Talvez sejamos os primeiros brasileiros

criança_muitasbocasnotrombone2O povo brasileiro de Darcy Ribeiro já é e está eternizado. O trabalho encantador e inspirador de traçar raízes históricas e antropológicas da gente que mora aqui abre janelas, enche nosso pulmão de fôlego e vontade de ser brasileiro. Vontade, desejo, pois não o somos. Não somos Povo brasileiro, somos nascidos no Brasil. Não conhecemos e nem reconhecemos nossa História: nem do país e nem de nossa própria casa. Não sabemos nosso lugar no tempo e no mundo. Não temos uma identidade, não carregamos uma mesma marca, não somos daqui. Todos nos sentimos desterrados. Estamos em falta, o Brasil está em falta. Falta um Povo, de gente que vive de uma História recente e não consciente

Recentemente propus para alguns amigos que reconstituíssemos as histórias de nossas famílias. Todas elas eram absurdamente diferentes. Cada um tinha uma ascendência diferente, uma mistureba de etnias diferentes e de tradições religiosas diferentes. Ao mesmo tempo, eramos todos brasileiros, paulistanos e paulistas. Nos sentíamos parte de um mesmo grupo por estarmos próximos, mas nossas histórias, crenças e experiências não nos conectavam.

Meu bisavô por parte de pai, nasceu no início do século XX em Minas Gerais. Era de uma família de ex-escravos: um negro de quase 2 metros de altura. Seu casamento com minha bisavó foi um pouco estranho: foi até uma tribo guarani que ainda existia no interior, perto da vila em que morava, tomou-negociou uma ídia baixinha de pouco mais de 1,50 m e levou ela embora contra sua vontade. Minha bisavó sofreu nessa estranheza de relação abusiva-não-amorosa. Deles nasceu meu avô, Vicente, lá na década de 30 (não sabemos quando ele nasceu, pois não tinha certidão de nascimento: teve seu primeiro documento para casar no cartório, mas ninguém sabia qual era a sua real idade. Quando ele faleceu, há 11 anos, discutimos por um tempo a respeito de sua provável idade). Assim, meu avô era cafuso.

Seu Vicente, cafuso, casou-se com uma branca de família ibérica vinda para o Brasil em busca de terra. Ela faleceu depois de ter dois filhos; então Vicente se casou a prima de sua mulher, minha vó, Jandira. Em 1964, nasceu meu pai, Eliel. Qual a sua etnia? “Branco” ou “Caucasiano” que não é…

Por parte de mãe, tive um bisavô filho de um nordestino de ascendência islandesa com uma alemã. Este bisavô, Alfredo, se casou com dona Tereza, filha de um polonês com uma mestiça paraense. Tiveram meu avô, Alberto, que se casou com uma portuguesa de Braga filha de uma portuguesa com um francês que veio para o Brasil nos anos 50. Em 1968, tiveram a Gi, minha mãe. Dessa mistura, nasceu uma branca, com uma carga genética europeia, mas de qual etnia? Qual sua “nação”? Onde se imaginaria numa mesma família alemães, poloneses, islandeses, um francês, uma portuguesa e mestiços?

Esta história familiar começa coincidentemente com a instauração da República no Brasil. É do início do século XX pra cá. Nesta bagunça, eu, particularmente, me sinto um legítimo brasileiro, talvez, o primeiro da família…

Todos os meus progenitores tem sua história e cultura enraizada em outro lugar. Nesta terra, não estavam em sua terra. Talvez minha bisavó indígena estivesse em sua terra, sua própria cultura; mas meu bisavô fez o favor de desterrá-la. Ele mesmo, sendo filho de ex-escravos, nunca esteve na própria terra: era filho de desterrados que trabalhavam na terra de outros como e enquanto escravos. Não eram livres. Tinham saudade de uma terra que nunca puseram os pés e, ao mesmo tempo, só conheciam este chão que pisavam e não era deles. Mesmo no caso dos europeus, nenhum veio como amante da terra ou com plano de criar e produzir alguma coisa aqui: vieram para explorar e garantir a sobrevivência. Aqui nunca foi seu lugar, os vizinhos nunca foram seu próprio Povo.

Acho que em minha avó portuguesa essa postura fica mais evidente: veio para cá em busca de condições de vida melhores, para superar a pobreza da família na periferia lusitana de um tempo totalitário e garantir sustento por aqui: tirar o que for possível para viver. Explorar, querendo ou não. O Brasil deve “dar alguma coisa”, “garantir” recursos para a sobrevivência. Quando não o faz, perde seu status de terra e imediatamente é problema, obstáculo, inútil. Ninguém se sente brasileiro: Brasil é sempre “terceira pessoa” a ser explorada ou que nos oprime.

A ascendência alemã de meu bisavó veio para o Brasil no projeto republicano de “branqueamento da população”, no sul. Veio em busca de usar a terra. Os ibéricos, também. O filho de escravos, pela primeira vez, tentaria garantir o seu espaço. A índia não resiste ao ataque e sofre nas mãos dos “brasileiros” que abusam dela. Os poloneses fugiram de guerras, vieram para cá sem querer vir. Ninguém estava, esteve ou estará preocupado com a terra, com a gente, com o futuro, com a cultura. Todos se aproximaram circunstancialmente; mas não há estrutura de Povo ou possibilidade de Povo. Continuar lendo

Anúncios

Um gênero literário chamado apocalipse

felizPara produzir conteúdo vivo e constituir um povo, é necessário trabalhar a partir do núcleo histórico-mítico que sustenta esta comunidade. Sem este núcleo, sem este “fundamento”, não há articulação social, ação, interação e relação entre pessoas num mesmo espaço, formando uma comunidade próxima. Para que seja possível nossa relação, nossa conversa, nossa comunicação, temos que ter uma ponte que nos conecte, um mediador que institua um campo comum, que possibilite nos aproximarmos. O núcleo histórico-mítico é um destes mediadores, destes centros gravitacionais, desta possibilidade de relação firme e concreta. Trabalhá-lo é possibilitar a comunicação: a ação comum

Uma das primeiras experiências de “comunicação” foi a organização social para a caça: divisão do trabalho possível graças a uma mediação (a instituição da caça como meio de sobrevivência comum) que conectava um sujeito ao outro. A proposta “relacional” parte deste princípio: há um “vazio” ou um “espaço intransponível” entre nós; o que possibilita nossa comunicação, nossa relação, é preencher este espaço com meios que nos unam, com “pontes relacionais”. Tomar o que há entre nós como fundamento de nossa relação torna tudo aquilo que nos conecta como possível ponte, como possível ferramenta para a relação humana. Talvez por isso a religião nasça como uma pedra tão resistente e pesada: ela  é um meio intenso e riquíssimo para a estruturação fundamental: o núcleo histórico-mítico. Deste modo, conhecer o núcleo de um povo e trabalhá-lo é fortalecer as relações, aproximar intensamente os sujeitos humanos.

Sou religioso e participo de uma comunidade religiosa. O que une fundamentalmente esta comunidade são mediações comuns que permitem nossas relações, nosso sustento enquanto sujeitos e enquanto povo. Uma das mediações centrais é o “texto bíblico”, a Bíblia, como fonte histórico-mítica da constituição do povo, da experiência viva, comunitária, popular. Perder este núcleo é perder a comunidade, o povo, um dos centros que nos une, uma ponte relacional imprescindível.

A Bíblia, enquanto livro-texto vivo de uma comunidade viva, tem vários livros, histórias, tradições, etc. E é interessante perceber, hoje, como nós, enquanto geração jovem mais recente de um povo religioso, sentimos falta de conhecer e trabalhar verdadeiramente este livro, esta fonte de vida e aproximação entre sujeitos, entre nós. Pouco trabalhamos, pouco sabemos, pouco espaço nos oferecem para realizar esta experiência de produzir a partir de nossa fonte comum. Pouco sabemos das histórias, dos livros, das tradições… Estamos distantes: do texto (enquanto mediação comum que pode nos unir como comunidade) e uns dos outros (por termos dificuldade de encontrar o chão comum que nos conecte, nos torne povo). E nesse “vazio” ou nesta ausência de construção comunitária a partir da leitura e interpretação Bíblica, um dos livros que mais chamam a atenção é o “Apocalipse”.

Nas conversas e na experiência do Encontro de Estudo Bíblico com adolescentes mostrou uma surpresa e uma riqueza quando comentamos e descobrimos juntos que “apocalipse” não era um livro, mas um gênero literário. “Apocalipse de João” é “Revelação de João”. Poderia ser “Comédia de João”, “Drama de João”, “Tragédia de João”, “Romance de João”. Mas não, era um apocalipse de João. Um gênero literário. Descobrir isso nos direcionou para caminhos inesperados, reveladores e nos aproximamos comunitariamente uns dos outros. Crescemos enquanto povo, enquanto falantes, dialogantes: comunicativos. Produzimos mensagem viva e modelos de interpretação para analisar, criticar e resolver problemas que se apresentam cotidianamente em nossa realidade viva comum.

Existe, por exemplo, o “Apocalipse de Abraão”, um livro apócrifo. No livro de Daniel, vemos três gêneros que se alternam: histórico, profético e apocalipse. Há, no livro de Daniel, um texto apocalíptico. E como sabemos que há uma mudança de um gênero para outro? Como diferenciamos a profecia de Daniel do apocalipse de Daniel? Porque o livro de João é especificamente um Apocalipse, e não uma profecia ou um livro histórico? Continuar lendo

Pão da vida: princípios para uma nova Economia

meh.ro687Somos as conexões com nosso passado, imersos no processo evolutivo da vida, participantes de uma espécie, construídos em nossos antepassados e nos acontecimentos históricos e culturais de nosso povo, numa comunidade, numa casa, com uma família, em interação com  o meio que se nos apresenta (a rua, o sol, o clima, os traumas, as  alegrias, trabalhos, presentes…) e as relações pessoais, cara-a-cara, de afeto e inimizade. Somos sujeitos intersubjetivos. Somos todas essas experiências concretas e materiais juntas, em continuidade. Somos uma corporalidade – como diz Enrique Dussel. Não é uma massa de carne e/ou um espírito ou funções mentais; somos um corpo, construído com tudo isso, em continuidade e comunidade

Nessa complexidade profunda que nos constitui enquanto gente viva, agimos, interagimos e nos relacionamos com a gente toda em determinados espaços – também construídos nos processos históricos e culturais vivos. Assim, quando entramos no ônibus, sabemos como nos relacionar, agir e interagir. Quando estamos numa sala de aula ou num show, sabemos de certos princípios norteadores de como agir, interagir  e nos relacionar.

Ontem fui à comunidade religiosa da qual faço parte. Cresci e fui formado nela, com ela e com as pessoas que a sustentam (no sentido vivo de sustento). Estar lá ou participar do que acontece lá é processo fundante de minha história sócio-cultural e de minha corporalidade. Lá, conversei com uns amigos e comentamos da função social, política e cultural da religião e das instituições religiosas. É diferente da função social, política e cultural de uma universidade, escola, sala de aula. Mas as duas me constituem e atuo, interajo e me relaciono tanto em uma quanto em outra. O que vivemos em cada ambiente interfere em todos os outros campos de nossa vida; por isso precisamos saber como agir, o que fazer: precisamos nos posicionar. Com isso, percebi que, pessoalmente, me posiciono da seguinte maneira: 1. na instituição religiosa, utilizo da mensagem bíblica para propor uma economia, política, cultura, filosofia, etc.; 2. na universidade, utilizo da economia, política, cultura, filosofia, etc., para transmitir princípios fundamentais que me constituem – e que, querendo ou não, estão conectados de algum modo à mensagem religiosa que me formou.

Tendo sacado isso ontem nas conversas com os amigos, entendi melhor a relação teologia-filosofia, teologia-política, teologia-economia, etc., que tenho que enfrentar. Quando estamos no ambiente religioso, a mensagem de Cristo é porta para a produção de conteúdo nas áreas materiais, concretas e cotidianas de nossa vida. Quando estamos em outro ambiente, os conteúdos das áreas materiais, concretas e cotidianas de nossa vida podem se encontrar com a porta de Cristo. A questão é saber o lugar; saber se posicionar. Tendo essa clareza, inspirado na mensagem que foi trabalhada ontem na comunidade, vou utilizar o mesmo texto bíblico como porta para uma proposta de um princípio político-econômico que nos auxilie na construção de uma Nova Economia. Sob o tema “Pão da Vida”, uma nova proposta material, concreta e cotidiana para nossa economia pode nascer:

“Eu sou o pão da vida. Os seus antepassados comeram o maná do deserto, mas morreram. Todavia, aqui está o pão que desce do céu para que quem dele comer, não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre. Este pão é minha carne e eu darei pela vida do mundo […] a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa. Este é o pão que desceu do céu. Os antepassados de vocês comeram o maná e morreram, mas aquele que se alimenta deste pão viverá para sempre […] Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: ‘Essa palavra é violenta! Quem pode suportá-la?'” [João 6: 48 – 61]

I. O que é isto?

Maná significa “o que é isto?”. É uma pergunta afirmativa ou uma afirmação interrogativa. Um tipo de estrutura semântica com a qual não estamos acostumados. De qualquer modo, não é isto que nos interessa, mas a analogia que a comunidade de João que escreveu este livro faz entre o que é isto e o Cristo. Repetições, na Bíblia, são indicações de que aquele assunto ou expressão é importante-fundamental para a compreensão da mensagem que está sendo interpretada. Assim, ao falar mais de uma vez dos “antepassados que comeram maná no deserto e morreram”, os escritores nos convidam a dar uma passada pelo desenvolvimento histórico-cultural desse povo e nos perguntar: o que isto tem a ver com Cristo?

No livro semita do Êxodo, que narra a libertação e constituição do povo judeu, há uma narração (no capítulo 16) que conta que o povo estava no deserto e se queixava de estar com fome. Reclamaram com Moisés, seu líder, e este foi reclamar com o Senhor. Da reclamação, o Senhor enviou um tipo de pão, maná, que brotava na madrugada e aparecia no chão para alimentar o povo – “presente do céu”. Cada um deveria pegar somente o necessário para sua Casa. Não poderia guardar para mais tarde ou para o dia seguinte. Não poderia haver acúmulo desse recurso. Claro que imediatamente, no primeiro dia, alguns procuraram guardar para si um “excedente”, como reserva acumulada ou para “comer mais”, mesmo. Mas o maná apodrecia. Durava somente um dia e o necessário para cada Casa: nem mais, nem menos. Era o alimento do deserto: era provisória alimentação para o tempo de deserto.

II. O pão vivo dá vida

Assim como o maná, Cristo se coloca como o pão que “vem do céu” para alimentar o povo. Esta é a primeira peça analogia proposta. Mas, rompendo com esta história tradicional daquele grupo, quem comeu do maná morreu e, como colocam os escritores, quem comesse desse Pão Vivo não morrerá. O maná era provisório, mas esse alimento Jesus é eterno. Há uma semelhança e uma distinção: são pães, mas um dura hoje enquanto outro dura sempre.

Além disso, Cristo não é apenas um alimento, mas uma causa. Causa, aqui, tem o sentido de “por quê” ou “por meio de”, por onde se atravessa, passa e, ao mesmo tempo, se mantém, não se perde: o que sustenta aquilo que está se fazendo. Não é apenas um por quê formal de justificativa (quando perguntam por que estamos fazendo isso?) e nem uma causa física direta (como toda causa acarreta um efeito). É uma proposição que subsume as duas: materialmente uma motivação e formalmente justificável. Cristo vive por causa do Pai e aquele que come da carne de Cristo vive por causa dele (por meio dele). Se alguém perguntasse “por quê você vive?”, a resposta seria “por causa de Cristo”. Aquilo que sustenta, fundamenta, seria o Pão Vivo que dá a vida.

E isso é central: Cristo oferece sua carne, sua vida. A palavra em grego que está no texto é sarx, que significa carne. Não é soma, que é o corpo. O corpo poderia ser de um cadáver, mas a carne não: ela é viva, de um ser vivo-vivente, a corporalidade de Cristo.  Ou seja: Cristo oferece ele ali, vivo, tal como está, para os outros. Sua proposta é que aquele que está com ele se alimente de sua carne, de sua corporalidade, de tudo o que ele é. Materialmente, Cristo oferece para que os demais vivam daquilo que ele tem, do fruto de seu viver, de sua força, de seu trabalho.

III. Economia do serviço (ou da dádiva)

Trabalhar é se esforçar, gastar energias, para produzir algo que devolva as energias constantemente gastas, mantendo-se, assim, vivo. É se matar para não morrer. Estar vivo é a exigência constante de se produzir algo para suprir o que falta, a necessidade que precisa ser satisfeita. É nesse sentido que Marx determina o homem como trabalho: a essência humana é trabalhar. Precisamos trabalhar para manter viva a vida. Continuar lendo

Profecia, justiça e construção da cidade – Daniel Penna

grafite arte urbana QBRK (11)[8]Publicamos hoje o texto de Daniel Penna, um dos participantes do Encontro de Estudo Bíblico de Adolescentes. O Dani trabalha temas como opressores-oprimidos, justiça, profecia, utopia e os processos políticos e projetivos de construção de uma cidade. A “cidade”, aqui, tem sentido da pólis ou civitas da tradição: o lugar político e cidadão. Todos os insights estão apresentados num panorama geral do livro bíblico de Miquéias:

Miquéias foi um profeta de Morasti-Gat em Judá, na época dos Reis Jotão, Acaz e Ezequias (ver 2º livro dos Reis, capítulos 15, 16 e 17). O livro de Miquéias fala muito sobre coisas ruins e problemas na politica da região. O assunto política é bem visivel nesse livro, por causa de citações e presença de graus hierarquicos muito bem definidos entre oprimidos e opressores. O livro apresenta dois tipos de profeta: os falsos profetas, que respondem aos governantes, e os reais profetas que respondem ao povo. Os falsos profetas são aqueles que falarão aquilo que é agradavel ao ouvido, até mesmo mentiras. Já os profetas reais são aqueles que sempre falarão a verdade, independente se ela é agradavel ou não.

Miquéias era um profeta real do povo, ele prega contra a injustiça e pecado dos opressores que são os governantes.   Continuar lendo

A Bíblia Política: último comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Este é nosso último texto em busca da Bíblia Política: último comentário à Miquéias. Para quem tem lido e acompanhado nossos textos anteriores, algumas questões estão claras: há uma denúncia à cidade e à sua organização por parte de Miquéias. A cidade está corrompida, os sacerdotes, os líderes, os ricos e os governantes são corruptos. A cidade boa, Terra Prometida, Sião, foi construída com sangue – a um custo muito caro! Miquéias, então, enquanto denuncia, cria uma outra Sião, construída a partir da Justiça. Esta cidade boa anunciada se torna uma ferramenta crítica: é olhando para a possibilidade sem-lugar de algo melhor que somos capazes de encontrar e criticar a corrupção aqui. Assim, é possível criar um plano estratégico real e concreto para superar os problemas da cidade: um plano de luta. Agora, por fim, encontraremos o fundamento principal para a construção da cidade

Assim, este texto tem dois momentos: 1. proposta de uma leitura de Miquéias, deixando apenas os trechos (perícopes: divisão do texto bíblico) indicados para que quem quiser, faça sua própria interpretação final. 2. Uma avaliação do método do Encontro de Estudo Bíblico, suas implicações, produções e possibilidades. Cremos que teorizar o que fizemos possibilitará transmitir nossa prática e, quem sabe, reproduzir este movimento em outros lugares e momentos.

Agora, então, deixaremos apenas os trechos indicados para que cada um faça sua leitura. Tendo em conta o que foi construído até aqui (os comentários anteriores e seus significados -por exemplo, a diferença entre o Povo e a nação, o sentido de utopia, etc.), cabe uma conclusão e leitura autônoma, própria. Fica como dica alguns passos metodológicos: 1. Não leia os subtítulos e os números de versículo e capítulo, pois são apenas indicações para facilitar encontrar os textos. Podemos criar nossos próprios subtítulos e organização dos versículos e capítulos; 2. Faça perguntas ao texto, como ‘quem está falando?’, ‘para quem está falando?’, ‘o que ele quer dizer com ‘x’?’…; 3. Anote suas “hipóteses” de resposta às perguntas, mas deixe que o texto te diga se suas hipóteses estão corretas ou não. Deixe ser surpreendido pelo que está lendo. Segue nossa divisão de texto seguido de subtítulos criados por nós, como indicação de possibilidade de leitura:

O QUE DEVE SER PRATICADO NA CIDADE?

“Com o que eu poderia comparecer diante do Senhor e me curvar perante o Deus exaltado? Deveria oferecer sacrifício e holocausto de um bezerro? Ficaria o Senhor satisfeito com milhares de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o meu filho mais velho por causa da minha transgressão, o fruto do meu corpo por causa do pecado que eu cometi? Ele mostrou a você, oh Homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus.” [Miquéias 6: 6 – 8]

OS RICOS NÃO PRATICAM  A JUSTIÇA

“A voz do Senhor clama contra a cidade; é sensato temer o Seu Nome!  Ouçam, tribo de Judá e assembleia dos cidadãos! Na casa do ímpio não há o tesouro da impiedade e a medida falsificada que é maldita? Poderia alguém ser puro com balanças desonestas e pesos falsos? Os ricos que vivem entre vocês são violentos; sua gente é mentirosa e as suas línguas falam enganosamente. Comerão, mas não ficarão satisfeitos: continuarão de estômago vazio. Acumularão, mas não preservarão nada: entregarei tudo o que guardarem à espada. Plantarão, mas não colherão: vão espremer azeitonas, mas não se ungirão com azeite. Espremerão uvas, mas não beberão vinho.” [Miquéias 6:9 – 15]

OS GOVERNANTES, OS JUÍZES E OS CIDADÃOS NÃO AMAM A FIDELIDADE

“Estou na desgraça! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha: não há nenhum cacho de uva para provar, nenhum figo novo que tanto desejo. Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue: cada um caça o irmão com uma armadilha. Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita o suborno, os poderosos impõe o que querem. Todos tramam em conjunto! O melhor deles é como o espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos. Chegou o dia anunciado por suas sentinelas, o dia do castigo de Deus. Agora reinará a confusão entre eles. Não confie nos vizinhos, nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça, tenha cuidado com o que diz, pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora contra a sogra. Os inimigos do Homem são seus próprios familiares. Mas quanto a mim, ficarei atento ao Senhor, esperando em Deus, o meu Salvador, pois Ele me ouvirá” [Miquéias 7: 1 – 7]

A CIDADE NÃO ANDA HUMILDEMENTE COM O SENHOR

“Não se alegre, cidade, minha inimiga, com minha desgraça. Embora tenha caído, vou me levantar. Embora esteja morando nas trevas, o Senhor será a minha luz. Por eu ter pecado contra o Senhor, suportarei a sua ira até que ele apresente a minha defesa e estabeleça meu direito. Ele me fará sair para a luz, contemplarei sua Justiça. Então a minha inimiga o verá e ficará coberta de vergonha. Ela me disse: ‘Onde está o Senhor, teu Deus?’. Meus olhos verão sua queda, ela será pisada como o barro nas ruas. O dia da reconstrução dos seus muros chegará, o dia em que se ampliarão suas fronteiras virá” [Miquéias 7: 8  – 11]

MAS O POVO SERÁ CUIDADO

“Pastoreia teu povo com o teu cajado, o rebanho da tua herança que vive à parte numa floresta em verdes pastagens […] Quem é comparável a você, Deus? Você que perdoa o pecado e esquece a transgressão do remanescente da sua herança. Você que não permanece irado para sempre, mas tem prazer em mostrar amor. De novo terá compaixão de nós; pisará em nossas maldades e atirará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Mostrará fidelidade a Jacó e bondade a Abraão, conforme prometeu sob juramento aos nossos antepassados em tempos antigos” [Miquéiias 7: 14 – 20]

Encontros de Estudo Bíblico:

I. O início

O Encontro de Estudo Bíblico é fruto da exigência de adolescentes de uma comunidade cristã. Eles apresentaram o desejo, ou até uma demanda, de continuar ou fortalecer seu processo de formação religiosa. A partir da queixa de haver uma lacuna ou ausência de trabalho com os conteúdos bíblicos e elementares para uma comunidade religiosa, criou-se o primeiro Encontro. Como experiência exitosa, mas ainda não estruturada, este espaço serviu como abertura à possibilidade de se trabalhar verdadeira e efetivamente a leitura e interpretação Bíblica. Depois de um tempo, com trabalhos pontuais e melhor estruturação teórica e técnica, foram realizados mais 2 Encontros. Duas coisas intrigantes: 1. a lacuna comunitária na formação religiosa dos adolescentes; 2. o desejo de se estudar a Bíblia como livro-fonte da religiosidade. “Por fora” da comunidade, alguns dos participantes procuraram modos de trabalhar a leitura e interpretação bíblica, mas foram insuficientes – o que indica uma possível lacuna da religião no trabalho de formação de sua juventude. Continuar lendo