A Bíblia Política: primeira parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8A partir de conversas com adolescentes, num Encontro de Estudo Bíblico, surgiu a ideia de escrever textos-comentário ao livro de Miquéias – de tradição profética milenar. Como comentei em outro post, é a busca pela Bíblia Política. A formação política de cidadãos politizados não se restringe à preparação para eleições e utilização de uma urna. Devem ser envolvidas nesse projeto todas as instituições: civis e governamentais. Igrejas são lugares de formação política e social de pessoas. As tradições constituem e determinam as atuações todos os campos – familiar, pedagógico, político, econômico, etc. Não podemos rejeitar ou ignorar este fato. Se nós religiosos que crítica e honestamente desejamos um país melhor não nos engajarmos no processo de formação e discussão política, algum cretino o fará. Se os verdadeiros pastores vão embora, os lobos fazem a festa (olhem para o Congresso atual…)

Este texto-comentário ao livro de Miquéias está dividido em 4 partes. Serão lidos trechos dos capítulos 1 e 2 do livro. Críticas, dúvidas, comentários e propostas são mais que bem-vindas! As quatro subdivisões do texto foram: 1. Tempo e Lugar (comentaremos que a profecia tem data, local e destinatários determinados); 2. Catástrofes como símbolo da acusação (indicaremos que os acontecimentos históricos são utilizados como símbolo do que acontece comumente nas relações político-sociais); 3. Quem há de sofrer (a descrição geral dos acusados pelo profeta em nome do Senhor); e 4. Quem é o profeta e o que é profecia? (respondendo sem responder, abriremos espaço para pensarmos o papel do profeta e o que ele está fazendo em seu tempo). Espero que seja útil:

TEMPO E LUGAR: “A palavra do Senhor que veio a Miquéias, de Moresete, durante o período dos reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá. Esta é a visão que ele teve a respeito de Samaria e de Jerusalém” (Miquéias 1: 1)

A gente precisa arrumar a cabeça para ler os textos antigos. Se para nós são sagrados, então, devemos ter um cuidado mais especial: deixar que ele nos diga alguma coisa, e não nós o obriguemos a dizer o que queremos ouvir. É muito comum, por exemplo, pensarmos que profecia é uma previsão bagunçada e enigmática sobre um futuro distante e perdido. Bem, até pode acontecer. Mas isso não é profecia: é vidência, visão, adivinhação…

O livro de Miquéias determina o lugar, a data e o para quem o profeta está se dirigindo. Em Judá, no período dos reis Jotão, Acaz e Ezequias. A visão que o profeta teve tinha endereço certo: Samaria e Jerusalém de  seu tempo. Em 2 Reis do capítulo 15 ao 17, descobrimos quem são estes reis Jotão, Acaz e Ezequias. Todos eles foram “péssimos” reis: tiveram um período curto de governo, em um país corrompido e que acabou por ser, no final desta sequência real, invadido e destruído pelos assírios – tendo como resultado o exílio do povo. O que a abertura do livro de Miquéias nos indica é que sua profecia não falará de um futuro distante ou de enigmas indecifráveis, mas daquilo que estava acontecendo em Samaria e em Jerusalém durante o reinado destes senhores.

CATÁSTROFES COMO SÍMBOLO DA ACUSAÇÃO: “Ouçam todos os povos; oh, terra e todos os que nela habitam! Que o Senhor, o Soberano, do seu santo templo testemunhe contra vocês. Vejam! O Senhor está saindo de sua casa: Ele desce e pisa nos lugares altos da terra; as montanhas se derretem como cera sob o efeito do fogo. E os vales se racham no meio como se fossem rasgados pelas águas que descem velozmente pela encosta. Tudo por causa da transgressão de Jacó, dos pecados da nação de Israel. E qual é a transgressão de Jacó? Por um acaso não é a cidade de Samaria? Qual é o altar idólatra de Judá?Por acaso não é a cidade de Jerusalém?

Por isso farei de Samaria um monte de entulho num campo aberto, um lugar para se plantar vinhas. Atirarei suas pedras no vale e porei para fora seus alicerces. Todas as suas imagens esculpidas serão despedaçadas e todos os seus ganhos imorais serão queimados. Destruirei todos os seus símbolos! Visto que o que ela juntou foi com ganho de prostituição, como salário de prostituição a ser utilizado […] Raspem a cabeça em pranto por causa dos filhos nos quais tanto se alegram. Fiquem calvos como uma águia, porque eles serão tirados de vocês e levados para o exílio” (Miquéias 1: 2 – 15)

O profeta utiliza das catástrofes como símbolo, como retrato da ferida de Samaria e Jerusalém nos tempos daqueles reis. Ao que parece, o Senhor está descendo para pôr fim ao que está errado, corrompido. Nos versículos que saltamos, todas as cidades são acusadas de transgressões e erros. Algo nas cidades está errado e precisa ser reparado. O que temos, por enquanto, é que seus ganhos, aquilo que as cidades possuem, são ganhos “imorais”. Se isso significa corrupção, abuso, opressão, roubo… Não sabemos. O que sabemos é que há uma ferida exposta e que por causa dela algo terrível vai acontecer.

Podemos supor, por exemplo, que no período tenha havido em algum lugar uma erupção vulcânica, um terremoto ou um desbarrancamento muito grave. A imagem do Senhor vindo dos céus (acreditava-se que era lá a habitação de Deus) e trazendo das montanhas a desgraça, como “cera derretendo” e “o chão se partindo” é utilizada como sinal de que há algo errado por aqui – em Samaria e Jerusalém. Seria como utilizarmos o desastre de Mariana-MG em 2015 como símbolo da falência corrupta de nossa política, como a sinal da exposição de nossa ferida de corrupção e tudo de doentio e maléfico que ela traz consigo.

QUEM HÁ DE SOFRER: “Ai daqueles que planejam a maldade! Destes que tramam o mal em suas camas! Quando o sol nasce, eles o executam, porque isso eles podem fazer. Cobiçam casas e as tomam. Violentam o homem e à sua família; a ele e aos seus herdeiros. Portanto, assim diz o Senhor: ‘Estou planejando contra essa gente uma desgraça da qual não poderão se livrar. Vocês não vão mais andar com arrogâncias, pois será tempo de desgraça. Naquele dia vocês serão ridicularizados; zombarão de vocês cantando esta  canção deprimente: Estamos totalmente arruinados; dividida foi a propriedade dos nossos. Ele a tirou de mim! Entregou aos invasores nossas terras. Portanto, vocês não estarão na assembleia do Senhor para a divisão da terra por sorteio” (Miquéias 2: 1 – 5)

Há tempo determinado, há lugar específico e as imagens das catástrofes são símbolos do mal que há em Samaria e Jerusalém. Mas quem são os que sofrerão com a descida do Senhor de sua casa para ? Todos devem temer e estar preocupados?  Não… Acho que não! “Ai daqueles que planejam a maldade”. Os maus, os que planejam o mal, são os condenáveis. São culpáveis os que quando cobiçam uma casa, a tomam para si. São culpáveis os que violentam um homem e sua família, seus herdeiros. São culpáveis os que tomam de outro para si mesmos! Estes sofrerão com a invasão, perderão suas terras  e seus poderes. Serão esculachados por outros; A “canção deprimente” conta que terão suas terras divididas; e que no dia da redistribuição das terras pelo Senhor, não terão direito de participar da assembleia…

Fica implícita uma questão: estes que serão punidos já possuem casas e terras e cobiçam mais. São os que proporcionam os ganhos imorais para a cidade. Provavelmente são poderosos que utilizam do poder para conquistar. A predição do profeta é que estes serão em breve conquistados; e tudo aquilo que tinham juntado até então, será espalhado, derretido, destruído e rachado pelo Senhor. A terra será sorteada, redistribuída. Há no fundo um detalhe de posse e distribuição. Temos um quadro político-econômico-social se desenhando. Não é a toa que estão indicadas as cidades e os reis denunciados pelo profeta. “Política”, traduzindo do grego, é “o que acontece na cidade”. Temos aqui cidades que possuem uma ferida; políticos (participantes da cidade) envolvidos diretamente com este mal. Afinal, se o profeta é um religioso, o que quer, então, com esta profecia que mais se parece com uma denúncia política, ou seja, contra a cidade?

QUEM É O PROFETA E O QUE É PROFECIA? “‘Não preguem!’ – dizem seus profetas -‘Não preguem sobre essas coisas! A desgraça de maneira nenhuma nos alcançará’. Preste atenção, descendência de Jacó! É isto que estão dizendo: ‘Por acaso o Espírito do Senhor perdeu a paciência? É assim que ele age?’. Eu digo: ‘As minhas palavras fazem bem àquele cujos caminhos são retos. Mas, ultimamente, como inimigos, vocês, falsos, atacam o meu povo! Além da túnica, arrancam a capa dos que passam confiantes como quem volta da guerra. Vocês tiram as mulheres do meu povo de seus lares seguros. De seus filhos vocês removem a minha dignidade para sempre! Levantem-se e vão embora! Pois este não é o lugar de descanso; ele está contaminado e arruinado, sem que haja remédio… Se um mentiroso e enganador vier e disser: ‘eu pregarei para vocês fartura de vinho e de bebida fermentada’, ele será seu profeta!” (Miquéias 2: 6 – 11)

Por fim, nesta primeira parte do comentário a Miquéias, descobrimos o que o profeta não veio fazer: dar tapinhas nas costas e sorrir conivente com a situação de maldade que há nas cidades no período daqueles reis. Há a indicação de profetas falsos, que temem expor a verdade e colocar em questão a maldade que constitui estas cidades, a “política” em sentido amplo. Poderosos se apoderando, enquanto que profetas de “bom-agouro” se aproveitam. Ao que parece, se um mentiroso aparecer concordando com o que está aí, este será bem vindo. Por outro lado, fica implícita a ideia de que a mensagem de Miquéias, por sua vez, por ser dura e apontar a calamidade que está acontecendo e que vai acontecer, é rejeitada. Quando o profeta adverte que sua mensagem é boa apenas àqueles que trilham pelo caminho correto, indica que estes que praticam a maldade, que fundam a cidade com ganhos imorais e violência, não gostam de suas palavras.

Assim, o verdadeiro profeta, Miquéias, não fala o que convém, mas o que é verdadeiro, necessário. Sua revelação não se dirige para um futuro distante e perdido, mas para seus contemporâneos: os que praticam a maldade e as cidades doentes, corrompidas, em que seu povo vive. Falsos profetas enviam mensagens ilusórias de que tudo está bem, desviando a atenção dos problemas verdadeiros, agradando aos poderosos e ludibriando aqueles que não se firmam nos caminhos retos. Aos poucos, sem pressa, encontramos indicações de cidades problemáticas, corrompidas (uma pólis ruim) e profetas falsos, mentirosos, também corrompidos que se aproveitam do estado de corrupção vigente. Percebemos que o que Miquéias faz é denunciar o que está errado, apontando para as consequências dessa postura corrupta, desta cidade corrompida. Uma das funções do profeta é denunciar…

Como escreveu o pedagogo Paulo Freire:  “Somente podem ser proféticos os que anunciam e denunciam, comprometidos permanentemente num processo radical de transformação do mundo…”

 

 

 

II Encontro de Estudo Bíblico Adolas Betesda e Bruno Reikdal Lima

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