Um gênero literário chamado apocalipse

felizPara produzir conteúdo vivo e constituir um povo, é necessário trabalhar a partir do núcleo histórico-mítico que sustenta esta comunidade. Sem este núcleo, sem este “fundamento”, não há articulação social, ação, interação e relação entre pessoas num mesmo espaço, formando uma comunidade próxima. Para que seja possível nossa relação, nossa conversa, nossa comunicação, temos que ter uma ponte que nos conecte, um mediador que institua um campo comum, que possibilite nos aproximarmos. O núcleo histórico-mítico é um destes mediadores, destes centros gravitacionais, desta possibilidade de relação firme e concreta. Trabalhá-lo é possibilitar a comunicação: a ação comum

Uma das primeiras experiências de “comunicação” foi a organização social para a caça: divisão do trabalho possível graças a uma mediação (a instituição da caça como meio de sobrevivência comum) que conectava um sujeito ao outro. A proposta “relacional” parte deste princípio: há um “vazio” ou um “espaço intransponível” entre nós; o que possibilita nossa comunicação, nossa relação, é preencher este espaço com meios que nos unam, com “pontes relacionais”. Tomar o que há entre nós como fundamento de nossa relação torna tudo aquilo que nos conecta como possível ponte, como possível ferramenta para a relação humana. Talvez por isso a religião nasça como uma pedra tão resistente e pesada: ela  é um meio intenso e riquíssimo para a estruturação fundamental: o núcleo histórico-mítico. Deste modo, conhecer o núcleo de um povo e trabalhá-lo é fortalecer as relações, aproximar intensamente os sujeitos humanos.

Sou religioso e participo de uma comunidade religiosa. O que une fundamentalmente esta comunidade são mediações comuns que permitem nossas relações, nosso sustento enquanto sujeitos e enquanto povo. Uma das mediações centrais é o “texto bíblico”, a Bíblia, como fonte histórico-mítica da constituição do povo, da experiência viva, comunitária, popular. Perder este núcleo é perder a comunidade, o povo, um dos centros que nos une, uma ponte relacional imprescindível.

A Bíblia, enquanto livro-texto vivo de uma comunidade viva, tem vários livros, histórias, tradições, etc. E é interessante perceber, hoje, como nós, enquanto geração jovem mais recente de um povo religioso, sentimos falta de conhecer e trabalhar verdadeiramente este livro, esta fonte de vida e aproximação entre sujeitos, entre nós. Pouco trabalhamos, pouco sabemos, pouco espaço nos oferecem para realizar esta experiência de produzir a partir de nossa fonte comum. Pouco sabemos das histórias, dos livros, das tradições… Estamos distantes: do texto (enquanto mediação comum que pode nos unir como comunidade) e uns dos outros (por termos dificuldade de encontrar o chão comum que nos conecte, nos torne povo). E nesse “vazio” ou nesta ausência de construção comunitária a partir da leitura e interpretação Bíblica, um dos livros que mais chamam a atenção é o “Apocalipse”.

Nas conversas e na experiência do Encontro de Estudo Bíblico com adolescentes mostrou uma surpresa e uma riqueza quando comentamos e descobrimos juntos que “apocalipse” não era um livro, mas um gênero literário. “Apocalipse de João” é “Revelação de João”. Poderia ser “Comédia de João”, “Drama de João”, “Tragédia de João”, “Romance de João”. Mas não, era um apocalipse de João. Um gênero literário. Descobrir isso nos direcionou para caminhos inesperados, reveladores e nos aproximamos comunitariamente uns dos outros. Crescemos enquanto povo, enquanto falantes, dialogantes: comunicativos. Produzimos mensagem viva e modelos de interpretação para analisar, criticar e resolver problemas que se apresentam cotidianamente em nossa realidade viva comum.

Existe, por exemplo, o “Apocalipse de Abraão”, um livro apócrifo. No livro de Daniel, vemos três gêneros que se alternam: histórico, profético e apocalipse. Há, no livro de Daniel, um texto apocalíptico. E como sabemos que há uma mudança de um gênero para outro? Como diferenciamos a profecia de Daniel do apocalipse de Daniel? Porque o livro de João é especificamente um Apocalipse, e não uma profecia ou um livro histórico?

Para isso tivemos que desenvolver certos traços comuns aos profetas e diferentes dos textos apocalípticos. Descobrimos muitas possibilidades, dentre as quais, por exemplo, uma classificação de gêneros literários presentes no texto bíblico. Então, determinamos que haviam textos Históricos, Poéticos, Proféticos, Sapienciais (ou de Sabedoria), Evangélicos, Cartas e Apocalipses. O livro de Daniel, ao nosso ver, é exemplar: mistura e apresenta vários gêneros imbricados, que enriquecem a leitura e as possibilidades de interpretação. Assim, encontramos nele trechos históricos (que narram experiências de personagens e acontecimentos sócio-políticos), de cartas (quando, por exemplo, há os decretos dos reis e, especialmente, na confissão de Nabucodonosor), proféticos (quando denuncia a corrupção dos governantes e poderosos) e apocalípticos (quando lançam mão de imagens absurdas para retratar um passado recente ou presente como determinação de destino futuro).

Especialmente quanto ao apocalipse de Daniel (ou de João, também caberia), descobrimos um efeito muito interessante: o passado recente ou o presente são narrados como predição do futuro. O exercício foi profundo e transformador: descobrimos que Daniel  viveu, provavelmente, 600 ou  500 anos antes de Cristo. Entretanto, seu livro foi compilado apenas no terceiro século antes de Cristo. Isso nos mostrou que o processo de produção viva e criativa da mensagem de Daniel levou anos de tradição oral e experiências comunitárias. Relatos históricos são contados a partir da vivência de um povo e sua relação de fé – com Deus e uns com os outros. Assim, em Daniel se conta o passado como predição para o futuro. A pergunta que fica é: por que?

Esta é a diferença de uma profecia para um apocalipse: a profecia denuncia a corrupção e anuncia a possibilidade de mudança. O apocalipse determina o tempo do fim; pois já “viu o que aconteceu” e conta esta experiência histórica dura e pesada como destino futuro. Em nossas conversas, em um Encontro de Estudo Bíblico, um adolescente citou o trecho de uma música que dizia “o  povo que não conhece a própria história está condenado a repeti-la”. Pois esta é a função apocalíptica: redirecionar o futuro impedindo que se repita o passado. Assim, os leitores e intérpretes de um texto apocalíptico o entendem como uma revelação da História. A história já ocorrida e interpretada é colocada como paradigma para evitar a repetição da desgraça. Deste modo, Daniel conta da intensa história política do Oriente Médio e do Mediterrâneo que estava acontecendo em seu tempo, enquanto João conta do Império Romano e seu princípio de declínio, enquanto está acontecendo.

Com um gênero literário os autores bíblicos constroem núcleos histórico-míticos que se tornam sustento e fundamento de um povo. Para se saber como trabalhar na vida, hoje, deve-se ler e interpretar este texto, este núcleo, esta história. Aqueles que dele se aproximam, encontram chão comum e base material para se aproximarem uns dos outros, fortalecendo e produzindo uma comunidade, garantindo a possibilidade de comunicação, de ação conjunta e comum.

Para finalizar, vale muito a notação de que esta proposta de trabalho com nosso núcleo histórico-mítico, nossa experiência humana, não se restringe aos religiosos e à religião. Slavoj Zizek escreveu um livro chamado “Vivendo no Fim dos Tempos”, em que assume a proposta apocalíptica e desenvolve uma filosofia complexa e extremamente rica para analisarmos e trabalharmos nosso tempo. No mesmo sentido, Jean-Pierre Dupuy, filósofo e químico francês, trabalha em “O tempo das catástrofes: quando o impossível é uma certeza” com o modelo apocalíptico: assume o fim sustentado em um passado recente como certo (vamos morrer desastrosamente) para desenvolver uma alternativa, um modo de viver diferente que não cumpra com o circuito cíclico de um destino, mas que crie um curto-circuito: assumindo este destino catastrófico, vislumbramos tudo o que poderia ser feito para evitá-lo. Sem contar René Girard, Enrique Dussel, Giorgio Agamben, Michel Löwy, Walter Benjamin…

Escrevi no ano passado uma leitura crítica sobre um livro interessante para quem se interessa pela leitura do Apocalipse do Eliel Batista, chamado “Porque pensar não é pecado”. A quem interessar, segue o link: Depois do fim do mundo.

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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