Ele vem e intervem!

herege_joao_hus_concilio_constancaTrabalhar com teologia e filosofia política é sempre um problema. Acabamos sendo criticados tanto por liberais quanto por conservadores. No fundo, as duas correntes estão presas ao mesmo poste: não se deve misturar “as coisas” – como se houvesse um puro espaço sem teologia e um puro espaço sem política. Uma ilusão, ou melhor, uma ideia fetichizada que se torna dogma: um chavão pronto que evita nos colocar em situações complexas que requerem trabalho duro. Mas ao mesmo tempo ninguém se arrisca a dizer isso lendo Platão, Hobbes, Rousseau, Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Vattimo, Sloterdijk… Todos utilizam da teologia para desenvolver suas teorias políticas. Nos termos de Marx, a crítica teológica é a primeira crítica política!

Carl Schimdt tenta mostrar em seu comentário ao pensamento de Hobbes que as estruturas da teoria política moderna são teológicas. Em sua análise a conclusão é esta: o Estado Moderno depende de uma teologia forte. Isso indica (ou deveria indicar) que mesmo com a ideia fetichizada de que “as coisas não devem ser misturadas”, elas efetivamente são misturadas – principalmente pelos “papas” da filosofia política. Nesse caminho, animado por encontros de estudo bíblico com adolescentes na comunidade religiosa que participo, pretendo trabalhar uma questão teológica “clássica” que foi resgatada recentemente de um modo um pouco mais empobrecido para expor uma insuficiência política – tanto das instituições religiosas quanto nas laicas. Contarei um tanto da minha própria história, pois vivenciei de perto o debate empobrecido sobre a intervenção de Deus na História.

Em 2004, quando houve o Tsunami na região do Oceano índico, um debate surgiu sobre a intervenção e a não intervenção de Deus nos acontecimentos da História. Uma parte impactada pelo desastre levantou a bandeira de que Deus não poderia ter relação com aquele acontecimento. A outra, preocupada com a tradição e, mais que isso, com as consequências de se tirar Deus do controle da História, colocou em pauta o dogma da Soberania de Deus. Lembro que em trocas de textos na internet se destacaram Ricardo Gondim (do lado da não intervenção) e Augustus Nicodemus (do lado da intervenção). De qualquer modo, em minha comunidade, tomei na época posição junto aos não-intervencionistas – digamos assim. O problema é que se “não-intervinha”, que fazemos agora? Em que teologia estamos firmados? Em que cremos?

E aqui começa o furdúncio. Me deparei de novo com esta questão no encontro de estudos bíblicos com os adolescentes da minha comunidade. São adolescentes, como eu era, só que, diferente do meu caso, eles não tomaram posição imediatamente. Abriram as duas hipóteses e a complexificaram: se Ele não intervem, o que fazemos com o Cristo? Se ele intervem, o faz em que medida e como? São bem mais espertos e fiéis do que eu era na idade deles…

O nosso problema na época foi tomar posição sem pensar e começar a acelerar, sem nunca olhar para trás e refletir, realmente, sobre o que nós estamos fazendo e no que nós, como comunidade, cremos. As respostas, poucas, quando tinham, eram individualizadas. Eis um problema: havia um debate, mas apenas havia tomada de posição, sem efetivamente um diálogo, uma construção coletiva. Não havia uma assembleia para a produção de teologia ou até troca de experiências de fé. Apenas a negação de que Deus intervinha na História. Havia argumentação, mas não crítica e nem diálogo produtivo. Operavam-se logicamente argumentos, mas não se produzia conteúdo. Assim, a questão não  saía de si mesma, pois:

I. Doutrina

O grupo dos não-intervencionistas procurava superar a doutrina; mas não sabia como e nem em que se firmar. Apenas negavam logicamente a intervenção divina. Então contas como “se Jesus é a Imagem e o Filho de Deus e Deus é amor, porque mataria pessoas?” eram realizadas e realmente deixavam os “opositores defensores da doutrina” de saia curta; mas não resolvia o problema e nem saciava a necessidade de pão que nós, como fiéis, temos. Muitas outras perguntas e estruturas lógicas eram feitas, mas nenhuma produtiva. Isso indicava algo importante: só é possível desenvolver uma argumentação se os dois que falam tem os mesmos pressupostos e estão no mesmo “chão”. Sem isso, não há conversa. Pois bem: o grupo não-intervencionista criticava a doutrina, mas não conseguiu superá-la: tinha os mesmos pressupostos!

II. Pressupostos

Como não houve reflexão, debate aberto, conversas produtivas e construções coletivas, os pressupostos foram mantidos e não percebidos. Tanto um grupo quanto outro não superaram um problema: “onde Deus está?”. Tanto para um quanto para outro (mesmo que neguem) trazem consigo a crença de que há fora da História um ser divino que olha “para cá”. Nesse sentido, uma das soluções dos não-intervencionistas era dizer que Deus interpela pelos e para os humanos, mas não intervem. Quer dizer, Ele está assistindo e “torcendo” pra gente, mas não faz nada. Outra frase-pronta como tentativa de produção era dizer que “Deus chora com a dor dos humanos” – mas também não faz nada. Se faz, já fez: enviou seu Filho ao mundo – Cristo. Mas aí travamos: o “enviou ao mundo” mantém o Deus que está lá e o mundo que está aqui.

Outro pressuposto que sustenta as duas correntes é o individualismo: um Deus individual que se revela ou chora ou interpela para indivíduos humanos. Egoistamente, a saída para Deus participar da vida humana era na vida do indivíduo humano, em suas experiências interiores, alegrias e momentos com o círculo de amigos e conhecidos. De um lado, o individualismo era ufanista: “sou salvo e Deus cuida da minha História!”; do outro, era depressivo: “Deus chora comigo e se apresenta nos momentos felizes que acontecem nos meus dias”. Mas os dois estão no mesmo chão. Se os pressupostos não são alterados, os significados daquilo que dizemos e cremos também se mantêm ou, no mais, ficam estéreis.

III. Processo de ressignificação

Era necessário um processo de ressignificação: aceitar as duas (ou mais possibilidades) e vasculhar o que está por trás de nossas crenças. Alterar isto renova o Espírito (em teologia) os laços comunitários (em política). O processo de ressignificação não dependia única e exclusivamente de uma argumentação lógica, mas da transformação das bases materiais – do motor duro e concreto da vida. A política das duas correntes religiosas estava em xeque e nenhuma percebia. Estava em cheque a organização produtiva da teologia e o modo como ela deve operar:

Manter a discussão longe de um debate aberto, de conversas francas, de um diálogo corajoso e efetivo, melhor, de uma assembléia não permite entendermos o que significa ou pode significar a intervenção ou não-intervenção de Deus na História. A fé religiosa reduzida à experiência individual denuncia esta falta de trabalho comunitário e a crença de que assim ela deve se manter. As estruturas tradicionais de um protestantismo caricato não foram mexidas: crê-se na salvação individual e no trabalho e propriedade privada. Seja Deus intervindo ou não-intervindo, somos egoístas mesmo: seja para procurar um consolo solitário ou se sentir um vitorioso eleito. Pior que isso, Deus está longe, sempre separado do que acontece aqui. Quando  está do nosso lado, está com um, não com um grupo. E de lá, dessa separação, chora ou envia uma benção/maldição. E não é assim que as igrejas funcionam? Lá de cima alguém manda alguma coisa pra cá ou nos traz mensagens de consolo…

IV. Trabalhando a questão num novo quadro

Os adolescentes do grupo de hoje, por sua vez, ao separarem hipóteses e deixarem elas abertas, tem mais capacidade e ferramentas para ressignificar a teologia e a própria crença. Mais que isso, deixaram explícito na minha cara o problema que vivenciei. Quando fiz seminário, lembro que a última saída para esse protótipo de nova teologia era “abrir mão da argumentação”: esse negócio de discutir teologia é coisa de tradicionais conservadores, temos que superar tudo e ficar com a”vida simples”. Ouço isso como um “perdemos mesmo; nos conformemos e finjamos que nada aconteceu”. Não! Houve um questionamento! Surgiu um problema e ele nos despertou para alguma coisa; mas como não superamos os pressupostos tradicionais, apenas a casca, batemos no teto. Vamos voltar pro fundo!

Lembro que o medo de ter uma doutrina e voltar à tradição fez com que abandonássemos os estudos sobre o passado. Vivemos só de futuro… Mas como não foi o futuro que trouxe a gente até aqui, ficamos vazios. Ok. Resgatando o passado com um grupo de amigos e em algumas outras discussões, descobrimos uma coisa que todo santo teólogo hoje sabe (e é óbvio): Jesus não era cristão e nem os seus discípulos – todos eram judeus. Até mais ou menos o segundo século, o cristianismo era uma seita judia. E daí? Bem, havia duas tradições de judeus: os rabínicos e os messiânicos. Os rabínicos, mais da elite judaica, leitores da Lei, criam que Deus criou o mundo e assistia o que acontecia; fazia breves intervenções pontuais – na qual a última seria a apresentação do Messias. Os messiânicos, por sua vez, criam que Deus praticava uma “economia” da história: completamente envolvido com o que acontecia, procurava balancear os desastres. O ponto máximo desta economia era a vinda do Messias.

A diferença dos messiânicos para os rabínicos quanto ao Messias, era que aqueles criam num Messias envolvido com o dia-a-dia de uma vida comum; já estes criam num salvador poderoso que romperia de cima para baixo com os sistemas opressores (para saber destas implicações, ver os últimos textos de Agamben O mistério do Mal  e O Reino e a Glória). O cristianismo era uma seita judaica messiânica. Eram messiânicos tão radicais que chegaram a crer que na “economia” de Deus na História, Ele mesmo se encarnou! A intervenção mais absurda que poderia ter – e a mais sensacional. Assumindo esta leitura, Zizek, por exemplo, mostra que a morte de Jesus na Cruz é a superação da separação entre um Deus que assiste a humanidade para um Espírito que faz parte da humanidade. Lendo Paulo, o filósofo diz que ali acontece o nascimento da humanidade (até então separada em grupos étnicos). OBS: Zizek é ateu.

Num debate sensacional entre Dussel e Vattimo, Dussel mostra que Paulo escreve que “Deus se alienou a si mesmo e se fez escravo”: está aí a economia de Deus na História. A pergunta sobre Deus intervir ou não na História tinha mantinha ele longe. Mas essa olhada para a seita messiânica judaica de cristãos nos coloca um Deus que está no chão: participando ativamente dos problemas que acontecem no dia-a-dia comum da vida da humanidade, a ponto de se alienar de si mesmo (completamente altruísta) para fazer parte de um povo, para se encarnar. Esse movimento de doação sem pedir pagamento é uma economia pesada e nem um pouco egoísta, que forma uma humanidade, não um indivíduo humano. Há um Deus que não-intervem, mas é todo intervenção! Faz parte da economia histórica…

Crendo nisso, os evangelistas fazem comparações da história da vida do Cristo com acontecimentos do passado: libertação do Egito, travessia do mar vermelho, denúncias de profetas, histórias de Davi, Isaías, Abraão… O Cristo é a encarnação do Deus que vive na História, no chão, com esse Povo. Usam das histórias do Povo para mostrar quem é o Cristo. Tem História, tem cultura, tem Povo, tem língua e, quando morre, transcende e supera tudo isso instaurando a possibilidade de humanidade: deixa o Espírito. Por fim, deixa uma mensagem: que vai voltar.

Na economia da história, das experiências do dia-a-dia comum do Povo, da vida de pessoas concretas, em grupo e comunidade, há a promessa de que “Ele vem”. Onde e quando? Na História. Há a convocação par ase espalhar esta mensagem. Ele vem e intervem. Quando? Tempo e data não se sabe, mas quando o Povo estiver preparado e reunido. Haverá luta contra a opressão, sofrimento, morte, dor, perseguição, mas, no fim, um novo Reino e uma nova maneira de viver.

Quantas vezes, então, essa experiência já não aconteceu na História??? Ã Teologia da Libertação teve a sabedoria de perceber que esta estrutura existe: do meio do Povo vem o Cristo, o Salvador, o Messias, para lutar contra o Império, contra o Mal, contra o Faraó do Egito. É no Povo e com o Povo que Deus habita: na experiência humana, dando carne ao Verbo. Até Emiliano Zapata, no México, percebeu isso: animou e foi animado pela religiosidade católica dos índios em Chiapas: haveria libertação para o Povo na História. Até Fidel Castro disse que “fé é quando o Povo crê em si mesmo”, ou seja, naquilo que há nele e entre ele: o Espírito.

Esta teologia expõe nossa política e nossa insuficiência política: somos solitários individualistas que se distanciam da experiência popular e nos contentamos com pequenas alegrias ou somos ufanistas crendo ser escolhido pela vida (ou pelo mercado) para se dar bem. Em política ou na religião, o modo de operar, de realizar as tarefas e atender às necessidades, se torna uma questão privada, individualizada. Em suma: manutenção de uma política burguesa. Deste modo, nem a doutrina e nem quem tentou se opor a ela são verdadeiramente críticos.

Nisso, não há articulação popular. Há o costume de se ausentar da vida comum, da conversa comum, restringindo apenas a uns ou às falas isoladas o poder de decidir ou propor. Há sofisticações de bem estar ou na busca por consolo; seja política, seja religião: são coisas bacanas, interessantes ou divertidas. Não há transformações materiais, apenas giros sobre a superfície. No fundo, não há assembléia. Não há comunidade estruturada e nem espaço para ela: não há envolvimento ou comprometimento, pois não tem com o que ou um porque se envolver. Quando há questionamento, oposição ou debate, é girando em torno dos mesmos pressupostos, sem crítica aberta e radical.

Mas quem sabe se a fé do Povo for acesa e ele começar a crer, quem sabe Ele vem…

 

Bruno Reikdal Lima

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