Manifestações e amadurecimento político

12abr2015-manifestantes-estendem-faixa-com-a-frase-nao-precisamos-de-reforma-politica-durante-ato-contra-o-governo-da-presidente-dilma-rousseff-na-avenida-paulista-em-sao-paulo-o-protesto-foi-142888É comum o frase-pronta de que as manifestações de junho-julho de 2013 acabaram em nada, não geraram transformações. Mas seria possível imaginar as Ocupações das escolas em São Paulo no fim do ano passado sem aquela experiência política popular explosiva e tão expressiva? A instabilidade política que vivemos hoje teve data de início: junho-julho de 2013. Ali o “Estado intocável” foi ferido – e depois que uma divindade sangra, perde seu poder aos olhos dos homens. Foi uma possibilidade de abertura política, mas com ela sempre vem a reação de desespero por “reorganização” do status quo. Um político de velha guarda e um que acabou de garantir sua cadeira mágica não vão querer perder sua majestade…

Os privilégios de uma cadeira na direção do Estado foram questionados. O fundamento e funcionamento do próprio Estado foram questionados. Essa é a “instabilidade”: podemos tanto seguir para uma experiência política popular legítima de libertação, quanto para a reorganização e fechamento político regido por uma elite política oportunista. É a ambiguidade de cada experiência. E como paradigma de atividade política fica um quadro com dois caminhos: Ocupações de escolas por secundaristas e manifestações “sem-bandeira”.

As manifestações de 2013 foram dirigidas e organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL). Um coletivo estruturado, com objetivos e projetos claros. Quem aderisse à manifestação sabia o porque se estava manifestando: contra o aumento do preço das passagens. Era esse o objetivo, o grito e a função do movimento. Ele inchou de repente. Muita gente foi à rua para manifestar junto ao MPL contra o aumento; mas ao mesmo tempo afirmavam que “não era pelos 20 centavos”. Apesar da contradição, ao entrarmos para a manifestação junto ao Passe Livre, gritávamos os mesmos gritos e exigíamos o mesmo que era exigido. O recuo por parte do Estado foi a vitória do movimento e das manifestações. E elas acabaram ali? Por um lado, sim: o MPL tinha como objetivo claro e discurso hegemônico a luta pelo preço do busão. Por outro, não: aqueles que aderiram por mais do que o preço do ônibus sentiram a necessidade de continuar frentes de luta.

O problema é que o MPL tem tempo de projeto e organização. Não começou ontem, mas é um coletivo organizado, politizado e com planejamento claro. O discurso é hegemônico e a participação junto ao movimento requer a adesão a esse discurso. Mesmo quem dissesse naquele tempo “não é pelos 20 centavos”, no exercício político público exigia os 20 centavos. Essa era a luta política. Assim, participação e movimento político requerem esse princípio: discurso hegemônico claro e objetivo. Requer projeto organizado coletivamente.

As Ocupações das escolas no ano passado foram um ato verdadeiramente político. Um banho e uma aula de Política em excelência dada por adolescentes a nós, jovens, adultos e velhos que não temos noção e nem formação política madura – apesar da idade. Minimamente houve uma organização com objetivos, projeto e discurso hegemônico: contra a reorganização das escolas proposta pelo Estado. Todos os secundaristas exigiram isto. Se articularam. Tudo o que era dito por um aluno respondia e era assumido por todos. Isso é uma atividade política! Não eram indivíduos fazendo alguma coisa; era um coletivo de alunos, uma comunidade politizada. Todos sabiam o que queriam e o que seria feito. Logo que o Governo recua, acaba o movimento.

Quer dizer, por um lado acaba: objetivo atingido. Por outro, o desejo por novos projetos e ações acende (como, por exemplo, uma reforma do projeto pedagógico-político no ensino público). Este desejo dos alunos pode tanto gerar novos movimentos excelentemente políticos, como desviados por movimentos oportunistas difusos. Com certeza nas propagandas políticas e programas eleitorais dos próximos anos muitos tentarão usurpar os movimentos estudantis para garantir seu “lugar ao Sol” na cadeira parlamentar.

A outra via de nosso quadro aparece com as Manifestações “pró-impedimento-contra-corrupção-a-favor-da-intervenção-militar-auxilio-estadunidense-etc.”. Como? O desejo por transformações, o Estado ferido, a instabilidade posta pode pender para ações políticas populares verdadeiras e abusos por usurpação desse desejo. Estas manifestações não tem caráter verdadeiramente político, não são efetivamente políticas por esse tipo de esquisitice: cada um vai lá para dizer aquilo que acha que deve dizer, só que numa multidão nenhuma voz singular é ouvida: apenas ressoa e é determinante a voz coletiva.

Estas manifestações não são organizadas por coletivos e muito menos tem programas claros e objetivos. Sob o título de impedimento de uma presidente com baixo índice de aprovação (o que não é motivo para ser derrubada), estruturas oportunistas fazem o que querem e como querem. A maioria dos que participam, o fazem sob a indignação legítima de cansaço com corrupção e desejo por transformação política. Mas o fazem individualmente. Cada um está lá não por uma organização dos muitos, da pólis, mas por necessidade de expressar o que pensa crê. Mas onde está o projeto político e o que será feito? Organizado e pensado por quem? Se o objetivo for atingido, quais os desdobramentos e consequências? Essa resposta vem dos articuladores das passeatas.

Política é exercício sempre coletivo, comunitário; nunca pretensões individualizadas. Não é a “soma do que todos querem”, mas a construção realizada entre todos. Para isso coletivos como o MPL se organizam; para isso foi necessária uma rápida estruturação de estudantes e adequação do discurso. O discurso deve ser hegemônico. Participar de uma manifestação requer assumir que tudo o que for realizado no ato é aceitável e útil para se atingir o objetivo político que desejamos/projetamos coletivamente. Assim, a voz popular legítima é e deve ser assumida como hegemônica: tudo o que for dito/feito é de todos e por todos.

O que temos de pôr em questão é: vale o preço político sério e determinado de aceitar como nosso o grito de “impedimento da presidente” ao lado de “intervenção militar”, “interferência dos EUA na política interna” e ao mesmo tempo “fim de corrupção” articulado por Bolsonaro, Feliciano, Aécio e Eduardo Cunha? É esse nosso projeto político? É essa nossa maturidade em organização de coletivos e participação na atividade política do país?

Tenho a mesma idade que nosso Estado pós “redemocratização”; 26 anos. Nunca fui formado/educado para participar de projetos e movimentos políticos. Aliás, duvido que nós tenhamos uma formação política clara, forte e sustentável desde nossa infância. Na época dos meus pais, Filosofia era PROIBIDO de se estudar em escolas e universidades. Não temos o tema “política” nas discussões do fundamental e médio na escola pública e na privada. Ciência Política, então, passa longe! Acho incrível e fundamental a participação política que urgiu pós junho-julho de 2013. Nos sentimos capazes e nossa auto-estima de povo encontrou uma pequena chama. Mas somos politicamente imaturos. Talvez mal-formados…

Não devemos deixar nossa indignação legítima, nossos desejos políticos e sonhos de um país melhor ruírem por nossa falta de paciência e nossa adolescência política. Aliás, adolescentes nos mostraram que tem mais maturidade política do que nós. Talvez porque sejam o começo de uma segunda geração pós ditadura, porque são os primeiros filhos de “filhos-da-democracia” (como eu sou, da primeira geração pós Constituição de 88). Manifestar sempre, sem maturidade, nunca! Não podemos deixarmos ser levados por cretinos como esses senhores aproveitadores que citei acima. Não podemos achar que temos o controle do que está acontecendo se nunca participamos de nada em nossa curta história. Irresponsabilidade mata. Nossa idade e formação política estão sendo testadas; qual a qualidade de nossa resposta?

PS: não procuro reprimir ou impedir o direito de manifestar. O que coloco é uma crítica; a ser assumida e trabalhada. Se frente ao quadro o risco político é válido, assuma e manifeste com toda força! Mas o resultado terá que ser assumido madura e democraticamente – independentemente de qual for.

 

 

Bruno Reikdal Lima

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