Eles tem medo da Libertação: a Educação proibida

Uma das primeiras atitudes da Ditadura foi tirar filosofia da grade curricular das escolas. Filosofia era proibido. Porque será? Porque filosofia é “libertadora” por si só? Não. Quando um autoritário confunde em seu discurso filosofia com comunismo ou doutrinação marxista, temos que dar muita atenção: seu medo não é quanto ao conteúdo filosófico, mas quanto a possível política que virá junto com os textos: de insubordinação, insurgência, questionamento da autoridade vigente, do sistema de poder posto. Educar é a primeira experiência política: educar para a liberdade é preparar gente para não baixar a cabeça frente a violência, dominação, opressão. A pressa em mexer na Escola só revela uma coisa: o poder transformador e libertador que essa instituição tem

Em Alagoas foi aprovado o “Projeto Escola Livre”, que proíbe os professores de trabalhar conteúdos de política, “moralidade” e religião em sala de aula. Para quem aprovou essa loucura, a educação deve ser “neutra”, mas o que realmente se quer dizer é que ela deva ser neutralizada. O Governador do Estado de São Paulo (Geraldo Alckmin) disse essa semana que uma agência de fomento tem que parar de gastar recursos com pesquisas sem “utilidade prática” para a sociedade – tipo sociologia, filosofia, história, antropologia… Essas “coisas” que são inúteis mas causam um medo danado em Ditadores, autoritários, poderosos e soldados opressores. Um deputado recentemente disse que o professor não deve educar, mas instruir os alunos; e o Secretário da Educação do Estado de São Paulo escreveu um texto dizendo que Educação não é dever do Estado, que cada família que se vire e fica sob responsabilidade dos Pais e da Igreja a formação moral dos cidadãos. Nas recentes passeatas pelo impedimento do mandato da presidente, o que não faltou foram cartazes demonizando Paulo Freire e acusando de “doutrinação” a atividade de professores em sala de aula. Porque o medo? Porque a confusão entre humanidades e “comunismo” (que é o que realmente todos eles querem dizer) é tão corriqueira? O que realmente não se quer?

Esse ataque à Educação (em especial à formação em humanidades) manifesta o poder que a atitude “besta” de entrar numa sala e falar alguma coisa tem. Esse medo desenfreado do “o que se está ensinando para nossas crianças?” só revela a transformação gigantesca que uma Escola pode promover. Esse desespero do que pode vir da próxima geração explica muito bem o porque as escolas públicas estão no estado que estão e porque programas de inclusão universitária desestabilizam os privilegiados: a Escola tem realmente poder libertador! Proibir o que pode verdadeiramente transformar é fundamental para o autoritário que deseja o controle sobre tudo e sobre todos. Educar para a liberdade será proibido.

Fico triste em pensar que Freire é atacado pelos autoritários e desprezado pelos “filósofos” e intelectuais-profissionais. No brilhantismo engajado ele já tinha visto isso: a educação, a experiência de aprendizagem, a experiência pedagógica, é o caminho libertador, a arma mais temida pelo opressor. Educar pode, sim, mudar o mundo. Não tem mudado porque não cremos e somos ensinados a desacreditar que palavras, textos, salas de aula, desenhos e cartazes são capazes de transformar. Não temos fé no povo e muito menos nos pequenos. Mas eles são a possibilidade de romper as correntes, de derrubar a gaiola. Freire poderia ter seguido para a filosofia, para o direito, para sociologia, política ou sei lá; mas percebeu o que a gente não quer perceber: o que mais dá medo em quem manda é o que o mandado pode aprender. O que mais aterroriza o opressor é a possibilidade do oprimido o questionar. Nossos incentivos, trabalhos e investimentos de vida em Educação foram baixos do fim da Ditadura pra cá; mas o pouco de respiro já produziu num boom recente gente o suficiente para descabelar autoritários.

Educar será proibido. Estudar será proibido. Aprender será proibido. Repetir, baixar a cabeça, decorar e aplicar formas será permitido e recompensado. Acho que isso só me anima mais! Ver que seremos, mesmo, cerceados, só me enche de vontade de “catar tudo o que dá pra pegar” e distribuir no secreto, nos corredores, no subúrbio, lá onde dá pra se esconder do Big Brother proibidor. É mais vontade de estudar insanamente, reter o máximo possível – já que em breve não poderemos mais. É sermos os professores que roubavam livros, os estudantes que roubavam livros, os meninos e meninas que resistiram roubando livros. É dar corpo ao fantasma que tem aterrorizado os autoritários: o processo de libertação.

No Manifesto – que, diga-se de passagem, é o texto mais frágil e que menos me interessa em Marx -, o temido filósofo alemão escreveu que havia um espectro, um fantasma chamado “comunismo” na Europa, e que ali ele explicaria ou daria corpo a esse termo assustador. Hoje, há também um fantasma que ronda as ruas atemorizando os poderosos e seus soldados defensores: um fantasma ainda sem nome específico, e por isso se confunde nele história, filosofia, sociologia, etc. e comunismo (tudo como se fosse uma coisa só). Mas o nome desse fantasma que aterroriza as mentes dos autoritários doentes é “Libertação”: é disso que eles tem medo.

Eles tem medo de adolescentes. Eles tem medo de crianças. Parecem Herodes caçando o “rei dos judeus” que havia nascido em algum lugar. Saem matando gente e proibindo a vida para tentar garantir seu palácio. Mal sabem eles que não é o palácio que a Libertação quer: é a Vida inteira, dura e verdadeira. Libertação não é pela coroa, é para destituí-la de seus super-poderes. Eles tem medo de universitários. Eles tem medo de professores. Eles tem medo de livros! Eles tem medo de tudo aquilo que possa fazer com que pessoas se levantem contra eles. Eles tem medo de perder o poder de oprimir. Eles tem medo de que haja gente num futuro próximo que desestabilize o mundo, que rearranje as coisas. Eles tem medo de gente. Eles tem medo da Escola.

No fundo eles sabem muito bem que em última instância quem decide o futuro é o Povo. Eles tem medo do Povo. Eles sabem que um punhado de gente gritando determina os rumos político – tanto sabem que forçam apoio e se aproveitam da indignação coletiva. Eles sabem que só estão podendo proibir porque tem gente que não se percebeu proibindo junto. Isso só ensina mais uma coisa: eles tem medo que a gente vá pra rua com livro na mão e pelo fantasma da Libertação.

 

 

Bruno Reikdal Lima

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