Alienação e personalismo

30-artigo-qual-adorac3a7c3a3o-c3a9-idolatria-bg-ilustrado-04Numa série de textos que escrevo fico me explicando sobre o porque trabalhar com teologia para discutir questões políticas, filosóficas ou mesmo econômicas. Claro que minha história, cultura e tradição comunitária, familiar e religiosa constituem e são material a partir do qual escrevo. De todo modo, há um mais, sempre: creio que além de estruturas fundamentais de nossa produção teórica e crenças cotidianas (pontos a partir dos quais tomamos decisão) estão fundamentadas teologicamente ou encontram eco nas interpretações que fazemos de textos religiosos (sejam cristãos, de religiões de matriz africana, islâmicos, hindus, confucianos ou qualquer outro de outra experiência humana). É nesse espaço que gente como Vattimo, Agamben, Zizek, Schmitt, Dussel e mais tantos tem tratado do tema e retomado questões teológico-filosóficas. Aqui, não será diferente

Não tomaremos um texto bíblico como ponto de partida; mas como uma estrutura análoga, semelhante ou ainda como uma armação auxiliar que nos permite perceber problemas fundamentais de nossas posturas comuns, modos de vida e organizações sociais, políticas, econômicas, etc. E os problemas que queremos articular para trabalhar esses campos de nossas vidas são o “personalismo” e “alienação”. Esses pontos, de alguma maneira, apareceram em interpretações recentes conectados e se retro-alimentando. Não vamos dar, ainda, nenhuma definição para nenhum dos termos e peço que o leitor também não o faça: por enquanto imagine serem apenas duas palavras ou ícones sem significado pleno. Primeiro, olhemos a armação teórica que nos permitirá dar conteúdo para nosso problema:

Nos dois mitos bíblicos da Criação em Gênesis (o primeiro entre os capítulos 1 a 2: 3 e segundo a partir de 2:4  até o final do 3) – importante destacar que existem no Livro Sagrado outros relatos da Criação e que o nome “gênesis” de começo ou início foi adotado no período helenístico, assim como a interpretação que estendia para todo o mundo o “começo”, como história universal e não do nascimento de um Povo, como pretendia a comunidade judaica – Deus cria para além Dele. É na separação, como já discutiram trocentos filósofos cristãos e também judeus, que efetivamente a criatura se torna livre. Deus, o Criador, cria algo vivo, independente, para além. O judeu-lituano-francês Lévinas chega a afirmar que a origem de uma humanidade realmente humana é esse a-teísmo, a criatura que não se confunde com o Criador, que não é a mesma coisa, o mesmo, mera extensão de um no outro, mas sujeitos que apartados podem verdadeiramente se relacionar, se aceitar um ao outro ou não. Bem, no primeiro desses mitos, à imagem e semelhança de Deus a humanidade (homem e mulher) é criada. No segundo, Adam (humano) é feito de adamah (terra) e com o ruah (sopro/vento) se torna vivente. De sua carne (ish, em hebarico é “homem” ou “macho”) é feita por Deus a ishah (mulher ou fêmea), que mais à frente terá nome próprio, Eva (mãe de todos e todas), agora separada do “macho”, outro que não ele…

Histórias conhecidas, mas que precisam ser melhor vasculhadas. No primeiro relato, a humanidade, com homem e mulher, é constituída à imagem e semelhança de Deus e isso é bom. No segundo, mais à frente, há a história de que ishah (mulher) e Adam (humano), ish (homem/macho), comem do fruto do conhecimento do bem e do mal. Nesse momento, Deus comenta que agora o humano era semelhante a ele, “como nós”(sabe-se lá com quem ele estava conversando…), e isso mudava radicalmente as relações – não era necessária ou esclusivamente bom. Afinal, ser imagem e semelhança de Deus é ou não o projeto criativo, divino?

Assumindo a interpretação de Lévinas (e de uma longa tradição de filosofia e teologia cristã), Deus cria em separado, uma criatura que é feita para e como Outrem, não para o Mesmo, para si. Deus e o homem são distintos. Nesse sentido, à semelhança de Deus, o homem também cria, também é, em sua medida, criador. Ignácio, Orígenes, os “pais da igreja” (filósofos e teólogos helenísticos) destacam várias vezes essa capacidade criativa humana como sua semelhança ao Criador. Todavia, assim como o Criador, a criatura não deve criar para si, mas para Outrem, como Outrem. Deve criar, mas não para seu proveito, senão para a liberdade. Assim deve ser a relação pai-filho, mestre-discípulo, comerciante-comprador, produtor-consumidor. Trabalha-se, cria-se, para alguém, não para si. O trabalhado se aliena de quem trabalha para que seja possível a criação e manutenção da vida.

Mas há a possibilidade dessa semelhança produzir efeitos maléficos ao próprio humano. O processo de “tornar-se como nós”, como Ele, conhecedor do bem e do mal, é ambíguo e pode se corromper, não necessariamente ser bom. E assim se dá quando aquilo que é “desejado”, produzido, querido, que há de ser criado e consumido, domina o Criador, o sujeito, não se separa plenamente. No segundo relato, quando homem e mulher comem do fruto, ele (que era desejável aos olhos) tem poder sobre os jardineiros, sobre os sujeitos: o objeto trabalhado ou produzido, aquilo que será consumido por Outrem, se torna “dono” ou fica acima das decisões livres ou autônomas dos sujeitos. Entregam-se ao fruto – que ao ter mais poder do que a Palavra dita por Deus como ordenança (não comam), torna-se um ídolo.

A relação entre ser semelhante à Deus enquanto criador, positivamente cumprindo com a Criação, e a de se fazer semelhante de Deus instituindo outra coisa acima Dele ou de sua ordenança perpassa praticamente todos os textos bíblicos, dos profetas até a tradição neotestamentária. Assim se dá, por exemplo, no Êxodo com um povo que é capaz de se libertar e ser criador de sua própria vida e meios de subsistência (à semelhança de Deus) e que, ao mesmo tempo, cria um objeto que se torna “mais poderoso” que o próprio Deus: instituem por si mesmos um deus que não é Deus (estão acima de Deus enquanto criadores) e este (o bezerro de ouro) passa a ter poder sobre o próprio povo – um ídolo. O povo se corrompe, a semelhança com Deus está tensionada e distorcida, a separação entre os que fazem e aquilo que fazem produzem efeitos violentos e fatais. Deste modo, é possível ser semelhante ao Criador dando e produzindo vida ou usurpar a semelhança criando o que mata, rouba ou destrói.

Chamemos esse espaço entre a produção e o que é produzido de “alienar”. O sujeito que produz se esvazia, gasta energia, tempo de vida, para realizar uma tarefa, produzir algo – um pão, por exemplo. O sujeito se aliena naquilo que produz. Para bom entendedor, já deu pra sacar que essa é a estrutura que Marx (judeu) utiliza para falar sobre o que é “trabalho”. O pão, o produto, tem nele a energia gasta pelo trabalhador e, mais que isso, deve ter um pouco mais de energia para que a vida se mantenha e se reproduza. Ou seja: o pão não tem a mesma quantidade de energia gasta pelo padeiro, mas um tanto a mais, para quando o padeiro compartilhar esse alimento com sua família, recupere suas forças e garanta um tanto mais de energia para todos e todas. Um “excedente”. O padeiro é criador, o pão a criatura. Estão separados. Mas diferente de Deus, o padeiro não é capaz de criar um “sujeito”, livre, com poder e vida própria. Se o padeiro se relacionar com o pão como possuindo vida própria, como se fosse sujeito, como se fosse semelhante a Deus, corrompeu-se a si e ao pão criando um ídolo. O pão não é mais importante que sua vida e a vida de seus familiares. Seu produto está encerrado em si para ser consumido, não endeusado. Ao padeiro não cabe esse poder.

O problema é que as coisas podem ganhar vida própria ou nós damos para elas o status de Deus. E aí a proibição de coma de tudo menos disso é violada. Aquilo que criamos se torna senhor de nós mesmos. E em efeito inverso, ao invés de nos alienarmos para produzir e em seguida consumir, nós somos alienados por aquilo que produzimos, que é afastado de nós e se torna senhor sobre nós. Passamos nós a sermos consumidos por ele. Assim, seja dinheiro, um tablet, chocolate, emprego ou a própria igreja e religião, tornam-se nossos ídolos, verdadeiros falsos deuses. Já não vivemos no jardim sustentável e produtivo, mas acabamos por sair dele e “pastar” no sofrimento de tentar recuperar a verdadeira vida que nos fora entregue.

Essa alienação é doentia e base de nosso modo de vida. Nós criamos regras que se tornam deuses sobre nós mesmos. Criamos objetos, estruturas, instituições… Parece que tudo o que tocamos ganha vida própria e se assenhora sobre nós. E falta fé suficiente para tomar a postura iconoclasta de derrubar os bezerros de ouro. Mas não é do ponto de vista do trabalhador que acaba sendo alienado de sua produção (e essa produção que passa a se tornar sujeito objetificando as pessoas dentro de um sistema de trocas, muito conhecido como “Mercado”) que pretendo trabalhar o tema; mas do ponto de vista do produtor que se confunde tanto com o produto que se torna uma alienação-viva, que encarna o próprio processo, que se fetichiza a si mesmo ou se torna um ídolo. O criador que não cria para alguém, mas que cria como se fosse a própria criação.

Pra ficar menos estranho, é isso que vamos chamar de “personalismo”. Um exemplo muito bom é a empresa que se identifica diretamente com seu fundador – ou o imperador que constrói o império para si e em torno de si. Instituições assim que são, portanto, fundadas de maneira corrupta (dentro das armações que assumimos anteriormente). Quando não se sabe onde ou quando começa o Criador e onde ou quando começa a criatura, temos uma Criação corrompida fundamentalmente. É o pastor que funda uma igreja e que esta depende dele, está fincada em seu nome, que sua voz é a voz de todos, seu pensamento se torna hegemônico, que não há diálogo, mas monólogos em torno do si para si. São as figuras políticas que se identificam com sua própria “gestão” e acabam quando eles mesmos encontram seu fim. São as lideranças que deixam de responder ou viver para e pelos liderados e passam a viver e responder a si mesmas, em seus nomes, em torno de si.

Mas o mal não está simplesmente neste que tem o poder, que centraliza a criação em si mesmo e não para alguém; os sujeitos que passivamente aceitam essa estrutura também são responsáveis e também mantém a estrutura idólatra. É nossa postura de “quem virá por nós”, de “não tem nenhum político que preste”, de disputas entre nomes ou partidos (em SP a atual imbecilidade de Dória x Haddad, como se esperar por um bom prefeito fosse nossa função cidadã), e ainda nossas conversas decidindo o futuro a partir das decisões de alguém: “precisa ser feito isso”, “alguém deveria fazer aquilo”, “bom seria se tivesse quem…”. Assumir mesmo a responsabilidade de criar para Outro, para uma comunidade, de não personificar a ação criativa, corrompendo seu princípio, ninguém o faz. Alienação alienada e alienante.

E aqui é importante porque seja esse tipo de personalismo ou essa alienação, deve ser rompido com a tomada de consciência dos sujeitos: pessoas que assumem seu lugar de pessoas e colocam objetos, personalidades ou instituições em seus devidos lugares. Criadores que sabem o limite do que produzem e que sabem que não são criadores de si mesmos, não são a própria Criação, mas humanos – demasiadamente humanos. É nesse sentido que Marx combatia a ideia de “iluminados” que traziam a verdade ou de escolhidos que viriam salvar o “proletariado”. Ou as pessoas comunitariamente tomam consciência e agem de maneira criadora e autônoma, tomando parte e posição no processo produtivo e distanciando a alienação, ou serão reféns do próximo “libertador” e “salvador da pátria”, estarão acorrentados pelo que estamos chamando de personalismo. Ou é todos com todos e conscientemente produzindo e mantendo a vida ou continuaremos alienados, alienando e alienantes. As estruturas sistêmicas, de violência e opressão serão mantidas, matando, roubando e destruindo. Ídolos.

Pra terminar, é interessante que criar um produto, estar separado do que criamos, não é o problema da alienação. Este produto ir para a mão de alguém que não o sujeito que o produziu também não. Se este deseja ou precisa dar o produzido, entregar o trabalho para alimentar e revitalizar outro sujeito ou comunidade, não está tendo seu produto alienado, mas autonomamente se entregando. Diferente de ser coagido ou pressionado a fazê-lo – ou ainda de ter seu trabalho roubado por alguém, tomado indevidamente por Outro, ou até legalmente por um “salário, por exemplo. E nessas, o fundador do cristianismo tem uma expressão que abre essa distinção entre alienar-se pela vida e ser alienado para a morte. Certa vez disse: “ninguém tira minha vida, eu que a dou”. Esta é a diferença.

 

 

 

Bruno Reikdal Lima

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