Meditações e raízes: São Bruno de Colónia

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São Bruno rejeitando o bispado

Não nego que vivo num período de crises. Não que isso seja algo ruim ou uma etapa de vida que queira superar. Talvez não mais. Antes ficaria preocupado em busca de uma estabilidade ou calmaria, um maior controle sobre as situações. Hoje, parece que a ideia de controle é uma sensação ou ilusão passageira útil para enfrentarmos alguns problemas e não nos deixar desanimar. Mas até mesmo na monografia que escrevi para graduar em filosofia já indicava que a “estabilidade” é um estado útil, pragmático, mas irreal ou não factível com o que vivemos todo santo dia. A verdade é que não temos controle e nem deveríamos querer ter. Saber seu lugar e o seu tamanho frente às estrelas quando está tudo em silêncio é encontrar paz no meio da crise (ou da guerra)

Estabilidade ou calmaria, não. Paz, sim. Uma não necessariamente vem com a outra. No meio de uma série de processos de mudanças no modo de vida, algumas coisas marcantes tem acontecido. Uma delas começou quando decidi cuidar das plantas de casa depois que um eucalipto que estava conosco há mais de década morreu. Aprendi muito com elas; se tornaram companheiras enquanto trabalho. Aprendi muito com suas raízes; descobri que apesar de importantes, depois que uma árvore morre, elas precisam ser arrancadas para se colocar outra no lugar – e isso dá muito, mas muito trabalho (especialmente se tanto a terra quanto as raízes já estiverem bem secas). De todo modo, não há planta que viva sem seu fundamento: sua raiz. Depois de arrancadas as raízes mortas e secas, para que haja nova vida, quais raízes estão ali para se fixar, renascer?

Estou, imagino, no momento de reconstituir as raízes. Arrancadas as mortas e secas, o solo respirou, revirou, mas precisa de vida nova. Curiosa e coincidentemente, nas trocas de ideia internas e meditações, nas voltas por aqui e ali com minha linda magrinha Bruna Candeani, encontrei um livreto chamado “Raízes”, de um monge beneditino alemão que meus pais gostam muito, Anselm Grün. Não somos católicos, mas monges, místicos, sábios e intelectuais são sempre mais que bem-vindos nas cabeceiras de cama aqui em casa. Peguei pra ler. Pois bem, Grün me deu um caminho.

Para encontrar ou reencontrar as raízes, um dos caminhos que Grün propõe é seguirmos em busca ou através de nossos nomes. Ele propõe três etapas: 1. a etimologia do nome; 2. algum “patrono/a” do nome (santo ou santa, filósofo ou filósofa, heroína, etc.); 3. o nome para nossa família e em nossos antepassados. Interpretar destas maneiras nosso próprio nome poderia, de acordo com a proposta do monge, ajudar a encontrarmos nossas raízes, a nos recolocarmos no mundo, na terra. Segui-os.

Bruno significa “marrom”, “moreno”, “bronzeado” ou “escuro”. Fosse de raiz latina ou germânica, Bruno tem esses sentidos. Conversava com uma amiga a esse respeito ano passado e ela me indicou que muitas vezes os “mouros” (muçulmanos ou pessoas do norte da áfrica) eram chamados de “brunos”. A pele escura ou amarronzada (que já tive na infância e que retorna somente quando estou de férias longe de salas de aula, escritórios e luzes brancas da cidade cinza de São Paulo) se perdeu com o tempo e com as mudanças da vida. O que meu nome significa já teve sentido quando eu era pequeno, mesmo quando nasci. Hoje, desbotado, amarelado e encardido por falta de sol por longos anos, aparento e manifesto essa distância da raiz, do significado de meu nome. O desgaste do tempo pode arrancar o detalhe que pode dar significado para toda uma vida. Pode fazer um nome se tornar apenas mais um nome, sem conteúdo real.

Claro que Grün, católico, ao mencionar patronos do nome se refere aos santos da igreja. Não sou católico e não fazia a mínima ideia se existia um santo com o nome “Bruno”. Aliás, imaginava que não – afinal, um santo ser chamado de “marrom” não é costumeiro em uma religião instituída no centro europeu, tradicionalmente branco e exclusivista, com preconceito contra mouros. Imediatamente dei um Google e encontrei, para minha surpresa, São Bruno de Colônia, fundador da Ordem dos Cartuxos.

São Bruno era professor, considerado um sábio com o dom de ensinar e hábil nas relações políticas na Escola e na Santa Sé. Chegou a ser Reitor e rejeitou o convite para ser bispo, feito por seu discípulo, o Papa Urbano II, mas aceitou ser seu conselheiro no “centro do poder”. São Bruno executou suas tarefas institucionais com primor e foi muito elogiado por isso – assim como atacado por poderosos denunciados por ele em suas faltas com a fé e com as regras eclesiásticas. Das tensões e inadequado com as atividades burocráticas e disputas de poder que era obrigado a mediar ou lutar contra, assume uma postura de vida de austeridade e disciplina, fazendo voto de pobreza e se distanciando para lugares remotos, para ficar só com seus companheiros de fé. Procurava aprender, ensinar, compartilhar do conhecimento e especialmente contemplar a Deus e sua criação, servindo como ermitão, esquecido pelo mundo, mas vivendo no mais profundo que há nele.

Diferente de monges ermitões, Bruno não se isolou sozinho, mas criou uma ordem monásticas com regras e modo de organizar próprios, com constantes mudanças de liderança, esforço por horizontalidade, com pequenos grupos que comungam e compartilham de suas experiências, nunca solidão exclusiva, com regras austeras de modo de vida e que exigem o máximo de silêncio possível. É preciso silêncio para ouvir a voz de Deus. Para São Bruno, assim deveria ser.

Nesse resgate de raízes que eu nem sabia que existia, me identifiquei muito com a personalidade e com partes da proposta de São Bruno de Colônia. Estou com ele na necessidade de reclusão, nos tempos de silêncio (tão poucos) e no estudo, contemplação, conhecimento compartilhado e produzido aos poucos, com maturidade e serenidade. Compartilho da austeridade e também do cansaço com as picuinhas e os processos fúteis, mal feitos, destrambelhados das instituições e seus executores. A vida de ermitão (ou mesmo de andarilho) despreza fronteiras e é muito mais útil e interessante. O cuidado pelo ensino e por construir algo que rompa (enquanto modelo alternativo e alterativo) com outras estruturas, é inspirador, enraizador. Encontrei outro fundamento no nome que me foi dado. Ah! Bruno nunca foi formalmente canonizado…

De todo modo, poderia sacar como patrono do nome, também, outro Bruno: Giordano. Também clérigo, porém “laico”: um herege queimado junto com seus livros na fogueira. Professor, estava preocupado com a ciência e com a produção de uma sabedoria que fosse capaz de compreender a totalidade da vida, o que chama de “cosmos”, das relações entre os astros, seus movimentos, os seres vivos, orgânicos e inorgânicos, e as transformações da Natureza. Entendia Deus imerso nessas relações materiais intensas e se colocava abaixo, sabia seu lugar de pequenez frente a um universo infinito. Sua interpretação bíblica e seus trabalhos lhe renderam perseguição e morte. Desafiou autoridades e defendeu suas crenças, experiências e convicções. Se por um lado o cuidado contemplativo e fiel do silencioso Bruno permitiu distanciar-se do centro do poder e constituir uma pequena comunidade, a expressão aventureira e descobridora do outro Bruno lhe garantiu uma fogueira, foi trazido para o interior do centro de poder e silenciado violentamente para a Inquisição, sozinho.O silêncio que protege, a fala que condena (mesmo que seja verdadeira). Tomo como minhas raízes.

Por fim, o nome que meus pais me deram, Bruno, foi preferência de minha mãe. Achava o nome bonito. Mais que isso, identificava o nome do filho com o de seu bisavô (meu antepassado, Bruno Skolimovisk, meu tataravô). Um polaco que se casou com uma mestiça, líder religioso da primeira geração da Assembleia de Deus. Ficou conhecido por sua serenidade. Pouco se sabe sobre seus sermões, mas muito se sabe sobre seus feitos – e isso me interessa. Nas histórias testemunhais de quem procurou sua biografia, consta uma série de relatos de um homem imponente, mas calado, reservado. Líder, mas não apegado a seu cargo. Assim como muitos de sua geração, sentia que sua responsabilidade era fundar comunidades e deixá-las amadurecer, ao invés de ser seu “guia”, “líder para sempre”. Não se confundia a comunidade com seu fundador – e isso é muito valioso! Uma coisa é a obra, outro o obreiro.

Uma das histórias que um de seus discípulos conta é que uma vez, no carro, em viagem para uma das comunidades que Bruno tinha começado, o polaco perguntou: “Luiz, o que é o Espírito Santo?”; ao que seu discípulo respondeu: “O senhor é que é o pastor, quem sabe dessas coisas”. Diz Luiz que Bruno imediatamente disse: “Eu devo aprender. Quando o pastor fraqueja, são suas ovelhas que lembram ele qual é o caminho”. Raízes.

Também calado, também religioso, também sábio. Meu tataravô fundou algumas igrejas assembleianas hoje importantes (no quesito fama e fortuna, não necessariamente religiosidade e fé). Assembléia de Deus de Santos, de Curitiba e até a do Brás, em São Paulo. Não é lembrado por isso – graças a Deus! -, mas pelo que viveu. Sinto que reencontrar o significado do meu nome e interpretá-lo com o que vivo hoje, os patronos do nome e meus antepassados recentes a quem sou “homenagem”, me recolocam raízes. Afirmam passos que já tomei e fixam certas decisões; assim como lançam alguns feixes para o futuro, os caminhos a serem seguidos na continuidade das crises. As chuvas, o vento, a seca e as intemperes virão. Delas não tenho e não quero ter controle. Mas raízes boas e bem firmadas fazem com que os carvalhos não caiam.

 

 

Bruno Reikdal Lima

 

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