Benjamin, Lévinas e a necessidade de sermos poço

sertãoCom o tempo, uma tradição, um cânone ou um “clássico” se tornam fonte de inspiração para um futuro inesperado. A tradição é a água que permitia a vida em milênios passados e que hoje que fica escondida debaixo da terra, necessária para saciar os seres vivos que hoje pisam num novo chão. Para que os sedentos não morram é necessário cavar um poço, firmar uma estrutura simples, relativamente frágil, mas trabalhosa e fundamental. Graças ao poço, alguém pode puxar essa água para a superfície e trazer para cá a possibilidade de manutenção da vida. Graças ao poço,  muitos e muitas podem ser saciadxs. Não somos água. Mas podemos (devemos!) ser poço ou puxadorxs de água. A terra está seca, o tempo castiga e não há quem nos sacie

Tempos “interessantes” como os nossos são terra seca. Tenho pensado muito que a função dos filósofos e filósofas (veja que não falo dos que estudam filosofia, mas de todo aquele e aquela que servem e trabalham pela sabedoria) é as vezes ser poço, as vezes ser quem puxa a água. Resgatar com a tradição a água que nos sacie, levar aos irmãos e irmãs essa possibilidade de vida, luta contra o tempo e contra a aridez.

É curioso ir a uma livraria grande/famosa (qualquer que seja) e passar o olho nas prateleiras de “ciências humanas e sociais”. Faça a experiência e veja em História a quantidade de livros que revisam a história do nazismo, da Segunda Grande Guerra e do tempo da Ditadura no Brasil. Curioso porque são temas em voga: totalitarismo, fascismo, ditadura, “intolerância”, fanatismo, etc. Cada termo desse usado genericamente, sem conteúdo e utilizado sempre como ataques estranhos. É a loucura de ler ao mesmo tempo em redes sociais e em mídias (sejam as grandes ou alternativas) “PM fascista” e “manifestantes fascistas”. Afinal, quem é quem? Ver ao mesmo tempo “ditadura do PT”  e “Temer autoritário”. Como? E a saída mais seca, esguia e fácil: “tudo é a mesma coisa! Farinhas do mesmo saco!” e a famosa hashtag #foratodos.

Sem baliza. Não temos mais o que nos medie, termos e estruturas comuns. Não que antes tivéssemos, mas, de um modo ou de outro, agora estamos explicitamente e finalmente vazios. O Estado de Exceção é cada vez mais regra. Essa, imagino, seja mais uma hora para sermos poço e resgatarmos da fonte conteúdo que nos sacie, que possibilite manutenção da vida e não rendição à aridez e ao tempo. Como Viveiros de Castro brincou (sério): se vivemos no fim dos tempos, deveríamos ir conversar com os índios, já que estão no apocalipse há mais de 500 anos. Se revisão da história da grande guerra, do nazismo, discussões sobre fascismo, autoritarismo, totalitarismo e tudo o mais estão aí como fenômenos de nosso tempo, que voltemos à vida daqueles que passaram por isso: não como observadores de um sistema que se constitui, mas como a vida que padece e persevera imersa nisso tudo. Não nos referimos, como diria Lévinas, à história que “narra a escravização” e se esquece da “vida que luta contra a escravatura”, mas ao resgate dessa vida, tentar beber dessa fonte; não o esforço de tentar voltar no tempo, mas de vivê-lo hoje por inteiro…

Lévinas era um judeu-lituano-francês,  preso e enviado para um campo de concentração nazista em Oflag (de 1940 a 45). Perdeu toda sua família nos campos de concentração – exceto sua mulher, que foi protegida por freiras em um convento. Sobrevivente do tempo que nos deu as histórias e os termos que temos sequestrado. Walter Benjamin também era judeu: mas não se tornou um sobrevivente. Tentou fugir, foi pego no caminho, preferiu a morte aos campos. E dessas vidas temos fonte para entender e dar conteúdo para saciar sede, possibilitar a vida nesse deserto a lá Mad Max que parece que vivemos. Nessa “estrada da fúria”, cumpre-se o que Lévinas dizia: “política é a arte de prever e ganhar de todas as maneiras a guerra”. Continuar lendo