Marx para além da “esquerda”

Karl-MarxNa primeira aula de um curso no ano passado, Dussel disse: “é tempo de descolonizar a cabeça”. A cada dia que passa, vejo como nossos corpos são colonizados: fomos alienados de nossa própria história, pensamos num mundo onde nossos pés não estão, através de olhos que não são os nossos. Nossa história foi construída de maneira deslocada – e hoje mais do que nunca isso está exposto em nossas contradições discursivas e cotidianas. No meio do embate político, descobrimos que vivemos e pensamos uma história que não é nossa. O discurso da “Guerra Fria” e do “Fim da História” entram em conflito e nossa falta de conteúdo próprio, de nos conhecermos e de sacarmos outro modo de pensar o que aconteceu a partir de onde nossos pés estão não permite a superação de dicotomias e polarizações simplistas. Fico tentado a dizer que falta “estudo” também de nossa parte, mas não: falta é botar no mesmo lugar onde está o pé, primeiro e fundamentalmente

Se entrarmos numa sala com pessoas que tiveram a sorte de estudar certos conteúdos de história ou ter um bom professor que operou milagres em situações precárias para a aprendizagem e perguntarmos “o que aconteceu em 1989?”, TODOS responderão: “a queda do muro de Berlim”. Seria o fim da Guerra Fria e, culminando em Fukuyama, o “Fim da História”. Já não haveria mais porque lutar e nem discursos a defender: dos aparentes “polos mundiais”, um caiu e tudo se estabilizou. De repente nos anos 2000, surge do nada uma onda de governos desse aparente “polo mundial” derrotado em Estados latino-americanos (como se fossem continuidade histórica desse suposto “polo mundial”), e o único discurso que se tinha para compreender o que estava acontecendo era o mesmo da Guerra Fria, a mesma história, um “repeteco”. Mas, e se perguntássemos o que aconteceu em 1989 e a primeira resposta fosse “primeiro presidente do Brasil eleito sob sufrágio universal pós 1/4 de século de Ditadura”? Que tipo de discurso seria construído para explicar o que acontece aqui colocando a cabeça junto dos pés? Em 1989 aconteceu o Caracazo, que resulta na revolução venezuelana e o “nascimento” de Chaves como líder político do país. Aconteciam as primeiras greves e lutas na bolívia que resultariam na Guerra da Água, na Guerra Federal e a união das 90 e tantas etnias ameríndias do país. Aconteciam as primeiras alianças políticas de ex-tupamarus no Uruguai, que resulta nos governos Vasquez-Mujica. Nasciam, aqui no Brasil junto a abertura política já mencionada, os grandes partidos de hoje. Que diferença isso faz? Toda: não somos continuação ou continuidade de uma Guerra Fria, mera extensão de um dos “polos mundiais”, e de dicotomias simplistas. Mas, quem somos, então?

Num debate, falando sobre filosofia e a realidade boliviana, Simón Yampara disse: “Hoje, na Bolívia, vemos que na expressão política não saímos da polarização direita-esquerda. Os aymaras, os quechuas, os kollanas [algumas das muitas etnias ameríndias na Bolívia] não somos nem de direita, nem de esquerda, nem em pensamento, nem em ideologia, mas nos fazem crer que sim, e então, ocasionalmente, estamos nos camuflando. Mas devemos nos perguntar: ‘então, quem somos?'”. É tempo de descolonizar a cabeça. As categorias políticas, as “expressões políticas”, no caso essa dicotomia esquerda-direita, não são nossas: não somos meras extensões de determinada cultura e tradição. Sim são úteis e constituíram parte de nosso repertório, mas tem sido insuficientes em nossos debates, organizações políticas e participação efetiva nas transformações institucionais. Não é apenas uma instituição que está em “crise”, é uma cultura muito peculiar. O processo de autonomização de nossa gente acirra as contradições sistêmicas dessa cultura e de seu modo de vida. A política, a economia e as dicotomias esquerda-direita da tradição europeia moderna chegaram e se fixaram nessa terra com canhões, não sozinhas. Nossa língua, nossa história, nosso modo de pensar e trabalhar foi constituído na força militar de determinada gente sobre outra. Isso não significa que o que proponho aqui seja jogar tradições fora, mas sermos críticos e históricos: botarmos o pé no chão. Esquerda-direita não dão conta não porque são insuficientes, mas porque não são daqui: esse recorte histórico não nos compete e não nos tem dado possibilidades.

Paulo Freire certa vez disse que era necessário “criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de esquerda ou de direita – no fundo, da mesma forma reacionários – que se julgam proprietários: os primeiros do saber revolucionário, os segundos do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se conscientizar […] buscam impor a superioridade de seu saber acadêmico às massas ‘incultas'”. No fundo, são reacionários tanto uns quanto outros porque não põem os pés no chão. A história sobre a qual se constroem não é a nossa, mas a deaparentemente mundial. Os olhos que tomam emprestado para ver o mundo não é a da gente, mas a do intelectual com nome impronunciável. As reinvindicações ou o modo de solucionar os problemas políticos, econômicos e sociais não nascem da necessidade e da voz do povo, mas do repeteco a-crítico de conteúdos que chegam junto com os canhões. O problema é que são “proprietários” do conhecimento, donos da história, da filosofia. Não são trabalhadores/produtores de conteúdo: são donos ou consumidores. Bem, é preciso descolonizar a cabeça.

De todo modo, o título desse post é pro-vocativo: Marx para além da esquerda. Talvez com o caminho de explicações que tracei até aqui dê para sacar onde quero chegar: Marx, quando chega em nossa terra, não é propriedade de uma “esquerda” e, muito mais que isso, a própria ideia de “esquerda” é uma importação barata e sem crítica. Quem somos?Essa é a pergunta. Esse ponto talvez incomode quem se coloca à esquerda (tomando as categorias tradicionais). Por outro lado, Marx para além da esquerda é pro-vocativo também para quem se coloca à “direita”: que não faz a mínima ideia de quem seja ou o que produziu, que se permite reduzir o mundo a aparentes “pólos mundiais” e coloca no mesmo saco Rebelião da Silésia, Zumbi dos Palmares, Comuna de Paris, Coluna Prestes, URSS, China, Coreia do Norte, Venezuela, Bolívia, Cuba, PT, San Martín, Simón Bolívar e bolivarianismo – se bobear até Getúlio (e aquela bizarrice de que “Hitler era comunista”). É pro-vocativo porque apesar das categorias tradicionais impostas, há alguma semelhança e analogia entre Marx e os movimentos populares – inegável! É só olhar quem que se envolve com os excluídos e ver que posicionamento dentro do quadro tradicional insuficiente elx está. E esta semelhança é abertura para entrarmos nesse Marx: porque, para além da esquerda enquanto categoria limitada e deslocada, a luta popular se inspira nesta mensagem?

Deixemos uma cosia clara: Marx nunca desenvolveu um plano de governo, um modo de organizar o Estado e etc. Na proposta utópica (princípio sem lugar), o Estado deveria ser superado: a própria existência desta instituição era falha, problemática e insuficiente. A contradição propriedade privada e propriedade pública era um problema: deveria ser superada pelo “comum”. É um princípio, uma proposta. Esta já é uma boa entrada do porque os movimentos populares encontram semelhanças e aproximações com Marx: não tem nada (propriedade privada) e são açoitados/esmagados pela instituição política (Estado). Numa terra de colonizados abusados, explorados e marginalizados por todos os lados, como não se identificar?

Evo Morales – que é indígena, ameríndio aymara – certa vez disse que não era marxista, era “bolivariano”. Porque? Porque Evo é dos poucos que recebe Marx criticamente. Seu fundamento principal não é o progresso e desenvolvimento que permita a “libertação do trabalho”; para Evo, o suma qamaña, expressão aymara de “boa vida”, e o modo como os indígenas resistiam em suas organizações comunitárias é o suficiente. Assim, ao assumir o Estado, promulga junto aos representantes de todas as etnias e regiões bolivianas a Constituição do Estado Pluri-nacional da Bolívia, protegendo e fortalecendo o modo de vida de cada povo. Não tem o intuito de acelerar o desenvolvimento produtivo, crescimento do Estado ou aumentar taxas de lucros, a preodupação fundamental é fortalecer o modo de cada comunidade e garantir que sejam amparados por uma instituição central quando necessário. Este modo de organizar é de “esquerda” nos moldes tradicionais? Não: é apropriação de discursos com os pés no chão. No mesmo sentido mas num caminho diferente, o que Pepe Mujica quer dizer quando fala que precisamos mudar o modo de vida, quando assume e encarna o que chamam de “simplicidade”, é tomar a vida comum e a partir dela se apropriar dos discursos. Da boca do Mujica não sai um “sou de esquerda” ou “sou bolivariano”; mas sai um “somos latino-americanos, povo sofrido e da periferia do mundo”. A partir daí o que vem de outro canto é criticamente posto e contrastado com a realidade em que se está.

Marx, pensando na Alemanha, a partir do operariado que lá estava sofrendo e em luta, assume uma postura do “progresso” tecnológico e dos meios de produção para “aliviar” o trabalho excessivo do humano. Já Benjamin, algumas décadas depois, pensa é em “parar o trem da História”. Eu, particularmente, olhando para as catástrofes, ameaças iminentes da vida e os níveis excessivos de produção, me aproximo muito mais de um Mujica dizendo que o “modo de vida precisa ser outro”, que é urgente assumirmos o necessário de uma vida simples, do que o “progressismos” desenfreado. Não podemos aceitar a conta do pinga-pinga de economia (em que quanto mais ricos os ricos ficam, mais sobrará para os pobres) no quesito “desenvolvimento científico”. Recursos são escassos. Acelerar a produção cada vez mais inconsequentemente é fortalecer as limitações de acesso. Curiosamente, o próprio Marx tinha notado algo semelhante, mas não critica o “progressismo”, se voltando para a questão da propriedade (que também é um problema, mas não se descola do outro).

Claro, Marx se preocupava com a diminução do tempo de trabalho das pessoas, para que pudessem se desenvolver culturalmente, se apropriar de todo tipo de produção humana, Mas Marx apenas conseguia criticar e construir propostas a partir do modo de vida em que estava inserido: moderno, europeu, industrial. Para um aymara ou um pequeno agricultor, como Evo e Mujica, de países explorados e colonizados, nos quais a indústria chegou pelas armas, não sozinhas, mudando completamente o modo de vida dos habitantes da terra, acabando com sua história, arrasando consciências e os laços familiares-culturais, existe um resquício de modo de ser que não é moderno, europeu, industrial. Este traço acaba se tornando fundamento crítico e possibilidade de botar os pés no chão: existe outro modo de vida, outro modo de produção, com outras fontes e história, que é possível. Assim, aproximando-se e se apropriando das críticas de Marx, para além da categoria “esquerda”entendida em seu modo tradicional, são capazes de criar um discurso marxista.

Na minha leitura, particularmente, o que me apaixona em Marx é a denúncia à precificação de gente: não somos coisas, somos gente! A crítica de Freire aos intelectuais de esquerda é que este princípio e valores revolucionários acabam se tornando “propriedade” de uma ala ou categoria. Mas acho muito difícil (apesar de ter medo do contrário) que alguém em sã consciência assuma que sim, é justo precificar alguém. Não sei se dorme a noite em paz defendendo que saúde, educação, comida e moradia sejam produtos à disposição, tendo acesso apenas aqueles que possam pagar. Na verdade, uma contradição latente nos discursos recentes (que mostram as limitações dessa dicotomia) é que quem tem apoiado “privatizações” e mercantilização de direitos, ao mesmo tempo o faz (parece que ingenuamente) em prol da população pobre, excluída, ter acesso a estes direitos. Ou seja: se o fundamento é a proteção do pobre, da vida das pessoas que não tem um puto no bolso, como queremos que elas paguem por isso? Precisamos covnersasr… Mais que isso, precisamos ouvir.

Numa música, Emicida canta que “esses boy conhece Marx, nóis conhece a fome”. E está aí o ponto da crítica de Freire aos intelectuais. Seja esquerda ou direita (nas categorias tradicionais) não ouve e nem deixa que o com fome, o sem voz, fale, coma. Não conhece a história, não põe o pé no chão, não constitui um discurso crítico a partir e junto do excluído. Marx denuncia a acumulação na mão de poucos, o uso do Estado pelos poderosos para realizar seus desejos, vontades e manter suas propriedades, mostra que o preço de uma mercadoria é arbitrário e que o salário é o modo de precificar alguém – também aleatoriamente. Marx mostra como o discurso de um indivíduo abstrato, sem história, precisa ser superado: pois é exatamente o fato de não saber como chegou aqui, que passa a crer que “tudo sempre foi assim”. Quer dizer, todo o desenvolvimento inicial de nosso texto a respeito de por os pés no chão e reconstituir a história é, analogamente, marxista. Mas isso se resume ou se restringe a quem se coloca à esquerda? Necessariamente? Não. São conteúdos a serem trabalhados: para além da esquerda. Marx não é propriedade de alguém: tornou-se trabalho objetificado enquanto consumível (por nós leitores) e meio de produção (por aqueles que tomam o que ele produziu como possibilidade para novas produções e construções de conteúdo).

Em nossa História, a partir do que vivemos e da voz dos que estão excluídos, conhecendo e constituindo junto a eles nossas histórias de vida e comunidade, o que resultaria de nosso diálogo com Marx?

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