A Bíblia Política: último comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Este é nosso último texto em busca da Bíblia Política: último comentário à Miquéias. Para quem tem lido e acompanhado nossos textos anteriores, algumas questões estão claras: há uma denúncia à cidade e à sua organização por parte de Miquéias. A cidade está corrompida, os sacerdotes, os líderes, os ricos e os governantes são corruptos. A cidade boa, Terra Prometida, Sião, foi construída com sangue – a um custo muito caro! Miquéias, então, enquanto denuncia, cria uma outra Sião, construída a partir da Justiça. Esta cidade boa anunciada se torna uma ferramenta crítica: é olhando para a possibilidade sem-lugar de algo melhor que somos capazes de encontrar e criticar a corrupção aqui. Assim, é possível criar um plano estratégico real e concreto para superar os problemas da cidade: um plano de luta. Agora, por fim, encontraremos o fundamento principal para a construção da cidade

Assim, este texto tem dois momentos: 1. proposta de uma leitura de Miquéias, deixando apenas os trechos (perícopes: divisão do texto bíblico) indicados para que quem quiser, faça sua própria interpretação final. 2. Uma avaliação do método do Encontro de Estudo Bíblico, suas implicações, produções e possibilidades. Cremos que teorizar o que fizemos possibilitará transmitir nossa prática e, quem sabe, reproduzir este movimento em outros lugares e momentos.

Agora, então, deixaremos apenas os trechos indicados para que cada um faça sua leitura. Tendo em conta o que foi construído até aqui (os comentários anteriores e seus significados -por exemplo, a diferença entre o Povo e a nação, o sentido de utopia, etc.), cabe uma conclusão e leitura autônoma, própria. Fica como dica alguns passos metodológicos: 1. Não leia os subtítulos e os números de versículo e capítulo, pois são apenas indicações para facilitar encontrar os textos. Podemos criar nossos próprios subtítulos e organização dos versículos e capítulos; 2. Faça perguntas ao texto, como ‘quem está falando?’, ‘para quem está falando?’, ‘o que ele quer dizer com ‘x’?’…; 3. Anote suas “hipóteses” de resposta às perguntas, mas deixe que o texto te diga se suas hipóteses estão corretas ou não. Deixe ser surpreendido pelo que está lendo. Segue nossa divisão de texto seguido de subtítulos criados por nós, como indicação de possibilidade de leitura:

O QUE DEVE SER PRATICADO NA CIDADE?

“Com o que eu poderia comparecer diante do Senhor e me curvar perante o Deus exaltado? Deveria oferecer sacrifício e holocausto de um bezerro? Ficaria o Senhor satisfeito com milhares de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o meu filho mais velho por causa da minha transgressão, o fruto do meu corpo por causa do pecado que eu cometi? Ele mostrou a você, oh Homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus.” [Miquéias 6: 6 – 8]

OS RICOS NÃO PRATICAM  A JUSTIÇA

“A voz do Senhor clama contra a cidade; é sensato temer o Seu Nome!  Ouçam, tribo de Judá e assembleia dos cidadãos! Na casa do ímpio não há o tesouro da impiedade e a medida falsificada que é maldita? Poderia alguém ser puro com balanças desonestas e pesos falsos? Os ricos que vivem entre vocês são violentos; sua gente é mentirosa e as suas línguas falam enganosamente. Comerão, mas não ficarão satisfeitos: continuarão de estômago vazio. Acumularão, mas não preservarão nada: entregarei tudo o que guardarem à espada. Plantarão, mas não colherão: vão espremer azeitonas, mas não se ungirão com azeite. Espremerão uvas, mas não beberão vinho.” [Miquéias 6:9 – 15]

OS GOVERNANTES, OS JUÍZES E OS CIDADÃOS NÃO AMAM A FIDELIDADE

“Estou na desgraça! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha: não há nenhum cacho de uva para provar, nenhum figo novo que tanto desejo. Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue: cada um caça o irmão com uma armadilha. Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita o suborno, os poderosos impõe o que querem. Todos tramam em conjunto! O melhor deles é como o espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos. Chegou o dia anunciado por suas sentinelas, o dia do castigo de Deus. Agora reinará a confusão entre eles. Não confie nos vizinhos, nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça, tenha cuidado com o que diz, pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora contra a sogra. Os inimigos do Homem são seus próprios familiares. Mas quanto a mim, ficarei atento ao Senhor, esperando em Deus, o meu Salvador, pois Ele me ouvirá” [Miquéias 7: 1 – 7]

A CIDADE NÃO ANDA HUMILDEMENTE COM O SENHOR

“Não se alegre, cidade, minha inimiga, com minha desgraça. Embora tenha caído, vou me levantar. Embora esteja morando nas trevas, o Senhor será a minha luz. Por eu ter pecado contra o Senhor, suportarei a sua ira até que ele apresente a minha defesa e estabeleça meu direito. Ele me fará sair para a luz, contemplarei sua Justiça. Então a minha inimiga o verá e ficará coberta de vergonha. Ela me disse: ‘Onde está o Senhor, teu Deus?’. Meus olhos verão sua queda, ela será pisada como o barro nas ruas. O dia da reconstrução dos seus muros chegará, o dia em que se ampliarão suas fronteiras virá” [Miquéias 7: 8  – 11]

MAS O POVO SERÁ CUIDADO

“Pastoreia teu povo com o teu cajado, o rebanho da tua herança que vive à parte numa floresta em verdes pastagens […] Quem é comparável a você, Deus? Você que perdoa o pecado e esquece a transgressão do remanescente da sua herança. Você que não permanece irado para sempre, mas tem prazer em mostrar amor. De novo terá compaixão de nós; pisará em nossas maldades e atirará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Mostrará fidelidade a Jacó e bondade a Abraão, conforme prometeu sob juramento aos nossos antepassados em tempos antigos” [Miquéiias 7: 14 – 20]

Encontros de Estudo Bíblico:

I. O início

O Encontro de Estudo Bíblico é fruto da exigência de adolescentes de uma comunidade cristã. Eles apresentaram o desejo, ou até uma demanda, de continuar ou fortalecer seu processo de formação religiosa. A partir da queixa de haver uma lacuna ou ausência de trabalho com os conteúdos bíblicos e elementares para uma comunidade religiosa, criou-se o primeiro Encontro. Como experiência exitosa, mas ainda não estruturada, este espaço serviu como abertura à possibilidade de se trabalhar verdadeira e efetivamente a leitura e interpretação Bíblica. Depois de um tempo, com trabalhos pontuais e melhor estruturação teórica e técnica, foram realizados mais 2 Encontros. Duas coisas intrigantes: 1. a lacuna comunitária na formação religiosa dos adolescentes; 2. o desejo de se estudar a Bíblia como livro-fonte da religiosidade. “Por fora” da comunidade, alguns dos participantes procuraram modos de trabalhar a leitura e interpretação bíblica, mas foram insuficientes – o que indica uma possível lacuna da religião no trabalho de formação de sua juventude.

II. Segundo encontro: melhor organização

Criamos “instituições” como ferramentas que possibilitam a realização de uma tarefa. Assim, para alimentar uma quantidade grande de pessoas em uma cidade, criou-se a milênios a “agricultura”; para organizar as relações sociais, o “Estado”, etc. Para conseguirmos atender à necessidade de ter um processo de formação, precisamos criar uma “instituição” pedagógica. No segundo Encontro, conseguimos estabelecer certas bases materiais que possibilitaram maior aproveitamento, experiências mais profundas e impactantes. Isso foi possível tanto à maior confiança dos participantes quanto à melhor estruturação, digamos assim, “técnica”: estávamos mais organizados, com mais ferramentas práticas para tornar o Encontro possível e transformador.

Uma relação dialética: a maior confiança garantia um aprofundamento nos conteúdos e a melhor organização gerava mais confiança. Foi, de certa maneira, uma experiência pedagógica sustentável e retro-ativa: um alimentava o Outro. Este acontecimento possibilitou que entendêssemos nossos papéis e funções no Encontro, assim como o que é e o para que serve o Encontro.

III. Criando nosso chão

Iniciamos nosso II Encontro com 4 perguntas norteadoras: 1.Por quê ler a Bíblia? 2.Para quê ler a Bíblia? 3.Por quem ler a Bíblia? 4.Para quem ler a Bíblia?. A ideia, inicialmente, é que estas perguntas nos guiassem durante o processo. Entretanto, empiricamente, é perceptível que elas não ficaram à nossa frente, mas abaixo de nós: se tornaram nosso chão comum. Assim, para que fosse possível trabalhar a leitura e interpretação bíblica, nos sustentamos em cima destas 4 perguntas. As respostas a cada uma delas foram maravilhosas, e em cada dia que nos sentávamos para ler o livro de Miquéias (foram 4 momentos), resgatávamos estas perguntas.

O chão comum se tornou fundamento de nossa experiência determinada. Assim, cremos que é possível que com outras pessoas e situações, as respostas pudessem ser diferente. Por isso este é o chão comum, o fundamento determinado, ali, situado, concreto. É diferente dos fundamentos teóricos, genéricos, que estão sendo descobertos e desenvolvidos em cada Encontro, desvendando o que estamos fazendo enquanto fazemos isso que estamos fazendo. Deste modo, foi central o estabelecimento do chão comum para criarmos o fundamento situado.

IV. Terceiro encontro: fundamento utópico

Cuidado com a palavra utópico! Fundamento utópico, para nós, não significa fundamento irrealizável ou fundamento norteador. Fundamento utópico tem uma definição especial: é o sem-lugar, o que vale para mais de um lugar como modelo criticável. É uma estrutura abstrata que precisa “ascender ao concreto” para ser adaptada à realidade local, transformada pelo fundamento situado. Fundamento utópico é a estrutura arquitetônica que ordena para o que é justo e agradável, mas que não vale por si só: é uma ferramenta útil e que deve ser adaptada-transformada ao que está acontecendo aqui e agora. Isso faz de nosso fundamento utópico não o modelo perfeito que deve ser realizado ou o irrealizável que deve apenas ficar ali na frente; mas é uma ferramenta teórico-prática à mão dos participantes. Este fundamento é dividido em alguns princípios e campos.

V. Princípios

1.A história deve ser trabalhada como interpretação. É utopicamente fundamental que o que está sendo trabalhado seja entendido  como processo interpretativo. A história que está sendo lida-contada ou o conteúdo criticado é entendido em conexão com suas consequências. Isso significa que não se apresenta um bloco de informações para ser digerido e assimilado, mas a cada linha se nos apresentar, perguntas, problemas e hipóteses surgem; todas devem ser respondidas e trabalhadas, em continuidade, e tratadas como caminhos e possibilidades abertas para serem trilhadas. Cada hipótese e questão levantada não necessita de uma resposta imediata, mas depende exatamente de mediações que surgirão na relação leitor-texto e leitor-leitor. Cada resposta será questionada ou enriquecida na experiência do diálogo tendo em vista as implicações de se assumir ou rejeitar. Junto e talvez mais importante que isso, a resposta última fica a cargo do texto: é ele que nos apresenta a resposta final. Isso não significa que se deva concordar com ela, mas que se confia no texto e que a leitura é entendida em sua interpretação, não no bloco de informações. Deve-se confiar no texto – por isso a experiência religiosa talvez seja o momento perfeito para este tipo de formação.

2.O método pedagógico deve ser sustentado na promoção da autonomia e prática de libertação. Autonomia entendida classicamente por si mesma e solitária se tornou um problema. Autonomizar significaria “dar-se a própria lei”. Não é este o sentido de autonomia do fundamento utópico. Por isso precisamos acrescer a “prática de libertação”. Autonomizar-se é dar a si mesmo a ordem; praticar a libertação é efetivar justamente uma ordem: a ordem de libertar. Deve-se libertar. Quem? Quem é oprimido, cativo. O método deve promover a autonomia – a capacidade de criar ordem -, mas também a prática de libertação – a capacidade de libertar, nunca prender ou apreender Outro. A capacidade de autonomia e a prática de libertação deve inspirar o não-domínio sobre o Outro e o não sujeitar-se ao que é imposto. É o fomento da participação ativa aliado à responsabilidade por promover, sempre, a libertação e nunca a exclusão ou opressão. Isso significa que: tudo o que for realizado não deve ser opressor e não deve ser imposto. Tudo o que for realizado na prática comunitária pedagógica deve ser libertador e construído com/por todos.

3.Formação político-democrática. A experiência pedagógica deve ser entendida, sempre, em seu âmbito político. Se nosso intento é fomentar a autonomia e desenvolver a criatividade dos participantes, envolvendo as experiência na prática de libertação, sabendo que o que é lido-contado será trabalhado em sua interpretação, ou seja, na confiança das relações e conectando cada proposta às suas consequências, tudo o que for realizado deve ser compreendido como uma experiência de formação. Se o que há é a proposta de autonomia, mas o que acontece é a exposição de um conteúdo por um especialista para leigos que digerem-assimilam informações, não há política e concretamente nem a promoção da autonomia junto à prática de libertação e nem a noção de que a história é interpretada em conexão com suas consequências. Simplesmente há a destruição destes princípios do fundamento utópico. Tudo o que acontece na roda comunitária dos participantes é constituinte da formação real de todos, do processo de aprendizagem. Se há um que fala e outros que ouvem de cabeça baixa sem questionamento ou crítica, somos politicamente totalitários e formamos gente totalitária. Se há um grupo que fala e um grupo que ouve e acata sem espaço para crítica, somos politicamente oligarcas. Se queremos efetivamente autonomia, libertação e interpretação, devemos praticar uma política libertária e democrática. Todos falam, todos contribuem, todos participam ativamente. Há distinção técnica, habilidades específicas e singularidades, mas não há diferenças de classe, sexo, cor, profissão, educação… Em última instância, as peculiaridades distinguem e enriquecem a experiência, mas as necessidades nos colocam no mesmo patamar: famintos, sedentos, necessitantes, nascidos em um grupo dependentes de uma comunidade, que desejam produzir conteúdo, se formar religiosamente (ou politicamente, socialmente) e participar ativamente na construção sócio-cultural-comunitária.

VI. Distinção de funções e primeiras noções práticas

1.O incentivador. No Encontro há quem organiza o momento de aprendizagem. Este é o incentivador. Optamos por chamar de incentivador porque não é necessariamente um líder. Existe a possibilidade do grupo de participantes ser praticamente todo de líderes. Inclusive, a ideia é que na promoção da autonomia e prática de libertação, todos sejam liderança. Mas um, especificamente, terá a função-tarefa de organizar o momento. Separar/preparar o lugar, organizar o conteúdo que está sendo trabalhado, incentivar mesmo nos momentos fora do Encontro a leitura e a participação dos envolvidos. É incentivador, também, porque a cada pergunta feita e questão formulada ou hipótese levantada, é de sua responsabilidade proteger o que está sendo proposto e assegurar a possibilidade de se caminhar por esta trilha recém-aberta pelo participante, lembrando, sempre, que ela é uma possibilidade interpretativa e deve ser compreendida em suas consequências. Ao mesmo tempo, o incentivador deve permitir a crítica aos questionamentos, perguntas, problemas e hipóteses. A leitura e interpretação é comunitária, portanto todos podem (e devem) construir juntos. O debate e a proteção do debate são fundamentais. O incentivador deve incentivá-los… Pro-vocar é “chamar à vocação”.

2.Participantes devem ler-criticar. Os participantes devem ler e se preparar. Assim como criticar! Incentivados, seu impulso deve lembrar sempre que deve ser autônomo e praticar a libertação. O ambiente é propício ai diálogo produtivo e deve ser muito bem utilizado para isso! Tem o dever de acompanhar e trabalhar os conteúdos desenvolvidos por eles, por outros e os resultados comuns, os lugares que há consenso.

3.Lembrar do consenso. Nem sempre as questões e interpretações encontrarão lugar-comum. Não é dever de ninguém estabelecer um fechamento único para todos. As questões diferentes, distintas e divergentes devem ser acolhidas e mantidas. Entretanto, aquelas que forem comuns a todos devem ser guardadas e lembradas a cada momento do encontro. Em nossa experiência, cada um tinha seu caderno de anotações a selecionava suas questões e hipóteses, apresentava todas ao grupo e toda as propostas ao grupo. Algumas não eram aceitas consensualmente por todos, mas outras (boa parte) era mantida e determinada como “nossa”. Estas eram anotadas em uma lousa e relembradas-reconstruídas a cada encontro. Não tinham dono, eram produção pública, comum. O consenso e o dissenso conseguiram caminhar criticamente e pacificamente. Sem violência, mas com contradição. O objetivo não era, neste espaço, superar contradições, mas estabelecer bases para a formação comunitária e religiosa, no caso, dos participantes.

Estes são traços embrionários e resumidos, ainda muito falhos, de considerações gerais a respeito do Encontro de Estudo Bíblico e nossa experiência pedagógica. Ainda existem dimensões (ou campos) pelas quais esta experiências atravessa. Descobrimos ser uma proposta transversal, que envolve múltiplas áreas e facetas da formação dos participantes – em nosso caso, dos adolescentes de uma comunidade religiosa. Existem práticas específicas da leitura do texto bíblico e acontecimentos que deveriam ser relatados. Porém, fica como questão para próximos textos e experimentos.

Na busca pela Bíblia Política, descobrimos uma prática pedagógica que nos forma e inspira à vida política, na cidade. Que disso possamos crescer comunitariamente, sempre…

 

 

II Encontro de Estudo Bíblico Adolescentes Betesda

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s