Manifestações e amadurecimento político

12abr2015-manifestantes-estendem-faixa-com-a-frase-nao-precisamos-de-reforma-politica-durante-ato-contra-o-governo-da-presidente-dilma-rousseff-na-avenida-paulista-em-sao-paulo-o-protesto-foi-142888É comum o frase-pronta de que as manifestações de junho-julho de 2013 acabaram em nada, não geraram transformações. Mas seria possível imaginar as Ocupações das escolas em São Paulo no fim do ano passado sem aquela experiência política popular explosiva e tão expressiva? A instabilidade política que vivemos hoje teve data de início: junho-julho de 2013. Ali o “Estado intocável” foi ferido – e depois que uma divindade sangra, perde seu poder aos olhos dos homens. Foi uma possibilidade de abertura política, mas com ela sempre vem a reação de desespero por “reorganização” do status quo. Um político de velha guarda e um que acabou de garantir sua cadeira mágica não vão querer perder sua majestade…

Os privilégios de uma cadeira na direção do Estado foram questionados. O fundamento e funcionamento do próprio Estado foram questionados. Essa é a “instabilidade”: podemos tanto seguir para uma experiência política popular legítima de libertação, quanto para a reorganização e fechamento político regido por uma elite política oportunista. É a ambiguidade de cada experiência. E como paradigma de atividade política fica um quadro com dois caminhos: Ocupações de escolas por secundaristas e manifestações “sem-bandeira”.

As manifestações de 2013 foram dirigidas e organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL). Um coletivo estruturado, com objetivos e projetos claros. Quem aderisse à manifestação sabia o porque se estava manifestando: contra o aumento do preço das passagens. Era esse o objetivo, o grito e a função do movimento. Ele inchou de repente. Muita gente foi à rua para manifestar junto ao MPL contra o aumento; mas ao mesmo tempo afirmavam que “não era pelos 20 centavos”. Apesar da contradição, ao entrarmos para a manifestação junto ao Passe Livre, gritávamos os mesmos gritos e exigíamos o mesmo que era exigido. O recuo por parte do Estado foi a vitória do movimento e das manifestações. E elas acabaram ali? Por um lado, sim: o MPL tinha como objetivo claro e discurso hegemônico a luta pelo preço do busão. Por outro, não: aqueles que aderiram por mais do que o preço do ônibus sentiram a necessidade de continuar frentes de luta.

O problema é que o MPL tem tempo de projeto e organização. Não começou ontem, mas é um coletivo organizado, politizado e com planejamento claro. O discurso é hegemônico e a participação junto ao movimento requer a adesão a esse discurso. Mesmo quem dissesse naquele tempo “não é pelos 20 centavos”, no exercício político público exigia os 20 centavos. Essa era a luta política. Assim, participação e movimento político requerem esse princípio: discurso hegemônico claro e objetivo. Requer projeto organizado coletivamente.

As Ocupações das escolas no ano passado foram um ato verdadeiramente político. Um banho e uma aula de Política em excelência dada por adolescentes a nós, jovens, adultos e velhos que não temos noção e nem formação política madura – apesar da idade. Minimamente houve uma organização com objetivos, projeto e discurso hegemônico: contra a reorganização das escolas proposta pelo Estado. Todos os secundaristas exigiram isto. Se articularam. Tudo o que era dito por um aluno respondia e era assumido por todos. Isso é uma atividade política! Não eram indivíduos fazendo alguma coisa; era um coletivo de alunos, uma comunidade politizada. Todos sabiam o que queriam e o que seria feito. Logo que o Governo recua, acaba o movimento. Continuar lendo

Talvez sejamos os primeiros brasileiros

criança_muitasbocasnotrombone2O povo brasileiro de Darcy Ribeiro já é e está eternizado. O trabalho encantador e inspirador de traçar raízes históricas e antropológicas da gente que mora aqui abre janelas, enche nosso pulmão de fôlego e vontade de ser brasileiro. Vontade, desejo, pois não o somos. Não somos Povo brasileiro, somos nascidos no Brasil. Não conhecemos e nem reconhecemos nossa História: nem do país e nem de nossa própria casa. Não sabemos nosso lugar no tempo e no mundo. Não temos uma identidade, não carregamos uma mesma marca, não somos daqui. Todos nos sentimos desterrados. Estamos em falta, o Brasil está em falta. Falta um Povo, de gente que vive de uma História recente e não consciente

Recentemente propus para alguns amigos que reconstituíssemos as histórias de nossas famílias. Todas elas eram absurdamente diferentes. Cada um tinha uma ascendência diferente, uma mistureba de etnias diferentes e de tradições religiosas diferentes. Ao mesmo tempo, eramos todos brasileiros, paulistanos e paulistas. Nos sentíamos parte de um mesmo grupo por estarmos próximos, mas nossas histórias, crenças e experiências não nos conectavam.

Meu bisavô por parte de pai, nasceu no início do século XX em Minas Gerais. Era de uma família de ex-escravos: um negro de quase 2 metros de altura. Seu casamento com minha bisavó foi um pouco estranho: foi até uma tribo guarani que ainda existia no interior, perto da vila em que morava, tomou-negociou uma ídia baixinha de pouco mais de 1,50 m e levou ela embora contra sua vontade. Minha bisavó sofreu nessa estranheza de relação abusiva-não-amorosa. Deles nasceu meu avô, Vicente, lá na década de 30 (não sabemos quando ele nasceu, pois não tinha certidão de nascimento: teve seu primeiro documento para casar no cartório, mas ninguém sabia qual era a sua real idade. Quando ele faleceu, há 11 anos, discutimos por um tempo a respeito de sua provável idade). Assim, meu avô era cafuso.

Seu Vicente, cafuso, casou-se com uma branca de família ibérica vinda para o Brasil em busca de terra. Ela faleceu depois de ter dois filhos; então Vicente se casou a prima de sua mulher, minha vó, Jandira. Em 1964, nasceu meu pai, Eliel. Qual a sua etnia? “Branco” ou “Caucasiano” que não é…

Por parte de mãe, tive um bisavô filho de um nordestino de ascendência islandesa com uma alemã. Este bisavô, Alfredo, se casou com dona Tereza, filha de um polonês com uma mestiça paraense. Tiveram meu avô, Alberto, que se casou com uma portuguesa de Braga filha de uma portuguesa com um francês que veio para o Brasil nos anos 50. Em 1968, tiveram a Gi, minha mãe. Dessa mistura, nasceu uma branca, com uma carga genética europeia, mas de qual etnia? Qual sua “nação”? Onde se imaginaria numa mesma família alemães, poloneses, islandeses, um francês, uma portuguesa e mestiços?

Esta história familiar começa coincidentemente com a instauração da República no Brasil. É do início do século XX pra cá. Nesta bagunça, eu, particularmente, me sinto um legítimo brasileiro, talvez, o primeiro da família…

Todos os meus progenitores tem sua história e cultura enraizada em outro lugar. Nesta terra, não estavam em sua terra. Talvez minha bisavó indígena estivesse em sua terra, sua própria cultura; mas meu bisavô fez o favor de desterrá-la. Ele mesmo, sendo filho de ex-escravos, nunca esteve na própria terra: era filho de desterrados que trabalhavam na terra de outros como e enquanto escravos. Não eram livres. Tinham saudade de uma terra que nunca puseram os pés e, ao mesmo tempo, só conheciam este chão que pisavam e não era deles. Mesmo no caso dos europeus, nenhum veio como amante da terra ou com plano de criar e produzir alguma coisa aqui: vieram para explorar e garantir a sobrevivência. Aqui nunca foi seu lugar, os vizinhos nunca foram seu próprio Povo.

Acho que em minha avó portuguesa essa postura fica mais evidente: veio para cá em busca de condições de vida melhores, para superar a pobreza da família na periferia lusitana de um tempo totalitário e garantir sustento por aqui: tirar o que for possível para viver. Explorar, querendo ou não. O Brasil deve “dar alguma coisa”, “garantir” recursos para a sobrevivência. Quando não o faz, perde seu status de terra e imediatamente é problema, obstáculo, inútil. Ninguém se sente brasileiro: Brasil é sempre “terceira pessoa” a ser explorada ou que nos oprime.

A ascendência alemã de meu bisavó veio para o Brasil no projeto republicano de “branqueamento da população”, no sul. Veio em busca de usar a terra. Os ibéricos, também. O filho de escravos, pela primeira vez, tentaria garantir o seu espaço. A índia não resiste ao ataque e sofre nas mãos dos “brasileiros” que abusam dela. Os poloneses fugiram de guerras, vieram para cá sem querer vir. Ninguém estava, esteve ou estará preocupado com a terra, com a gente, com o futuro, com a cultura. Todos se aproximaram circunstancialmente; mas não há estrutura de Povo ou possibilidade de Povo. Continuar lendo

2016: Amanhã não será maior, nem melhor

wallNão sejamos pessimistas. Apesar do título, esse não é dos textos catastróficos e depressivos. Não! Na verdade esse deve ser o primeiro texto efetivamente esperançoso escrito nesse blog. Sem dúvida é um texto desiludido. Não é ufanista e nem animador (no pior sentido que essa palavra possa ter). Estamos longe de propor um efeito “motivacional”. Seria tosco, leviano, pecaminoso, ofensivo e irresponsável prometer um dia de sol no meio de um dilúvio. Esse é um texto de esperança. Não qualquer esperança. Esperança de verdade

No prefácio ao terceiro volume da sequência de Porque pensar não é pecado, escrito no final de 2013, mencionei o grito que vez por outra soltávamos nas manifestações de julho daquele ano: “amanhã será maior, amanhã será melhor”. Na ocasião comentei que era óbvio que nós, manifestantes, sabíamos que não seria melhor e nem maior necessariamente. Mas, de qualquer modo, nos agarrávamos ao chavão como grito de esperança. Quer dizer, achávamos que aquilo era esperança. Não era. Era uma crença – um “torcer pra dar certo”. Um ânimo sonhador e valente, mas ainda muito imaturo e infantil. Poderia ser, talvez um grito de “desejo”, mas não de esperança. Esperança de verdade não ousa gritar sobre o amanhã. Esperança de verdade não fala sobre a passagem do “tempo” cronológico, mas sobre um lugar…

Nem maior e nem melhor. O grito era certo; mas não expressava esperança, apenas nosso desejo. E cumpriu com seu papel: saciado o desejo, findou todo o movimento. Se fosse esperança de verdade, não morreria. Esperança não é apenas a “última que morre”; ela nasce da experiência com a morte, ela nasce junto ou talvez até da morte. Esperança não é um acreditar no progresso e melhoria do amanhã. É uma qualidade de nosso trabalho. Esperança é trabalhar ou projetar com os materiais disponíveis e a partir daquilo que já se foi, sobre o chão que está sob nossos pés, nossa história, nosso castelo. É esperançoso o vivente que constrói uma nova casa apesar de ter visto aquela em que morava ser destruída por um incêndio. É esperançoso quem tem filhos apesar de ter visto a morte dos próprios pais. É esperançoso o desejo de produzir a vida mesmo sabendo como é o trabalho de parto.

Comblin dizia que esperança não é sensação ou sentimento, mas qualidade da ação. Esperança não é o frio na barriga por acreditar no melhor ou maior de amanhã. Isso é desejo, ânimo, expectativa, ansiedade até. Pode ser, sem maldade ou sentido negativo, uma ilusão. Esperança é qualidade de nossa ação: o modo de realizar projetos. Mais que isso: o que é transmitido àquilo que produzimos com nosso trabalho cotidiano. Somos trabalhadores. Trabalhar é gastar energia para lutar contra a perda total de energia: se matar para não morrer. O trabalho pode ou não ser esperançoso. O que determina não é a sensação enquanto se trabalha; mas a consciência do lugar em que se está trabalhando: os limites, os materiais disponíveis, a história do trabalho passado. Esperança depende de um processo de conscientização.

Não é o grito! É o processo de conscientização. Esperança exige maturidade – até um pouco de rudeza, de ser casca grossa. Conscientização não é saber o que está acontecendo, estar ciente do mundo. Conscientização é, como Paulo Freire aprendeu-ensinou, um modo de agir no mundo: “não pode existir fora da práxis, ou melhor, sem o ato ação-reflexão […] conscientização é um compromisso histórico: é inserção crítica na história, implica que os homens assumam papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo. Exige que os homens criem sua existência com um material que a vida lhes oferece”. Esse é o processo de conscientização que possibilita a verdadeira esperança: permite que o trabalho seja ou não esperançoso, produtor de esperança. Continuar lendo

O que está acontecendo?

Ocupações nas escolas, atividade conturbada na Câmara dos Deputados, CPI da CBF no Senado e manifestações de atletas, manifestações (estranhas) divulgando o impedimento de mandato da Presidenta, manifestações contra o processo de impedimento, cassação de mandatos, investigação sobre políticos importantes, conversas de facebook, notícias de jornal, petições, discussões, confusões… O que está acontecendo?

A atividade Política está superaquecida – não só no Brasil. Antes daria para nos contentarmos com a justificativa de que “estamos cansados de políticos”. Mas quando esta atividade extrapola a relação de “representação” tal como está posta e vai para escolas, para organizações sociais, empresas e até pra o futebol, não dá para dizer que o problema é simplesmente cansaço com “políticos”. É uma questão mais profunda, mais dura, estrutural: surge a necessidade de se mudar/transformar o modo como funcionam politicamente nossas instituições. É um problema de “projeto”: não se tem cumprido praticamente nem produtivamente com o necessário. Não se tem cumprido teoricamente e nem empiricamente com o necessário. Não se tem cumprido materialmente e nem sistemicamente. Não se tem cumprido concretamente e nem abstratamente no atendimento às necessidades e desejo-de-viver do povo.

Claro, tenho respirado Política – minha pesquisa em filosofia tem sido a formação, a função e a corrupção das instituições. Parecia que o tema se restringiria ao Estado e etc. Mas quando vemos adolescentes exigindo autonomia sobre a escola e participação nas decisões enquanto afetados pelo projeto de outras instituições, vemos que Política é mais profundo do que o que engravatados decidem no Congresso. Quando há uma CPI para investigar a Confederação Brasileira de Futebol e ex-atletas e instituições como o Bom Senso Futebol Clube que cria uma página chamada #OcupaCBF, em que o principal motivo é: “Faz-se urgente um novo sistema eleitoral na CBF. O atual modelo impede que as eleições sejam verdadeiramente democráticas […] É preciso facilitar a entrada de uma oposição realmente independente dentro da entidade” – está-se criticando o funcionamento político das relações, não de uma ou outra instituição.

Está em crise a capacidade de certo projeto de atender e corresponder a necessidade do povo, que é a fonte do poder dessas instituições: é por ele, por causa dele e para ele que as instituições são criadas e mantidas. As alterações necessárias fundamentais são políticas. Nas escolas, por exemplo, a ocupação mobiliza um modo de se relacionar com a própria escola e um engajamento em seu processo. O Bom Senso em suas revindicações tem exigido a participação popular nas decisões sobre o futebol brasileiro. É a necessidade dos afetados – que são ao mesmo tempo os criadores e mantenedores das instituições – de decidirem e participarem direta e ativamente da organização e do desenvolvimento do projeto.

Enrique Dussel mostra em sua Política que instituições são necessárias: ferramentas criadas para produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana, da comunidade, do povo. O povo é a fonte do poder, mas este poder necessita de uma estrutura política que o sustente, que possibilite que esse poder se reverta efetivamente e concretamente em desenvolvimento da vida. Nessa estrutura temos duas questões fundamentais para serem discutidas: o que é poder e o que é povo.

Poder normalmente é entendido como dominação e violência: controlar e oprimir para mandar. Isso, como Dussel mostra, não é poder: é fetichização do poder, é CORRUPÇÃO do poder. Poder, primeira e originalmente, é o desejo-de-viver de uma comunidade política. A necessidade de produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana requer a criação de meios (instrumentos, ferramentas, modos de se relacionar) para sua satisfação. Para se alimentar uma pequena cidade, foi necessário desenvolver uma instituição chamada agricultura. Para possibilitar a reprodução de nossa espécie em seus contextos, foi necessária a instituição família. Para organizar uma cidade foi necessário criar instituições como o Estado. Essa relação de necessidade e criação de uma instituição não é fundamentalmente negativa, opressora, dominadora. Ela pode vir a ser. Mas quando e se isso acontece, é um processo de corrupção que precisa ser combatido. Poder, assim, é desejo-de-viver, é a vontade e necessidade da comunidade de continuar vivendo e existindo. É afirmação positiva e forte da vida!

Se entendemos poder como algo negativo, ruim, “odiamos” política. Não a Política, verdadeira e atuante sempre, mas a atividade corrompida.  Por isso é preciso resgatar o “poder fundamental”. O que as ocupações nas escolas, os movimentos sociais, revindicações e etc., tem apresentado é o resgate desta experiência: o poder tem como sede a vida da comunidade política, e por isso é a ela que as instituições devem se reportar. Instituições são instrumentos para possibilitar a vida da comunidade, quando não mais o fazem, precisam ser transformadas: e este processo de crítica e transformação é um processo político – talvez o político por excelência! Continuar lendo

Cansei de corrupção

revolution_wallpaper___by_jeevayA gente pensa em corrupção a partir de problemas pontuais: roubalheira ou politicagem (de engravatados distantes da gente); colar em prova ou “atalhos” (mais próximos do nosso dia-a-dia). E o combate à corrupção segue na tentativa de repreender essas atitudes isoladas, sem trabalhar no fundamento delas. Cansei de corrupção! Não das “aparentes”, mas das profundas. Instituições e modos de organizar nossa vida estão corrompidas em sua base: desde o princípio, no fundamento

Talvez esteja incomodado com este tema por dois motivos: 1. minha pesquisa no mestrado é mostrar a formação das instituições e a origem de sua corrupção; 2. vivo crises institucionais por ver essa corrupção na minha frente todo dia e ter que me segurar para não me tornar um incendiário. De qualquer modo, este texto está carregado de desabafo, mas tentarei me conter e explicar que instituições são NECESSÁRIAS para a vida; mas se elas estão corrompidas, precisam ser criticadas desde seu fundamento, senão apenas reproduzirão em suas ações processos corrompidos. Política não é corrupta por natureza; instituições não são corruptas por natureza. Nem são “mau necessário”. Elas podem se corromper – assim como podem se transformar!

Na abertura de um livreto chamado “20 teses de política”, Enrique Dussel escreve: “A política [como conteúdo] se corrompe como totalidade quando sua função essencial fica distorcida, destruída em sua origem […] A corrupção originária da política – que denominaremos fetichismo do poder – consiste em que o ator político crê poder afirmar sua própria subjetividade ou instituição na qual cumpre uma função […] como fonte do poder político […] Porquê? Porque todo exercício do poder de toda instituição (desde o presidente até a polícia) ou função política, tem como primeira e última referência o poder da comunidade política [o povo]”. Ou seja: quando uma instituição ou quando um governante toma a si mesmo como referência e manda, como se o poder fosse dele e dependesse dele sem nenhuma conexão com o povo, há corrupção.

O problema é mais profundo: de onde vem o poder? Quem é a fonte do poder? A resposta é “o povo”, que entrega sua confiança (suas vidas!) nas mãos de uma instituição ou de líderes – na esperança de que eles cumpram com algo fundamental: possibilitem a produção, manutenção e desenvolvimento da vida desse povo. Dussel, assim, adverte: “a política consiste em ter ‘a cada manhã ouvidos de discípulo’, para que os que ‘mandem, mandem obedecendo”. Não que mandem mandando! Quem manda deve mandar obedecendo: ouvindo e atendendo ao povo. A medida que a instituição ou os executores dessa instituição se afastam do povo, acostumam-se em decidir sem perguntar, em fazer sem responder, em nunca prestar contas ou ouvir os rumos, desejos, anseios e necessidades da vida do povo.

Bem vindos às ocupações das escolas em São Paulo! No meio das minhas crises – com várias instituições – e da minha pesquisa, ocorrem as ocupações. Vi na minha frente acontecendo um movimento político a partir do povo, clamando para que os que mandam, mandassem obedecendo. O que o Governador Geraldo Alckmin e sua equipe fizeram foi realizar o de sempre: ações políticas e decisões que passam por cima do povo. Quando em entrevista ele disse que “tem política misturada no meio dessas manifestações”, não foi de sacanagem: na cabeça dele (e dessa geração política) política é só a ação do Estado ou de instituições. “Povo não age politicamente”, ou não deve agir. É doentio! Está corrompido desde as bases. A corrupção de Geraldo (ou de qualquer político) não parte do uso da máquina a seu favor, mas antes: de entender que política é o uso da máquina, que o Estado é a sede e fonte do poder, não o povo. Continuar lendo

Conselhos para as eleições 2016

camara-deputados-nova1“As instituições políticas estão em crise” – esta é a conclusão do Índice de Confiança Social (ICS) desse ano, uma pesquisa do IBOPE que apresenta a confiança da população brasileira em instituições e em grupos sociais. Numa escala de 0-100, em que 100 é o índice máximo de confiança, as 5 últimas colocadas são exatamente as instituições políticas: Partidos Políticos (17), Congresso Nacional (22), Presidente da República (22), Governo Federal (30), Eleições/Sistema Eleitoral (33) e Governo da Cidade onde mora (33). Só para comparação, as duas mais bem avaliadas são o Corpo de Bombeiros (81) e as Igrejas (71). O que isso significa? Não confiamos em Política – nem nas eleições!

Uma separação bacana e importante de se fazer é político política: o primeiro é o “conteúdo” e a segunda é a “atividade”. Faço essa diferença para explicar que os outros textos que comentei do tema, o fiz trabalhando o político. Este, falemos da política, como atividade. É esta que está muito desgastada. As instituições estão em descrédito, sem confiança da população. Em parte, por responsabilidade dos executores do poder (os políticos profissionais; nossos representantes) e do próprio mal funcionamento e distância da máquina estatal em relação ao povo. Mas, em outra parte, a responsabilidade também é nossa, enquanto povo: uma das instituições políticas, a Eleição, depende do engajamento e do trabalho popular. Executar mal esta função produz efeitos ruins e indesejáveis. Assim, parte da tragédia é culpa nossa.

Eleições são fundamentais no processo democrático, na nossa atividade política. O sistema depende de eleições. São uma instituição executada em última instância por cada cidadão. Não creio que seja a atividade mais importante por parte do povo na vida política; mas, hoje, é uma das ferramentas que temos nas mãos. Dentro do projeto político, do sistema que organiza nossas relações sociais no campo político, é uma função, uma atuação que depende do comprometimento, engajamento e ação do povo. Por isso temos que compreendê-la bem, aprender a executar a função. Sermos bons eleitores. Por isso precisamos sacar a totalidade do processo e não nos restringirmos a uma ação pontual em um dia. O momento ou o evento da eleição é o instante último; mas o processo eleitoral que culmina no dia de ir apertar uns botões envolve uma vida política e uma intensidade de politização.

Claro que isso não é de interesse do mal funcionamento do sistema. Muito menos de quem se aproveita desse mal funcionamento – os políticos profissionais, principalmente os corruptos. Mas até aí, nada impede de criarmos mecanismos que enfraqueçam os maus políticos e a corrupção a partir das instituições que conseguirmos manejar. Eleição é imediatamente uma delas. Ano que vem teremos eleições municipais. E pensando em toda essa questão, do processo, nossa responsabilidade não apenas de escolher um “representante”, mas de concertar o sistema falho e lutar contra a corrupção institucional, seguem algumas dicas e considerações para nossa atividade política do ano que vem.

Primeiro: na organização do Estado, temos 1 Presidente do Executivo (Dilma Roussef), 2 presidentes do Legislativo (Renan Calheiros no Senado e Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados), 27 Governadores estaduais, 81 Senadores, 513 Deputados federais, 1.059 Deputados estaduais, 5.570 Prefeitos, 59.591 Vereadores. Ou seja: a eleição presidencial não é a única e nem a mais importante. A estrutura depende de muito, mas muito mais gente eleita. Presidente do Executivo é um cargo no meio de trocentos; e todos eles se co-determinam e tem sua função. Assim, não caia na armadilha de que a eleição do Presidente, do Governador ou do Prefeito é “decisiva” ou a mais importante. Os cargos Legislativos são mais que fundamentais! Não supervalorize uma e menospreze outra. São todos cargos públicos que decidem ativamente sobre nossa vida. E isso nos leva ao… Continuar lendo

Esquerda e direita: vamos organizar a discussão

De uns tempos pra cá, uma série de situações críticas e ações políticas acirraram posicionamentos ideológicos e intensificaram o uso dos termos “esquerda/direita”. Talvez por tradição, falta de novas categorias, paciência ou necessidade de atacar imediatamente antagonistas políticos, sei lá, a análise e as acusações bipolares reduziram debates, conversas e limitaram nossa capacidade de produção de conteúdo e propostas para soluções de problemas. Mas depois da prova do ENEM nesse fim de semana, em que questões que tocavam o tema do feminismo foram consideradas doutrinação de “esquerda”, temos que organizar a casa. Pior, quem se considera de “esquerda” comemorar uma questão feminista e se sentir representado por ela, também preocupa. Estamos nos reduzindo e reduzindo nossos debates

Assim, nesse texto a ideia é tentar propor uma “organização da nossa casa”. Ironicamente, é exatamente pela ordem ou norma da casa, economia, que precisamos começar a discussão. Uma das marcas do século XX é a “doutrina econômica”. A defesa ideológica de um livre mercado e diminuição do aparelho do Estado contra a defesa de uma planificação econômica e fortalecimento das instituições políticas, marcaram os blocos estadunidense e soviético: bem-vindos à Guerra Fria. É claro que a guerra não pode ser resumida a isso. Porém, a redução do debate ao modo como deve ser organizada a economia determinava, em última instância, se determinado grupo era de direita ou de esquerda.

Tanto direita quanto esquerda reduziam seu discurso à economia. A “doutrinação” das escolas de formação liberal-neoliberal e das escolas socialistas-comunistas restringiam o problema à economia. Nesse sentido, as duas discordavam do modo como se deve “organizar” o mundo, mas tinham um pressuposto comum: o que é o mundo. No caso, a economia.

Desse jeito era fácil determinar na década de 90 quem era “esquerda” e quem era “direita”. Estávamos girando tradicionalmente sobre o conteúdo econômico – e ele se confundia com o político. Nesse ponto, como leitor de Marx, preciso criticar a esquerda, que a-criticamente permitiu reduzir sua bandeira às questões de Mercado, considerando ingenua e erroneamente a política como uma “superestrutura” menos importante e a economia como “infraestrutura” fundamental – coisa que não faz sentido nenhum! Dogmaticamente produziu uma doutrina irrefletida e limitada, dando, inclusive, o braço a torcer para a doutrina econômica de direita…

Hoje as questões sociais, as discussões políticas, lutas por direitos e tudo mais não se restringem à economia. O “fim da história” de Fukuyama (que hoje voltou atrás em sua afirmação no início dos anos 2000) pode se tornar um marco interessante: com o fim da disputa econômica, na “vitória”  de um dos lados, parecia mesmo que os problemas tinham acabado. Não porque efetivamente não existiam mais, mas porque o excesso de olhares para a economia e exclusivamente para a economia limitaram o óbvio: no mundo há mais do que Estado e Mercado.

Guerras, direitos civis, questões religiosas, imigração, globalização e exclusão, as inúmeras disputas morais e mais uma infinidade de coisas surgiram, do nada, na nossa frente. O mundo não tinha chegado ao “fim”, mas nossa cabeça. O mundo “bipolar” limitado à economia não cabia mais. As coisas estavam complexas. Novos sujeitos, novos atores, novas gerações. Nosso século XXI. Nele não cabem mais as reduções, mas não desenvolvemos outras categorias que nos permitam entender o que é que está acontecendo e onde nos posicionaremos?

Nesse sentido encontrei em Dussel um marco categorial complexo, impressionante, cativante e profundo. Não necessariamente ele dá conta dos problemas, mas apresenta caminhos distintos dos tradicionais. Além da originalidade de posição a partir da América Latina, vamos tentar utilizar algumas de suas propostas para “organizar a brincadeira”. Não estamos mais falando de “direita e esquerda” reduzidas ao campo econômico. Falaremos de processos de libertação que se co-determinam simultaneamente em diferentes campos com diferentes atores. Continuar lendo