A Bíblia Política: penúltima parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Nossa busca pela Bíblia política chega ao penúltimo passo. Em 5 partes, fizemos uma leitura comunitária que nos possibilitou produções muito ricas e diferentes das tradicionais. O próprio exercício pedagógico, o modo como realizamos os encontros e as interpretações, é revolucionário por si só: a participação ativa e contínua de todos os leitores, com contribuições críticas e abertura das possibilidades que surgem em cada trecho, supera a relação especialista-leigo, líder-massa. É uma experiência democrática. Isso requer que analisemos o que aconteceu para tentarmos reproduzir, de algum modo, e transmitir esta experiência para outros – ou seja: teorizar. Mas, neste momento, faremos nossa última interpretação do texto de Miqueias propriamente, deixando para o próximo uma avaliação crítica do que aconteceu

Assim, nosso penúltimo comentário está dividido em 3 partes: 1. Retorno ao necessário possível (depois de colocada a utopia como um momento metodológico do pensar no trecho anterior, Miqueias retoma a necessidade de se organizar para solucionar os problemas atuais, que estão acontecendo); 2. Plano de luta (veremos a arquitetação de um plano estratégico para superar a opressão realizada pelos líderes corruptos); 3. Resposta aos que questionam a luta (como se houvesse quem discordasse da necessidade de se colocar contra a corrupção e opressão, Miqueias lança mão da Palavra do Senhor, que traz a tona a memória do povo, em sua vida e processo de libertação, em todas as histórias em que foram escravos e, com a luta, puderam se libertar).

RETORNO AO NECESSÁRIO POSSÍVEL

“Agora, porque  gritar tão alto? Você não tem rei? Morreu seu conselheiro para que tua dor seja tão forte quanto a de uma mulher em trabalho de parto? Se contorça em agonia, povo da cidade de Sião, como uma mulher em trabalho de parto, porque agora terá que deixar seus muros para habitar em campo aberto. Você irá para a Babilônia e lá será libertada. Lá o Senhor a resgatará da mão dos seus inimigos. Mas agora muitas nações estão contra você. Elas dizem: ‘Que sião seja profanada e que isso aconteça agora, diante de nossos olhos!’. Mas elas não conhecem os pensamentos do Senhor; não compreendem o plano daquele que as ajunta como feixes para serem colhidas […] Reúna as tropas, cidade murada! Há um cerco contra nós. O líder de Israel será ferido no rosto com uma vara” [Miqueias 4:9 – 5:1]

Em nosso comentário anterior, vimos que Miqueias utilizou do método utópico: vislumbrou como deveria ser o mundo – sem corrupção e violência, plural e produtivo. Miqueias não faz desse modelo um “horizonte” ou “alvo”, mas uma possibilidade que nos ajuda a reconhecer o que está errado “por aqui”. Ele toma posição de um não-lugar para reconhecer as falhas de seu lugar. Este método utópico ou a utilização da utopia como passo metodológico para um “plano estratégico”, segue para o trecho acima, no qual o profeta levanta a cabeça e olha em volta: a cidade está sofrendo, as lideranças são frágeis e inimigos estão a espreita.

Miqueias percebe que Sião não resistirá ao ataque: está corrompida e corroída por dentro. Assumindo a impossibilidade de “vencer esta batalha”, estrategicamente para a libertação do povo (não de um ou outro escolhido, mas do Povo – para saber o que significa esta palavra, dê uma olhada no nosso segundo comentário), Miqueias propõe que a cidade deva ser deixada; terão que largar a segurança do monte par ao campo aberto. Serão levados para a Babilônia. A crise, o  sofrimento de ter que reconhecer a fraqueza e honestamente assumir a fragilidade e a impossibilidade de se lutar contra tudo e todos ao mesmo tempo, não é um problema, mas um acontecimento. Para certos “fins”, acontecimentos imediatos, não se tem o que fazer. Então, no plano de luta de Miqueias, o combate direto é impossível, pois é necessário reconhecer que não temos o que fazer: teremos que largar mão da segurança e mergulhar na crise; mas juntos, como povo.

A crise é aceita e as fraquezas internas também. A “cidade utópica” não foi esquecida e nem é o horizonte a ser alcançado. Miqueias deseja alcançar a libertação do povo, apenas. O Povo é um sonho maior que a cidade. A Sião e a Jerusalém como Terra Prometida possibilitaram reconhecer que a cidade em que estão é fraca, corrompida e doente. Teremos que sair… Este é o plano!

PLANO DE LUTA POSSÍVEL

“Mas você, Belém-Efrata, mesmo sendo a menor entre os governantes de Judá, de você virá para mim aquele que será o governante de Israel. Suas origens estão no passado distante, desde a eternidade. Por isso os israelitas serão abandonados; até que aquela que está em trabalho de parto dê à luz. Então o restante dos irmãos do governante voltará para se unir aos israelitas. Ele se estabelecerá e os pastoreará na força do senhor, na majestade do nome do Senhor – o seu Deus. E eles viverão em segurança, pois a grandeza dele chegará até os confins da terra. Ele será a sua paz. Quando os inimigos, então, invadirem nossa terra e marcharem sobre as nossas fortalezas, levantaremos contra eles sete pastores, até oito líderes escolhidos […] O remanescente de Jacó estará no meio de muitos povos como orvalho da parte do Senhor, como água sobre a relva: não porá sua esperança no homem e nem dependerá dele […] ‘Naquele dia, declara o Senhor, matarei os cavalos e destruirei  os carros de guerra. Destruirei também suas cidades com suas fortalezas. Acabarei com a feitiçaria e vocês não farão mais adivinhações. Destruirei as suas imagens esculpidas e as suas colunas sagradas; vocês não se curvarão mais diante da obra de suas mãos. Desagregarei do meio de vocês os ídolos sagrados e derrubarei os fetiches. Com ira e indignação me vingarei das nações que não me obedeceram’.” [Miqueias 5:2 – 15]

No plano de luta necessário possível, uma surpresa: de uma cidade pequena, de periferia, abandonada, virá a nova liderança. Este texto foi lido por anos como profecia da “vinda de Jesus”; e é uma leitura possível e também inspiradora. Mas, em nosso exercício, estamos trabalhando desde o primeiro comentário como um texto dirigido a um tempo determinado e um lugar determinado. Assim, Miqueias está observando o que está acontecendo ali e desenvolvendo seu plano a partir de sua realidade concreta. Deste modo, percebe que para o nascimento e para a libertação do povo, o líder futuro terá que vir da periferia, dos “esquecidos”, excluídos. A partir dele o povo se reorganizará e as lideranças rearranjarão a cidade, os exércitos. Superarão as corrupções internas e suportarão as invasões externas. Será tempo de paz.

A estratégia depende do passo utópico e do reconhecimento dos limites e fraquezas.  Depende da fundação de um povo e do firmamento na Palavra do Senhor. Ao clamar a destruição das cidades fortificadas inimigas e dos ídolos sagrados e fetiches, o profeta denuncia o modo de governar das cidades “inimigas”. O problema de Sião e Jerusalém é que tinham se corrompido, como as outras cidades de outras nações. É uma crítica e denúncia teológico-política.

RESPOSTA AOS QUE QUESTIONAM A LUTA

“Ouçam o que diz o Senhor: ‘Fique em pé e defenda sua causa: que os montes ouçam o que você tem para dizer. Ouçam, montes! Esta é a acusação do Senhor; escutem, fundamentos eternos da terra, pois o Senhor tem uma acusação contra sua nação; ele está entrando em juízo contra Israel. ‘Minha gente, o que fiz contra você? Fui exigente? Me respondam! Eu tirei você do Egito e o redimi da terra da escravidão: enviei Moisés, Arão e Miriã para conduzir você. Minha gente, lembre-se do que Balaque, rei de Moabe, pediu e do que Balaão, filho de Beor, respondeu. Recorde a viagem que você fez desde Sitim  até Gilgal e reconheça que os atos do Senhor são justos’.” [Miqueias 6:1 – 5]

Ao apresentar seu plano, parece que Miqueias encontrou resistência. Porque lutar assim? Ou somente um porque ou para que lutar? Um misto de desistência e resistência, talvez. De qualquer modo, o profeta lança mão da Palavra do Senhor e da memória do povo de Israel, de sua História. Por vezes foram escravos, por vezes foram libertos; por vezes caíram, por vezes se levantaram. Assim, retomando a libertação do Egito e alguns eventos que a sucederam, Miqueias apela à vocação do podo de se libertar, de lutar de um modo próprio.

É interessante que Miqueias não menciona apenas “Moisés” como o libertador; ele traz a figura de seu irmão Arão e de sua irmã Miriã. Moisés não fez sozinho, como o príncipe do Egito ou chefe da nação: dependeu de um escravo hebreu (Arão) e de uma mulher escrava (Miriã). Lindo! Sensacional! De um paradigma tradicionalmente entendido como machista e classista, encontramos em nossa Bíblia Política a participação ativa de uma irmandade, de escravos e de uma mulher. Convocar o nome de Miriã não é sem propósito: de uma cidade pequena, da periferia, dos excluídos, virá a nova governança, o povo renovado. Isso está na História do povo de Israel! Por isso devem lutar! É a constituição do verdadeiro povo, de sua vocação. É necessário resgatar sua História; que depende de pequenos, oprimidos, excluídos que se tornaram libertadores em tempos de crise.

Por fim, fica a indicação de que outro motivo da luta, do porque lutar, virá da acusação do Senhor à nação de Israel. Assim, do passo utópico, do anúncio de uma cidade justa, retornamos ao necessário, ao nosso lugar, agora com um plano estratégico de luta: concreto, real, fundado na História do povo.

 

 

II Encontro de Estudos Bíblicos Adolescentes Betesda e Bruno

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s