Pão da vida: princípios para uma nova Economia

meh.ro687Somos as conexões com nosso passado, imersos no processo evolutivo da vida, participantes de uma espécie, construídos em nossos antepassados e nos acontecimentos históricos e culturais de nosso povo, numa comunidade, numa casa, com uma família, em interação com  o meio que se nos apresenta (a rua, o sol, o clima, os traumas, as  alegrias, trabalhos, presentes…) e as relações pessoais, cara-a-cara, de afeto e inimizade. Somos sujeitos intersubjetivos. Somos todas essas experiências concretas e materiais juntas, em continuidade. Somos uma corporalidade – como diz Enrique Dussel. Não é uma massa de carne e/ou um espírito ou funções mentais; somos um corpo, construído com tudo isso, em continuidade e comunidade

Nessa complexidade profunda que nos constitui enquanto gente viva, agimos, interagimos e nos relacionamos com a gente toda em determinados espaços – também construídos nos processos históricos e culturais vivos. Assim, quando entramos no ônibus, sabemos como nos relacionar, agir e interagir. Quando estamos numa sala de aula ou num show, sabemos de certos princípios norteadores de como agir, interagir  e nos relacionar.

Ontem fui à comunidade religiosa da qual faço parte. Cresci e fui formado nela, com ela e com as pessoas que a sustentam (no sentido vivo de sustento). Estar lá ou participar do que acontece lá é processo fundante de minha história sócio-cultural e de minha corporalidade. Lá, conversei com uns amigos e comentamos da função social, política e cultural da religião e das instituições religiosas. É diferente da função social, política e cultural de uma universidade, escola, sala de aula. Mas as duas me constituem e atuo, interajo e me relaciono tanto em uma quanto em outra. O que vivemos em cada ambiente interfere em todos os outros campos de nossa vida; por isso precisamos saber como agir, o que fazer: precisamos nos posicionar. Com isso, percebi que, pessoalmente, me posiciono da seguinte maneira: 1. na instituição religiosa, utilizo da mensagem bíblica para propor uma economia, política, cultura, filosofia, etc.; 2. na universidade, utilizo da economia, política, cultura, filosofia, etc., para transmitir princípios fundamentais que me constituem – e que, querendo ou não, estão conectados de algum modo à mensagem religiosa que me formou.

Tendo sacado isso ontem nas conversas com os amigos, entendi melhor a relação teologia-filosofia, teologia-política, teologia-economia, etc., que tenho que enfrentar. Quando estamos no ambiente religioso, a mensagem de Cristo é porta para a produção de conteúdo nas áreas materiais, concretas e cotidianas de nossa vida. Quando estamos em outro ambiente, os conteúdos das áreas materiais, concretas e cotidianas de nossa vida podem se encontrar com a porta de Cristo. A questão é saber o lugar; saber se posicionar. Tendo essa clareza, inspirado na mensagem que foi trabalhada ontem na comunidade, vou utilizar o mesmo texto bíblico como porta para uma proposta de um princípio político-econômico que nos auxilie na construção de uma Nova Economia. Sob o tema “Pão da Vida”, uma nova proposta material, concreta e cotidiana para nossa economia pode nascer:

“Eu sou o pão da vida. Os seus antepassados comeram o maná do deserto, mas morreram. Todavia, aqui está o pão que desce do céu para que quem dele comer, não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre. Este pão é minha carne e eu darei pela vida do mundo […] a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa. Este é o pão que desceu do céu. Os antepassados de vocês comeram o maná e morreram, mas aquele que se alimenta deste pão viverá para sempre […] Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: ‘Essa palavra é violenta! Quem pode suportá-la?'” [João 6: 48 – 61]

I. O que é isto?

Maná significa “o que é isto?”. É uma pergunta afirmativa ou uma afirmação interrogativa. Um tipo de estrutura semântica com a qual não estamos acostumados. De qualquer modo, não é isto que nos interessa, mas a analogia que a comunidade de João que escreveu este livro faz entre o que é isto e o Cristo. Repetições, na Bíblia, são indicações de que aquele assunto ou expressão é importante-fundamental para a compreensão da mensagem que está sendo interpretada. Assim, ao falar mais de uma vez dos “antepassados que comeram maná no deserto e morreram”, os escritores nos convidam a dar uma passada pelo desenvolvimento histórico-cultural desse povo e nos perguntar: o que isto tem a ver com Cristo?

No livro semita do Êxodo, que narra a libertação e constituição do povo judeu, há uma narração (no capítulo 16) que conta que o povo estava no deserto e se queixava de estar com fome. Reclamaram com Moisés, seu líder, e este foi reclamar com o Senhor. Da reclamação, o Senhor enviou um tipo de pão, maná, que brotava na madrugada e aparecia no chão para alimentar o povo – “presente do céu”. Cada um deveria pegar somente o necessário para sua Casa. Não poderia guardar para mais tarde ou para o dia seguinte. Não poderia haver acúmulo desse recurso. Claro que imediatamente, no primeiro dia, alguns procuraram guardar para si um “excedente”, como reserva acumulada ou para “comer mais”, mesmo. Mas o maná apodrecia. Durava somente um dia e o necessário para cada Casa: nem mais, nem menos. Era o alimento do deserto: era provisória alimentação para o tempo de deserto.

II. O pão vivo dá vida

Assim como o maná, Cristo se coloca como o pão que “vem do céu” para alimentar o povo. Esta é a primeira peça analogia proposta. Mas, rompendo com esta história tradicional daquele grupo, quem comeu do maná morreu e, como colocam os escritores, quem comesse desse Pão Vivo não morrerá. O maná era provisório, mas esse alimento Jesus é eterno. Há uma semelhança e uma distinção: são pães, mas um dura hoje enquanto outro dura sempre.

Além disso, Cristo não é apenas um alimento, mas uma causa. Causa, aqui, tem o sentido de “por quê” ou “por meio de”, por onde se atravessa, passa e, ao mesmo tempo, se mantém, não se perde: o que sustenta aquilo que está se fazendo. Não é apenas um por quê formal de justificativa (quando perguntam por que estamos fazendo isso?) e nem uma causa física direta (como toda causa acarreta um efeito). É uma proposição que subsume as duas: materialmente uma motivação e formalmente justificável. Cristo vive por causa do Pai e aquele que come da carne de Cristo vive por causa dele (por meio dele). Se alguém perguntasse “por quê você vive?”, a resposta seria “por causa de Cristo”. Aquilo que sustenta, fundamenta, seria o Pão Vivo que dá a vida.

E isso é central: Cristo oferece sua carne, sua vida. A palavra em grego que está no texto é sarx, que significa carne. Não é soma, que é o corpo. O corpo poderia ser de um cadáver, mas a carne não: ela é viva, de um ser vivo-vivente, a corporalidade de Cristo.  Ou seja: Cristo oferece ele ali, vivo, tal como está, para os outros. Sua proposta é que aquele que está com ele se alimente de sua carne, de sua corporalidade, de tudo o que ele é. Materialmente, Cristo oferece para que os demais vivam daquilo que ele tem, do fruto de seu viver, de sua força, de seu trabalho.

III. Economia do serviço (ou da dádiva)

Trabalhar é se esforçar, gastar energias, para produzir algo que devolva as energias constantemente gastas, mantendo-se, assim, vivo. É se matar para não morrer. Estar vivo é a exigência constante de se produzir algo para suprir o que falta, a necessidade que precisa ser satisfeita. É nesse sentido que Marx determina o homem como trabalho: a essência humana é trabalhar. Precisamos trabalhar para manter viva a vida.

Quando Cristo oferece sua vida como causa ou sustenta por meio do qual os demais devem viver, ele está concretamente dizendo para os demais vivam de seu trabalho. Aquele que viver de seu trabalho, em suas palavras, viverá para sempre. Diferente do maná, ele é trabalho vivo que se oferece. O maná era um produto acabado para ser consumido. Cristo, por sua vez, é o trabalho vivo que se coloca á disposição aos demais viventes. O maná seria consumido em um dia. O trabalhar, por sua vez, não se resume a um dia, mas é uma constante diária e eterna: se acaba o trabalho do vivente, chega a morte. O “sacrifício”, a oferta da própria vida, não se resume nesta mensagem à tradição da crucificação. Estamos, bem antes, na narração do início do ministério de Cristo: seu sacrifício começa quando oferece seu trabalho como garantia de vida para os demais.

Está instaurada uma economia diferente: não requer que o trabalho seja feito de um para ele; mas de um para todo aquele que necessita de alimento fruto do trabalho. Não se pode acumular, apenas trabalhar. Jesus diz que se alimenta do trabalho do Pai e por causa disso vive. Aquele que comer de sua carne se alimentará de seu trabalho e por isso viverá. Analogamente, todo aquele que se alimentar do trabalho daquele que se alimenta do trabalho de Cristo, também viverá em Cristo e, com isso, no Pai. Fundamentalmente: os recursos são dádiva de Deus e o trabalho é dever daquele que deseja manter essa dádiva vida. A Vida é dada e o esforço econômico não é de consumi-la, mas mantê-la. Uma economia da dádiva, uma economia do serviço. Economia da Vida.

Economia tem como sentido as “normas da Casa”; as regras, ordenações e organização da Casa. Ecologia, por exemplo, é o trabalho significativo com o que há na Casa. Interessante como temos dificuldade, hoje, de associar economia e ecologia: parece que cada uma cuida de uma Casa diferente.

Isso acontece por causa da fetichização do mercado. Cremos que ele tem uma vida própria e separada, diferente daquela que vivemos aqui, na Terra. Mas, na prática e na materialidade da vida, a Casa é a mesma: a terra que temos com os recursos dispostos e a vida que é dada. As duas casas, na verdade, são uma única. Uma economia do serviço ou da dádiva sabe disso. A vida é dada e deve ser trabalhada para ser mantida, não morrer. Não vivemos do consumo da vida, mas do trabalho na vida: se matar para não morrer.

O problema é que há acumulação dos recursos; e “o que é isto?”: é quando aquilo que é dado como recurso e possibilidade de vida, como presente “vindo do céu”, é acumulado por uma casa, numa economia particular ou privada, que tenta se descolar das demais. Uma casa de barro ou madeira que tenta se chamar a si mesma de “vida”. É a idolatria da própria casa: uma economia pervertida, fetichizada. Não se vive mais do trabalho dado, do serviço entregue, mas se apropria indevidamente deste trabalho e o acumula: deixo de trabalhar para que mais e mais trabalhem por mim. A vida encontra um limite e corre o grave risco de se acabar. Se o processe de viver pelo trabalho de Criso que vive pelo trabalho do Pai não fosse (ou não for) interrompido, a vida persiste e prossegue: torna-se eterna. Fazendo uma citação malandra de Marx no livro V d’O Capital, “o que os teólogos chamam de pecado original, hoje, é a acumulação de riqueza”…

IV. Princípio da confiança

Claro que não estamos aqui ingenuamente propondo uma economia solidária perfeita e sem problemas que funcionaria tranquilamente. Jamais! Nosso processo é de estruturação de princípios  (talvez princípios normativos) para uma economia. É o reconhecimento de limites e, ao mesmo tempo, a construção de um degrau que possibilite olharmos por cima do muro. Assim, o primeiro princípio fundamental desta economia que encontramos com o Pão Vivo é o da confiança.

Todo o ciclo depende de confiança: de uma fé fundamentada entre dois: o pacto de que viveremos por seu trabalho. Há a exigência de que se trabalhe pelos e para os demais e, ao mesmo tempo, que se confie que o primeiro continuará trabalhando por você: que a carne de Cristo é sustento necessário e suficiente para te manter vivo. Pode parecer absurdo, mas não é: quando uma criança nasce, não trabalha e nem produz; é totalmente dependente do trabalho e dos recursos dados, entregues, servidos pela mãe. Ela vive na confiança de que alguém trará um trabalho produtivo (produzir leite) que garanta sua subsistência. Assim, em sentido próximo, na carta de João, os escritores propõe que “de graça dê, porque de graça você recebeu”.

V. Princípio da necessidade

Não se acumula o trabalho. Aquilo que foi trabalhado é o necessário e deve ser o suficiente. Cristo oferece o trabalho necessário para se manter vivo todo dia. O “vivo”, aqui no texto, é zoon, de vida animal-biológica: é o necessário para que a carne ou a corporalidade toda se sustente. Assim, não se pode acumular! Deve-se trabalhar e utilizar do recurso suficiente do trabalhar para atender a necessidade. Com o maná não se podia acumular pois apodrecia. Aqui, não há como apodrecer, pois é ofertado o serviço, o trabalho vivo: há um dever a ser assumido: viver tal qual está sendo proposto por Cristo ou jamais comer de sua carne e beber de seu sangue. Ou uma coisa ou outra. Necessário.

VI. Princípio de Justiça

Deve-se trabalhar; deve-se confiar; somente utilizar o necessário. Ontem, na mensagem trabalhada na comunidade de fé que participo, foi distinguido dois momentos da fome: aquele que “avisa” que você precisa comer e aquela necessidade de nutrientes que teu corpo requer. A mais fundamental é a dos nutrientes: o que teu corpo precisa para se manter vivo e estável no constante combate contra doenças, clima, imprevistos, acidentes, etc. Este fundamental é o realmente necessário. Aquele que come do Pão Vivo, come do necessário. Mas a pergunta num sentido forte é: que fome fundamental ou quais são os nutrientes que minha corporalidade requer para que eu encontre em Cristo o alimento verdadeiro? Qual é esta fome fundamental?

Jesus fala apenas de um tipo de fome. No tradicional sermão do monte, ele diz: “Realiza plena aventura aquele que tem fome e sede de Justiça”. O princípio fundamental que guia e permeia esta economia do serviço ou da dádiva é a Justiça, a necessidade de Justiça. A vida e, em especial, a vida humana requer trabalho justo; ou como na expressão bíblica: trabalho dos justos.

7. Violenta? Platão…

Jesus acaba de prometer a “vida eterna”: quem comer de minha carne, viverá para sempre. A primeira coisa lógica que deveria acontecer é a comemoração de todos, com a galera toda correndo pra cima de Jesus e querendo essa garantia de vida eterna. Mas não: “violenta” foi a palavra. Um choque. A palavra de Jesus ia contra a acumulação, o desserviço, a apropriação indevida… Era chamado para a dádiva constante, uma nova organização da Casa. Nela, ficava implícita, inclusive, a impossibilidade de se fazer a conta “seguirei esse homem para garantir a vida eterna”. Mais que isso, era convocação para se abandonar tudo o que se fazia e o modo de vida de exploração. Trabalhar sem garantia, na confiança de que outro também trabalhará e que Cristo trabalhará por nós enquanto o Pai trabalha por ele. Que risco! Que difícil! Que violência! Àqueles que o ouviam, Cristo violentava a economia posta, a ordem da Casa vigente.

Mas, de todo modo, nas palavras de Platão na República: “aquilo que é belo/bom é árduo/duro/difícil”. Tenho isso tatuado em um dos braços. Minha mãe, certa vez, conversando sobre a tradução desse texto filosófico comentou: “para nossa realidade, dizer que aquilo que é bom dá trabalho resolve”.

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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Um comentário sobre “Pão da vida: princípios para uma nova Economia

  1. Paulo R Brito disse:

    Caro Bruno! quanto tempo. Que bom saber que vc esta tornando-se um bom pensador. Tudo isso e muito complexo Isso exige uma nova forma de pensamento que so Jesus pode fazer que ele fala em Romanos – renovacao da mente com as coisas do Reino de Deus. Interessante porque algumas coisas que vc falou aqui eu tambem falei em meus livros: 1) MISSÃO INTEGRAL: ECOLOGIA & SOCIEDADE (BRITO, PAULO ROBERTO B DE/ VIVEIROS, SOLANGE CRISTINA M.) e 2) Jardim da cooperação : evangelho, redes sociais e economia solidária / Paulo Roberto Borges de Brito, org. – Viçosa, MG : Ultimato, 2008.
    Se um dia tiver tempo de le-los me fale e ai poderemos dialogar um pouco. Abracos, Paulo Brito

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