Por uma “virada histórica” na Filosofia

latinamerica“Feuerbach não vê, por isso, que o próprio ‘sentimento religioso’ é um produto social e que o indivíduo abstrato que analisa pertence, na realidade, a uma determinada forma de sociedade” – essa é a Tese 7 sobre Feuerbach escrita por Marx. O que vemos nela? Sem entrar na discussão que Marx  tira em sua crítica a Feuerbach (que pretendemos retomar no fim desse texto), o “sentimento religioso” e a própria categoria de indivíduo analisada por Feuerbach, pertence a uma sociedade específica, com história determinada, própria, situacionada, limitada. Para Marx, a insuficiência da saída de Feuerbach é que ele não percebe que o conteúdo que está por ele mesmo sendo trabalhado é materialmente histórico

A História precisa ser retomada. Não apenas como tema para a filosofia e para a produção de conteúdo. Precisa ser retomada como fundamento: não dá para partir do fim da História – explícita ou implicitamente. Retomar nesse texto a Tese 7 é uma malandragem pro-vocativa (no sentido de trazer a tona nossa vocação): assim como o sentimento religioso e o indivíduo abstrato, a tradição filosófica-europeia e as categorias mantidas na academia pertencem a uma determinada forma de sociedade – e isso não pode ser ignorado ou suprimido! Ao próprio marxismo este princípio precisa ser aplicado – como Michael Löwy mostrou, raramente se aplica o materialismo histórico a Marx. O que vem ao caso é que quando o sobrenome da “filosofia” não é grega, medieval, alemã, francesa ou anglo-saxã, instaura-se uma crise: “seria isso filosofia”? Não é melhor “pensamento x”? Ou pior: “é importante fazer esses estudos culturalistas/étnicos“.

Não vou entrar no mérito das duas primeiras perguntas. É perda de tempo se a discussão for com uma tradição acadêmica. Prefiro a abertura dada pela terceira questão que, a princípio, parece incentivar o estudo da filosofia periférica: além do centro-hegemônico. Quando uma filosofia ou pensamento afro ou ameríndio é colocado como “culturalista” ou “étnico”, o que está implícito? Está implícito que há a possibilidade de existir algum pensamento que não seja de uma cultura específica e que não tenha traços ou caráter étnicos. Está implícita a possibilidade de um conteúdo “neutro”, “a-histórico”, “supra-cultural”. No fundo, está posto um reduto conservador para a existência do “universal”, a-temporal, sem-geografia. Efetivamente, filosofia assume o mesmo caráter do “sentimento religioso”.  Provavelmente essa pretensa filosofia sem cultura, sem história, sem etnia, sem geografia e sem carne foi feira por anjos ou oráculos com acesso ao divino puro que não se mistura com essa gentalha. Curiosamente esses anjos e oráculos tem nomes impronunciáveis em português e nasceram no hemisfério norte – coincidentemente na Europa e nos EUA…

A História precisa ser retomada. Para uma tradição que guarda seu conservadorismo até nas “aberturas” para o diferente, a História do pensamento está descolada da História do poder (como denuncia Aníbal Quijano): teoricamente se admite que o vencedor imprime suas vontades, crenças e cultura arbitrariamente pelo simples fato de lançar mão da força e da violência, mas realmente não se aceita a união entre estes dois campos. Afinal, ter que assumir que o “sublime divino que não se mistura com essa gentalha” foi produzido pela gente, por pessoas, é um atentado à fé da academia. Ter que admitir que não eram anjos nem oráculos, mas humanos que pensam no mundo, com o mundo e para o mundo, a partir de sua língua, crença, cultura, história pessoal e comunitária, limitações, traumas, alegrias, tristezas,  guerras, preconceitos, etc., faz ruir o domínio sobre o “superior”, o controle sobre algo especial, sobre os demais que não tem acesso a esta pureza divina. É a academia ter que reconhecer que é “burguesa” (no sentido que Marx utiliza a palavra). É ter que reconhecer que fomos, sim, colonizados e temos nossas mãos, livros, mentes e currículos colonizados. Perder a propriedade privada sobre algo especial…

O ponto não é “abandonar a tradição”. Para isso, teria que recorrer à mesma falta de História que estamos criticando. É simplesmente “desencantar” o mundo verdadeiramente. O pensamento tem História, só isso. Aquilo que estudamos nas salas de aula tem etnia, tem cultura, tem geografia. O “indivíduo abstrato” que estudamos tem uma sociedade determinada que o produz. Não há separação entre a produção de conteúdo e a vida vivida cotidianamente, as produções sociais, das relações entre os homens. Tem História! É abrir a filosofia à sabedoria: não a algumas sabedorias delimitadas. É aprender a maior quantidade de línguas e linguagens possíveis! Não nos limitar a uma pretensa “universal”. Quando se estuda o sujeito, estuda-se um sujeito com etnia e cultura próprias, com território delimitado. Sujeito em outra terra tem outro conteúdo, outra forma, outra cara. Qual é mais “universal”? Nenhum. São produtos culturais.

Como o Danilo Di Manno dizia: “o universal é que é filosófico”. Filosofia tem sobrenome porque as características culturais e históricas são a possibilidade de existência dela mesma: ela pode ser alemã, francesa, inglesa, estadunidense e, pasmem, portuguesa, espanhola, brasileira, nigeriana, chinesa, indiana, uruguaia ou filipina. Não há pensamento a-histórico: há pensamento sendo produzido, utilizado e retomado na, a partir da, com a e para a História.

É assim que textos de Kant, Hegel, Voltaire são violentamente racistas. Assim que filósofos defendem escravidão, são extremamente preconceituosos, dominadores, machistas, patriarcais. São filósofos, não santos. Tem História, tem cultura, tem etnia, tem língua, tem poder. Isso desqualifica o trabalho filosófico? Não! Isso coloca o pensamento na História, à serviço dos homens e não os homens à serviço do pensamento. A crítica marxista à religião hoje é plenamente aplicável à filosofia e produção de conteúdo. As categorias pretensamente universais falam de produções específicas de relações sociais, de uma comunidade com cultura e historia próprias. Desqualifica a filosofia? Não. Dessacraliza o dogma e restitui o que foi posto de fora, como impuro e marginal.

Weber tinha escrito que o mundo tinha sido desencantado. Só esqueceram de avisar a academia, porque parece que o pensamento não foi. Ainda há um “encanto” ali escondido, se fingindo de crítico, de cético, de ateu e etc. A superioridade desse modo de pensar de um traço cultural hegemônico é garantido por esse encanto, pela aura angelical, pela crença de que o divino que não se mistura com essa gentalha nunca teve data de nascimento e nem terá de morte: sempre existiu e sempre existirá. O pensamento precisa superar sua própria fixação fora desse mundo. Até John Dewey quando faz sua crítica à aura religiosa da filosofia tradicional mostra que quando se faz isso, se faz de um ponto de vista “místico”, perdendo o ponto fundamental: a história, a materialidade, as experiências concretas e cotidianas dos filósofos em suas culturas e tempos. Precisamos de uma virada realmente histórica.

Houve um linguistic turn que bagunçou a filosofia hegemônica em si mesma. Uma reforma crítica fundamental contemporaneamente. Mas precisamos de um movimento revolucionário: uma virada histórica radical! Uma revolução que bote a academia de cabeça para baixo. Nas Teses sobre Feuerbach, Marx mostra como o materialismo não estava sendo suficientemente radical, pois não colocava a experiência da sensibildiade (como Feuerbach também propunha a sua maneira) de modo ativo, mantendo a estrutura de separação entre teoria-e-prática sustentada também no idealismo. Nas teses, Marx expõe que a dificuldade de Feuerbach, do idealismo e do materialismo de então era fixar o pensamento nas nuvens, num lugar separado da História e do que estava acontecendo, não percebendo a própria atividade teórica como uma atividade produtiva das relações sociais. Pensar, como Marx estava construindo, não pode ser pensado em separado: é uma dupla distância que fetichiza o pensamento. Nas teses, Marx diz que a fixação desse pensamento “como se fosse separado” da terra é a contradição que precisa ser eliminada. A superação desta contradição é revolucionária. A História precisa ser retomada: como fundamento! É necessária uma virada histórica que supere esta contradição ainda presente, que desencante o pensamento no mundo.

Por fim, todo primeiro dia de aula de qualquer curso de filosofia desse país começa com a apresentação do logos. Como Leopoldo Zea mostra, esse logos é um logos dominador, que não aceita outro logos. O logos grego se distingue do bárbaro, que é aquele que balbucia, que não fala grego. Esse logos excludente se impõe, sem diálogo. Afinal, não há outra língua que racionalize, só o logos. Disso aprendemos uma coisa bem prática: a filosofia hegemônica se apega mais ao logos do que à sofia: se preocupa mais com a língua única do que com o diálogo, do que com o aprendizado, o aprender, o saber. No fim: só será possível fazer filosofia se for em grego ou em alemão. Muita filologia, pouca filosofia…

Bem, o intuito desse quase que manifesto é  revolucionar: filosofia também se faz em português e iorubá.

 

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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