pão que nós, como fiéis, temos. Muitas outras perguntas e estruturas lógicas eram feitas, mas nenhuma produtiva. Isso indicava algo importante: só é possível desenvolver uma argumentação se os dois que falam tem os mesmos pressupostos e estão no mesmo “chão”. Sem isso, não há conversa. Pois bem: o grupo não-intervencionista criticava a doutrina, mas não conseguiu superá-la: tinha os mesmos pressupostos!

II. Pressupostos

Como não houve reflexão, debate aberto, conversas produtivas e construções coletivas, os pressupostos foram mantidos e não percebidos. Tanto um grupo quanto outro não superaram um problema: “onde Deus está?”. Tanto para um quanto para outro (mesmo que neguem) trazem consigo a crença de que há fora da História um ser divino que olha “para cá”. Nesse sentido, uma das soluções dos não-intervencionistas era dizer que Deus interpela pelos e para os humanos, mas não intervem. Quer dizer, Ele está assistindo e “torcendo” pra gente, mas não faz nada. Outra frase-pronta como tentativa de produção era dizer que “Deus chora com a dor dos humanos” – mas também não faz nada. Se faz, já fez: enviou seu Filho ao mundo – Cristo. Mas aí travamos: o “enviou ao mundo” mantém o Deus que está lá e o mundo que está aqui.

Outro pressuposto que sustenta as duas correntes é o individualismo: um Deus individual que se revela ou chora ou interpela para indivíduos humanos. Egoistamente, a saída para Deus participar da vida humana era na vida do indivíduo humano, em suas experiências interiores, alegrias e momentos com o círculo de amigos e conhecidos. De um lado, o individualismo era ufanista: “sou salvo e Deus cuida da minha História!”; do outro, era depressivo: “Deus chora comigo e se apresenta nos momentos felizes que acontecem nos meus dias”. Mas os dois estão no mesmo chão. Se os pressupostos não são alterados, os significados daquilo que dizemos e cremos também se mantêm ou, no mais, ficam estéreis.

III. Processo de ressignificação

Era necessário um processo de ressignificação: aceitar as duas (ou mais possibilidades) e vasculhar o que está por trás de nossas crenças. Alterar isto renova o Espírito (em teologia) os laços comunitários (em política). O processo de ressignificação não dependia única e exclusivamente de uma argumentação lógica, mas da transformação das bases materiais – do motor duro e concreto da vida. A política das duas correntes religiosas estava em xeque e nenhuma percebia. Estava em cheque a organização produtiva da teologia e o modo como ela deve operar: Continuar lendo

A Bíblia Política: penúltima parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Nossa busca pela Bíblia política chega ao penúltimo passo. Em 5 partes, fizemos uma leitura comunitária que nos possibilitou produções muito ricas e diferentes das tradicionais. O próprio exercício pedagógico, o modo como realizamos os encontros e as interpretações, é revolucionário por si só: a participação ativa e contínua de todos os leitores, com contribuições críticas e abertura das possibilidades que surgem em cada trecho, supera a relação especialista-leigo, líder-massa. É uma experiência democrática. Isso requer que analisemos o que aconteceu para tentarmos reproduzir, de algum modo, e transmitir esta experiência para outros – ou seja: teorizar. Mas, neste momento, faremos nossa última interpretação do texto de Miqueias propriamente, deixando para o próximo uma avaliação crítica do que aconteceu

Assim, nosso penúltimo comentário está dividido em 3 partes: 1. Retorno ao necessário possível (depois de colocada a utopia como um momento metodológico do pensar no trecho anterior, Miqueias retoma a necessidade de se organizar para solucionar os problemas atuais, que estão acontecendo); 2. Plano de luta (veremos a arquitetação de um plano estratégico para superar a opressão realizada pelos líderes corruptos); 3. Resposta aos que questionam a luta (como se houvesse quem discordasse da necessidade de se colocar contra a corrupção e opressão, Miqueias lança mão da Palavra do Senhor, que traz a tona a memória do povo, em sua vida e processo de libertação, em todas as histórias em que foram escravos e, com a luta, puderam se libertar).

RETORNO AO NECESSÁRIO POSSÍVEL

“Agora, porque  gritar tão alto? Você não tem rei? Morreu seu conselheiro para que tua dor seja tão forte quanto a de uma mulher em trabalho de parto? Se contorça em agonia, povo da cidade de Sião, como uma mulher em trabalho de parto, porque agora terá que deixar seus muros para habitar em campo aberto. Você irá para a Babilônia e lá será libertada. Lá o Senhor a resgatará da mão dos seus inimigos. Mas agora muitas nações estão contra você. Elas dizem: ‘Que sião seja profanada e que isso aconteça agora, diante de nossos olhos!’. Mas elas não conhecem os pensamentos do Senhor; não compreendem o plano daquele que as ajunta como feixes para serem colhidas […] Reúna as tropas, cidade murada! Há um cerco contra nós. O líder de Israel será ferido no rosto com uma vara” [Miqueias 4:9 – 5:1]

Em nosso comentário anterior, vimos que Miqueias utilizou do método utópico: vislumbrou como deveria ser o mundo – sem corrupção e violência, plural e produtivo. Miqueias não faz desse modelo um “horizonte” ou “alvo”, mas uma possibilidade que nos ajuda a reconhecer o que está errado “por aqui”. Ele toma posição de um não-lugar para reconhecer as falhas de seu lugar. Este método utópico ou a utilização da utopia como passo metodológico para um “plano estratégico”, segue para o trecho acima, no qual o profeta levanta a cabeça e olha em volta: a cidade está sofrendo, as lideranças são frágeis e inimigos estão a espreita.

Miqueias percebe que Sião não resistirá ao ataque: está corrompida e corroída por dentro. Assumindo a impossibilidade de “vencer esta batalha”, estrategicamente para a libertação do povo (não de um ou outro escolhido, mas do Povo – para saber o que significa esta palavra, dê uma olhada no nosso segundo comentário), Miqueias propõe que a cidade deva ser deixada; terão que largar a segurança do monte par ao campo aberto. Serão levados para a Babilônia. A crise, o  sofrimento de ter que reconhecer a fraqueza e honestamente assumir a fragilidade e a impossibilidade de se lutar contra tudo e todos ao mesmo tempo, não é um problema, mas um acontecimento. Para certos “fins”, acontecimentos imediatos, não se tem o que fazer. Então, no plano de luta de Miqueias, o combate direto é impossível, pois é necessário reconhecer que não temos o que fazer: teremos que largar mão da segurança e mergulhar na crise; mas juntos, como povo.

A crise é aceita e as fraquezas internas também. A “cidade utópica” não foi esquecida e nem é o horizonte a ser alcançado. Miqueias deseja alcançar a libertação do povo, apenas. O Povo é um sonho maior que a cidade. A Sião e a Jerusalém como Terra Prometida possibilitaram reconhecer que a cidade em que estão é fraca, corrompida e doente. Teremos que sair… Este é o plano!

PLANO DE LUTA POSSÍVEL Continuar lendo

A Bíblia Política: terceira parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Em nosso terceiro texto-comentário a Miquéias, descobriremos que existem duas funções da profecia: denunciar (a corrupção e injustiça) e anunciar (a utopia). Na busca pela Bíblia Política, veremos que só é possível denunciar o que está errado quando tomamos uma posição “exterior” ao sistema vigente (seja político, econômico ou social). Quando conseguimos sonhar com um lugar que não é aqui, com o “sem-lugar”, ou seja, com a utopia, é que somos capazes de lutar contra as estruturas doentias em que vivemos. Como Paulo Freire escreveu: “o utópico não é o irrealizável […] é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico”

Assim, nosso comentário está dividido em 4 partes: 1. O anúncio (que veremos o sentido e significado de utopia); 2. A utopia (veremos que uma das manifestações da corrupção das instituições é a guerra, o que indica que elas precisam ser transformadas); 3. Do macro ao micro (da guerra entre nações, de instâncias distantes, Miquéias mergulha na violência do dia-a-dia); 4. Convivência religiosa e o perdão (não há exclusão na utopia e nem abandono das instituições; há é a afirmação de nossa postura e a necessidade de se transformar os governos e as lideranças). Espero que seja útil   😉

O ANÚNCIO

“Nos últimos dias, acontecerá que o monte do templo do Senhor será estabelecido como monte principal, elevado acima das colinas, e os povos irão para lá buscar refúgio. Muitas nações irão dizendo: ‘Venham! Vamos subir o monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó! Ele nos ensinará os seus caminhos para que andemos em suas veredas’ – pois a lei virá de Sião e a palavra do Senhor de Jerusalém.” (Miquéias 4:1-2a)

Em nosso último comentário, vimos a corrupção generalizada em Sião e em Jerusalém. Os governantes, os juízes, os sacerdotes e os profetas corrompidos, sujos, responsáveis e culpados pelas desgraças das cidades.  Miquéias faz uma crítica política pesada: denuncia o uso indevido do poder e as estruturas opressoras que esmagavam o povo. Como vimos, Sião estava sendo construída com derramamento de sangue e Jerusalém com impunidade.

Miquéias exerceu sua profecia de denúncia: apontou o erro que precisava ser corrigido nas instituições e nas formações sociais. Entretanto, neste momento de nossa leitura, nos deparamos com uma “pausa”: o ritmo, o tempo e o lugar mudam abruptamente de característica. Com a indicação “nos últimos dias”, Miquéias nos desloca do tempo dos reis Acaz, Jotão e Ezequias, e nos arremessa para um tipo de “futuro”. Ao mesmo tempo, saímos das cidades corruptas de Sião e Jerusalém e nos encontramos, agora, no “monte do templo do Senhor”, que há de ser erguido. Do clima de denúncia, seguimos para o anúncio…

O tempo da corrupção é denunciado, enquanto que o “tempo do templo do Senhor” é anunciado. A Sião e a Jerusalém da denúncia dependiam de sangue e impiedade; mas no anúncio, descobrimos que Sião será uma cidade “da lei”, e Jerusalém uma cidade “de onde vem a palavra do Senhor”. Miquéias anuncia uma utopia. Utopia é, numa tradução ao pé da letra, o “sem-lugar”; é o lugar que não tem lugar. Sião e Jerusalém, no tempo do anúncio, deixam de ser aquelas cidades que Miquéias está vendo em sua frente, naquele momento e lugar, e passam a ser cidades “sem-lugar”, utópicas: uma Terra Prometida.

Assim como o termo “povo” em nosso comentário anterior, a palavra “utopia” precisa de um conteúdo preciso, senão fica vazia de sentido e significado. Paul Ricoeur escreve que o “sem-lugar”, a utopia, talvez seja “uma estrutura fundamental da reflexividade pela qual podemos captar nossos papéis sociais, poder conceber assim um lugar vazio onde podemos refletir sobre nós mesmos”, e completa que “é preciso notar o benefício desse território. Desse não-lugar, uma réstia de luz é lançada sobre a nossa própria realidade, que de súbito se torna estranha […] A utopia permite variações imaginárias em torno de questões como a sociedade, o poder, o governo, a família, a religião. O ponto de vista de lugar nenhum permite colocar o sistema cultural a distância; nós o vemos do exterior, precisamente por causa desse ‘lugar nenhum’”.

Se tomarmos essa ideia de utopia, o anúncio de Miquéias não se torna exatamente esse exercício de contestação da ordem social corrupta a partir de um “outro mundo”? Ao ver e anunciar o tempo do templo do Senhor, Miquéias mostra como Sião e Jerusalém deveriam ser: cidades construídas na lei e na Palavra do Senhor, sem corrupção…

A UTOPIA

“Ele julgará entre muitos povos e resolverá os conflitos entre nações poderosas e distantes. De suas espadas, elas farão arados, e de suas lanças farão foices. Nenhuma nação erguerá a espada contra a outra, e não aprenderão mais a guerra.” (Miquéias 4: 2b-3)

O monte do templo do Senhor é a utopia, o lugar sem-lugar. A partir dele, o profeta consegue vislumbrar causas da corrupção e da destruição das cidades que estão em sua frente. O monte será, no anúncio do profeta, o lugar de paz, a partir de onde a paz será estabelecida. O Senhor julgará os povos e resolverá seus conflitos. As nações irão para lá para solucionar problemas. Da guerra, nasceria nesses dias um tempo de paz.

A utopia do profeta começa com a indicação de uma das causas da corrupção: a guerra. Miquéias cria uma metáfora linda: as espadas se tornarão arados e as lanças foices. Ou seja: a luta entre os povos será substituída por mútua ajuda. Não serão feitas armas, mas instrumentos que produzem alimentos. A denúncia está contida e implícita no anúncio da utopia: se os esforços dos governantes fossem para produzir alimento, por construir instrumentos instituições que produzem vida ao invés de matar, não haveria guerra e a vida seria multiplicada. Continuar lendo

A Bíblia Política: segunda parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Nossa formação político-religiosa exige cuidado. Este processo de leitura não foi feito por uma única pessoa: estes textos são fruto de uma leitura comunitária da Bíblia. Não podemos falar de política e de formação política a partir de um indivíduo, isoladamente. Política é  o que acontece na “cidade”: nos grupos reunidos discutindo seus problemas comuns e cotidianos. A Bíblia lida solitariamente produz uma única interpretação e mantém a estrutura líder-massa. Deste modo, impedimos uma relação verdadeiramente política, aberta e democrática. A busca pela Bíblia Política continua. Nela, devemos crer de maneira crítica. Crítica não é abandono: é o modo de trazer à tona os fundamentos escondidos, desapercebidos ou quase esquecidos

Nosso segundo texto-comentário ao livro de Miquéias está dividido em 3 partes. Serão lidos trechos dos capítulos 2 e 3 do livro. Críticas, dúvidas, comentários e propostas são mais que bem-vindas! As três subdivisões do texto foram: 1. O verdadeiro povo e seu rei (reconheceremos uma diferença que o profeta estabelece entre o povo e os governantes); 2. Força e justiça: onde o profeta se firma (veremos Miquéias denunciar a corrupção dos outros profetas e buscar firmeza na força e na justiça); 3. Corrupção generalizada: esta cidade não tem mais jeito (comentaremos que todos os campos da cidade – político, religioso, pedagógico, legal… – são opressores e injustos; até a criação de um “bom lugar” é com sangue e impiedade).

O VERDADEIRO POVO E SEU REI

“De fato, vou ajuntar todos vocês, de Jacó. Sim, vou reunir o remanescente de Israel. Eu os ajuntarei como ovelhas num aprisco, como um rebanho numa pastagem. Haverá o barulho de uma grande multidão. Aquele que abre caminhos irá na frente deles; eles passarão pela porta e sairão. O rei deles, o Senhor, os guiará.

Ouçam, vocês que são líderes em Jacó, governantes na nação de Israel! Vocês deveriam conhecer a justiça! Mas odeiam o bem e amam o mal. Vocês arrancam a pele do meu povo e a carne dos seus ossos. Aqueles que comem a carne do meu povo, arrancam sua pele, despedaçam os seus ossos e os cortam como se fossem carne para a panela um dia clamarão ao Senhor! Mas ele não responderá… Naquele tempo ele esconderá deles o rosto por causa do mal que tem praticado” (Miquéias 2: 12-13 e 3: 1-4)

Assim Miquéias segue não falando o que convém, mas o que é necessário. Falar o necessário, sobre a necessidade, é o que faz o verdadeiro profeta. Miquéias anuncia que o Senhor guiará seu povo, o povo de Jacó, a nação de Israel. A cena descrita parece muito com o que acontece no Êxodo: o Senhor a frente do povo abrindo caminhos para que pudessem passar e sair. Mas porquê o povo deveria sair? No texto anterior, vimos que as cidades estavam corrompidas e que falsos profetas não denunciavam esta corrupção. Vimos que Miquéias falava em determinado tempo para determinados reis. As catástrofes eram sinal da corrupção e os acusados eram os líderes em Samaria e em Jerusalém. Porquê o povo será salvo?

No trecho acima percebemos uma sutileza: existe quem é de Jacó e de Israel e quem “está” em Jacó e “está” em Israel. O povo de Jacó e de Israel será juntado pelo Senhor e sairá daquele lugar corrompido, daquelas cidades feridas. Serão como o rebanho guiado por seu pastor. Diferente daqueles que não são de Jacó e de Israel, mas são chefes e governantes em Jacó, em Israel. O profeta denuncia um abismo que há entre o povo  e seus líderes: o povo é de Israel, seus chefes e governantes apenas estão por lá…

E o que faz com que esses governantes sejam rejeitados pelo Senhor, não considerados como parte de seu povo? Eles “deveriam conhecer a justiça! Mas odeiam o bem e amam o mal; arrancam a pele do meu povo e a carne dos seus ossos”. Os governantes deveriam conhecer a justiça! Não a conhecem.  Por isso são rejeitados, são excluídos do verdadeiro povo de Israel. Sinal de que o povo enquanto povo conhece a justiça e a pratica; mas é oprimido e mastigado por seus governantes injustos. O povo justo sofre nas mãos de governantes injustos, que arrancam sua pele e a carne de seus ossos.

Claramente o profeta defende o povo e ataca os governantes. O povo romantizado como justo é o verdadeiro povo de Deus; enquanto que os governantes são vistos como opressores que não seguem a justiça divina. Mas quem é o povo? Essa palavra anda muito desgastada e é comumente entendida num sentido pejorativo. Se o profeta defende o povo, que em suas palavras o Senhor chama de “meu povo”, é porque vê esta categoria com bons olhos. Enrique Dussel, tentando resgatar o sentido bom de povo, escreveu: “povo é um ‘bloco comunitário’ dos oprimidos de uma nação […] é o povo como sujeito histórico da formação social, do país ou nação. ‘Povo cubano’, ‘povo nicaraguense’, ‘povo brasileiro’ são os que atravessam a história […] O povo como dominado é massa; como exterioridade ao sistema é reserva escatológica; como revolucionário é construtor da história”. Aqui, o “povo de Jacó” atravessa a história, passará pela porta e sairá guiados pelo Senhor.

Os governantes, distantes do povo e opressores do povo, praticam o mal. Um dia, diz o profeta, clamarão ao Senhor, mas Ele não os responderá. Neste dia estará a frente de seu povo, longe dos líderes que estão em Israel, e esconderá seu rosto enquanto segue em frente…

FORÇA E JUSTIÇA: ONDE O PROFETA SE FIRMA

“Assim diz o Senhor: ‘Profetas que fazem o meu povo se desviar e que proclamam a paz quando lhes dão o que mastigar, mas que proclamam guerra santa contra quem não lhe enche a boca; por tudo isso, a noite virá sobre vocês – uma noite sem visões! Haverá trevas sem adivinhações. O sol se porá e o dia ficará escuro para estes profetas. Os videntes, envergonhados, e os adivinhos constrangidos, todos cobrirão o rosto porque não haverá resposta da parte de Deus’. Quanto a mim, porém, graças ao poder do Espírito do Senhor, estou cheio de força e de justiça para declarar a Jacó sua transgressão e a Israel o seu pecado:” (Miquéias 3: 5-8) Continuar lendo

A Bíblia Política: primeira parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8A partir de conversas com adolescentes, num Encontro de Estudo Bíblico, surgiu a ideia de escrever textos-comentário ao livro de Miquéias – de tradição profética milenar. Como comentei em outro post, é a busca pela Bíblia Política. A formação política de cidadãos politizados não se restringe à preparação para eleições e utilização de uma urna. Devem ser envolvidas nesse projeto todas as instituições: civis e governamentais. Igrejas são lugares de formação política e social de pessoas. As tradições constituem e determinam as atuações todos os campos – familiar, pedagógico, político, econômico, etc. Não podemos rejeitar ou ignorar este fato. Se nós religiosos que crítica e honestamente desejamos um país melhor não nos engajarmos no processo de formação e discussão política, algum cretino o fará. Se os verdadeiros pastores vão embora, os lobos fazem a festa (olhem para o Congresso atual…)

Este texto-comentário ao livro de Miquéias está dividido em 4 partes. Serão lidos trechos dos capítulos 1 e 2 do livro. Críticas, dúvidas, comentários e propostas são mais que bem-vindas! As quatro subdivisões do texto foram: 1. Tempo e Lugar (comentaremos que a profecia tem data, local e destinatários determinados); 2. Catástrofes como símbolo da acusação (indicaremos que os acontecimentos históricos são utilizados como símbolo do que acontece comumente nas relações político-sociais); 3. Quem há de sofrer (a descrição geral dos acusados pelo profeta em nome do Senhor); e 4. Quem é o profeta e o que é profecia? (respondendo sem responder, abriremos espaço para pensarmos o papel do profeta e o que ele está fazendo em seu tempo). Espero que seja útil:

TEMPO E LUGAR: “A palavra do Senhor que veio a Miquéias, de Moresete, durante o período dos reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá. Esta é a visão que ele teve a respeito de Samaria e de Jerusalém” (Miquéias 1: 1)

A gente precisa arrumar a cabeça para ler os textos antigos. Se para nós são sagrados, então, devemos ter um cuidado mais especial: deixar que ele nos diga alguma coisa, e não nós o obriguemos a dizer o que queremos ouvir. É muito comum, por exemplo, pensarmos que profecia é uma previsão bagunçada e enigmática sobre um futuro distante e perdido. Bem, até pode acontecer. Mas isso não é profecia: é vidência, visão, adivinhação…

O livro de Miquéias determina o lugar, a data e o para quem o profeta está se dirigindo. Em Judá, no período dos reis Jotão, Acaz e Ezequias. A visão que o profeta teve tinha endereço certo: Samaria e Jerusalém de  seu tempo. Em 2 Reis do capítulo 15 ao 17, descobrimos quem são estes reis Jotão, Acaz e Ezequias. Todos eles foram “péssimos” reis: tiveram um período curto de governo, em um país corrompido e que acabou por ser, no final desta sequência real, invadido e destruído pelos assírios – tendo como resultado o exílio do povo. O que a abertura do livro de Miquéias nos indica é que sua profecia não falará de um futuro distante ou de enigmas indecifráveis, mas daquilo que estava acontecendo em Samaria e em Jerusalém durante o reinado destes senhores.

CATÁSTROFES COMO SÍMBOLO DA ACUSAÇÃO: “Ouçam todos os povos; oh, terra e todos os que nela habitam! Que o Senhor, o Soberano, do seu santo templo testemunhe contra vocês. Vejam! O Senhor está saindo de sua casa: Ele desce e pisa nos lugares altos da terra; as montanhas se derretem como cera sob o efeito do fogo. E os vales se racham no meio como se fossem rasgados pelas águas que descem velozmente pela encosta. Tudo por causa da transgressão de Jacó, dos pecados da nação de Israel. E qual é a transgressão de Jacó? Por um acaso não é a cidade de Samaria? Qual é o altar idólatra de Judá?Por acaso não é a cidade de Jerusalém?

Por isso farei de Samaria um monte de entulho num campo aberto, um lugar para se plantar vinhas. Atirarei suas pedras no vale e porei para fora seus alicerces. Todas as suas imagens esculpidas serão despedaçadas e todos os seus ganhos imorais serão queimados. Destruirei todos os seus símbolos! Visto que o que ela juntou foi com ganho de prostituição, como salário de prostituição a ser utilizado […] Raspem a cabeça em pranto por causa dos filhos nos quais tanto se alegram. Fiquem calvos como uma águia, porque eles serão tirados de vocês e levados para o exílio” (Miquéias 1: 2 – 15)

O profeta utiliza das catástrofes como símbolo, como retrato da ferida de Samaria e Jerusalém nos tempos daqueles reis. Ao que parece, o Senhor está descendo para pôr fim ao que está errado, corrompido. Nos versículos que saltamos, todas as cidades são acusadas de transgressões e erros. Algo nas cidades está errado e precisa ser reparado. O que temos, por enquanto, é que seus ganhos, aquilo que as cidades possuem, são ganhos “imorais”. Se isso significa corrupção, abuso, opressão, roubo… Não sabemos. O que sabemos é que há uma ferida exposta e que por causa dela algo terrível vai acontecer.

Podemos supor, por exemplo, que no período tenha havido em algum lugar uma erupção vulcânica, um terremoto ou um desbarrancamento muito grave. A imagem do Senhor vindo dos céus (acreditava-se que era lá a habitação de Deus) e trazendo das montanhas a desgraça, como “cera derretendo” e “o chão se partindo” é utilizada como sinal de que há algo errado por aqui – em Samaria e Jerusalém. Seria como utilizarmos o desastre de Mariana-MG em 2015 como símbolo da falência corrupta de nossa política, como a sinal da exposição de nossa ferida de corrupção e tudo de doentio e maléfico que ela traz consigo. Continuar lendo

A Bíblia Política: adolescentes, Marx e Miquéias


politica“Religião e política não  se misturam”; é sob essa frase que religiosos pervertidos se aproveitam para usar o Estado, e que políticos honestos (raridade no mundo) se desprezam ou se distanciam de experiências religiosas. Na verdade, é sob frases como esta que não há educação e formação política nas instituições religiosas e nem diálogo inter-religioso nos ambientes “públicos”. É sob “leis informais” como esta que temos o cenário político-religioso brasileiro de hoje: casas legislativas abarrotadas de safados eleitos em cima de igrejas evangélicas e fiéis que se submetem aos desmandos e conselhos de líderes que oferecem gotas de água no meio do deserto. Evitar que a Igreja se torne Estado e o Estado Igreja depende de uma aproximação crítica constante entre religião e política

No romance Hereges, de Leonardo Padura, numa conversa entre seu personagem policial Mario Conde e Elías Kaminsky – filho de um judeu que se refugiara em Cuba um pouco antes da II Guerra fugindo da perseguição nazista -, Elías comenta que lera um autor que dizia que parte da obsessão alemã em destruir aqueles semitas vinha do desejo de ser como judeus: um povo que mesmo sem pátria próprio continua sendo povo, unido, tradicional, orgulhoso e resistente às intemperes. Como trata em um trecho: firmados na “necessidade de se manterem unidos na tradição e na Lei escritas no Livro, única forma de sobrevivência de uma nação sem terra”. Em Hereges, uma das personagens, Daniel Kaminsky (pai de Elías), entra em crise e deseja abandonar sua tradição ao perceber como era difícil, duro e insuportável sofrer tanto simplesmente por ser judeu, por repetir ritos supérfluos e sem grande impacto; mas que parecia incomodar muito de algum modo. Qual o problema em ser judeu? Deixando a política num plano escondido, atrás das cortinas, Leonardo Padura sutilmente esboça como naquilo que temos de peculiar na vida humana é fundamentalmente sustentado pela política…

O fato de ser judeu interferia nas relações públicas, com outros. Religião e Política não se separam. Desde a comida, o modo de comer, realizar trabalhos, economizar dinheiro, a própria relação com o dinheiro e como comércio, o casamento, as disputas sociais, a guerra… Tudo envolvido e alterado pela aparente casca: por realizar ritos superficiais, sem tanta “importância”, particulares. Ser judeu o constituía. Em tudo o que se envolvesse, sua constituição, sua história, tradição, cultura estaria presente. Mesmo que não trouxesse suas crenças ou ritos para o ambiente “público”, suas decisões dependeriam de seu passado, sua bagagem, do que aprendera enquanto judeu. Mais que isso, seria visto pelos outros como judeu e sempre como judeu. Da sina Daniel não escapava. Publicamente era judeu…

“Publicano” era o cobrador de impostos do Império Romano. O público era o imposto. A Res-pública era a “coisa” formada e dependente do público, dos recursos de todas as pessoas. Nas histórias bíblicas do Novo Testamento vemos os publicanos sendo odiados. Pessoas consideradas nojentas, ambiciosas, avarentas, corruptas, ladras que abusavam dos impostos, cobrando uma sobre-taxa para conseguir enviar ao Império  o que era devido e tomar para si um tantinho… Não era necessário ser romano para cobrar impostos; era um cargo, apenas. Na Bíblia, vemos judeus publicanos odiados pelos demais judeus. No ambiente público, os judeus odiavam os publicanos por serem publicanos, mesmo sendo da mesma religião. Mais uma vez religião e política no espaço público altera as relações. Quando Jesus vai à casa de um publicano judeu chamado Zaqueu, os outros ficam enfurecidos. Como pode um judeu visitar um publicano? O fato de Zaqueu ser judeu é apagado quando ele assume o cargo de publicano, pois a religião (teoricamente) proibia a corrupção e a avareza – temos aqui um paradoxo frente à fama e às piadas anti-semitas sobre a relação entre judeus e dinheiro.  Por outro lado, quando perguntam a Jesus se era correto pagar o imposto, o público, à César, ele responde olhando para uma moeda com o rosto do imperador cunhado que “pague-se a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Em outras palavras: devolve a moeda pra ele e fique com o resto…

Política e religião, o público em questão… Não estamos falando de qualquer coisinha… Precisamos encontrar e desvendar esta Bíblia Política para conseguir criticar, conversar, caminhar, constituir um novo espaço. César, por exemplo, era o filho dos deuses, por isso adorado e proclamado como Imperador. O fato de ser Imperador o garantia a filialidade divina e o ser divino era o que legitimava sua função de Imperador. Quando um Jesus da periferia de uma cidadezinha qualquer de uma terra abandonada por Deus chamada Palestina diz que é filho de Deus e que os que estão com ele são seus irmãos, o que está implícito é: somos iguais à César. Não é só a religião que está sendo tocada! É tudo; e como aprendi com um adolescente na comunidade religiosa da qual faço parte: “tudo é política”. Continuar lendo