Pão da vida: princípios para uma nova Economia

meh.ro687Somos as conexões com nosso passado, imersos no processo evolutivo da vida, participantes de uma espécie, construídos em nossos antepassados e nos acontecimentos históricos e culturais de nosso povo, numa comunidade, numa casa, com uma família, em interação com  o meio que se nos apresenta (a rua, o sol, o clima, os traumas, as  alegrias, trabalhos, presentes…) e as relações pessoais, cara-a-cara, de afeto e inimizade. Somos sujeitos intersubjetivos. Somos todas essas experiências concretas e materiais juntas, em continuidade. Somos uma corporalidade – como diz Enrique Dussel. Não é uma massa de carne e/ou um espírito ou funções mentais; somos um corpo, construído com tudo isso, em continuidade e comunidade

Nessa complexidade profunda que nos constitui enquanto gente viva, agimos, interagimos e nos relacionamos com a gente toda em determinados espaços – também construídos nos processos históricos e culturais vivos. Assim, quando entramos no ônibus, sabemos como nos relacionar, agir e interagir. Quando estamos numa sala de aula ou num show, sabemos de certos princípios norteadores de como agir, interagir  e nos relacionar.

Ontem fui à comunidade religiosa da qual faço parte. Cresci e fui formado nela, com ela e com as pessoas que a sustentam (no sentido vivo de sustento). Estar lá ou participar do que acontece lá é processo fundante de minha história sócio-cultural e de minha corporalidade. Lá, conversei com uns amigos e comentamos da função social, política e cultural da religião e das instituições religiosas. É diferente da função social, política e cultural de uma universidade, escola, sala de aula. Mas as duas me constituem e atuo, interajo e me relaciono tanto em uma quanto em outra. O que vivemos em cada ambiente interfere em todos os outros campos de nossa vida; por isso precisamos saber como agir, o que fazer: precisamos nos posicionar. Com isso, percebi que, pessoalmente, me posiciono da seguinte maneira: 1. na instituição religiosa, utilizo da mensagem bíblica para propor uma economia, política, cultura, filosofia, etc.; 2. na universidade, utilizo da economia, política, cultura, filosofia, etc., para transmitir princípios fundamentais que me constituem – e que, querendo ou não, estão conectados de algum modo à mensagem religiosa que me formou.

Tendo sacado isso ontem nas conversas com os amigos, entendi melhor a relação teologia-filosofia, teologia-política, teologia-economia, etc., que tenho que enfrentar. Quando estamos no ambiente religioso, a mensagem de Cristo é porta para a produção de conteúdo nas áreas materiais, concretas e cotidianas de nossa vida. Quando estamos em outro ambiente, os conteúdos das áreas materiais, concretas e cotidianas de nossa vida podem se encontrar com a porta de Cristo. A questão é saber o lugar; saber se posicionar. Tendo essa clareza, inspirado na mensagem que foi trabalhada ontem na comunidade, vou utilizar o mesmo texto bíblico como porta para uma proposta de um princípio político-econômico que nos auxilie na construção de uma Nova Economia. Sob o tema “Pão da Vida”, uma nova proposta material, concreta e cotidiana para nossa economia pode nascer:

“Eu sou o pão da vida. Os seus antepassados comeram o maná do deserto, mas morreram. Todavia, aqui está o pão que desce do céu para que quem dele comer, não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre. Este pão é minha carne e eu darei pela vida do mundo […] a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa. Este é o pão que desceu do céu. Os antepassados de vocês comeram o maná e morreram, mas aquele que se alimenta deste pão viverá para sempre […] Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: ‘Essa palavra é violenta! Quem pode suportá-la?'” [João 6: 48 – 61]

I. O que é isto?

Maná significa “o que é isto?”. É uma pergunta afirmativa ou uma afirmação interrogativa. Um tipo de estrutura semântica com a qual não estamos acostumados. De qualquer modo, não é isto que nos interessa, mas a analogia que a comunidade de João que escreveu este livro faz entre o que é isto e o Cristo. Repetições, na Bíblia, são indicações de que aquele assunto ou expressão é importante-fundamental para a compreensão da mensagem que está sendo interpretada. Assim, ao falar mais de uma vez dos “antepassados que comeram maná no deserto e morreram”, os escritores nos convidam a dar uma passada pelo desenvolvimento histórico-cultural desse povo e nos perguntar: o que isto tem a ver com Cristo?

No livro semita do Êxodo, que narra a libertação e constituição do povo judeu, há uma narração (no capítulo 16) que conta que o povo estava no deserto e se queixava de estar com fome. Reclamaram com Moisés, seu líder, e este foi reclamar com o Senhor. Da reclamação, o Senhor enviou um tipo de pão, maná, que brotava na madrugada e aparecia no chão para alimentar o povo – “presente do céu”. Cada um deveria pegar somente o necessário para sua Casa. Não poderia guardar para mais tarde ou para o dia seguinte. Não poderia haver acúmulo desse recurso. Claro que imediatamente, no primeiro dia, alguns procuraram guardar para si um “excedente”, como reserva acumulada ou para “comer mais”, mesmo. Mas o maná apodrecia. Durava somente um dia e o necessário para cada Casa: nem mais, nem menos. Era o alimento do deserto: era provisória alimentação para o tempo de deserto.

II. O pão vivo dá vida

Assim como o maná, Cristo se coloca como o pão que “vem do céu” para alimentar o povo. Esta é a primeira peça analogia proposta. Mas, rompendo com esta história tradicional daquele grupo, quem comeu do maná morreu e, como colocam os escritores, quem comesse desse Pão Vivo não morrerá. O maná era provisório, mas esse alimento Jesus é eterno. Há uma semelhança e uma distinção: são pães, mas um dura hoje enquanto outro dura sempre.

Além disso, Cristo não é apenas um alimento, mas uma causa. Causa, aqui, tem o sentido de “por quê” ou “por meio de”, por onde se atravessa, passa e, ao mesmo tempo, se mantém, não se perde: o que sustenta aquilo que está se fazendo. Não é apenas um por quê formal de justificativa (quando perguntam por que estamos fazendo isso?) e nem uma causa física direta (como toda causa acarreta um efeito). É uma proposição que subsume as duas: materialmente uma motivação e formalmente justificável. Cristo vive por causa do Pai e aquele que come da carne de Cristo vive por causa dele (por meio dele). Se alguém perguntasse “por quê você vive?”, a resposta seria “por causa de Cristo”. Aquilo que sustenta, fundamenta, seria o Pão Vivo que dá a vida.

E isso é central: Cristo oferece sua carne, sua vida. A palavra em grego que está no texto é sarx, que significa carne. Não é soma, que é o corpo. O corpo poderia ser de um cadáver, mas a carne não: ela é viva, de um ser vivo-vivente, a corporalidade de Cristo.  Ou seja: Cristo oferece ele ali, vivo, tal como está, para os outros. Sua proposta é que aquele que está com ele se alimente de sua carne, de sua corporalidade, de tudo o que ele é. Materialmente, Cristo oferece para que os demais vivam daquilo que ele tem, do fruto de seu viver, de sua força, de seu trabalho.

III. Economia do serviço (ou da dádiva)

Trabalhar é se esforçar, gastar energias, para produzir algo que devolva as energias constantemente gastas, mantendo-se, assim, vivo. É se matar para não morrer. Estar vivo é a exigência constante de se produzir algo para suprir o que falta, a necessidade que precisa ser satisfeita. É nesse sentido que Marx determina o homem como trabalho: a essência humana é trabalhar. Precisamos trabalhar para manter viva a vida. Continuar lendo

Profecia, justiça e construção da cidade – Daniel Penna

grafite arte urbana QBRK (11)[8]Publicamos hoje o texto de Daniel Penna, um dos participantes do Encontro de Estudo Bíblico de Adolescentes. O Dani trabalha temas como opressores-oprimidos, justiça, profecia, utopia e os processos políticos e projetivos de construção de uma cidade. A “cidade”, aqui, tem sentido da pólis ou civitas da tradição: o lugar político e cidadão. Todos os insights estão apresentados num panorama geral do livro bíblico de Miquéias:

Miquéias foi um profeta de Morasti-Gat em Judá, na época dos Reis Jotão, Acaz e Ezequias (ver 2º livro dos Reis, capítulos 15, 16 e 17). O livro de Miquéias fala muito sobre coisas ruins e problemas na politica da região. O assunto política é bem visivel nesse livro, por causa de citações e presença de graus hierarquicos muito bem definidos entre oprimidos e opressores. O livro apresenta dois tipos de profeta: os falsos profetas, que respondem aos governantes, e os reais profetas que respondem ao povo. Os falsos profetas são aqueles que falarão aquilo que é agradavel ao ouvido, até mesmo mentiras. Já os profetas reais são aqueles que sempre falarão a verdade, independente se ela é agradavel ou não.

Miquéias era um profeta real do povo, ele prega contra a injustiça e pecado dos opressores que são os governantes.   Continuar lendo

A Bíblia Política: último comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Este é nosso último texto em busca da Bíblia Política: último comentário à Miquéias. Para quem tem lido e acompanhado nossos textos anteriores, algumas questões estão claras: há uma denúncia à cidade e à sua organização por parte de Miquéias. A cidade está corrompida, os sacerdotes, os líderes, os ricos e os governantes são corruptos. A cidade boa, Terra Prometida, Sião, foi construída com sangue – a um custo muito caro! Miquéias, então, enquanto denuncia, cria uma outra Sião, construída a partir da Justiça. Esta cidade boa anunciada se torna uma ferramenta crítica: é olhando para a possibilidade sem-lugar de algo melhor que somos capazes de encontrar e criticar a corrupção aqui. Assim, é possível criar um plano estratégico real e concreto para superar os problemas da cidade: um plano de luta. Agora, por fim, encontraremos o fundamento principal para a construção da cidade

Assim, este texto tem dois momentos: 1. proposta de uma leitura de Miquéias, deixando apenas os trechos (perícopes: divisão do texto bíblico) indicados para que quem quiser, faça sua própria interpretação final. 2. Uma avaliação do método do Encontro de Estudo Bíblico, suas implicações, produções e possibilidades. Cremos que teorizar o que fizemos possibilitará transmitir nossa prática e, quem sabe, reproduzir este movimento em outros lugares e momentos.

Agora, então, deixaremos apenas os trechos indicados para que cada um faça sua leitura. Tendo em conta o que foi construído até aqui (os comentários anteriores e seus significados -por exemplo, a diferença entre o Povo e a nação, o sentido de utopia, etc.), cabe uma conclusão e leitura autônoma, própria. Fica como dica alguns passos metodológicos: 1. Não leia os subtítulos e os números de versículo e capítulo, pois são apenas indicações para facilitar encontrar os textos. Podemos criar nossos próprios subtítulos e organização dos versículos e capítulos; 2. Faça perguntas ao texto, como ‘quem está falando?’, ‘para quem está falando?’, ‘o que ele quer dizer com ‘x’?’…; 3. Anote suas “hipóteses” de resposta às perguntas, mas deixe que o texto te diga se suas hipóteses estão corretas ou não. Deixe ser surpreendido pelo que está lendo. Segue nossa divisão de texto seguido de subtítulos criados por nós, como indicação de possibilidade de leitura:

O QUE DEVE SER PRATICADO NA CIDADE?

“Com o que eu poderia comparecer diante do Senhor e me curvar perante o Deus exaltado? Deveria oferecer sacrifício e holocausto de um bezerro? Ficaria o Senhor satisfeito com milhares de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o meu filho mais velho por causa da minha transgressão, o fruto do meu corpo por causa do pecado que eu cometi? Ele mostrou a você, oh Homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus.” [Miquéias 6: 6 – 8]

OS RICOS NÃO PRATICAM  A JUSTIÇA

“A voz do Senhor clama contra a cidade; é sensato temer o Seu Nome!  Ouçam, tribo de Judá e assembleia dos cidadãos! Na casa do ímpio não há o tesouro da impiedade e a medida falsificada que é maldita? Poderia alguém ser puro com balanças desonestas e pesos falsos? Os ricos que vivem entre vocês são violentos; sua gente é mentirosa e as suas línguas falam enganosamente. Comerão, mas não ficarão satisfeitos: continuarão de estômago vazio. Acumularão, mas não preservarão nada: entregarei tudo o que guardarem à espada. Plantarão, mas não colherão: vão espremer azeitonas, mas não se ungirão com azeite. Espremerão uvas, mas não beberão vinho.” [Miquéias 6:9 – 15]

OS GOVERNANTES, OS JUÍZES E OS CIDADÃOS NÃO AMAM A FIDELIDADE

“Estou na desgraça! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha: não há nenhum cacho de uva para provar, nenhum figo novo que tanto desejo. Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue: cada um caça o irmão com uma armadilha. Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita o suborno, os poderosos impõe o que querem. Todos tramam em conjunto! O melhor deles é como o espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos. Chegou o dia anunciado por suas sentinelas, o dia do castigo de Deus. Agora reinará a confusão entre eles. Não confie nos vizinhos, nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça, tenha cuidado com o que diz, pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora contra a sogra. Os inimigos do Homem são seus próprios familiares. Mas quanto a mim, ficarei atento ao Senhor, esperando em Deus, o meu Salvador, pois Ele me ouvirá” [Miquéias 7: 1 – 7]

A CIDADE NÃO ANDA HUMILDEMENTE COM O SENHOR

“Não se alegre, cidade, minha inimiga, com minha desgraça. Embora tenha caído, vou me levantar. Embora esteja morando nas trevas, o Senhor será a minha luz. Por eu ter pecado contra o Senhor, suportarei a sua ira até que ele apresente a minha defesa e estabeleça meu direito. Ele me fará sair para a luz, contemplarei sua Justiça. Então a minha inimiga o verá e ficará coberta de vergonha. Ela me disse: ‘Onde está o Senhor, teu Deus?’. Meus olhos verão sua queda, ela será pisada como o barro nas ruas. O dia da reconstrução dos seus muros chegará, o dia em que se ampliarão suas fronteiras virá” [Miquéias 7: 8  – 11]

MAS O POVO SERÁ CUIDADO

“Pastoreia teu povo com o teu cajado, o rebanho da tua herança que vive à parte numa floresta em verdes pastagens […] Quem é comparável a você, Deus? Você que perdoa o pecado e esquece a transgressão do remanescente da sua herança. Você que não permanece irado para sempre, mas tem prazer em mostrar amor. De novo terá compaixão de nós; pisará em nossas maldades e atirará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Mostrará fidelidade a Jacó e bondade a Abraão, conforme prometeu sob juramento aos nossos antepassados em tempos antigos” [Miquéiias 7: 14 – 20]

Encontros de Estudo Bíblico:

I. O início

O Encontro de Estudo Bíblico é fruto da exigência de adolescentes de uma comunidade cristã. Eles apresentaram o desejo, ou até uma demanda, de continuar ou fortalecer seu processo de formação religiosa. A partir da queixa de haver uma lacuna ou ausência de trabalho com os conteúdos bíblicos e elementares para uma comunidade religiosa, criou-se o primeiro Encontro. Como experiência exitosa, mas ainda não estruturada, este espaço serviu como abertura à possibilidade de se trabalhar verdadeira e efetivamente a leitura e interpretação Bíblica. Depois de um tempo, com trabalhos pontuais e melhor estruturação teórica e técnica, foram realizados mais 2 Encontros. Duas coisas intrigantes: 1. a lacuna comunitária na formação religiosa dos adolescentes; 2. o desejo de se estudar a Bíblia como livro-fonte da religiosidade. “Por fora” da comunidade, alguns dos participantes procuraram modos de trabalhar a leitura e interpretação bíblica, mas foram insuficientes – o que indica uma possível lacuna da religião no trabalho de formação de sua juventude. Continuar lendo

Ele vem e intervem!

herege_joao_hus_concilio_constancaTrabalhar com teologia e filosofia política é sempre um problema. Acabamos sendo criticados tanto por liberais quanto por conservadores. No fundo, as duas correntes estão presas ao mesmo poste: não se deve misturar “as coisas” – como se houvesse um puro espaço sem teologia e um puro espaço sem política. Uma ilusão, ou melhor, uma ideia fetichizada que se torna dogma: um chavão pronto que evita nos colocar em situações complexas que requerem trabalho duro. Mas ao mesmo tempo ninguém se arrisca a dizer isso lendo Platão, Hobbes, Rousseau, Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Vattimo, Sloterdijk… Todos utilizam da teologia para desenvolver suas teorias políticas. Nos termos de Marx, a crítica teológica é a primeira crítica política!

Carl Schimdt tenta mostrar em seu comentário ao pensamento de Hobbes que as estruturas da teoria política moderna são teológicas. Em sua análise a conclusão é esta: o Estado Moderno depende de uma teologia forte. Isso indica (ou deveria indicar) que mesmo com a ideia fetichizada de que “as coisas não devem ser misturadas”, elas efetivamente são misturadas – principalmente pelos “papas” da filosofia política. Nesse caminho, animado por encontros de estudo bíblico com adolescentes na comunidade religiosa que participo, pretendo trabalhar uma questão teológica “clássica” que foi resgatada recentemente de um modo um pouco mais empobrecido para expor uma insuficiência política – tanto das instituições religiosas quanto nas laicas. Contarei um tanto da minha própria história, pois vivenciei de perto o debate empobrecido sobre a intervenção de Deus na História.

Em 2004, quando houve o Tsunami na região do Oceano índico, um debate surgiu sobre a intervenção e a não intervenção de Deus nos acontecimentos da História. Uma parte impactada pelo desastre levantou a bandeira de que Deus não poderia ter relação com aquele acontecimento. A outra, preocupada com a tradição e, mais que isso, com as consequências de se tirar Deus do controle da História, colocou em pauta o dogma da Soberania de Deus. Lembro que em trocas de textos na internet se destacaram Ricardo Gondim (do lado da não intervenção) e Augustus Nicodemus (do lado da intervenção). De qualquer modo, em minha comunidade, tomei na época posição junto aos não-intervencionistas – digamos assim. O problema é que se “não-intervinha”, que fazemos agora? Em que teologia estamos firmados? Em que cremos?

E aqui começa o furdúncio. Me deparei de novo com esta questão no encontro de estudos bíblicos com os adolescentes da minha comunidade. São adolescentes, como eu era, só que, diferente do meu caso, eles não tomaram posição imediatamente. Abriram as duas hipóteses e a complexificaram: se Ele não intervem, o que fazemos com o Cristo? Se ele intervem, o faz em que medida e como? São bem mais espertos e fiéis do que eu era na idade deles…

O nosso problema na época foi tomar posição sem pensar e começar a acelerar, sem nunca olhar para trás e refletir, realmente, sobre o que nós estamos fazendo e no que nós, como comunidade, cremos. As respostas, poucas, quando tinham, eram individualizadas. Eis um problema: havia um debate, mas apenas havia tomada de posição, sem efetivamente um diálogo, uma construção coletiva. Não havia uma assembleia para a produção de teologia ou até troca de experiências de fé. Apenas a negação de que Deus intervinha na História. Havia argumentação, mas não crítica e nem diálogo produtivo. Operavam-se logicamente argumentos, mas não se produzia conteúdo. Assim, a questão não  saía de si mesma, pois:

I. Doutrina

O grupo dos não-intervencionistas procurava superar a doutrina; mas não sabia como e nem em que se firmar. Apenas negavam logicamente a intervenção divina. Então contas como “se Jesus é a Imagem e o Filho de Deus e Deus é amor, porque mataria pessoas?” eram realizadas e realmente deixavam os “opositores defensores da doutrina” de saia curta; mas não resolvia o problema e nem saciava a necessidade de pão que nós, como fiéis, temos. Muitas outras perguntas e estruturas lógicas eram feitas, mas nenhuma produtiva. Isso indicava algo importante: só é possível desenvolver uma argumentação se os dois que falam tem os mesmos pressupostos e estão no mesmo “chão”. Sem isso, não há conversa. Pois bem: o grupo não-intervencionista criticava a doutrina, mas não conseguiu superá-la: tinha os mesmos pressupostos!

II. Pressupostos

Como não houve reflexão, debate aberto, conversas produtivas e construções coletivas, os pressupostos foram mantidos e não percebidos. Tanto um grupo quanto outro não superaram um problema: “onde Deus está?”. Tanto para um quanto para outro (mesmo que neguem) trazem consigo a crença de que há fora da História um ser divino que olha “para cá”. Nesse sentido, uma das soluções dos não-intervencionistas era dizer que Deus interpela pelos e para os humanos, mas não intervem. Quer dizer, Ele está assistindo e “torcendo” pra gente, mas não faz nada. Outra frase-pronta como tentativa de produção era dizer que “Deus chora com a dor dos humanos” – mas também não faz nada. Se faz, já fez: enviou seu Filho ao mundo – Cristo. Mas aí travamos: o “enviou ao mundo” mantém o Deus que está lá e o mundo que está aqui.

Outro pressuposto que sustenta as duas correntes é o individualismo: um Deus individual que se revela ou chora ou interpela para indivíduos humanos. Egoistamente, a saída para Deus participar da vida humana era na vida do indivíduo humano, em suas experiências interiores, alegrias e momentos com o círculo de amigos e conhecidos. De um lado, o individualismo era ufanista: “sou salvo e Deus cuida da minha História!”; do outro, era depressivo: “Deus chora comigo e se apresenta nos momentos felizes que acontecem nos meus dias”. Mas os dois estão no mesmo chão. Se os pressupostos não são alterados, os significados daquilo que dizemos e cremos também se mantêm ou, no mais, ficam estéreis.

III. Processo de ressignificação

Era necessário um processo de ressignificação: aceitar as duas (ou mais possibilidades) e vasculhar o que está por trás de nossas crenças. Alterar isto renova o Espírito (em teologia) os laços comunitários (em política). O processo de ressignificação não dependia única e exclusivamente de uma argumentação lógica, mas da transformação das bases materiais – do motor duro e concreto da vida. A política das duas correntes religiosas estava em xeque e nenhuma percebia. Estava em cheque a organização produtiva da teologia e o modo como ela deve operar: Continuar lendo

A Bíblia Política: penúltima parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Nossa busca pela Bíblia política chega ao penúltimo passo. Em 5 partes, fizemos uma leitura comunitária que nos possibilitou produções muito ricas e diferentes das tradicionais. O próprio exercício pedagógico, o modo como realizamos os encontros e as interpretações, é revolucionário por si só: a participação ativa e contínua de todos os leitores, com contribuições críticas e abertura das possibilidades que surgem em cada trecho, supera a relação especialista-leigo, líder-massa. É uma experiência democrática. Isso requer que analisemos o que aconteceu para tentarmos reproduzir, de algum modo, e transmitir esta experiência para outros – ou seja: teorizar. Mas, neste momento, faremos nossa última interpretação do texto de Miqueias propriamente, deixando para o próximo uma avaliação crítica do que aconteceu

Assim, nosso penúltimo comentário está dividido em 3 partes: 1. Retorno ao necessário possível (depois de colocada a utopia como um momento metodológico do pensar no trecho anterior, Miqueias retoma a necessidade de se organizar para solucionar os problemas atuais, que estão acontecendo); 2. Plano de luta (veremos a arquitetação de um plano estratégico para superar a opressão realizada pelos líderes corruptos); 3. Resposta aos que questionam a luta (como se houvesse quem discordasse da necessidade de se colocar contra a corrupção e opressão, Miqueias lança mão da Palavra do Senhor, que traz a tona a memória do povo, em sua vida e processo de libertação, em todas as histórias em que foram escravos e, com a luta, puderam se libertar).

RETORNO AO NECESSÁRIO POSSÍVEL

“Agora, porque  gritar tão alto? Você não tem rei? Morreu seu conselheiro para que tua dor seja tão forte quanto a de uma mulher em trabalho de parto? Se contorça em agonia, povo da cidade de Sião, como uma mulher em trabalho de parto, porque agora terá que deixar seus muros para habitar em campo aberto. Você irá para a Babilônia e lá será libertada. Lá o Senhor a resgatará da mão dos seus inimigos. Mas agora muitas nações estão contra você. Elas dizem: ‘Que sião seja profanada e que isso aconteça agora, diante de nossos olhos!’. Mas elas não conhecem os pensamentos do Senhor; não compreendem o plano daquele que as ajunta como feixes para serem colhidas […] Reúna as tropas, cidade murada! Há um cerco contra nós. O líder de Israel será ferido no rosto com uma vara” [Miqueias 4:9 – 5:1]

Em nosso comentário anterior, vimos que Miqueias utilizou do método utópico: vislumbrou como deveria ser o mundo – sem corrupção e violência, plural e produtivo. Miqueias não faz desse modelo um “horizonte” ou “alvo”, mas uma possibilidade que nos ajuda a reconhecer o que está errado “por aqui”. Ele toma posição de um não-lugar para reconhecer as falhas de seu lugar. Este método utópico ou a utilização da utopia como passo metodológico para um “plano estratégico”, segue para o trecho acima, no qual o profeta levanta a cabeça e olha em volta: a cidade está sofrendo, as lideranças são frágeis e inimigos estão a espreita.

Miqueias percebe que Sião não resistirá ao ataque: está corrompida e corroída por dentro. Assumindo a impossibilidade de “vencer esta batalha”, estrategicamente para a libertação do povo (não de um ou outro escolhido, mas do Povo – para saber o que significa esta palavra, dê uma olhada no nosso segundo comentário), Miqueias propõe que a cidade deva ser deixada; terão que largar a segurança do monte par ao campo aberto. Serão levados para a Babilônia. A crise, o  sofrimento de ter que reconhecer a fraqueza e honestamente assumir a fragilidade e a impossibilidade de se lutar contra tudo e todos ao mesmo tempo, não é um problema, mas um acontecimento. Para certos “fins”, acontecimentos imediatos, não se tem o que fazer. Então, no plano de luta de Miqueias, o combate direto é impossível, pois é necessário reconhecer que não temos o que fazer: teremos que largar mão da segurança e mergulhar na crise; mas juntos, como povo.

A crise é aceita e as fraquezas internas também. A “cidade utópica” não foi esquecida e nem é o horizonte a ser alcançado. Miqueias deseja alcançar a libertação do povo, apenas. O Povo é um sonho maior que a cidade. A Sião e a Jerusalém como Terra Prometida possibilitaram reconhecer que a cidade em que estão é fraca, corrompida e doente. Teremos que sair… Este é o plano!

PLANO DE LUTA POSSÍVEL Continuar lendo

A Bíblia Política: terceira parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Em nosso terceiro texto-comentário a Miquéias, descobriremos que existem duas funções da profecia: denunciar (a corrupção e injustiça) e anunciar (a utopia). Na busca pela Bíblia Política, veremos que só é possível denunciar o que está errado quando tomamos uma posição “exterior” ao sistema vigente (seja político, econômico ou social). Quando conseguimos sonhar com um lugar que não é aqui, com o “sem-lugar”, ou seja, com a utopia, é que somos capazes de lutar contra as estruturas doentias em que vivemos. Como Paulo Freire escreveu: “o utópico não é o irrealizável […] é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico”

Assim, nosso comentário está dividido em 4 partes: 1. O anúncio (que veremos o sentido e significado de utopia); 2. A utopia (veremos que uma das manifestações da corrupção das instituições é a guerra, o que indica que elas precisam ser transformadas); 3. Do macro ao micro (da guerra entre nações, de instâncias distantes, Miquéias mergulha na violência do dia-a-dia); 4. Convivência religiosa e o perdão (não há exclusão na utopia e nem abandono das instituições; há é a afirmação de nossa postura e a necessidade de se transformar os governos e as lideranças). Espero que seja útil   😉

O ANÚNCIO

“Nos últimos dias, acontecerá que o monte do templo do Senhor será estabelecido como monte principal, elevado acima das colinas, e os povos irão para lá buscar refúgio. Muitas nações irão dizendo: ‘Venham! Vamos subir o monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó! Ele nos ensinará os seus caminhos para que andemos em suas veredas’ – pois a lei virá de Sião e a palavra do Senhor de Jerusalém.” (Miquéias 4:1-2a)

Em nosso último comentário, vimos a corrupção generalizada em Sião e em Jerusalém. Os governantes, os juízes, os sacerdotes e os profetas corrompidos, sujos, responsáveis e culpados pelas desgraças das cidades.  Miquéias faz uma crítica política pesada: denuncia o uso indevido do poder e as estruturas opressoras que esmagavam o povo. Como vimos, Sião estava sendo construída com derramamento de sangue e Jerusalém com impunidade.

Miquéias exerceu sua profecia de denúncia: apontou o erro que precisava ser corrigido nas instituições e nas formações sociais. Entretanto, neste momento de nossa leitura, nos deparamos com uma “pausa”: o ritmo, o tempo e o lugar mudam abruptamente de característica. Com a indicação “nos últimos dias”, Miquéias nos desloca do tempo dos reis Acaz, Jotão e Ezequias, e nos arremessa para um tipo de “futuro”. Ao mesmo tempo, saímos das cidades corruptas de Sião e Jerusalém e nos encontramos, agora, no “monte do templo do Senhor”, que há de ser erguido. Do clima de denúncia, seguimos para o anúncio…

O tempo da corrupção é denunciado, enquanto que o “tempo do templo do Senhor” é anunciado. A Sião e a Jerusalém da denúncia dependiam de sangue e impiedade; mas no anúncio, descobrimos que Sião será uma cidade “da lei”, e Jerusalém uma cidade “de onde vem a palavra do Senhor”. Miquéias anuncia uma utopia. Utopia é, numa tradução ao pé da letra, o “sem-lugar”; é o lugar que não tem lugar. Sião e Jerusalém, no tempo do anúncio, deixam de ser aquelas cidades que Miquéias está vendo em sua frente, naquele momento e lugar, e passam a ser cidades “sem-lugar”, utópicas: uma Terra Prometida.

Assim como o termo “povo” em nosso comentário anterior, a palavra “utopia” precisa de um conteúdo preciso, senão fica vazia de sentido e significado. Paul Ricoeur escreve que o “sem-lugar”, a utopia, talvez seja “uma estrutura fundamental da reflexividade pela qual podemos captar nossos papéis sociais, poder conceber assim um lugar vazio onde podemos refletir sobre nós mesmos”, e completa que “é preciso notar o benefício desse território. Desse não-lugar, uma réstia de luz é lançada sobre a nossa própria realidade, que de súbito se torna estranha […] A utopia permite variações imaginárias em torno de questões como a sociedade, o poder, o governo, a família, a religião. O ponto de vista de lugar nenhum permite colocar o sistema cultural a distância; nós o vemos do exterior, precisamente por causa desse ‘lugar nenhum’”.

Se tomarmos essa ideia de utopia, o anúncio de Miquéias não se torna exatamente esse exercício de contestação da ordem social corrupta a partir de um “outro mundo”? Ao ver e anunciar o tempo do templo do Senhor, Miquéias mostra como Sião e Jerusalém deveriam ser: cidades construídas na lei e na Palavra do Senhor, sem corrupção…

A UTOPIA

“Ele julgará entre muitos povos e resolverá os conflitos entre nações poderosas e distantes. De suas espadas, elas farão arados, e de suas lanças farão foices. Nenhuma nação erguerá a espada contra a outra, e não aprenderão mais a guerra.” (Miquéias 4: 2b-3)

O monte do templo do Senhor é a utopia, o lugar sem-lugar. A partir dele, o profeta consegue vislumbrar causas da corrupção e da destruição das cidades que estão em sua frente. O monte será, no anúncio do profeta, o lugar de paz, a partir de onde a paz será estabelecida. O Senhor julgará os povos e resolverá seus conflitos. As nações irão para lá para solucionar problemas. Da guerra, nasceria nesses dias um tempo de paz.

A utopia do profeta começa com a indicação de uma das causas da corrupção: a guerra. Miquéias cria uma metáfora linda: as espadas se tornarão arados e as lanças foices. Ou seja: a luta entre os povos será substituída por mútua ajuda. Não serão feitas armas, mas instrumentos que produzem alimentos. A denúncia está contida e implícita no anúncio da utopia: se os esforços dos governantes fossem para produzir alimento, por construir instrumentos instituições que produzem vida ao invés de matar, não haveria guerra e a vida seria multiplicada. Continuar lendo

A Bíblia Política: segunda parte do comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Nossa formação político-religiosa exige cuidado. Este processo de leitura não foi feito por uma única pessoa: estes textos são fruto de uma leitura comunitária da Bíblia. Não podemos falar de política e de formação política a partir de um indivíduo, isoladamente. Política é  o que acontece na “cidade”: nos grupos reunidos discutindo seus problemas comuns e cotidianos. A Bíblia lida solitariamente produz uma única interpretação e mantém a estrutura líder-massa. Deste modo, impedimos uma relação verdadeiramente política, aberta e democrática. A busca pela Bíblia Política continua. Nela, devemos crer de maneira crítica. Crítica não é abandono: é o modo de trazer à tona os fundamentos escondidos, desapercebidos ou quase esquecidos

Nosso segundo texto-comentário ao livro de Miquéias está dividido em 3 partes. Serão lidos trechos dos capítulos 2 e 3 do livro. Críticas, dúvidas, comentários e propostas são mais que bem-vindas! As três subdivisões do texto foram: 1. O verdadeiro povo e seu rei (reconheceremos uma diferença que o profeta estabelece entre o povo e os governantes); 2. Força e justiça: onde o profeta se firma (veremos Miquéias denunciar a corrupção dos outros profetas e buscar firmeza na força e na justiça); 3. Corrupção generalizada: esta cidade não tem mais jeito (comentaremos que todos os campos da cidade – político, religioso, pedagógico, legal… – são opressores e injustos; até a criação de um “bom lugar” é com sangue e impiedade).

O VERDADEIRO POVO E SEU REI

“De fato, vou ajuntar todos vocês, de Jacó. Sim, vou reunir o remanescente de Israel. Eu os ajuntarei como ovelhas num aprisco, como um rebanho numa pastagem. Haverá o barulho de uma grande multidão. Aquele que abre caminhos irá na frente deles; eles passarão pela porta e sairão. O rei deles, o Senhor, os guiará.

Ouçam, vocês que são líderes em Jacó, governantes na nação de Israel! Vocês deveriam conhecer a justiça! Mas odeiam o bem e amam o mal. Vocês arrancam a pele do meu povo e a carne dos seus ossos. Aqueles que comem a carne do meu povo, arrancam sua pele, despedaçam os seus ossos e os cortam como se fossem carne para a panela um dia clamarão ao Senhor! Mas ele não responderá… Naquele tempo ele esconderá deles o rosto por causa do mal que tem praticado” (Miquéias 2: 12-13 e 3: 1-4)

Assim Miquéias segue não falando o que convém, mas o que é necessário. Falar o necessário, sobre a necessidade, é o que faz o verdadeiro profeta. Miquéias anuncia que o Senhor guiará seu povo, o povo de Jacó, a nação de Israel. A cena descrita parece muito com o que acontece no Êxodo: o Senhor a frente do povo abrindo caminhos para que pudessem passar e sair. Mas porquê o povo deveria sair? No texto anterior, vimos que as cidades estavam corrompidas e que falsos profetas não denunciavam esta corrupção. Vimos que Miquéias falava em determinado tempo para determinados reis. As catástrofes eram sinal da corrupção e os acusados eram os líderes em Samaria e em Jerusalém. Porquê o povo será salvo?

No trecho acima percebemos uma sutileza: existe quem é de Jacó e de Israel e quem “está” em Jacó e “está” em Israel. O povo de Jacó e de Israel será juntado pelo Senhor e sairá daquele lugar corrompido, daquelas cidades feridas. Serão como o rebanho guiado por seu pastor. Diferente daqueles que não são de Jacó e de Israel, mas são chefes e governantes em Jacó, em Israel. O profeta denuncia um abismo que há entre o povo  e seus líderes: o povo é de Israel, seus chefes e governantes apenas estão por lá…

E o que faz com que esses governantes sejam rejeitados pelo Senhor, não considerados como parte de seu povo? Eles “deveriam conhecer a justiça! Mas odeiam o bem e amam o mal; arrancam a pele do meu povo e a carne dos seus ossos”. Os governantes deveriam conhecer a justiça! Não a conhecem.  Por isso são rejeitados, são excluídos do verdadeiro povo de Israel. Sinal de que o povo enquanto povo conhece a justiça e a pratica; mas é oprimido e mastigado por seus governantes injustos. O povo justo sofre nas mãos de governantes injustos, que arrancam sua pele e a carne de seus ossos.

Claramente o profeta defende o povo e ataca os governantes. O povo romantizado como justo é o verdadeiro povo de Deus; enquanto que os governantes são vistos como opressores que não seguem a justiça divina. Mas quem é o povo? Essa palavra anda muito desgastada e é comumente entendida num sentido pejorativo. Se o profeta defende o povo, que em suas palavras o Senhor chama de “meu povo”, é porque vê esta categoria com bons olhos. Enrique Dussel, tentando resgatar o sentido bom de povo, escreveu: “povo é um ‘bloco comunitário’ dos oprimidos de uma nação […] é o povo como sujeito histórico da formação social, do país ou nação. ‘Povo cubano’, ‘povo nicaraguense’, ‘povo brasileiro’ são os que atravessam a história […] O povo como dominado é massa; como exterioridade ao sistema é reserva escatológica; como revolucionário é construtor da história”. Aqui, o “povo de Jacó” atravessa a história, passará pela porta e sairá guiados pelo Senhor.

Os governantes, distantes do povo e opressores do povo, praticam o mal. Um dia, diz o profeta, clamarão ao Senhor, mas Ele não os responderá. Neste dia estará a frente de seu povo, longe dos líderes que estão em Israel, e esconderá seu rosto enquanto segue em frente…

FORÇA E JUSTIÇA: ONDE O PROFETA SE FIRMA

“Assim diz o Senhor: ‘Profetas que fazem o meu povo se desviar e que proclamam a paz quando lhes dão o que mastigar, mas que proclamam guerra santa contra quem não lhe enche a boca; por tudo isso, a noite virá sobre vocês – uma noite sem visões! Haverá trevas sem adivinhações. O sol se porá e o dia ficará escuro para estes profetas. Os videntes, envergonhados, e os adivinhos constrangidos, todos cobrirão o rosto porque não haverá resposta da parte de Deus’. Quanto a mim, porém, graças ao poder do Espírito do Senhor, estou cheio de força e de justiça para declarar a Jacó sua transgressão e a Israel o seu pecado:” (Miquéias 3: 5-8) Continuar lendo