Independência ou morte? Mais uma crítica à academia filosófica brasileira

independence_of_brazil_1888Ontem, antes de começar uma aula magna com o Jessé Souza, conversava com um parceiro de mestrado sobre os nossos estudos, os vícios e complexidades da academia, coisas boas e fardos que temos que carregar. De todo modo, entre umas risadas e outras preocupações, ele bateu amistosamente no meu ombro e disse: “boa sorte…”. É verdade, vamos precisar. Por quê? Porque se já é difícil o trabalho filosófico para quem estuda a filosofia costumeira, que dirá quem se arrisca numa “coisa” como filosofia latino-americana? Quantas vezes já não tive que ouvir e quantas muitas ainda ouvirei o clássico “mas isso não é filosofia”. Será que nós seremos o reduto desse tipo de conservadorismo? Se opto por dizer que estudo filosofia da libertação, tenho que ouvir “mas pobre não é categoria filosófica!” – e, claro, “Deus” ou “alma” são…

Mas minha preocupação é menos com a aceitação da filosofia latino-americana ou de libertação pela academia e muito mais com nossa falta de autonomia; ou melhor, de independência. Fico indignado quando dizemos e sustentamos que não existe filósofo no Brasil ou que não é preciso existir uma filosofia brasileira – como se não houvesse diferenças de pensamento, produção e necessidade em cada esquina do mundo. É cansativa a inércia e a falta de tesão por produzir conteúdo, por trabalhar filosoficamente, por ser-no-mundo aqui e agora – com toda a malandragem possível dessa expressão -, distantes da floresta negra. A produção de conteúdo nas ciências sociais como de um Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Florestan, Milton Santos, Faoro, Antônio Candido, Roberto Schwarz, Octávio Ianni e por aí vai até o Paulo Freire como intelectual brasileiro mais influente e lido no mundo, não pode ser isolada e deixada de lado como não-material a ser trabalhado filosoficamente. Não podemos simplesmente cogitar (com toda a malandragem possível, novamente) que o que era para ser feito em filosofia, já está pronto. Jamais desenvolveremos nossos sistemas significativos de justificação, jamais trabalharemos criticamente nossos problemas.

O livro de Jessé Souza A tolice da inteligência brasileira bem que poderia ter sido escrito por um filósofo de formação acadêmica. Mas seria impossível, pois na universidade brasileira filosofia só trabalha o que é “estritamente filosófico” – seja lá o que isso signifique. O trabalho intelectual sobre as questões brasileiras tem que correr para outras salas, minimamente mais abertas e arejadas, onde é possível questionar o sujeito, pensar categorias a partir da rua de uma cidade brasileira, dos acontecimentos e experiências duras, concretas e vivas da cotidianidade social, histórica, política e cultural dessa terra. Uma das discussões centrais no livro de Jessé é a crítica à separação ontológica e à hierarquia corpo-espírito presente nas estruturas intersubjetivas e promovidas pelas instituições político-sociais do e no Brasil, com suas singularidades e peculiaridades. Não é material para a filosofia? Jessé resgata Freyre e Sérgio Buarque fazendo críticas metodológicas e conceituais aos autores, abrindo janelas teóricas e possibilidades a serem avançadas e aprofundadas. Em filosofia seria um prato cheio. É possível? Em nossos locais convencionais de trabalho, parece que não.

Não dá para entender como fechamos nossos olhos para a construção histórica do pensamento no Brasil: nascemos da colonização, somos filhos da escravidão. O que temos de conteúdo, o modo como trabalhamos racionalmente nossas questões, está tudo carregado de colonização! Nós precisamos, sim, nos libertar! Isso não significa abandonar os autores, tradições e conteúdos vindos de fora; significa não baixar a cabeça em submissão, sem crítica, sem questionamento, sem grito, sem assumir que as condições materiais interferem diretamente nas possibilidades e no tipo de produção de conteúdo. Para a filósofa libertar a filosofia de seu machismo, tem que assumir que sofreu com o machismo filosófico. Para o filósofo negro libertar a filosofia do racismo, tem que assumir que há racismo filosófico. Para o filósofo brasileiro libertar a filosofia de sua colonização (seja colonizadora ou colonizada), tem que assumir que seu pensamento (e sua história) foi colonizado.

O grito por independência do pensamento não destrói ou aniquila a tradição – seria impossível -, mas firma um marco crítico que exige constante vigia e cuidado. É assumir que há um colonizador em nós que nos impede constantemente de ver as correntes, nos condiciona a achá-las boas, nos trava, oferece uma frágil segurança para evitar a certeza da crise. É quando a gente tem que escolher se vale mais ficar na casa grande ou receber um “boa sorte” porque a empreitada será difícil. Teríamos que assumir nossa história, reconhecer que somos filhos do estupro, que não há cultura sagrada, está cheia de sangue e que será com esse material que trabalharemos filosoficamente produzindo “mundo” no mundo.

Não é que Descartes ou Kant são grandes cretinos que planejaram destruir nossa vida. Sem ingenuidades. É que exatamente a estrutura que promoveu a colonização estava sustentada em ideias instituídas. Quem colonizou não colonizou sem pensar, crer e ter certeza racional e justificada de que deveria ser assim. Como Aníbal Quijano escreveu: “Durante o mesmo período em que se consolidava a dominação colonial europeia, se foi constituindo o complexo cultural conhecido como a racionalidade/modernidade europeia, o qual foi estabelecido como um paradigma universal de conhecimento e de relação entre a humanidade e o resto do mundo. Esta contemporaneidade entre a colonialidade e a elaboração da racionalidade/modernidade não foi de nenhum modo acidental, como o revela o modo mesmo em que se elaborou o paradigma europeu do conhecimento racional”. Não é coincidência; faz parte de uma produção social, política, histórica e cultural. Só.

Nesse sentido, percebendo esse quadro, Quijano também escreve:

“A estrutura colonial de poder produziu as discriminações sociais que posteriormente foram codificadas como ‘raciais’, étnicas, ‘antropológicas’ ou nacionais, segundo os momentos, os agentes e as populações envolvidas. Essas construções intersubjetivas – produto da dominação colonial por parte dos europeus – foram inclusive assumidas como categorias (de pretensão ‘científica’ e ‘objetiva’) de significação a-histórica, quer dizer, como fenômenos naturais e não da história do poder. Esta estrutura de poder foi e é o marco dentro do qual operam as outras relações sociais, de tipo classista ou estamental. De fato, se se observam as linhas principais da exploração e da dominação social em escala global, as linhas matrizes do poder mundial atual, a distribuição de recursos e de trabalho entre a população do mundo, é impossível não ver que a grande maioria dos explorados, dos dominados, dos discriminados, são exatamente os membros das ‘raças’, da ‘etnias’ ou das ‘nações’ em que foram categorizadas, as populações colonizadas, no processo de formação desse poder mundial, desde a conquista da América em diante.

Do mesmo modo, não obstante que o colonialismo político foi eliminado, a relação entre a cultura europeia, chamada também de ‘ocidental’, e as outras, segue sendo uma relação de dominação colonial. Não se trata somente de uma subordinação das outras culturas a respeito da cultura europeia, numa relação exterior. Se trata de uma colonização das outras culturas […] Consiste, em primeiro lugar, numa colonização do imaginário dos dominados. Quer dizer, ela atua na interioridade desse imaginário.”

Nosso imaginário, nossas categorias e racionalidade são, sim, cativas! E precisamos ser libertos. Libertar-se, aqui, significa deixar de ter a postura passiva e submissa para uma postura ativa e independente: somos capazes de criticar o processo de colonização, seja o colonizador ou a posição de colonizado. É reconhecer que as categorias que nos foram entregues não são suficientes para interpretar e nem para transformar o mundo. Por quê nossas produções tem impactado tão pouco? Talvez porque não lutamos contra a colonização, mas apenas desejamos inverter a posição: sermos nós os colonizadores. E nessa, mais uma vez Quijano escreve: “Então a cultura europeia se converteu em uma sedução: dava acesso ao poder. Depois de tudo, mais além da repressão, o instrumento principal de todo poder é sua sedução. A europeização cultural se converteu em uma aspiração. Era um modo de participar no poder colonial, mas também podia servir para destruí-lo e, depois, para alcançar os mesmos benefícios materiais e o mesmo poder que os europeus; para conquistar a natureza. Enfim, para o ‘desenvolvimento’. A cultura europeia passou a ser um modelo cultural universal. O imaginário nas culturas não-europeias, hoje, dificilmente poderia existir e sobretudo se reproduzir fora dessas relações.”

Talvez nossa academia seja emperrada porque tem sonho de ser europeia: não deseja independência, apenas quer sentar no palácio ou garantir uma vaga no parlamento. É nosso quadro da independência: um europeu sentado no cavalo dizendo que o Brasil agora é livre, os parlamentares e os dragões da independência garantindo seu lugar ao sol, e o jagunço la no cantinho esquerdo, que vive o cotidiano duro e real da vida assistindo aquela pataquada. Como o Professor Estramanho dizia em suas aulas, ele provavelmente estava pensando: “que p*r#@ é essa?!”. Parece que estamos a espera de que algum filho de colonizador levante a espada e grite a independência por nós, parlamentares e dragões, enquanto que a vida vai correndo de verdade pelas beiradas.

Depois de uma história de 500 anos de exploração, será que realmente não precisamos produzir categorias próprias? Será que no país mais desigual do mundo “pobreza” não é categoria e nem material filosófico? Será que ser latino-americano não muda em nada o processo de constituição da subjetividade? Será que o que está faltando para nós é ser mais “modernos”, ou seja, “mais europeus”? Será que realmente somos tão incompetentes em filosofia que não temos outras possibilidades de produção de conteúdo além das ciências sociais? Aliás, será que não podemos trabalhar junto e a partir do material desenvolvido por elas? Será que não somos capazes de pegar nossas especializações em Kant, Hegel, Teoria Crítica, Platão, Medievo, Heidegger, Pragmatismo e tudo o mais e por em contato com o material produzido e mantido aqui, no nosso chão? Definitivamente, a proposta que a academia filosófica tem feito para quem quer se libertar é essa: “Independência ou Morte?”. Tapinha nos ombros e “boa sorte” pra nóiz…

 

 

Bruno Reikdal Lima

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