A Bíblia Política: a profecia hipócrita de teólogos evangélicos

alfonsin_claima20101125_0152_8Uma verdade não é uma verdade sozinha. Ela tem corpo sentido e “testemunho” através da vida de quem a profere. O “eu sou a verdade” de Cristo é uma afirmação materialmente mais dura do que parece: eu vivo o que falo e falo o que estamos vivendo. O logos que se faz carne e habita requer que quem o siga seja testemunho vivo, ou melhor, mártir: encarne a mensagem. O crivo de verdade não é a palavra escrita, mas a Palavra Viva, que se renova a cada manhã enquanto a vivos a vivem. “O trabalho liberta” até é uma expressão válida; mas como lema cunhado acima dos portões de Auschwitz, torna-se mentira assassina. Dizer que “profecia é denúncia contra os poderosos” é verdade na boca de Dom Pedro Casaldáliga, mas tem sido falsidade peçonhenta nos textos de líderes e teólogos evangélicos

Textos tem sido escritos, mensagens pregadas, desculpas armadas e vídeos produzidos por lideranças e “estudiosos” evangélicos afirmando que “profecia é denúncia aos poderosos”, com uma ressalva importante: os poderosos são necessária e exclusivamente os “reis”. Os sacerdotes, os ricos e líderes curiosamente não entram na conta. Pior que isso, é ver que esse discurso está sendo apropriado para dizer que é função da igreja ser “denunciadora”, e por isso deve se afastar das instituições políticas: assim é capaz de “denunciar”. Denunciar quem, especificamente? Quem estiver no Governo. A partir de uma análise ou consciência politica? Não. Apenas seja contra as instituições políticas: “elas são sujas por natureza”. A função de denúncia da Igreja está sendo utilizada não para politizá-la,  mas para desarticular seus membros: o efeito gerado é o afastamento das decisões políticas, o distanciamento “do que está acontecendo lá fora”, no mundo. Na verdade, esse discurso não é para durar para sempre: é oportunismo religioso para denunciar única e exclusivamente o governo que está aí agora. Por quase 100 anos de evangelicalismo no Brasil, pela primeira vez curiosa e coincidentemente profecia está sendo “entendida” e apresentada como “denúncia”.

Além de hipocrisia e apropriação indevida, é desonestidade e violência à história de santos que lutaram verdadeiramente para propor e defender a profecia como e enquanto denúncia contra os poderosos. A verdade é que das décadas de 60 até ontem, dizer que a Igreja tinha o dom profético de denunciar os poderosos e os opressores era coisa “comunista” e pecaminosa, que atentava contra a ordem da Igreja e a proposta de um “reino”. Até ontem, para o movimento evangélico, profecia era falar do futuro. Até ontem, eram os católicos insurgentes da Teologia da Libertação que falavam essas coisas de “denúncia” e utilizavam expressões como “poderosos” e “opressão”.

Não sou católico. Sou evangélico. Mas sou devedor e admirador dos santos revolucionários inspirados por Deus que fundaram e fundamentaram numa teologia profunda, concreta, material e comprometida a profecia como denúncia contra os poderosos. Dizem que a última afirmação teológica de Dom Hélder foi “não deixem morrer a profecia”. Perseguido pela Ditadura, amigo íntimo de Paulo Freire, protetor e defensor da Teologia da Libertação dentro da estrutura conservadora da Igreja Católica Apostólica Romana, Dom Hélder entendia como o “pedagogo dos oprimidos” que “profecia é compromisso histórico […] Somente podem ser proféticos os que anunciam e denunciam comprometidos permanentemente num processo radical de transformação do mundo, para que os homens possam ser mais”. Profecia enquanto denúncia exige comprometimento radical, histórico e constante: só é verdadeira a profecia na boca de quem encarna a Palavra. José Comblin, também perseguido pelos militares e pela própria Igreja por denunciar as estruturas de opressão, para quem entendia que Paulo determinava a profecia como dom mais importante, essa encarnação não é abstrata, é concreta,  real. Assim, quanto à mensagem profética de Cristo diz:

“Há uma tendência de espiritualizar a mensagem de Jesus como se o Reino de Deus se limitasse aos bons pensamentos, às boas intenções ou às virtudes morais. O Reino de Deus é moral porque é material. O pecado é material e a salvação também é material. O pecado é a fome, a violência, a dominação, a desigualdade, a exclusão. O Reino de Deus é o fim da pobreza, a igualdade, a paz. mas, para torná-lo presente, haverá muita luta, muito sofrimento, muitos fracassos e muitas vitórias, incluindo perseguição e morte. Jesus não promete repouso, tranquilidade, satisfação de todos os desejos […] A Igreja deve oferecer aos mais desesperados o testemunho de sua esperança. Ela é o povo que permanece acordado e vive a esperança mostrando-a no meio das criaturas humanas mais desesperadas e excluídas”.

Antes e fundamental para se dizer que a “profecia é denúncia contra os poderosos” é o comprometimento radical com os excluídos! É isso que possibilita, encarna e determina a denúncia. Quem são os poderosos? O Estado? As instituições políticas? O Governo? O Mercado? É opressor, dominador ou poderoso todo sistema que oprime, exclui e marginaliza: gera oprimidos. Não é um ou outro, esse ou aquele. Tomando posição e se comprometendo com o oprimido, sabe-se contra quem é necessário levantar denúncia. É a partir da experiência dos excluídos, tal qual os profetas fizeram! É a partir dos pobres. É trazer de volta a vocação de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar as boas-novas aos pobres, anunciar libertação aos presos, restaurar a vista dos cegos, dar liberdade aos oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor”.

Infelizmente a denúncia conveniente de teólogos e pastores evangélicos tem outra função: não mais libertar o excluído, mas atacar o Governo enquanto distancia a igreja das decisões políticas, da comunidade política, da organização popular e de coletivos. Cria um muro para preservar um gueto pseudo-sacro-santo. Na minha própria comunidade religiosa tive que ouvir isso! Discurso vazio que afasta as pessoas da vida de verdade, da responsabilidade e comprometimento com a comunidade de vida que circunda e permeia a comunidade religiosa. Discurso que cria rebanho alienado ao invés de incentivar a participação política, formação de quadros honestos, gente que no futuro possa ser bom governante, bom cidadão, comprometido com o pobre e combatente contra a corrupção. Fazer isso pra quê? Melhor é afastar o povo das únicas instituições que organizam a sociedade e podem ser ferramenta e instrumento para a melhoria da vida da população.

O que está por trás desse discurso fácil e cômodo dos líderes evangélicos é uma analogia indevida e limitada entre “reis” e “governantes”. Ou seja: apenas os “governantes” são os poderosos opressores. Pior que isso, é perceber que as cabeças das autoridades se revelam politicamente mal formadas: pensam que as prerrogativas da monarquia foram transferidas para o Estado na República. Pelamor! A denúncia profética é contra os poderosos: líderes sociais ou políticos, sacerdotes e ricos que oprimem o Povo. A denúncia não é, portanto, contra os cargos, mas contra a OPRESSÃO, a favor dos EXCLUÍDOS. Sem este fundamento, é mero artifício político enfraquecedor da cidadania e que limita, ainda mais, as possibilidades dos oprimidos tomarem caminhos que possibilitem sair da opressão. Como Enrique Dussel escreve:

“O pecado a ser denunciado não é exclusivamente individual; o pecado não é apenas social, histórico, institucional, relação social, mas também, além disso, o pecado se organiza, tem consciência de si, funciona como sujeito […] o essencial é compreender sua práxis histórica, a de seus mensageiros (Mateus 25:41) que são também os dominadores, os pecadores, os ‘ricos’… ‘Os príncipes das nações as dominam e os poderosos as oprimem’ (Mateus 20:25). A práxis do pecado, a dominação (constituir-se como ‘Senhor’ do outro alienado) se institucionaliza através das estruturas políticas, religiosas, ideológicas, econômicas. Não há um pecado religioso de um lado e uma falta política ou econômica secular de outro. Toda dominação ou falta contra o outro é pecado contra Deus! É falso separar o pecado de um lado e as estruturas e instituições históricas de outro; porque essas são as maneiras concretas como Satã exerce seu reinado neste mundo, através dos seus anjos: os homens que dominam seus irmãos. O pecador, o ‘rico’, o dominador é o ‘enviado’ do Príncipe deste mundo para institucionalizar seu reinado; quer dizer, as estruturas históricas do pecado como ‘relação social'”.

O problema não é o Estado, o Mercado, a igreja, a Escola… O problema é a dominação, a opressão, a exclusão: ela deve ser denunciada. A profecia como denúncia está sendo utilizada para distanciar-nos, nós, enquanto fiéis, destas estruturas e da participação nelas para transformá-las, para denunciar o pecado e lutar com o excluído, com o pobre, com o oprimido. Não é denúncia “ao rei”: é denúncia à opressão, seja do rei, do líder, do sacerdote ou do rico! Isaías, por exemplo, a cada capítulo enxovalha os ricos e os sacerdotes. Habacuque ataca os líderes do povo e os sacerdotes. Amós vai até o palácio não para se distanciar da política, mas para criticá-la a partir do povo, dos excluídos, dos que estão “aqui fora”.

Nós evangélicos não podemos de maneira suja e rasteira tomar essa proposta viva, forte, pesada, histórica e com conteúdo como “chavão”, sem constituição, mal feito e capenga. Nós, em nosso arraial, por anos fizemos o contrário: nos posicionamos contra essa História de Libertação! Defendemos, sim, de púlpito, a Ditadura, fizemos e fazemos campanha política, desarmamos ideologicamente as pessoas, apenas nos direcionamos por interesses bairristas, perseguimos os “divergentes”, os “marxistas” e os “comunistas. Essa é a nossa história! Sem assumi-la, é impossível simplesmente tomar esta profecia católica para nós. Nossas estruturas são excludentes, autoritárias, totalitárias e fascistas, sim! Somos politicamente pobres e massificados.É no mínimo cretinice querer tomar profecia como denúncia para realizar um projeto mesquinho e egoísta de “tirar quem não se gosta do poder”. Os homens e as mulheres comprometidos com a denúncia profética tem um posicionamento político claro, determinado e bem diferente desta apropriação indevida que está sendo protagonizada por líderes evangélicos. Aliás, para esses líderes me direciono:

Vocês estão utilizando a metáfora dos “reis” e dos “governantes” – presente nos profetas e reinterpretado pelos teólogos católicos de libertação – para legitimar o afastamento da igreja (como se fosse possível) de posicionamentos ideológicos e de distanciamento do Estado e das instituições políticas. Mas omitem o que é fundamental na profecia e anterior a toda estrutura: A DEFESA DOS EXCLUÍDOS!!!

A leitura originária da profecia enquanto denúncia não era a crítica às instituições políticas: era a crítica aos poderosos e opressores. E quem é o “poderoso”? Quem oprime o pobre, quem marginaliza, quem exclui. O Estado ou as instituições políticas? Não! A preocupação era com a corrupção e exclusão fundamental: o dinheiro!!! Gerando completa despolitização da comunidade religiosa e dos fiéis, os líderes evangélicos indevidamente se apropriaram da “denúncia” para criticar especificamente os “reis”, propondo uma analogia limitada ao “Estado” e ao governante – especialmente a figura presidencial (quem diria?!) -, como se a passagem de monarquia ao republicanismo fosse transferir do Monarca para o Governante os mesmos poderes e função – o que mostra a TOTAL FALTA DE COMPREENSÃO POLÍTICA DA LIDERANÇA.

De todo modo, estou indignado (e esse texto, como dá para perceber, é extremamente exaltado, fugindo do modo como normalmente escrevo) porque sou dos poucos que há ANOS defende que falta o dom da profecia na igreja evangélica (enquanto denúncia contra os poderosos), que trabalha a Bíblia como texto político e que critica severamente a falta de participação política da comunidade junto às instituições que regulam e organizam nossa sociedade. Na própria comunidade religiosa que participo tive que ouvir nesse fim de semana que a “igreja não deve participar da política”, discurso fraco, despolitizante e alienante, que distancia a comunidade da formação de quadros, de gente que exerça com honestidade funções políticas, que denuncie e que combata, sim, a corrupção. Gera rebanho desconectado da comunidade viva que circunda a religiosa e descompromissado com os deveres e necessidades do Povo.

Essa mesma igreja evangélica que nas décadas de 60 e 70 apoiou a Ditadura, fez propaganda do Estado nos cultos, sempre defendeu uma agenda liberal, meritocrática, excludente (sim! Pois a própria teologia da salvação exclui os que não estão em nosso arraial) e perseguiu os marxistas e comunistas que defendiam a bandeira de que a “profecia é denúncia contra os poderosos”, agora toma para si confortavelmente esse discurso sem trabalhar seu conteúdo, com chavões e frases de efeito, sem preparar gente pro futuro e CAGANDO PARA A VIDA DOS EXCLUÍDOS!!!! Não, não está preocupada em denunciar os poderosos: está preocupada em acabar com o Governo que a tem incomodado, que tem garantido direito a homossexuais, a outras religiões afro, aos periféricos, levado gente pra universidade (o que tem trazido problemas para os pastores que chegam a dizer que o “estudo pode desviar o fiel”) e, claro, é “vermelho” – tudo o que há de ruim no mundo, sabe-se lá porque…

Mas queria saber se vocês, líderes religiosos hipócritas, vão denunciar o poder opressor dos ricos de suas igrejas. Queria saber se vão denunciar os juros, o abuso nos preços dos negócios de seus membros, se vão denunciar a ostentação de casas, carros, sucesso, se vão denunciar a opressão de utilizarem e se aproveitarem com “consciência limpa” a mão de obra barata de gente pobre, se vão tomar posição junto aos excluídos e denunciar os “palácios” e os “reis” do Morumbi, dos Jardins, da Oscar Freire, de Wall Street, das mega igrejas norte-americanas, dos negócios sujos de investidores, da malandragem de corretores, se vão denunciar o abuso de autoridade que eles mesmos exercem de cima de um palco sobre a desgraça da vida de gente que só quer encontrar um canto pra trocar uma ideia com Deus.

Vamos falar de denúncia contra os “poderosos” direito?! Vamos junto aos caras que perceberam isso e revelaram para a Fé este princípio libertador para os assentamentos dos sem terra? Vamos nos presídios? Vamos olhar pra cara do rico e parar de bajular as posses e denunciar que deve mudar completamente de caminho, assim como Jesus manda? Vamos nos engajar em lutas sociais contra todo tipo de opressão? Vamos formar jovens não para serem vaquinhas de presépio que repetem chavões, mas para denunciarem aqueles que atacam os excluídos? Ou vamos cinicamente dizer que profecia é “denunciar o Estado”, que é opressor por ser político?

Os profetas denunciavam os governantes quando oprimiam os excluídos. Os profetas denunciaram também os ricos e os líderes religiosos, os sacerdotes, quando oprimiam os excluídos. Amós foi até o palácio, não para se distanciar da política, mas para dar voz aos que não tem voz. Profecia não é denúncia descabida aos “reis”: É POSIÇÃO JUNTO AOS EXCLUÍDOS CONTRA OS PODEROSOS.

Se você é autoridade religiosa, deixa eu te contar: você ocupa função dos poderosos. Daí de cima você defende os EXCLUÍDOS ou denuncia ao bel prazer quem você não gosta????

DEUS PERDOE ESSA CRETINICE E FALTA DE CUIDADO COM A HISTÓRIA DE PERSEGUIDOS E MÁRTIRES, E TAMBÉM A FALTA DE CONSCIÊNCIA DA PRÓPRIA HISTÓRIA. ASSUMA SEUS PECADOS ANTES DE DENUNCIAR…

 

 

Bruno Reikdal Lima

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