No mundo das utopias

ZZ6CF1418E“Isso é impossível! Nunca existiu nenhum lugar assim!” – não mesmo, pois se existisse não seria sem-lugar, ou seja, u-tópico. Voar também já foi algo u-tópico, sem lugar, a ponto de construírem o mito de Ícaro, que inventou asas artificiais, mas que derreteram ao se aproximar do Sol. Voar era coisa divina, inalcançável. Ainda é, em certo sentido. Mas bem menos estranho do que antes: a utopia não se realizou, mas a relação sonho/condições materiais abriu possibilidades e garantiu acontecimentos transformadores no nosso modo de vida. Como Marx coloca: as condições materiais determinam a consciência – aquilo que pensamos apenas pensamos porque é possível pensar. A transformação das ideias em conexão com as transformações das condições materiais da vida mostram pra gente que de alguma forma nossa imaginação só trabalha desse jeito porque é possível. De alguma forma, há este possível…

O sem-lugar, o utópico, inaugura a relação insana e cativante do possível-impossível. Constituímos nossos projetos, organizamos nossa vida e realizamos tarefas (sejam intelectuais, “braçais”, individuais ou coletivas) a partir do que cremos ser possível e do que estabelecemos como impossível.O utópico tem a capacidade de tensionar os polos. Como Franz Hinkelammert apresenta na Crítica da Razão Utópica, seja para Weber ou para Marx, o modo como se estrutura teoricamente a política, a sociedade ou a economia dependem de limites aos quais eles se impõe em suas produções. Quer dizer, para um seria impossível a manutenção de um sistema para sempre; para outro seria impossível sua superação. De todo modo, como Hinkelammert aponta, um e outro dependem de um exercício utópico, de tensão entre o possível e o impossível. O fim das utopias nascido junto com o pretenso fim da História de Fukuyama dependem, na base, da crença de que estamos no “melhor dos mundos”: que chegamos ao lugar sem-lugar e não há mais nenhum lugar possível. Mas se assim fosse, porque tanto esforço ideológico ou de violência física contra todo movimento capaz de pensar em outro “lugar sem-lugar”?

Realmente, o “mundo perfeito”, sem conflitos, contradições e complexidades é inalcançável em nossos projetos. É óbvio: cada ação de cada sujeito produz efeitos intencionais e não-intencionais incalculáveis, situada em suas relações intensas, abertas e aleatórias junta de outras ações de outros sujeitos. Impossível o controle absoluto sobre toda essa aleatoriedade e complexidade. Mas, então,  o utópico morre? Parece que não se levarmos em conta que a ação de um sujeito se sustenta na tensão que ele estabelece entre o possível e o impossível (ou seja, sua racionalidade utópica). O elemento utópico está aí, posto, com função extremamente prática. Porque, então, limitamos nossa imaginação utópica? Mais que isso, porque desvalorizamos os projetos coletivos que se sustentam em utopias?

Não, não acreditemos no impossível. E sim, precisamos limitar nossa imaginação utópica. Limitar, não bloquear. O limite do uso de nossa utopia está também no que Hinkelammert chama de “princípio de factibilidade”: a utopia é um princípio norteador, criador de mundo e de crença, mas que deve ser criticado a partir das situações determinadas e cotidianas. Estas impõe aquilo que é factível e o que não é. A crença não é, portanto, no impossível, mas na possibilidade que a utopia nos dá de atuação no e com o mundo. É tensionarmos consciente e criticamente a relação possível-impossível. A utopia só é possível de ser raciocinada porque há, anteriormente, condições materiais que a garantem como possível. Novamente, só dá pra pensar o que dá pra pensar.

Mesmo não havendo a “paz perpétua” (que, como brinca Lévinas: essa é a paz dos cemitérios), há condições materiais que nos permitem ampliar o possível ou pelo menos criticar a impossibilidade. Seja na religiosidade do livro de Atos que conta sobre uma comunidade que tinha tudo em comum e repartia os bens de acordo com a necessidade de cada um ou da experiência do Arraial de Canudos com 25.000 pessoas que viviam em relações de troca e sem desigualdade, experiências nos permitem transformar e criar utopias. A função racional fundamental não é realizar o “plano perfeito”, mas condicionar as ações a partir de princípios que tensionam a possibilidade-impossibilidade.

Claro, isso não garante que o “mundo seja melhor”. Utopias também produzem luxos: bilhões gastos com tratamento de longevidade para umas centenas de pessoas enquanto milhões morrem de fome. A utopia da vida longa de um tem tido prioridade frente a utopia do fim da miséria. Talvez por isso o esforço de contar o mito do fim da História e do fim das utopias: garante que quem crê e luta por uma bem trivial possa ficar tranquilo enquanto se suprime a utopia urgente que despertaria do sono a consciência de bilhões. É nesse espaço que entra o “comunismo” como uma das grandes utopias…

Imediatamente se conecta “comunismo” a Marx, sendo que essa ideia existia antes dele e que, pior, de cara ele mesmo achou uma ideia tosca. Qual ideia? De que todos teriam sua terrinha em seu canto e viveriam em paz. Nessas, Marx faz uma crítica pesada ao comunismo francês, mostrando que eles não conseguiam imaginar um mundo sem propriedade privada – e era este o problema das relações desiguais e causa dos miseráveis: uns serem donos que enriquecem e outros serem dependentes que se matam pra não morrer. E isso foi possível porque ele acompanhou um caso interessante de gente que roubava madeira… Uma utopia nova nascia: a superação da propriedade privada. Utopia sem-lugar ali, mas não tão sem-lugar em comunidades onde o trabalho era menos complexo. O “comunismo primitivo”, como chamou o próprio Marx, eram essas comunidades mais rudimentares em que a terra é de todos e não há donos. Impossível? Tendo em vista nosso modo de vida de modo estagnado, sim. Mas a utopia tensiona a relação de possibilidade? Com certeza!

Dessa utopia que parece tão fora de moda mas que causa um pânico social quando se ouve falar dela, nascem princípios como de não-exploração, partilha, redistribuição de recursos, cuidado com o coletivo, superação de individualismo. De regimes totalitários? Não, da utopia. E a pergunta não é “como realizar isso”, mas como guiar ações a partir desse “sonho”. Tal qual Marcos Aurélio fala no filme Gladiador: “Roma era um sonho; que só de sussurrar poderia ser destruído”. Um sonho delicado, mas que transforma e guia as decisões e projetos do sábio imperador. No fim, a utopia e a produção de utopias não tem a função de dogmatizar ou doutrinar, mas de libertar: no processo constante de conscientização. É acordar todo dia do nosso “sono dogmático” ou da consciência bloqueada pela força de ideias ou força física. Como o próprio Marx escreve no Sobre a questão judaica:

“Nesse caso, não vamos ao encontro do mundo de modo doutrinário com um novo princípio: ‘Aqui está a verdade, todos de joelhos!’ Desenvolvemos novos princípios para o mundo a partir  dos princípios do mundo. Não dizemos a ele: ‘Deixa de lado essas tuas batalhas, pois é tudo bobagem; nós é que proferimos o verdadeiro mote para a luta’. Nós apenas lhe mostramos o porquê de ele estar lutando, e a consciência é algo de que ele terá de se apropriar, mesmo que não queira. A reforma da consciência consiste unicamente no fato de deixar o mundo interiorizar sua consciência, despertando-o do sonho sobre si mesmo, explicando-lhe suas próprias ações”.

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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