22 de abril: o dia em que esta Terra parou

descobrimento-do-brasil-18“‘Descobrir’, portanto […] é o constatar a existência de terras continentais habitadas por humanos no Atlântico, até então totalmente desconhecidas pelo europeu, que por sua vez exige ‘abrir’ o horizonte ontológico de compreensão do ‘mundo da vida cotidiana’ europeia para uma nova ‘compreensão’ da história […] a Terra havia sido ‘des-coberta’ como o lugar da ‘História Mundial’ […] a partir de uma Europa que se auto-interpreta também pela primeira vez como sendo o ‘Centro’ do acontecer humano em geral e, portanto, implementa seu horizonte ‘particular’ como horizonte ‘universal’ (a cultura ocidental). O ego moderno apareceu na confrontação com o não-ego: os habitantes das novas terras descobertas, que não aparecem como Outros, senão como o Mesmo a ser conquistado, colonizado, modernizado, civilizado, como ‘matéria’ do ego moderno. E é assim que os europeus se transformaram nos ‘missionários da civilização em todo o mundo’ – em especial com os ‘povos bárbaros'” – Enrique Dussel, 1492: O encobrimento do Outro: da origem do ‘mito da Modernidade’

22 de abril é a data oficial que indica a chegada dos portugueses às terras hoje chamadas de “brasileiras”. Dos nossos “mitos fundadores”, foi a descoberta de uma terra rica, linda, exótica. Nos nossos mitos fundadores nós nos vemos de fora. Que tipo de consciência é formada em nós, enquanto sujeitos, aprendendo que nos tornamos “nação” quando somos descobertos por um estrangeiro? Mais ainda: que tipo de história contamos quando o termo “descoberta de uma terra” esconde invasão, estupro, genocídio, exploração massiva de recursos, espoliação? Que tipo de prática política desenvolvemos quando exaltamos a chegada de um explorador-colonizador como celebração de nosso nascimento? Que tipo de subjetividade é constituída em filhos que idolatram a violência de um invasor como figura paterna? O projeto-Brasil se torna mais importante que a vida dos que aqui moravam; o enriquecimento da Metrópole mais importante do que o cuidado com os recursos que sustentam a Terra em que estão nossos pés.

Lembro que há 16 anos era celebrado o ano “500” de “des-coberta”. Lembro os shows, a festa, documentários empolgados, especiais de Tv. Lembro que eu era criança e que toda a escola se mobilizava para pintar os rostos e os corações da criançada de verde-amarelo. Lembro que o trabalho (eu estava na quarta série) do ano era fazer uma paródia sobre os 500 anos. Lembro que fiz junto de um melhor amigo, que escrevemos uma musiquinha chamada “O meu Brasil”, brincando com o hit “Ana Júlia” do Los Hermanos. A nossa paródia tinha duas estrofes, um interlúdio e o refrão – seguia exatamente a estrutura da música. Na primeira parte, contávamos da chegada de Cabral e a riqueza da terra. O refrão era o mesmo que o título da paródia. Na segunda parte a gente (infantil e sem nenhum pretensão) contávamos do massacre indígena e da surra que os portugueses deram na terra. No interlúdio a gente perguntava sobre o que seria o futuro. Ficou muito bacana a música, é um orgulhozinho aqui em casa. Coisa de criança? Sim. Inocente? Era. Inofensivo? Não. A música ficou tão “pesada” e de denúncia, que a professora  aconselhou (pediu com certa persuasão de autoridade) que mudássemos o nome e o refrão. Oficialmente saiu “O meu Brasil, eu te  amo meu Brasil”, acredita?! Ainda não superei essa mudança a contra-gosto. Mas hoje sei porque precisou mudar!

A intenção escolar era que se criasse o amor patriótico nas crianças. Uma denúncia à exploração não garantia esse objetivo “pedagógico”. A suavização chegava com um imponente e opressor “eu te amo meu Brasil”. Ha-ha! Hoje me divirto com essa história. mas me divirto triste. Porque não podemos denunciar o descobrimento? Porque não podemos assumir que somos filhos da escravidão, da exploração, da violência, do abuso? Estudava como bolsista numa escola que definitivamente, na época, minha família não poderia pagar. A loucura é que estava deslocado: os pés num lugar e a cabeça sendo formada em outro.

Eu estava sendo des-coberto pela escola. A cultura, a casa, a história, as relações que me constituíam estavam sendo “tiradas” de mim. Não só de mim: de todos nós. A escola, querendo ou não, estava colonizando o ideário infantil. Celebrar exploradores, amar quem estuprou a terra, exaltar a violência, considerar índio e negro historicamente como sub-gente, como os vencidos por incapacidade, por insuficiência,  por serem “primitivos”. Na escola, nunca me contaram que as culturas estabelecidas na América tinham pelo menos 20 mil anos de história.  Não me contaram que a riqueza ético-mítica possuía princípios aos que hoje a chamada “cultura ocidental” corre atrás desesperadamente. Não me ensinaram que pobreza é fruto dessa história escondida atrás do “descobrimento”.

Estamos parados em 1.500. Parados no encobrimento da História forjada do “des-cobrimento”. O Brasil não nasceu em 1.500. O Brasil ainda não nasceu. Ainda estamos na barriga da mãe: filhos do estupro, de uma mulher explorada, marginalizada, empobrecida, estamos sendo gerados sonhando com a vida que poderíamos ter. Mas ainda não nascemos. A mãe sofre com as dores do parto que nunca acontece – e quem a violentou e assiste sua dor sorrindo. Quando nasceremos? Quando sairemos do ventre de nossa mãe e construiremos nossa História?  Quando enfrentaremos nosso pai? Quando exigiremos dele perdão depois de crescermos na periferia, cansados, abandonados, explorados, frutos de uma mãe usada e abusada para o prazer de um puto que foge com as possibilidades para nossa vida e a vida dela em suas mãos? 22 de abril é o dia que a gente lembra que essa Terra parou.

A escola ensina amar o torturador. A escola conta a História dos “vencedores” que cagaram para a vida de pessoas, de gente, de culturas inteiras com toda a riqueza milenar possível. Que destruíram suas crenças, suas músicas, seu modo de vida, suas estruturas políticas. Ainda somos o “não-ego-europeu”. Eles não se preocupam mais com isso; mas nós assumimos que não somos gente porque não somos como eles. Não exploramos, não violentamos outros, não estamos no “topo da cadeia alimentar”. Nos comparamos com quem destrói, arregaça, manipula, rouba, mata e pilha as riquezas de outros povos. Queremos ser eles e estar com eles. A celebração trágica-masoquista do descobrimento formou parte da minha geração. O patriotismo sádico e excludente formou meus pais e meus avós. Os “heróis” bandeirantes, os ricos exaltados, os empresários tratados como legítimos nobres e donos do mundo, as homenagens aos ditadores, aos militares, aos missionários-colonizadores só refletem nossa paralisação, nossa doença de paixão pelos dominadores.

A gente bate palma pra humilhação. Rejeitamos os libertadores e idolatramos os que oprimem. Desconfiamos de quem faz o bem e condecoramos quem encarna o mal. Nos boicotamos. Não suportamos a ideia de que alguém que saia da merda possa ocupar o lugar de quem cagou em nossa terra e nossa gente. Adoramos distinção: parecer com o “superior”, falar como ele, aprender sua língua, cultura, trejeitos. Fingimos que não vemos que acesso à cultura é privilégio de quem explora, que os filhos da casa grande tem garantida a vida e os da senzala são marginalizados. Fingimos que não temos culpa. Fingimos que é tudo incapacidade do “país” (seja lá quem for esse tal de “país”) e nunca da violência, do abuso, da escravidão que ainda mantém toda a estrutura social de pé.

Estamos em crise? Sempre estaremos! A menos que nos tornemos verdadeiros exploradores, que sejamos violentos, imperialistas, amantes de abuso, comedores de gente. Talvez seja por isso que ao primeiro sinal de ondas mais altas, saímos jogando as crianças, as mulheres, os pobres, os excluídos, os “despreparados para o mercado de trabalho” para o fundo do mar. Talvez seja por isso que há na gente esse “conservadorismo” imbatível. Conserva o que, afinal? Princípios e valores? Não! Conserva nosso mito fundador. Conserva a relação de “des-cobrimento”. Conserva a paixão pela violência. Conserva o medo de nos libertar.

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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