No mundo das utopias

ZZ6CF1418E“Isso é impossível! Nunca existiu nenhum lugar assim!” – não mesmo, pois se existisse não seria sem-lugar, ou seja, u-tópico. Voar também já foi algo u-tópico, sem lugar, a ponto de construírem o mito de Ícaro, que inventou asas artificiais, mas que derreteram ao se aproximar do Sol. Voar era coisa divina, inalcançável. Ainda é, em certo sentido. Mas bem menos estranho do que antes: a utopia não se realizou, mas a relação sonho/condições materiais abriu possibilidades e garantiu acontecimentos transformadores no nosso modo de vida. Como Marx coloca: as condições materiais determinam a consciência – aquilo que pensamos apenas pensamos porque é possível pensar. A transformação das ideias em conexão com as transformações das condições materiais da vida mostram pra gente que de alguma forma nossa imaginação só trabalha desse jeito porque é possível. De alguma forma, há este possível…

O sem-lugar, o utópico, inaugura a relação insana e cativante do possível-impossível. Constituímos nossos projetos, organizamos nossa vida e realizamos tarefas (sejam intelectuais, “braçais”, individuais ou coletivas) a partir do que cremos ser possível e do que estabelecemos como impossível.O utópico tem a capacidade de tensionar os polos. Como Franz Hinkelammert apresenta na Crítica da Razão Utópica, seja para Weber ou para Marx, o modo como se estrutura teoricamente a política, a sociedade ou a economia dependem de limites aos quais eles se impõe em suas produções. Quer dizer, para um seria impossível a manutenção de um sistema para sempre; para outro seria impossível sua superação. De todo modo, como Hinkelammert aponta, um e outro dependem de um exercício utópico, de tensão entre o possível e o impossível. O fim das utopias nascido junto com o pretenso fim da História de Fukuyama dependem, na base, da crença de que estamos no “melhor dos mundos”: que chegamos ao lugar sem-lugar e não há mais nenhum lugar possível. Mas se assim fosse, porque tanto esforço ideológico ou de violência física contra todo movimento capaz de pensar em outro “lugar sem-lugar”?

Realmente, o “mundo perfeito”, sem conflitos, contradições e complexidades é inalcançável em nossos projetos. É óbvio: cada ação de cada sujeito produz efeitos intencionais e não-intencionais incalculáveis, situada em suas relações intensas, abertas e aleatórias junta de outras ações de outros sujeitos. Impossível o controle absoluto sobre toda essa aleatoriedade e complexidade. Mas, então,  o utópico morre? Parece que não se levarmos em conta que a ação de um sujeito se sustenta na tensão que ele estabelece entre o possível e o impossível (ou seja, sua racionalidade utópica). O elemento utópico está aí, posto, com função extremamente prática. Porque, então, limitamos nossa imaginação utópica? Mais que isso, porque desvalorizamos os projetos coletivos que se sustentam em utopias?

Não, não acreditemos no impossível. E sim, precisamos limitar nossa imaginação utópica. Limitar, não bloquear. O limite do uso de nossa utopia está também no que Hinkelammert chama de “princípio de factibilidade”: a utopia é um princípio norteador, criador de mundo e de crença, mas que deve ser criticado a partir das situações determinadas e cotidianas. Estas impõe aquilo que é factível e o que não é. A crença não é, portanto, no impossível, mas na possibilidade que a utopia nos dá de atuação no e com o mundo. É tensionarmos consciente e criticamente a relação possível-impossível. A utopia só é possível de ser raciocinada porque há, anteriormente, condições materiais que a garantem como possível. Novamente, só dá pra pensar o que dá pra pensar. Continuar lendo

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A Bíblia Política: a profecia hipócrita de teólogos evangélicos

alfonsin_claima20101125_0152_8Uma verdade não é uma verdade sozinha. Ela tem corpo sentido e “testemunho” através da vida de quem a profere. O “eu sou a verdade” de Cristo é uma afirmação materialmente mais dura do que parece: eu vivo o que falo e falo o que estamos vivendo. O logos que se faz carne e habita requer que quem o siga seja testemunho vivo, ou melhor, mártir: encarne a mensagem. O crivo de verdade não é a palavra escrita, mas a Palavra Viva, que se renova a cada manhã enquanto a vivos a vivem. “O trabalho liberta” até é uma expressão válida; mas como lema cunhado acima dos portões de Auschwitz, torna-se mentira assassina. Dizer que “profecia é denúncia contra os poderosos” é verdade na boca de Dom Pedro Casaldáliga, mas tem sido falsidade peçonhenta nos textos de líderes e teólogos evangélicos

Textos tem sido escritos, mensagens pregadas, desculpas armadas e vídeos produzidos por lideranças e “estudiosos” evangélicos afirmando que “profecia é denúncia aos poderosos”, com uma ressalva importante: os poderosos são necessária e exclusivamente os “reis”. Os sacerdotes, os ricos e líderes curiosamente não entram na conta. Pior que isso, é ver que esse discurso está sendo apropriado para dizer que é função da igreja ser “denunciadora”, e por isso deve se afastar das instituições políticas: assim é capaz de “denunciar”. Denunciar quem, especificamente? Quem estiver no Governo. A partir de uma análise ou consciência politica? Não. Apenas seja contra as instituições políticas: “elas são sujas por natureza”. A função de denúncia da Igreja está sendo utilizada não para politizá-la,  mas para desarticular seus membros: o efeito gerado é o afastamento das decisões políticas, o distanciamento “do que está acontecendo lá fora”, no mundo. Na verdade, esse discurso não é para durar para sempre: é oportunismo religioso para denunciar única e exclusivamente o governo que está aí agora. Por quase 100 anos de evangelicalismo no Brasil, pela primeira vez curiosa e coincidentemente profecia está sendo “entendida” e apresentada como “denúncia”.

Além de hipocrisia e apropriação indevida, é desonestidade e violência à história de santos que lutaram verdadeiramente para propor e defender a profecia como e enquanto denúncia contra os poderosos. A verdade é que das décadas de 60 até ontem, dizer que a Igreja tinha o dom profético de denunciar os poderosos e os opressores era coisa “comunista” e pecaminosa, que atentava contra a ordem da Igreja e a proposta de um “reino”. Até ontem, para o movimento evangélico, profecia era falar do futuro. Até ontem, eram os católicos insurgentes da Teologia da Libertação que falavam essas coisas de “denúncia” e utilizavam expressões como “poderosos” e “opressão”.

Não sou católico. Sou evangélico. Mas sou devedor e admirador dos santos revolucionários inspirados por Deus que fundaram e fundamentaram numa teologia profunda, concreta, material e comprometida a profecia como denúncia contra os poderosos. Dizem que a última afirmação teológica de Dom Hélder foi “não deixem morrer a profecia”. Perseguido pela Ditadura, amigo íntimo de Paulo Freire, protetor e defensor da Teologia da Libertação dentro da estrutura conservadora da Igreja Católica Apostólica Romana, Dom Hélder entendia como o “pedagogo dos oprimidos” que “profecia é compromisso histórico […] Somente podem ser proféticos os que anunciam e denunciam comprometidos permanentemente num processo radical de transformação do mundo, para que os homens possam ser mais”. Profecia enquanto denúncia exige comprometimento radical, histórico e constante: só é verdadeira a profecia na boca de quem encarna a Palavra. José Comblin, também perseguido pelos militares e pela própria Igreja por denunciar as estruturas de opressão, para quem entendia que Paulo determinava a profecia como dom mais importante, essa encarnação não é abstrata, é concreta,  real. Assim, quanto à mensagem profética de Cristo diz:

“Há uma tendência de espiritualizar a mensagem de Jesus como se o Reino de Deus se limitasse aos bons pensamentos, às boas intenções ou às virtudes morais. O Reino de Deus é moral porque é material. O pecado é material e a salvação também é material. O pecado é a fome, a violência, a dominação, a desigualdade, a exclusão. O Reino de Deus é o fim da pobreza, a igualdade, a paz. mas, para torná-lo presente, haverá muita luta, muito sofrimento, muitos fracassos e muitas vitórias, incluindo perseguição e morte. Jesus não promete repouso, tranquilidade, satisfação de todos os desejos […] A Igreja deve oferecer aos mais desesperados o testemunho de sua esperança. Ela é o povo que permanece acordado e vive a esperança mostrando-a no meio das criaturas humanas mais desesperadas e excluídas”.

Antes e fundamental para se dizer que a “profecia é denúncia contra os poderosos” é o comprometimento radical com os excluídos! É isso que possibilita, encarna e determina a denúncia. Quem são os poderosos? O Estado? As instituições políticas? O Governo? O Mercado? É opressor, dominador ou poderoso todo sistema que oprime, exclui e marginaliza: gera oprimidos. Não é um ou outro, esse ou aquele. Tomando posição e se comprometendo com o oprimido, sabe-se contra quem é necessário levantar denúncia. É a partir da experiência dos excluídos, tal qual os profetas fizeram! É a partir dos pobres. É trazer de volta a vocação de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar as boas-novas aos pobres, anunciar libertação aos presos, restaurar a vista dos cegos, dar liberdade aos oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor”.

Infelizmente a denúncia conveniente de teólogos e pastores evangélicos tem outra função: não mais libertar o excluído, mas atacar o Governo enquanto distancia a igreja das decisões políticas, da comunidade política, da organização popular e de coletivos. Cria um muro para preservar um gueto pseudo-sacro-santo. Na minha própria comunidade religiosa tive que ouvir isso! Discurso vazio que afasta as pessoas da vida de verdade, da responsabilidade e comprometimento com a comunidade de vida que circunda e permeia a comunidade religiosa. Discurso que cria rebanho alienado ao invés de incentivar a participação política, formação de quadros honestos, gente que no futuro possa ser bom governante, bom cidadão, comprometido com o pobre e combatente contra a corrupção. Fazer isso pra quê? Melhor é afastar o povo das únicas instituições que organizam a sociedade e podem ser ferramenta e instrumento para a melhoria da vida da população.

O que está por trás desse discurso fácil e cômodo dos líderes evangélicos é uma analogia indevida e limitada entre “reis” e “governantes”. Ou seja: apenas os “governantes” são os poderosos opressores. Pior que isso, é perceber que as cabeças das autoridades se revelam politicamente mal formadas: pensam que as prerrogativas da monarquia foram transferidas para o Estado na República. Pelamor! A denúncia profética é contra os poderosos: líderes sociais ou políticos, sacerdotes e ricos que oprimem o Povo. A denúncia não é, portanto, contra os cargos, mas contra a OPRESSÃO, a favor dos EXCLUÍDOS. Sem este fundamento, é mero artifício político enfraquecedor da cidadania e que limita, ainda mais, as possibilidades dos oprimidos tomarem caminhos que possibilitem sair da opressão. Como Enrique Dussel escreve:

“O pecado a ser denunciado não é exclusivamente individual; o pecado não é apenas social, histórico, institucional, relação social, mas também, além disso, o pecado se organiza, tem consciência de si, funciona como sujeito […] o essencial é compreender sua práxis histórica, a de seus mensageiros (Mateus 25:41) que são também os dominadores, os pecadores, os ‘ricos’… ‘Os príncipes das nações as dominam e os poderosos as oprimem’ (Mateus 20:25). A práxis do pecado, a dominação (constituir-se como ‘Senhor’ do outro alienado) se institucionaliza através das estruturas políticas, religiosas, ideológicas, econômicas. Não há um pecado religioso de um lado e uma falta política ou econômica secular de outro. Toda dominação ou falta contra o outro é pecado contra Deus! É falso separar o pecado de um lado e as estruturas e instituições históricas de outro; porque essas são as maneiras concretas como Satã exerce seu reinado neste mundo, através dos seus anjos: os homens que dominam seus irmãos. O pecador, o ‘rico’, o dominador é o ‘enviado’ do Príncipe deste mundo para institucionalizar seu reinado; quer dizer, as estruturas históricas do pecado como ‘relação social'”.

O problema não é o Estado, o Mercado, a igreja, a Escola… O problema é a dominação, a opressão, a exclusão: ela deve ser denunciada. A profecia como denúncia está sendo utilizada para distanciar-nos, nós, enquanto fiéis, destas estruturas e da participação nelas para transformá-las, para denunciar o pecado e lutar com o excluído, com o pobre, com o oprimido. Não é denúncia “ao rei”: é denúncia à opressão, seja do rei, do líder, do sacerdote ou do rico! Isaías, por exemplo, a cada capítulo enxovalha os ricos e os sacerdotes. Habacuque ataca os líderes do povo e os sacerdotes. Amós vai até o palácio não para se distanciar da política, mas para criticá-la a partir do povo, dos excluídos, dos que estão “aqui fora”. Continuar lendo

Religião e instituição corrompida

Para quê criamos instituições? Seja Estado, família, dinheiro, partido ou religião, pra quê? Pra quê igreja? Numa discussão moderna, bem distante do dia-a-dia e da vida comum da gente, instituição é entendida como meio de dominação e controle. O Estado tem como característica o uso legítimo de violência para dominar as pessoas. A religião serve para controlar o “rebanho”, manipular fiéis. Dinheiro é uma corrente demoníaca em si mesmo. Família é uma instituição castradora. E por aí vai… As instituições são entendidas diretamente como meio de dominação. Para se libertar, então, deve-se (na cabeça de quem abraça essa ideia) acabar com as instituições…

Mas aí tá errado o processo. Abraçar uma ideia para daí entender o mundo não faz muito sentido. Se fazemos isso, dificilmente conseguimos ser críticos, dificilmente conseguimos enxergar a real. O processo é o contrário: olhando para o que acontece aqui no duro, no cara-a-cara, no cotidiano, encontramos o lugar de onde devemos partir para produzir uma ideia. Não é da ideia que se produz o dia-a-dia; mas do dia-a-dia que podemos produzir uma ideia. A ideia produzida é ferramenta a ser utilizada nesse dia-a-dia. Agora estamos no processo que faz sentido: com os materiais aqui, à nossa mão, conseguimos desenvolver uma ferramenta útil para resolver os problemas que estão a nossa frente, no nosso meio. Esse processo, sim, pode apresentar a real.

A real nasce da gente, do nosso meio. Tem como fundamento, como matéria-base, aquilo que vivemos no chão. Aliás, assim como as ideias, parece que as instituições nascem do mesmo jeito: a partir da gente e da vida comum conseguimos material para instituir alguma coisa. Enrique Dussel faz uma crítica ao Estado Moderno aplicando este processo ao político: ele não nasce do desejo de controle e dominação, de violência, mas desejo de viva, vontade-de-viver. É porque queremos viver, temos essa potência, projetos, planos, esse poder aberto, que instituímos como meio que possibilita a realização de nossa vontade concretamente o Estado, ou o corpo político. Dussel faz este processo para a instituição política, o Estado, o governar. Façamos a passagem para a religião: será ela necessariamente projeto de dominação e manipulação? Ou essa é a corrupção da religião?

Marx mostra que a fonte do capital é o trabalho vivo do sujeito humano que se mata para continuar vivo, produzindo um objeto que se tornará meio para reprodução da vida. Dussel propõe que a comunidade política que deseja viver produz uma instituição que será meio para a reprodução da vida comunitária. Nós arriscaremos mostrar que a religião é o mesmo processo: nasce de uma comunidade de fé que deseja viver-em-abundância e institui uma igreja como meio para a encarnação desta vida em abundância. A religião nasce do chão; é produto da vida em comunidade, vida de fé. É religião de “chão de fábrica”.

A religião assimilada como uma ideia e a partir desta, descolada das experiências concretas, comuns, cotidianas e comunitárias de gente de verdade, será sempre manipuladora. Será instituição de controle, discussão moderna. Mas nós não estamos necessariamente e nem vivemos inevitavelmente ela. A religião que acontece de verdade, na real, aqui, nasce da vida de pessoas de verdade, do desejo verdadeiro da vida em abundância, da entrega e do serviço de fé. Gente que se compromete comunitariamente no chão da fábrica; não é estruturado numa ideia, mas na divisão do pão e da água, do vinho. Na divisão dos serviços e dos dons, em que cada um se oferece para o excedente, para o além do diário.  Continuar lendo

“Ninguém quer ser José”: sobre economia política

Mundo-716x393Alguns amigos mais velhos diziam essa frase quando eu era adolescente: “Ninguém quer ser José, né?!”. Tinham muitas referências (desde um “Zé” qualquer até “José” marido de Maria, que assumiu um filho que “não era seu”…), mas vamos redirecionar o sentido: ninguém quer administrar crises. José do conto semita – aquele que é vendido como escravo e depois de interpretar sonhos se torna governador do Egito – tem que resolver um problema: sustentar a economia de uma nação durante um longo período de escassez. Pior, esse período vem imediatamente após um período equivalente de fartura. Coincidentemente, vivenciamos um período de fartura recente e temos entrado em um momento equivalente de escassez. Nesse momento, é importante adequarmos nossas categorias (ferramentas interpretativas) para enxergar o que está acontecendo

No texto bíblico, José tem a habilidade de interpretar sonhos. José sabe fazer previsões: tanto dos êxitos quanto das desgraças. Ele não é “sonhador”; é intérprete dos sonhos, dos desejos, dos possíveis efeitos das relações familiares, institucionais e econômicas. Assim, ele diz: “Virão 7 anos de fartura, em que haverá alimento em todo o Egito. Depois virão 7 anos de fome. E a fome será tão terrível que ninguém lembrará do tempo de fartura, em que havia excedente” (Gênesis 41: 29-31).  O efeito de uma série de relações, de desejos e ações, será duplo e sazonal: excedente e fartura, falta e fome. Por causa dessa habilidade de previsão, o faraó o encarrega de governar a crise: é da responsabilidade de José gerir o excedente de produção no período de fartura para que seja possível a superação do período crítico de recessão. O problema: ninguém lembrará do tempo de fartura.

Essa é uma das dificuldades que José terá de enfrentar: ninguém vai se lembrar do crescimento recente. Os processos econômicos não são previsíveis por si, mas em constante relação política: é das determinações da administração pessoal das relações e da gestão do excedente que nasce a possibilidade de enfrentamento de crises. Nos acostumamos a enxergar a “economia”  através de números – e isso nos esconde aquilo que “realmente acontece”. Cremos, por exemplo, que economia é uma ciência e todas as ações administrativas calculáveis. Mas, ao mesmo tempo, não percebemos o óbvio: os “economistas” não conseguem prever as crises e apenas descobrem as “causas” depois que elas acontecem. Ou seja: a economia não gere excedente e nem apresenta o que está acontecendo, mas tem agido apenas como ferramenta de análise posterior. Sem “José” a economia por si só não consegue superar a crise.

O governo Dilma tem sido criticado por causa da crise econômica – tem sido essa a bandeira da “oposição”. Nesse período de vacas magras, esquece-se do período anterior das vacas gordas: os anos de fartura foram abandonados na memória por causa do surgimento de anos de recesso. Apenas por números, os economistas criticam a desaceleração de “crescimento”, mas escondem que ainda há excedente de produção disponível e que aquilo que fora produzido é mais que suficiente para a superação de crises. O problema primeiro, anterior e ulterior não é a administração de “agora”, isolada das relações indeterminadas. As vacas magras “uma hora chegam”, e as pressões “externas” não estão sob controle daquele que administra. O que está na mão de quem gere é a capacidade de previsão, apenas.

Aí a falta e a falha da economia: portando-se e reportando-se aos números, escondendo que a produção não nasce sozinha, mas da relação entre materiais disponíveis e trabalhadores com acesso a eles, não prevê o que “vai acontecer”, mas apenas acusa aquilo que está acontecendo enquanto acontece. Cabe ao gestor do excedente prever e realizar a boa governança. Problema: o gestor do excedente de produção não é o mesmo que o dono dos meios que produzem. Ou seja: diferente de José, prever e administrar a crise não está nas mãos da mesma instituição – muito menos de um mesmo projeto! Assim, temos duas categorias ocultas: a origem da produção e a gestão do excedente.

Esses “economistas” tomam como origem da produção a preferência de um mercado. Assim, trabalha-se não para satisfazer necessidades pessoais de gente real, de carne, concreta, mas para atender as preferências de alguém que compra produtos. Mas, de verdade, o trabalhador não trabalha porque prefere consumir alguma coisa, mas trabalha porque necessita de meios que permitam-no manter-se vivo! A origem, ou melhor, a fonte de produção, não é a preferência do consumidor, mas a necessidade de uma pessoa de reproduzir sua vida. No outro espaço, os economistas responsabilizam a ordem estatal (o governo) pela gestão dos recursos produzidos como se fosse ele o “dono e responsável” pelos meios de produção, quando, na verdade, os excedentes de produção ficam em sua gigantesca parte nas mãos de quem é dono de uma empresa, fábrica, indústria ou qualquer outra entidade que atenda às preferências de consumo. Quem gere efetivamente o excedente são vários indivíduos em suas propriedades particulares, não o governante; e quem produz efetivamente são pessoas necessitadas, não consumidores. Continuar lendo

Judá e Tamar: instituições, sujeitos e atores sociais

Judah and Tamar-richard Mcbee-2000Temos vivido um crescimento de aversão às instituições. Ao mesmo tempo que aumentam o número de críticas a governos, a políticos, pastores, padres, empresas, escolas, etc, se desenvolve o desgosto pela existência desses “espaços”. A indignação e a tristeza com a corrupção e com as crises que temos vivenciado se convertem em repulsa à “política”, à “religião”, ao “mercado”, ao Estado, às igrejas, às associações. Não compreendermos o porquê da existência de instituições, nossas atuações sociais e políticas, o porquê das organizações sociais e, além disso, nosso estatuto de sujeito, faz com que nos distanciemos dos processos decisórios do dia-a-dia. É a velha frase: “quem não gosta de política é governado por quem gosta”…

Esse texto, portanto, é a tentativa de apresentar um “fundamento” do político; o porquê precisamos de instituições, qual sua função e como nos relacionamos nesse jogo. Para tal, tomaremos o texto semita que conta a história de Judá e Tamar (está em Gênesis 38, na Bíblia). Através dele e com ele, explicitaremos a diferença entre sujeito e ator social; nessa diferença perceberemos a função e a necessidade de instituições. Afirmar que instituições são necessárias não é tomá-las como imutáveis. O objetivo final é: sabendo que elas estão aí, o que faremos com elas?

Judá e Tamar é um dos encontros (conflitos) mais intrigantes dos contos semitas: com uma trama de novela (digna daquelas trilhas sonoras dramáticas das telenovelas mexicanas que passavam no SBT à tarde), um problema familiar, tendo o pai de uma das tribos de Israel como vilão e uma mulher que se torna uma prostituta como heroína, é história riquíssima para debates.

Tamar era nora de Judá. Seu primeiro marido morre e, de acordo com as leis do povo, Judá faz com que seu outro filho case com ela para manter a linhagem da família e não deixá-la sozinha. Assim se faz, porém o seu filho descumpre uma lei moral e também morre. Novamente, Judá deveria fazer com que seu filho se casasse com Tamar. Judá descumpre a lei e deixa de lado a viúva. Muito tempo se passou e a lei ainda não havia sido cumprida. Certo dia, sabendo que Judá passaria pela cidade em que morava, Tamar vestiu um véu no rosto e ficou no caminho. Quando Judá a viu, pensou que era uma prostituta e foi “contratar o programa”. Acertaram um valor que Judá não tinha naquele momento, então ela pediu para que ele deixasse seu colar com sinete e seu cajado como garantia. Judá entregou, voltou para pegar o pagamento e, quando retornou atrás da “prostituta”, ficou sabendo que não havia nenhuma prostituta na cidade. Assim, deixou quieto e voltou para casa. Tamar engravidou de Judá. Quando este ficou sabendo ficou furioso por saber que ela havia descumprido as leis, tendo relações sem ser casada com quem era de direito (seu outro filho). Então, fulo da vida, ordenou que ela fosse queimada. Tamar sendo levada para o castigo, pediu para que entregassem ao sogro os pertences do homem que a engravidou. Quando Judá viu seu cordão com sinete e seu cajado, exclamou: “Esta mulher tem mais razão do que eu! Libertem-na. Eu deveria ter casado ela com meu filho e não o fiz”.

Temos nessa história várias instituições, sujeitos e atores sociais envolvidos. Entretanto, selecionaremos as figuras e imagens centrais para nossa investigação. A principal instituição em discussão é o “casamento”. O casamento, no texto e no contexto do conto, é o meio pelo qual é possível dar seguimento à família: reproduzir a vida familiar. Instituições tem essa função geral: são meios, mediações, que podem e devem ser utilizadas para se atingir determinados fins. O fim é a reprodução da família e a manutenção da linhagem; assim, o casamento é um meio para tal. A indignação que Judá tem ao ver Tamar grávida é a inversão do processo: tomou o casamento como fim, a instituição como “o mais importante”, esquecendo-se da origem do casamento: do porque ele era necessário. Judá havia esquecido de que, em principio e por princípio, seu outro filho já deveria estar casado com Tamar. Por isso sua fúria é cínica, imprópria, hipócrita e “sem razão”.

O Estado, por exemplo, é uma instituição. O Estado é um meio a ser utilizado. O problema é que o tomamos como fim em si mesmo. Assim, em períodos eleitorais, vemos uma disputa para tomar o Estado: de meio, esta instituição passou a ser o fim – e é aí o problema! Política não é um problema. Problema é tomar o Estado como o fim da Política, quando, na verdade, a origem dessa relação é ao contrário: a Política é o fim, enquanto que o Estado é um meio para a realizarmos. Continuar lendo

Não reclame! Pagamos por nossa omissão

camara-deputados-nova1“[A luta] não nasceu para ser episódica e sim para ser história e para fazer a história. Se a história é criação dos homens e das ideias, podemos encarar com esperança o futuro. Nossa força é constituída por homens e por ideias […] É inútil o grito isolado, por mais profundo que seja seu eco; importa a pregação constante, contínua, persistente. Não importa a ideia perfeita, absoluta, abstrata, indiferente aos fatos, à realidade móvel; importa a ideia fecundante, concreta, dialética, operante, rica em potência e capacidade de movimento.” – José Carlos Mariátegui

Nossa força é constituída por humanos e por ideias – mas por humanos, primordialmente. Sem estes, não teríamos ideias… Distanciar-mo-nos uns dos outros, nos isolarmos, irmos para nossos cantos abandonando comunidades e movimentos, nos faz ser grito inútil – mesmo que a ideia seja a melhor do mundo! Nosso fundamento é gente, é a gente.

Trabalhar é difícil. Trabalhar em comunidade é mais difícil ainda. Dussel diferencia poiésis de práxis: a primeira é a produção de sobrevivência, sem outro termo além da própria produção e do produtor. Já práxis, a segunda, é a produção direcionada ou destinada a alguém. Por isso o trabalho prático, o trabalho comunitário, é mais complicado: ele não termina em si mesmo, mas tem como destino o Outro. A luta histórica é prática porque exige sempre o próximo como destino  de nosso esforço. A luta histórica não é de uma única voz, isolada, gritando pelos cantos ou indo morar sozinha nas montanhas, ouvindo seu próprio eco verdadeiro. A luta histórica é luta em comunidade e que não abandona a comunidade.

Hoje pagamos por nossa ausência, por nossa omissão. Nos isolamos e acreditamos que distantes da grande comunidade (da política), em nosso gueto familiar, seríamos capazes de mudar o mundo. Não. Somos vozes inúteis. Não persistimos na pregação de uma mensagem histórica, mas desistimos para ouvir de nós mesmos uma voz episódica. Temos ideias – quase absolutas e perfeitas -, mas perdemos o primordial, a base da força transformadora: o homem. Não temos gente, nem que nos ouça e nem que fale por nós. Da grande comunidade, da política e do político, nos distanciamos, nos escondemos e não nos envolvemos. De dentro de casa falamos, criticamos  para nós mesmos. Perdemos a grande comunidade e nos fechamos em nosso canto. Nosso canto não é fecundo nem frutífero; sem a comunidade, morreremos solitários.

Abandonamos nosso povo, deixando-o nas mãos de imbecis. Pagamos o preço. Hoje esses imbecis envolvidos com a grande comunidade, com a política e com o político, dirigem nossa terra. Pagamos por nossa omissão, por nosso abandono, por nossa arrogância, por nossa ausência. Se sabemos que temos a verdade em nossas mãos e sabemos o caminho, não temos mais os humanos que tomem posse dela e sigam para o futuro frutífero. Morreremos com o tesouro guardado em nossa casa, enquanto o mundo acaba lá fora. Se hoje o movimento religioso tem causado distúrbios incontroláveis, temos que assumir nossa culpa: não estávamos lá quando era necessário.

Não adianta reclamar nem esbravejar. Não adianta ficar indignado e nem levantar o nariz. Não adianta porque a culpa é nossa. Nós fomos embora. Retornar é quase impossível. Voltar a participar da comunidade de novo não será trabalho tranquilo: é trabalho prático e histórico dobrado. Não tivemos misericórdia, não devemos esperá-la agora.

Criticamos errado, atiramos errado, nos despolitizamos docilmente. Trocamos nossa primogenitura por um prato de lentilhas. Cremos na certeza de que estávamos garantidos e, hoje, vemos Jacó roubar e mentir, fugir e enganar, e ainda ser o protagonista da História. Ao criticarmos o movimento evangélico como um todo, atacamos as pessoas erradas: ao invés de acertar os líderes corruptos, tacamos pedra no povo e o subjugamos. Não diferenciamos o cretino poderoso do humilde fiel. O cretino poderoso era o problema, mas o colocamos no mesmo saco que os humildes fieis e abrimos caminho para que estes se abraçassem, selassem um pacto do mal que apenas trouxe tristeza, ignorância e destruição. Os cretinos se tornaram mais poderosos e os fiéis mais humildes: nenhuma revolução existe neles mais. Cansados, aceitam as chibatas dos capatazes e preferem o faraó egípcio ao libertador hebreu. Continuar lendo

O que mudou com a não redução da maioridade penal?

presos_SPNada. A violência continua presente nas esquinas e nos corações, os meninos e as meninas continuam morando nas quebradas, nas favelas, continuam sendo aliciados pelo tráfico; as escolas continuam destroçadas, as famílias destruídas, a polícia despreparada, os traficantes se aproveitando das brechas e da corrupção; os políticos continuam negociando a alma, corruptos, disputando poder. Crianças são transformadas em feras, homens fardados são jogados por homens de terno aos leões. Gente morre, gente não trabalha, o salário vai embora com comida e condução, universidade uma palavra vazia de significado. A perspectiva de vida é zero, a realidade de morte é imensurável

Não mudou nada. E o que isso significa? Significa que o campo é grande, as obras são muitas, mas poucos são os trabalhadores. Significa que uma ferida está exposta, apodrecendo, fedendo. E a ferida não é causada por crianças e os adolescentes. Nem por um policial, um bandido, um político, um partido, um homem, uma mulher… Temos, sempre, que nos lembrar que o inimigo é outro. Temos que nos lembrar que ele age nas entrelinhas, circula à nossa volta, ataca sem percebermos. Temos que nos lembrar que Mamom é um ídolo, não um deus! Se mata por carteira, se mata por celular, se mata por emprego, se mata pra passar num concurso, se mata para ser alguém. Porque aqui é assim: quem tem é lembrado e reconhecido; quem não tem nasce morto.

Enquanto não lembrarmos que nossas dores são filhas da desigualdade, que a luta primeira não é contra o crime, mas contra o que anima ele, não há lei no mundo que possa ajudar. A letra, por si só, mata. A mudança primeira é no Espírito: é contra a valorização de objetos e exclusão de pessoas. A inclusão fundamental depende do alargamento social, de quem é conhecido e reconhecido como “gente da gente”, como pessoa, como sujeito. Democracia é participação política, aumento de representatividade, do reconhecimento de quem é pessoa. Pessoa não é quem tem direitos garantidos num papel, só. Pessoa é quem é reconhecida como pessoa simplesmente por ser pessoa, que tem seus direitos garantidos nas nossas relações cotidianas, pessoais, cara-a-cara! Mas não, não é esse nosso Espírito! Nosso Espírito ainda mede o que um papel diz, ainda mede alguém de cima a baixo para ver se esta é ou não é aceitável (suas roupas, seu carro, sua profissão, seu vocabulário, a cor-da-pele…).

Não mudou nada. E o que isso significa? Significa que temos muito a fazer. Significa que agora que assumimos e reconhecemos que existe um problema, que vivemos em um país violento, nossa responsabilidade também foi exposta. Quem constrói o país são  pessoas. Não é o Estado. É gente! A responsabilidade pela qualidade das escolas do meu bairro é minha. A responsabilidade pela exclusão de meninos e meninas, é minha. A responsabilidade pelo aumento da violência é minha, tua, do político, do policial, dos vizinhos, das igrejas, das associações de bairro, dos donos de escolas particulares que apenas desejam aumentar ano a ano seus lucros, da saúde seletiva, dos processos seletivos excludentes das universidades, dos pais, das mães, dos irmãos. Somos nós os trabalhadores convocados para a obra, mas poucos os que assumem o cargo. Continuar lendo