A Bíblia Política: terceira parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Em nosso terceiro texto-comentário a Miquéias, descobriremos que existem duas funções da profecia: denunciar (a corrupção e injustiça) e anunciar (a utopia). Na busca pela Bíblia Política, veremos que só é possível denunciar o que está errado quando tomamos uma posição “exterior” ao sistema vigente (seja político, econômico ou social). Quando conseguimos sonhar com um lugar que não é aqui, com o “sem-lugar”, ou seja, com a utopia, é que somos capazes de lutar contra as estruturas doentias em que vivemos. Como Paulo Freire escreveu: “o utópico não é o irrealizável […] é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico”

Assim, nosso comentário está dividido em 4 partes: 1. O anúncio (que veremos o sentido e significado de utopia); 2. A utopia (veremos que uma das manifestações da corrupção das instituições é a guerra, o que indica que elas precisam ser transformadas); 3. Do macro ao micro (da guerra entre nações, de instâncias distantes, Miquéias mergulha na violência do dia-a-dia); 4. Convivência religiosa e o perdão (não há exclusão na utopia e nem abandono das instituições; há é a afirmação de nossa postura e a necessidade de se transformar os governos e as lideranças). Espero que seja útil   😉

O ANÚNCIO

“Nos últimos dias, acontecerá que o monte do templo do Senhor será estabelecido como monte principal, elevado acima das colinas, e os povos irão para lá buscar refúgio. Muitas nações irão dizendo: ‘Venham! Vamos subir o monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó! Ele nos ensinará os seus caminhos para que andemos em suas veredas’ – pois a lei virá de Sião e a palavra do Senhor de Jerusalém.” (Miquéias 4:1-2a)

Em nosso último comentário, vimos a corrupção generalizada em Sião e em Jerusalém. Os governantes, os juízes, os sacerdotes e os profetas corrompidos, sujos, responsáveis e culpados pelas desgraças das cidades.  Miquéias faz uma crítica política pesada: denuncia o uso indevido do poder e as estruturas opressoras que esmagavam o povo. Como vimos, Sião estava sendo construída com derramamento de sangue e Jerusalém com impunidade.

Miquéias exerceu sua profecia de denúncia: apontou o erro que precisava ser corrigido nas instituições e nas formações sociais. Entretanto, neste momento de nossa leitura, nos deparamos com uma “pausa”: o ritmo, o tempo e o lugar mudam abruptamente de característica. Com a indicação “nos últimos dias”, Miquéias nos desloca do tempo dos reis Acaz, Jotão e Ezequias, e nos arremessa para um tipo de “futuro”. Ao mesmo tempo, saímos das cidades corruptas de Sião e Jerusalém e nos encontramos, agora, no “monte do templo do Senhor”, que há de ser erguido. Do clima de denúncia, seguimos para o anúncio…

O tempo da corrupção é denunciado, enquanto que o “tempo do templo do Senhor” é anunciado. A Sião e a Jerusalém da denúncia dependiam de sangue e impiedade; mas no anúncio, descobrimos que Sião será uma cidade “da lei”, e Jerusalém uma cidade “de onde vem a palavra do Senhor”. Miquéias anuncia uma utopia. Utopia é, numa tradução ao pé da letra, o “sem-lugar”; é o lugar que não tem lugar. Sião e Jerusalém, no tempo do anúncio, deixam de ser aquelas cidades que Miquéias está vendo em sua frente, naquele momento e lugar, e passam a ser cidades “sem-lugar”, utópicas: uma Terra Prometida.

Assim como o termo “povo” em nosso comentário anterior, a palavra “utopia” precisa de um conteúdo preciso, senão fica vazia de sentido e significado. Paul Ricoeur escreve que o “sem-lugar”, a utopia, talvez seja “uma estrutura fundamental da reflexividade pela qual podemos captar nossos papéis sociais, poder conceber assim um lugar vazio onde podemos refletir sobre nós mesmos”, e completa que “é preciso notar o benefício desse território. Desse não-lugar, uma réstia de luz é lançada sobre a nossa própria realidade, que de súbito se torna estranha […] A utopia permite variações imaginárias em torno de questões como a sociedade, o poder, o governo, a família, a religião. O ponto de vista de lugar nenhum permite colocar o sistema cultural a distância; nós o vemos do exterior, precisamente por causa desse ‘lugar nenhum’”.

Se tomarmos essa ideia de utopia, o anúncio de Miquéias não se torna exatamente esse exercício de contestação da ordem social corrupta a partir de um “outro mundo”? Ao ver e anunciar o tempo do templo do Senhor, Miquéias mostra como Sião e Jerusalém deveriam ser: cidades construídas na lei e na Palavra do Senhor, sem corrupção…

A UTOPIA

“Ele julgará entre muitos povos e resolverá os conflitos entre nações poderosas e distantes. De suas espadas, elas farão arados, e de suas lanças farão foices. Nenhuma nação erguerá a espada contra a outra, e não aprenderão mais a guerra.” (Miquéias 4: 2b-3)

O monte do templo do Senhor é a utopia, o lugar sem-lugar. A partir dele, o profeta consegue vislumbrar causas da corrupção e da destruição das cidades que estão em sua frente. O monte será, no anúncio do profeta, o lugar de paz, a partir de onde a paz será estabelecida. O Senhor julgará os povos e resolverá seus conflitos. As nações irão para lá para solucionar problemas. Da guerra, nasceria nesses dias um tempo de paz.

A utopia do profeta começa com a indicação de uma das causas da corrupção: a guerra. Miquéias cria uma metáfora linda: as espadas se tornarão arados e as lanças foices. Ou seja: a luta entre os povos será substituída por mútua ajuda. Não serão feitas armas, mas instrumentos que produzem alimentos. A denúncia está contida e implícita no anúncio da utopia: se os esforços dos governantes fossem para produzir alimento, por construir instrumentos instituições que produzem vida ao invés de matar, não haveria guerra e a vida seria multiplicada.

DO MACRO AO MICRO

“Todo homem poderá se sentar debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira e ninguém o incomodará, pois assim falou o Senhor dos Exércitos”. (Miquéias 4:4)

A utopia de Miquéias não se resume à crítica distante, de instituições grandes, de um sistema inalcançável: das nações poderosas que guerreiam. Desta visão ampla, o profeta nos guia para um quadro pequeno: um homem sentado sob a sombra de uma árvore sem medo de ser atacado por outro homem. Das questões de nações, o profeta mergulha nos problemas entre conterrâneos, irmãos, cidadãos. Na utopia, no tempo em que se erguerá o monte do templo do Senhor, a violência nas cidades será suprimida. Não haverá o desejo por tomar do outro homem aquilo que não lhe pertence, de violentar o outro indivíduo – crítica que Miquéias tinha feito ao desejo dos governantes de tomar as casas que não lhes pertenciam.

Com uma ironia magnífica, Miquéias expõe uma contradição em seu anúncio: não haverá guerra e nem violência, pois assim foi dito pelo “Senhor dos Exércitos”. A malandragem do profeta consiste em expor duas coisas: 1. Até o Senhor dos Exércitos não quer guerra; 2. A possibilidade de Deus não ser Deus de guerra. Ironicamente, Miquéias aponta que chamar Deus de Senhor dos Exércitos não significa clamar uma “guerra santa”, mas, ao contrário, viver pela Paz: pois o Senhor dos Exércitos, o verdadeiro Senhor dos Exércitos, declarou a paz e é contra a guerra. Ele troca espadas por arados e lanças por foices. O exército do Senhor é um exército de camponeses que produzem vida, não de soldados que praticam a violência.

CONVIVÊNCIA RELIGIOSA E PERDÃO

“Pois todas as nações andam cada uma em nome dos seus deuses, mas nós andaremos em nome do Senhor, o nosso Deus, para todo o sempre. ‘Naquele dia’, declara o Senhor, ‘ajuntarei os que tropeçam e reunirei os dispersos – aqueles a quem afligi. Farei dos que tropeçam um remanescente e dos dispersos uma nação forte. O senhor reinará sobre eles no monte Sião daquele dia em diante, para sempre.” (Miquéias 4: 5-7)

No anúncio de Miquéias, vemos que a motivação de sonharem com esta utopia, de manterem acesa a lei e a Palavra do Senhor não vem do desejo de atacar ou destruir os outros – não é prática de guerra –, mas simplesmente pela própria fidelidade comum e popular. Fica no anúncio do profeta que cada um anda em nome de seu Deus, vai ao monte do Senhor tentando seguir seus próprios caminhos, mas nós, que nos consideramos do mesmo povo e lemos estas palavras do profeta, andamos em nome do Senhor. Não são excluídos os outros, mas reafirmados nós, enquanto povo. E, implicitamente, faz parte deste povo quem ler ou ouvir as palavras do profeta e se identificar com o que está acontecendo, sendo dito, anunciado.

A declaração de paz e o sonho com um lugar sem-lugar, a denúncia às estruturas de poder corrompidas, não está acompanhada do abandono de um sistema político e das instituições, mas de suas transformações. Assim como a aceitação dos outros que não são fiéis ao Senhor, que não está conectada a um abandono da religião. O que está requerida é a transformação de Sião e de Jerusalém! O governo, o sacerdócio, as profecias e os juízes precisam ser transformados, não rejeitados. Miquéias, então, anuncia o perdão do Senhor: ele ajuntará os que tropeçaram e pagaram por sua corrupção e tornara a reorganizar a cidade. Não serão destruídas as estruturas de governo, mas refeitas: delas, reorganizadas, reconstituídas depois de dispersas, será erguida uma “nação forte”, que será reinada pelo Senhor para sempre…

 

 

 

II Encontro de Estudo Bíblico Adolas Betesda e Bruno Reikdal Lima

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