Nasci para ser senhor de engenho: o colonizador que habita na gente

1214065231310_f“O que nos forma são as instituições”, é o que Jessé Souza tem apontado. Não somos filhos do encontro mágico ou trágico do branco com o negro, do índio com o branco, do negro com o índio. Esses encontros são possibilitados por uma estrutura ou sistema instituído entre os sujeitos. É assim que o que nos forma são as instituições. O que funda o Brasil que vivemos hoje não é o encontro entre pessoas: é a exploração colonial e, principalmente, a instituição da escravidão. É ela que regula a sociedade por mais de 400 anos, media as relações entre os sujeitos, estabelece a divisão de trabalho e sustenta crenças, direciona a construção das cidades, organização no campo, formação das famílias, costumes…

Somos filhos da escravidão. Não se apagam 400 anos com uma canetada de princesa. Como Joaquim Nabuco profetizou: nunca seremos uma nação enquanto não superarmos as marcas da escravidão. Para ele, isso levaria uns séculos… Mas para a gente, não! Afinal, escravos já foram “abolidos”, mesmo. Ahá! Exatamente isso: não foi a escravidão “abolida”, os escravos é que foram abolidos. Abolição da escravatura foi jogar gente do nada para o nada. A força de trabalho que sustentava o modo de produção foi jogada fora, só! Houve mudança estrutural? O sistema foi golpeado radicalmente? Não. Literalmente, foi para “inglês ver”. A estrutura se mantém: as correntes são postas de lado e substituídas por uma coisa inusitada: salário (mínimo). O que prende o escravo/empregado ao senhor-de-engenho/patrão não é mais a lei do chicote, mas a necessidade de moeda para comprar pão.

São as instituições que nos formam. Escravos são abolidos, mas a instituição da escravatura não foi substituída, suprimida ou “revolucionada”: houve uma transformação, sem crise sistêmica. Somos filhos e fruto da escravidão. Isso não aconteceu há milhares de anos, foi ontem, enquanto fomos o último país a abolir a escravidão: 1888, três anos antes de nos “tornarmos uma República”. Aliás, como nasce essa República? Da revolta social? Povo? Não; Golpe Militar. Ninguém viu e nem ficou sabendo. Jornais da época relatam que as pessoas se perguntavam se era comemoração do dia da Independência fora de época. Ninguém, viu, participou ou entendeu que raio era aquilo.

O que nos forma são as instituições! É um Estado republicano que nasce de um golpe militar e que tinha como estrutura centenária a exploração abusiva da terra, a escravidão, o massacre social. Uma igreja colonial que mantém as crenças, os costumes e as práticas religiosas do tempo de escravidão inalteradas (e o país era católico! Todo nascido crescia nessa igreja, aprendia essa religião). Escola era para rico e nobre. Filho de senhor de engenho ia estudar em Portugal, dar um rolê na França, voltava para cá para ser médico, advogado, parlamentar ou manter o trabalho de fazendeiro senhor-de-engenho do pai. E a população de verdade? A “galera”, o “povão”? Ou com chicote nas costas, ou sendo funcionário/capataz, ou ralando muito para conseguir vender o fruto de seu trabalho, coisa pouca, para os donos da escravidão. Nasce na casa grande, no comércio ou na senzala. Mas livre? Daquele jeito que a lenda de indivíduos felizes e contentes, ninguém no mundo nasce, não. Somos formados pelas instituições!

No mestrado estamos trabalhando Teoria Crítica. Uma das perguntas norteadoras é “como é possível nascer um sujeito fascista?”. Isso tem deixado a gente bem agoniado. Mas, adaptando um pouco à nossa história, nossa terra e nossa cultura, a pergunta aqui é “como é possível nascer um sujeito colonial?”. As tensões políticas tem apresentado faces de nossa estrutura subjetiva que a gente normalmente finge não ver: temos em nós senhores-de-engenho, capatazes e escravos. Criei indevidamente esses três modelos teóricos de sujeito, a lá um esqueminha weberiano sem vergonha. Parece que tendemos mais para um lado, para outro… Temos em nós os três em diferentes medidas e situações. A questão é: somos sujeitos coloniais, e as instituições que nos formam nos forçam a isso.

Creio que mais que o “fascismo”, o que tem se apresentado em nossa situação brasileira – analogamente ao movimento da Teoria Crítica – é o sujeito colonial. Seja na atitude de colono ou de colonizador, nos apresentamos todos como colonizados. Não por uma entidade “x” ou um “sistema invisível”, mas pela nossa própria constituição histórica: somos colonizados pela escravatura que ainda está instituída em nossas relações político-sociais. Como Nabuco profetizou, não superamos a chaga. Uns nascem na casa grande, são donos de gente, aproveitam do tempo e da riqueza garantido pelo esforço do trabalho de outros. São herdeiros de terra e de mão de obra, “garantidos” na estrutura social e legitimados pelo Estado, pela Igreja, pela Escola (tem acesso às melhores) e justificados pela organização e divisão do trabalho. Outros nascem no comércio: tem que ralar e trabalhar muito para vender para os senhores de engenho e para os vizinhos, tentando pagar os estudos dos filhos, se aproveitando da produção de escravos que garante a “economia nacional”, e fazendo de tudo para melhorar o teto e garantir a estabilidade. Aí vem a senzala: sem Escola, sem Estado, sem terra, sem riqueza, apenas com o corpo que dispõe aos outros em troca de qualquer coisa – que é melhor que nada. Quando a senzala “cai”, é substituída pela rua. Somos filhos dessa loucura!

Quando a senzala cai, quando os escravos são abolidos para a exclusão, abrem-se concursos públicos. Abrem-se vagas de emprego para “instruídos”, alfabetizados, especializados, formados… Abrem-se oportunidades de participar da política. Cada “livre” agora pode sentar em seu cavalo e disputar a corrida pela estabilidade social, pelas instituições, para garantir comida, teto, sustento. Que cavalo, meu filho?! Senhor de engenho? Tem um monte. Comerciante? Consegue pelo menos um. Vindo da senzala?

Fui preparado para ser comerciante ou senhor de engenho. Sou filho desses comerciantes que trabalham e tem que bajular senhor de engenho para garantir a estabilidade. Tive oportunidades raras de estudo, acesso a informações e mínimo controle de participação sobre e com o Estado, participei de uma comunidade religiosa que não justificava minha submissão, mas incentivava e me preparava para ser um “vencedor” na vida. Recebi estímulos musicais, literários, ouvi gente falando línguas diferentes, nunca precisei ter medo de perder o teto, a comida na primeira infância possibilitou uma boa formação biológica, desenvolvimento dos órgãos e saúde monitorada. Pude praticar esportes, ter tempo livre, não trabalhar na infância. Me prepararam para passar em concursos, incentivaram minha auto-estima. Me disseram para CONQUISTAR meu lugar. Isso implica em impedir que outros o façam, em diminuir a concorrência, em lutar contra as mudanças sociais, pois elas podem balançar minha estabilidade. Crise é um problema: pode acabar com a casa grande e com o comércio. E para onde iríamos daí? Para junto dos filhos da senzala? Na cabeça colonizada: “jamais”!

Nossas instituições trazem consigo a escravidão, nos formam para a colonização. Somos preparados para olhar alguém que executa um serviço como escravo, como quem nos deve esse trabalho, como se fossemos donos dos braços daquela pessoa. Somos feitos para manter a casa grande de pé a todo custo! Somos colocados contra quem foi jogado na senzala. Aquela máscara de metal me enche de arrepio… A gente faz de tudo para não ter que usar ela – até botá-la na cara de outros. Nos preparam para brigar pela vaga no concurso, pelo espaço na rua, por uma faixa pintada no chão, pelo banco do metrô ou do busão; mas para derrubar o que mantém a escravidão? Isso não. Afinal, pode acabar me jogando na rua. E qualquer coisa é melhor que a senzala, a gente sabe, mesmo se isso significar ficar na varanda da casa grande com o chicote na mão… Precisamos de Libertação.

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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