Sacrifícios e atividade política

USA. God, Inc.

Cada dia que passa a o que Carl Schmidt concluiu a respeito da política moderna se torna mais certeira: o Estado moderno é estruturalmente teológico. Dogmas, ritos, entidades supremas, hierarquias ficas e a eterna disputa pela “legitimidade” (quem é eleito como o “certo” de acordo com a vontade divina). Mas Schmidt entendia “política” como atividade exclusiva do Estado – sua conclusão parte da leitura do Leviatã, de Hobbes. Mantendo a ideia, mas sacando política como atividade do “Estado ampliado”, incluindo a ação dos sujeitos envolvidos enquanto cidadãos, como propõe Gramsci, por exemplo, uma estrutura teológica também explica bem nossa recente experiência política brasileira. Pelo jeito, a velha formulação de Marx em que “a crítica teológica é a primeira crítica política” vale muito

Nas aulas de Temas de Filosofia Política que estão acontecendo lá no mestrado nesse quadrimestre, temos discutido bastante a relação Psicanálise-Política para entender a ação dos sujeitos: porque agem ou não agem de determinada maneira em suas situações. Quais seriam os mecanismos de controle do “aparato psíquico” dos sujeitos e quais as possibilidades de saída, de libertação. Mas o interessante aqui é: mesmo que sejamos controlados, regrados, disciplinados e tudo mais, as pulsões contidas vão para algum lugar. Na Psicanálise, nos referimos comumente à sexualidade. Aqui, vamos dar outra roupagem para ajudar na troca de ideia: aquilo que movia os rituais públicos de antigamente também acaba escoando para algum lugar! Religião (apesar de ser jogada como uma eleição ou preferência privada) sempre foi experiência comunitária e pública: eram momentos corporais de excitação ou sofrimento em conjunto experienciados e praticados em cultos. Assim, mesmo que a prática institucional seja confinada no campo “privado”, aquele, digamos assim, impulso religioso que é público e comunitário não se confina e nem se isola nas quatro paredes de uma igrejinha na esquina, num terreiro, casa ou templo.

Sacrifícios eram (ou são) rituais públicos em que toda a comunidade se envolvia. Eram práticas primordialmente religiosas, mas tinham caráter e implicações políticas, sociais, econômicas e culturais. Como René Girard mostra, toda a tribo ou comunidade participava ativamente da experiência; no desespero por um bom ano ou para pagar uma dívida com o divino, o mais puro era escolhido como oferta aos deuses em troca de segurança para um tempo na vida. Esse era um tipo de sacrifício: de purificação ou pureza. O intuito era manter segura e estável a vida comunitária. Mas também havia outro tipo de sacrifício: o de raiva-vingança. Quando a comunidade estava irada com uma situação ou com um considerado excessivamente culpado, sacrificava este sujeito para apagá-lo da terra, superar o mal. Era o sacrifício mais violento, impetuoso. De qualquer modo, havia sacrifícios; prática comunitária, religiosa e política.

Pois bem, não temos mais o rito sacrificial público. Quando se é exigido algum tipo de oferta, ela é individual, de auto-flagelo, quase que uma religiosidade liberal: cada um cuida do seu e faz o que quer com ele. Mas a experiência ou o impulso que culmina nesse ritual público não encontra mais sua “casa” oficialmente. E ele vai para onde? Para algum lugar…

Jung Mo Sung e Fraz Hinkelammert trabalham muito a questão do sacrifício. Um dos pontos centrais é: o Mercado exige diariamente sacrifícios humanos para sua manutenção, que são tolerados e como a garantia do bem de todos. São nossos sacrifícios de purificação modernos: a morte e o sofrimento dos marginalizados pelo Mercado e dos oprimidos por trabalhos insuportáveis é visto como efeito colateral, como paga para a aposta de futuro melhor e garantia da vida segura e minimamente estável de agora. Como diríamos: “pimenta no ¢* dos outros é refresco”. Esse sacrifício não rende muita polêmica ou atenção: ele é fruto de desespero, total falta de esperança. É costume indiferente que assumimos como parte da vida e como a atitude que nos garante a continuidade da própria vida (ou do próprio sistema em que vivemos). É o sacrifício de purificação: uns pobres coitados inocentes acabam tendo que morrer para fazer a roda girar.

Mas o sacrifício de vingança, esse sim, ganha capa de jornal e torcida. Uns contra, outros a favor dos sacrificados, o momento do show segurando a tensão e a excitação para o clímax e a urgência do final horroroso faz nascer na boca do estômago dos participantes do rito a necessidade da morte. Tem que haver vingança, o mal deve ser estirpado. Qual mal? Aquele que parece estar num único sujeito. No fundo, a vingança não apaga o mal, mas o sacrifício dá a sensação de que ganhamos mais um tempo aplacando a ira dos deuses. O pecado foi resolvido com a morte de mais um que merecia.

O problema é que o mal continua; e o próximo sacrifício de vingança já entra na história em potência. O de pureza ou desespero está acontecendo todo dia, a todo instante. E a vida política caminha acriticamente repetindo os ritos sacrificiais sem saber o que está acontecendo e nem se deveria acontecer. Nossa vida política está praticando esses sacrifícios: condescendente com a morte, ativista da vingança. Uma das loucuras é que nada está sendo efeito  pelos adoradores; todo o esforço e performance é realizado pelo sacerdote, seus auxiliares, talvez o “chefe” e alguns figurões. O povo, os fiéis, apenas assistem. Não se sentem representados pelo sacerdote, pelos auxiliares ou pelo chefe, mas se sentem eles próprios estes atores – e não o são!  O povo é no mínimo torcedor; no máximo a faca que imola a vítima do sacrifício: pois é só com a permissão e desejo dele que um sacerdote teria coragem de meter a lâmina na garganta de alguém.

Esta acaba sendo nossa atividade política: atores sentados, passivos. Vez por outra atuamos um pouco mais ativamente quando participamos do rito democrático da eleição: escolhemos entre um sacerdote ou outro, um auxiliar ou outro. Não tomamos a religião ou o impulso vivo religioso para nós, como nosso e não “de outrem”. Ficamos submetidos à lei: lei do outro. Não lembro onde li, acho que foi em Marcuse, mas dizia: “o problema não é se submeter à lei, mas se submeter à lei do outro”. O impulso, o desejo, a prática ou atividade é e deve ser nossa, não entregue a alguém: não no público, não na vida política (e nem religiosa!).

É doido porque somos um Estado laico, mas temos essa religião esquisita. Somos um “país” majoritariamente cristão, mas aceitamos e somos praticantes de sacrifícios! Como pode? Teologicamente, esse é um basicão da proposta cristã: não são mais necessários sacrifícios, tudo foi “pago” na Cruz. A ideia do cristianismo é romper com essa necessidade sacrificial; é tornar o impulso religioso pelo sacrifício em um ato de graça: assumir a própria carga e responsabilidade comunitária (pela comunidade ou pelo “pecado da humanidade”) e liberar (ou libertar) o Próximo de seu fardo, de ter que carregar a mesma Cruz. Como Zizek explica: quando Cristo fala em “dar a outra face”, não é só mera prática simplista-puritana ou retórica; é apagar a dívida e impedir o acumulo de juros. O ato sacrifical na experiência próxima, simples, direta, cotidiana, no qual o grande mal já foi pago e só restam os pequenos a serem trabalhados por quem estiver por perto, gasta a energia ou o impulso pelo sacrifício sem deixá-lo acumular (com juros e correção monetária).

Mas não, realizamos o contrário: desejamos mais mortes (de outros) e nos isentamos de nossa vida, participação, a complexidade dos problemas. O sacrifício realmente é útil para fazer nossa relação com a vida mais simples e descompromissada: é só matar alguém e tudo fica mais estável por um tempo. Ilusão aceita e assumida conscientemente. Deixamos de lado a atividade política verdadeira e a ação política direta, deslocando toda a responsabilidade para um excessivamente puro ou excessivamente culpado. Toda a carga lá, bem longe, e a casa aqui abandonada. Se relação política é a experiência humana do “entre nós”, que acontece pela gente entre a gente, onde é que está o mal a ser diariamente trabalhado?

Política é o entre nós dirigido e organizado. O modo como um pai se relaciona com o filho – autoritariamente ou em parceria – desenvolve e forma politicamente um sujeito. O modo como patrão e empregado se relacionam funda ações políticas. A postura de um professor com seus alunos e dos alunos com o professor e entre eles. Quem mente a própria idade para garantir benefícios ensina para os que estão próximo e promove determinada política. Dentro de uma igreja, a relação pastor-membros, membros-líderes, líderes-pastor, adolescentes-crianças, mulheres-homens, e todas as mais variadas e possíveis,  fundam e formam politicamente sujeitos. Nas empresas, nas escolas, nas faculdades, nos hospitais, entre vizinhos, em condomínios… Aí estão sendo formadas as gentes políticas e delimitada a atividade política: seu alcance, importância e poder.

Hoje sou mestrando financiado por uma agência de fomento em uma Universidade, participo de uma comunidade religiosa, de uma família, tenho uma namorada, em breve uma sobrinha. Pego ônibus, trem e metrô nas mesmas horas durante a semana; me relaciono com o dono do bar da frente de casa, com o pessoal na padaria, com gente que trabalha nas imediações do condomínio. Está aí o campo de atuação política e o “entre nós” em que atuo e devo atuar. Está aí o espaço político de aprendizagem e atividade constante. É aí onde nasce o mal e onde são experimentadas e trabalhas as possibilidades de projeções políticas e sonhos para a vida; onde o sacrifício pode ou não ser exercido e é constantemente requerido. Como lidar com tudo isso? Posicionar já é um primeiro passo.

Pra terminar, a atividade política tem sacrificado e permitido sacrifícios. Creio que devam ser superados e constantemente vigiados. Não podemos nos submeter a sacerdotes e a loucuras distantes enquanto a vida e a “fé política” de verdade acontece aqui, onde estamos. Cara, é criar autonomia! É movimentos coletivos de libertação e transformação; de formação política ativa e consciente. Não sejamos ingenuamente liberais crendo que é uma questão de decisão individual de “cada um fazer sua parte” já que somos iluminados por uma consciência mágica e perfeita abandonada ou enferrujada. Não! Como Paulo Freire ensina, assim como ninguém pode ser libertado por outro, ninguém se liberta sozinho: é um processo de conscientização, um compromisso histórico no qual a aprendizagem (experiência entre pessoas) possibilita a tomada de posição. Precisamos em conjunto, enquanto “nós”, criar possibilidades e desenvolver o “entre” e o que há “entre nós”. É trabalho coletivo; só com política se faz política. O lugar onde estamos é habitado por muita gente próxima; e nenhuma delas deve ser sacrificada – nunca!

 

 

Bruno Reikdal Lima

 

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