Sujeito histórico da revolução: de conceito a conteúdo

grafite arte urbana QBRK (11)[8]Esse texto é mais um fruto das releituras que temos feito da filosofia de Marx. Assim como Por uma “virada hisórica” na filosofiaMarx para além da esquerda, é o esforço de interpretar criticamente essa filosofia. Claro, jamais sozinho, como se as nossas produções intelectuais caíssem do céu na cabeça de uns iluminados. Jamais! Devo muito esta tentativa de leitura – ainda imatura e escorregadia – às pesquisas do grupo de estudo recém-criado “Itinerário Marx”, às discussões com xs parceirxs Tatiana Peixoto, Diego Blanco e William Dubal, assim como ao conteúdo apresentado num curso livre recente pela amiga e professora Suze Piza; e às contribuições e indicações dos colegas Thiago Lisboa e André Trevisan. Talvez minhas contribuições um tanto mais “peculiares” sejam o contato com teologia e a constante preocupação em “falar” a partir da América Latina; mas nessa trilha eu estaria devendo a muito mais gente, a acontecimentos e acidentes que no percurso possibilitaram este instante e oportunidade de trabalho com filosofia

O título, “Sujeito histórico: de conceito a conteúdo”, indica que trabalharemos uma “categoria” clássica de Marx; um ponto ao mesmo tempo  resistente e central, e incerto e frágil. Mas só indica. A “categoria” é nosso mote para tratar outro assunto: o modo de produção intelectual. De todo modo, não procuraremos repetir a proposta do “marxismo estandarte” ou as discussões voltadas às ciências sociais ou acontecimentos políticos. Antes, procuraremos nos voltar para o modo como podemos trabalhar este “conteúdo”. Na verdade, utilizaremos essa “categoria” (utilizo esse termo por falta de outro) como objeto de um esforço maior: fazer uma crítica ao modo como lemos e trabalhamos a filosofia de Marx – talvez outras filosofias também! -, seguindo a orientação de Michael Löwy, que nos mostra a dificuldade que o próprio “marxismo” (no sentido das leituras correntes de Marx que se sedimentaram) tem de ler Marx de “modo marxista” (no sentido de assumir as proposições do próprio Marx ao lê-lo). Se nos dirigimos às propostas econômicas e também sócio-políticas sem antes assumirmos sua filosofia – enquanto “método”, ou seja, como dizia o professor Benedito Elizeu Cintra: “filosofia é um método, um modo de interpretação” -, perdemos as potencialidades criativas de sua produção, reduzindo os termos por ele cunhados, as categorias, enfim, o “conteúdo”, a significações correntes, modos de pensar comuns.

Mas isso valeria a qualquer filosofia; porque Marx? Não lembro quem escreveu, mas “em tempos interessantes, precisamos retornar aos clássicos”. O “interessantes” significa “críticos”. A escolha por esse “clássico”, em especial, vem pelo fato de vivermos uma crise generalizada de um “modo de viver”, que envolve toda a estrutura “moderna”: Estado, Mercado, sociedade civil, religiosidade, instituições de ensino, etc. Crise antecipada pelo próprio filósofo “escolhido”. Entretanto, podemos encontrar em muitos outros possibilidades de análise. Pois bem, na crise atual, paira o medo, ataques e repúdios contra sua produção. Porque? A busca pela resposta me empurra para retomar esta trilha. No período da graduação, tive contato com o pragmatismo estadunidense e a reação comum de alguns professores e colegas era de “preocupação”/”aversão” a esta proposta, pois fragilizava a filosofia. Fui tentar entender o como; e curiosamente descobri exatamente o contrário! Meu trabalho para tirar o título de licenciatura foi sobre o método pragmático de se fazer filosofia. Assim, parece que retornar a esse clássico pode mostrar exatamente o inverso dos ataques que tem sofrido. Só para não deixar passar: a qualidade dos ataques e dos que tem atacado também são um convite para a leitura, já que são extremamente simplistas (os ataques) e intelectualmente desonestos (os que atacam). Não é possível que a produção gigantesca de um intelectual que transformou a história seja “derrubada” por uma ou duas frases. No mínimo, ingenuidade da nossa parte.

Assim, não procuraremos perguntar “o que é sujeito histórico?” ou “quem é o sujeito histórico?” – como, inclusive, tem feito em geral a sequência da tradição marxista. Num passo anterior, é nos perguntarmos o caráter ou como podemos entender o caráter de “sujeito histórico” (senão de todas as “categorias” de Marx) arriscando uma leitura filosófica. Não que sejamos os primeiros a fazer isso. Mas ao nosso modo, estamos tentando.

Nas Teses sobre Feuerbach, que Engles diz ser “o primeiro documento em que está depositado o germe genial da nova concepção de mundo”, Marx indica algo que também está presente (dentre outros textos) na Contribuição à Crítica da Economia Política e A ideologia alemã: o “indivíduo abstrato” precisa ser superado. Isso não significa que se substitui uma determinada expressão por outra, mas o modo de pensar que possibilita uma ideia de “indivíduo abstrato” precisa ser superado. Em sua crítica a Feuerbach, Marx mostra como este não consegue perceber que “indivíduo abstrato” é uma construção de certo modo de vida; e este modo de via é o problema. Como solução, Marx não faz o esforço pelas argumentações, mas a mudança de posição ou de lugar do problema: não se trata de estabelecer conceitos e aplicá-los, mas de desenvolver uma práxis. Esta proposta é singular: procura desconsiderar a separação “ontológica” entre teoria e prática e tirando do posto privilegiado o exercício das “ideias” (criação de conceitos). A última Tese contempla o esforço com o famoso “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é  transformá-lo”.

É de modo muito peculiar que Marx propõe que a vida determina a consciência. Os modos como nos relacionamos, o que produzimos, falamos, somos, em interações complexas e concretas, que possibilitam o que chamamos de exercício da consciência. “Indivíduo abstrato” é um conceito, aplicável, utilizável, mas isolado num mundo superior e anterior, ele perde seu caráter “real” ou “material”, fixando-se (digamos assim) nos “ares”. O que Marx propõe é que esse conceito é fruto da interação social e das transformações históricas, que possibilitam em concreto o surgimento desta “categoria”. Mas é uma produção! Foram humanos, historicamente condicionados, que produziram este conceito para e com determinado modo de pensar, e esta vida humana produtiva é anterior e fundante, não o contrário. A qualquer momento, os conceitos mudam e podem mudar, podemos trabalhá-los, produzi-los ou reproduzi-los. Tomando consciência dessa realidade, dessa concretude viva e da criatividade possível, o humano pode se “libertar”: retornar à experiência viva, sem cindir ontologicamente teoria e prática, reunindo no conteúdo práxis o caminho de possibilidade de revolução. Assim, a primeira Tese é:

“A principal insuficiência de todo o materialismo até aos nossos dias – o de Feuerbach incluído -é que as coisas [der Gegenstand], a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objeto [des Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não como atividade sensível humana, práxis, não subjetivamente. Por isso aconteceu que o lado ativo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo – mas apenas abstractamente, pois que o idealismo naturalmente não conhece a atividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objetos [Objekte] sensíveis realmente distintos dos objetos do pensamento; mas não toma a própria atividade humana como atividade objectiva [gegenständliche Tätigkeit] […] Não compreende, por isso, o significado da atividade ‘revolucionária’, de crítica prática.”

Na “nova concepção de mundo”, a atividade revolucionária depende da crítica ao ‘modo de produção” – que em economia terá um sentido, nas relações sociais outro, no exercício intelectual, mais um diferente -, ou seja: desenvolver um conceito e aplicá-lo é repetir a falha do uso do “indivíduo abstrato”, perdendo o caráter revolucionário e mantendo o modo como “sempre” foi produzido conteúdos – no caso, em filosofia. Os filósofos devem “parar de interpretar o mundo”, nesse sentido, e passar a “transformá-lo”: superar a separação teoria-prática e mergulhar noutro modo de pensar – conectado ao que foi chamado de materialismo dialético e também materialismo histórico. É conectado a tudo isso que se insere a práxis, a atividade humana, propriamente humana.

Em suas críticas teológicas, Marx mostra o problema da ideia de Deus: ela ganha vida própria e se impõe sobre o humano. Assim, aquilo que fora uma produção humana passa a “mandar” no humano. Um conceito abstrato é aplicado cotidianamente na ordenação da vida. Sem entrar nos méritos das interpretações de Marx a respeito de religião (que também estão muito poluídas por anos de falta de silêncio), o mesmo se aplica à produção de conteúdo: um conceito não pode ter vida própria e ser ele o crivo para a experiência “dura”, concreta, material. Todo conceito é historicamente determinado e se entendido enquanto abstrato, perde este caráter e corre o risco de (digamos assim) equivaler à função da “ideia de Deus”. Por isso acho importante a diferença entre “conceito” e “conteúdo”: entendendo um como uma “categoria” estanque e o outro como uma produção material e consciente dessa mesma materialidade – sabendo-se como e enquanto produção humana, meramente humana.

Como Dussel nota, Marx utiliza dois termos para “material”: material (no sentido de “conteúdo”) e materiel (no sentido duro, rude, bruto, de coisas materiais). Quando se refere ao materialismo dialético, materialismo histórico, seu próprio materialismo, Marx utiliza o primeiro termo, com “a”, indicando a produção intelectual integrada na história, como e enquanto produção humana, historicizada e historicizável. Quando critica o “materialismo grosseiro” (no qual se inclui Feuerbach, de acordo com ele), utiliza o outro termo, com “e”, por ser um materialismo ingênuo, que desconsidera a própria produção intelectual como produção, como se fosse “falso”, “mentiroso”, de “menor importância”. Para Marx, a cisão ontológica de teoria-prática não é superada por esse tipo de materialismo, pois ele apenas inverteu os polos, sem romper com o abismo. A superação (ou suprassunção) só seria possível por um conteúdo que se inserisse como e enquanto unificador, a compreensão complexa que rompe-se com o modo de pensar fruto histórico da sociedade em que se vivia. O elemento unificador, com sentido e abertura revolucionário, aqui, seria a práxis.

Mas e o sujeito histórico? Onde entra? Bem, a meu ver, tradicionalmente tem-se trabalhado “sujeito histórico” como conceito: uma “categoria” aplicável para se compreender a realidade. Quando se pergunta “quem é o sujeito histórico, hoje?”, está indicado que não se fez o questionamento crítico, materialista, e nem se está trabalhando com esta “categoria” enquanto conteúdo produzido em determinado tempo referente a determinada experiência humana. Fez-se do sujeito histórico o mesmo que se Feuerbach fez com “indivíduo abstrato”. Ele se torna um conceito a priori e aplicável, perdendo seu conteúdo, seu caráter prático, transformador. Quando Mariátegui escreveu no Peru que o “sujeito histórico da revolução” eram os índios e não os “operários”, foi muito criticado pelos partidos e correntes marxistas. Como poderiam ser os “índios”? A “revolução” deveria ser fruto da luta do sujeito trabalhador, que é o sujeito em questão. Mas Mariátegui, ainda tateando, retrucava alertando para o fato de que os índios equivaliam aos operários alemães, não no sentido material (bruto), mas enquanto conteúdo! Ou seja, Mariátegui fez uma apropriação da própria produção teórica de Marx para trabalhar praticamente os problemas do Peru.

Talvez o próprio Marx não aceitasse esse tipo de produção teórica. Mas como não incorrer no uso de abstrações, de conceitos estanques, e voltarmo-nos à experiência concreta, à práxis, se não for por meio da dessacralização dos conceitos estabelecidos? Como disse o André Trevisan quando escrevi outro texto, “pensar é um ato herético”. A pergunta “quem é o sujeito histórico?” ou “o que é o sujeito histórico?” não pode nascer de sua utilização num modo de produção de conteúdo no qual ele mesmo surge como crítico. A “categoria” talvez esteja aí para ser materializada, historicizada. Talvez ela deva surgir depois de uma experiência concreta e cotidiana, e não ser o conceito pelo qual olharemos para as experiências cotidianas. Faz mais sentido hoje dizer que os estudantes que ocuparam escolas em São Paulo indicaram uma experiência crítica, nos mostraram uma possibilidade que, ao nos referirmos a ela, podemos lançar mão deste conteúdo: os estudantes tem grande potencial revolucionário; agindo como sujeitos, se colocaram frente a um modo de viver e expuseram contradições.

A academia brasileira nos coloca frete a um modo específico e delimitado de produção de conteúdo. Este modo condiciona nossas produções, nossos pensamentos, nosso agir. Esse modo de produzir mantem ou supera a separação teoria-prática? Estamos trabalhando na replicação ou criação de conceitos ou no desenvolvimento de conteúdo, material, histórico, historicizado e historicizável? Somos conscientes desse processo? Tomamos nossas produções como e enquanto produções humanas? A quem servem? Essas experiências na academia nos permitem perceber nela mesma condições para trabalharmos o conteúdo de sujeito histórico revolucionário?

A série de perguntas é um “adendo” ao texto antes do final do texto. O esforço todo é de tentarmos fazer a passagem do uso de conceito ao “conteúdo”. Entendermos o trabalho de Marx como um trabalho de conteúdos, e não de conceitos estanques a serem aprioristicamente utilizados, nos dá muitas possibilidades críticas e abertura a diálogos. Em nossos “tempos interessantes”, as críticas rasas e as acusações giram em torno de conceitos prontos e discursos pouco trabalhados. Para além de “esquerda” ou “direita”, de alguém estar ou não perdido, creio que nós, enquanto humanos, não mudamos nosso modo de produção (político, econômico, social, intelectual) ou nosso “modo de vida” e temos pouco ferramentário intelectual que nos auxilie nas soluções de problemas. Estamos recorrendo a conceitos e fixos e resultando na repetição infeliz de dicotomias reducionistas, simplismos e mediocridade em nossas relações.

Creio que a retomada de Marx nos possibilita, pelo menos, reconhecer que nosso modo de produção ou modo de vida está insustentável.

 

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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