A Bíblia Política: adolescentes, Marx e Miquéias


politica“Religião e política não  se misturam”; é sob essa frase que religiosos pervertidos se aproveitam para usar o Estado, e que políticos honestos (raridade no mundo) se desprezam ou se distanciam de experiências religiosas. Na verdade, é sob frases como esta que não há educação e formação política nas instituições religiosas e nem diálogo inter-religioso nos ambientes “públicos”. É sob “leis informais” como esta que temos o cenário político-religioso brasileiro de hoje: casas legislativas abarrotadas de safados eleitos em cima de igrejas evangélicas e fiéis que se submetem aos desmandos e conselhos de líderes que oferecem gotas de água no meio do deserto. Evitar que a Igreja se torne Estado e o Estado Igreja depende de uma aproximação crítica constante entre religião e política

No romance Hereges, de Leonardo Padura, numa conversa entre seu personagem policial Mario Conde e Elías Kaminsky – filho de um judeu que se refugiara em Cuba um pouco antes da II Guerra fugindo da perseguição nazista -, Elías comenta que lera um autor que dizia que parte da obsessão alemã em destruir aqueles semitas vinha do desejo de ser como judeus: um povo que mesmo sem pátria próprio continua sendo povo, unido, tradicional, orgulhoso e resistente às intemperes. Como trata em um trecho: firmados na “necessidade de se manterem unidos na tradição e na Lei escritas no Livro, única forma de sobrevivência de uma nação sem terra”. Em Hereges, uma das personagens, Daniel Kaminsky (pai de Elías), entra em crise e deseja abandonar sua tradição ao perceber como era difícil, duro e insuportável sofrer tanto simplesmente por ser judeu, por repetir ritos supérfluos e sem grande impacto; mas que parecia incomodar muito de algum modo. Qual o problema em ser judeu? Deixando a política num plano escondido, atrás das cortinas, Leonardo Padura sutilmente esboça como naquilo que temos de peculiar na vida humana é fundamentalmente sustentado pela política…

O fato de ser judeu interferia nas relações públicas, com outros. Religião e Política não se separam. Desde a comida, o modo de comer, realizar trabalhos, economizar dinheiro, a própria relação com o dinheiro e como comércio, o casamento, as disputas sociais, a guerra… Tudo envolvido e alterado pela aparente casca: por realizar ritos superficiais, sem tanta “importância”, particulares. Ser judeu o constituía. Em tudo o que se envolvesse, sua constituição, sua história, tradição, cultura estaria presente. Mesmo que não trouxesse suas crenças ou ritos para o ambiente “público”, suas decisões dependeriam de seu passado, sua bagagem, do que aprendera enquanto judeu. Mais que isso, seria visto pelos outros como judeu e sempre como judeu. Da sina Daniel não escapava. Publicamente era judeu…

“Publicano” era o cobrador de impostos do Império Romano. O público era o imposto. A Res-pública era a “coisa” formada e dependente do público, dos recursos de todas as pessoas. Nas histórias bíblicas do Novo Testamento vemos os publicanos sendo odiados. Pessoas consideradas nojentas, ambiciosas, avarentas, corruptas, ladras que abusavam dos impostos, cobrando uma sobre-taxa para conseguir enviar ao Império  o que era devido e tomar para si um tantinho… Não era necessário ser romano para cobrar impostos; era um cargo, apenas. Na Bíblia, vemos judeus publicanos odiados pelos demais judeus. No ambiente público, os judeus odiavam os publicanos por serem publicanos, mesmo sendo da mesma religião. Mais uma vez religião e política no espaço público altera as relações. Quando Jesus vai à casa de um publicano judeu chamado Zaqueu, os outros ficam enfurecidos. Como pode um judeu visitar um publicano? O fato de Zaqueu ser judeu é apagado quando ele assume o cargo de publicano, pois a religião (teoricamente) proibia a corrupção e a avareza – temos aqui um paradoxo frente à fama e às piadas anti-semitas sobre a relação entre judeus e dinheiro.  Por outro lado, quando perguntam a Jesus se era correto pagar o imposto, o público, à César, ele responde olhando para uma moeda com o rosto do imperador cunhado que “pague-se a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Em outras palavras: devolve a moeda pra ele e fique com o resto…

Política e religião, o público em questão… Não estamos falando de qualquer coisinha… Precisamos encontrar e desvendar esta Bíblia Política para conseguir criticar, conversar, caminhar, constituir um novo espaço. César, por exemplo, era o filho dos deuses, por isso adorado e proclamado como Imperador. O fato de ser Imperador o garantia a filialidade divina e o ser divino era o que legitimava sua função de Imperador. Quando um Jesus da periferia de uma cidadezinha qualquer de uma terra abandonada por Deus chamada Palestina diz que é filho de Deus e que os que estão com ele são seus irmãos, o que está implícito é: somos iguais à César. Não é só a religião que está sendo tocada! É tudo; e como aprendi com um adolescente na comunidade religiosa da qual faço parte: “tudo é política”.

Na comunidade religiosa que participo, propusemos alguns encontros com adolescentes para ler e estudar a Bíblia. Acabamos lendo em nossas últimas conversas um livro que poucos “adultos” e raríssimos “pastores”  leem: o livro do profeta Miquéias. Logo nos primeiros dias a respeito do que tinha percebido na leitura do texto vem a frase: “tudo é política!”. Não precisou de muito esforço  para perceber no “ouçam, governantes de Israel: vocês deveriam conhecer a justiça! Mas odeiam o bem e amam o mal; arrancam a pele do meu povo e a carne dos seus ossos” , uma denúncia política. Nessa altura a primeira pergunta que me veio foi: “ok. Mas o que você quer dizer dizer com ‘tudo é política’?”. Como poderia a política permear e participar desse “tudo”? Até da religião ela participaria? Mas isso não seria um dos problemas de nosso Estado brasileiro, hoje?

A resposta foi em grupo. Primeiro “até a comida que a gente come é política. Ela tem taxa de impostos, processo de produção e distribuição, leis que delimitam preços, higiene, validade…”. Depois veio um: “se os processos respeitam uma hierarquia, é um acontecimento político”. E por fim: “se há o poder em questão, é política”. Processos, hierarquia e poder: nisso estaria o “tudo é política”. Para lacrar esta construção rica de conceitos veio um tradicional “Aristóteles disse que o homem é um animal político“.

Se somos a bendita vontade-de-poder de Nietzsche e Schopenhauer, onde há humanos, há poder. Há poder? Então há política. Existem hierarquias, estruturas e processos. Quando um adolescente diz numa igreja que a comida que temos em casa também “é política”, ele está botando para dentro das paredes religiosas a crítica político-econômica marxista: os processos de produção, troca e distribuição d’O Capital. Se falamos de uma crítica aos governantes que arrancam a pele do povo, estamos colocando denúncias de Rousseau, do próprio Marx, de Bolívar, temas de Maquiavel, Aristóteles, Platão, Dussel, Zizek, Marcuse, Agamben, Mujica… Estamos trabalhando um processo de formação política crítica. Não separando religião e política, mas a partir da religião que constitui pessoas, comunidades, povos. Inclusive povos sem terra…

Assim, nesse clima de conversa com adolescentes, sabendo de Marx, de política e em busca de justiça, pretendo em janeiro construir um pequeno estudo aqui no Entre Nós. A cada semana um texto-comentário a Miquéias. Espero que seja útil. Dúvidas, propostas, críticas e tudo mais são mais que bem-vindas e muito bem aceitas. Nesse exercício, sairemos em busca da Bíblia Política. Na contra-mão de conservadores e de progressistas, de ortodoxos e de liberais, de ateus e de religiosos, trabalharemos sim política e religião. Marx já ensinou que a crítica teológica é a primeira crítica política. Esse caminho pode transformar nossas estruturas atuais. Se um bando de cretinos religiosos ocupa hoje os cargos políticos de nosso país, é porque os justos se distanciaram. Igrejas são instituições que formam pessoas. Se formadores políticos a abandonam, alguém fará o serviço. “Igreja vazia, oficina do diabo” – digamos assim. Se os verdadeiros pastores vão embora, os lobos tomam conta.

 

 

Bruno Reikdal Lima

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