No mundo das utopias

ZZ6CF1418E“Isso é impossível! Nunca existiu nenhum lugar assim!” – não mesmo, pois se existisse não seria sem-lugar, ou seja, u-tópico. Voar também já foi algo u-tópico, sem lugar, a ponto de construírem o mito de Ícaro, que inventou asas artificiais, mas que derreteram ao se aproximar do Sol. Voar era coisa divina, inalcançável. Ainda é, em certo sentido. Mas bem menos estranho do que antes: a utopia não se realizou, mas a relação sonho/condições materiais abriu possibilidades e garantiu acontecimentos transformadores no nosso modo de vida. Como Marx coloca: as condições materiais determinam a consciência – aquilo que pensamos apenas pensamos porque é possível pensar. A transformação das ideias em conexão com as transformações das condições materiais da vida mostram pra gente que de alguma forma nossa imaginação só trabalha desse jeito porque é possível. De alguma forma, há este possível…

O sem-lugar, o utópico, inaugura a relação insana e cativante do possível-impossível. Constituímos nossos projetos, organizamos nossa vida e realizamos tarefas (sejam intelectuais, “braçais”, individuais ou coletivas) a partir do que cremos ser possível e do que estabelecemos como impossível.O utópico tem a capacidade de tensionar os polos. Como Franz Hinkelammert apresenta na Crítica da Razão Utópica, seja para Weber ou para Marx, o modo como se estrutura teoricamente a política, a sociedade ou a economia dependem de limites aos quais eles se impõe em suas produções. Quer dizer, para um seria impossível a manutenção de um sistema para sempre; para outro seria impossível sua superação. De todo modo, como Hinkelammert aponta, um e outro dependem de um exercício utópico, de tensão entre o possível e o impossível. O fim das utopias nascido junto com o pretenso fim da História de Fukuyama dependem, na base, da crença de que estamos no “melhor dos mundos”: que chegamos ao lugar sem-lugar e não há mais nenhum lugar possível. Mas se assim fosse, porque tanto esforço ideológico ou de violência física contra todo movimento capaz de pensar em outro “lugar sem-lugar”?

Realmente, o “mundo perfeito”, sem conflitos, contradições e complexidades é inalcançável em nossos projetos. É óbvio: cada ação de cada sujeito produz efeitos intencionais e não-intencionais incalculáveis, situada em suas relações intensas, abertas e aleatórias junta de outras ações de outros sujeitos. Impossível o controle absoluto sobre toda essa aleatoriedade e complexidade. Mas, então,  o utópico morre? Parece que não se levarmos em conta que a ação de um sujeito se sustenta na tensão que ele estabelece entre o possível e o impossível (ou seja, sua racionalidade utópica). O elemento utópico está aí, posto, com função extremamente prática. Porque, então, limitamos nossa imaginação utópica? Mais que isso, porque desvalorizamos os projetos coletivos que se sustentam em utopias?

Não, não acreditemos no impossível. E sim, precisamos limitar nossa imaginação utópica. Limitar, não bloquear. O limite do uso de nossa utopia está também no que Hinkelammert chama de “princípio de factibilidade”: a utopia é um princípio norteador, criador de mundo e de crença, mas que deve ser criticado a partir das situações determinadas e cotidianas. Estas impõe aquilo que é factível e o que não é. A crença não é, portanto, no impossível, mas na possibilidade que a utopia nos dá de atuação no e com o mundo. É tensionarmos consciente e criticamente a relação possível-impossível. A utopia só é possível de ser raciocinada porque há, anteriormente, condições materiais que a garantem como possível. Novamente, só dá pra pensar o que dá pra pensar. Continuar lendo

A Bíblia Política: a profecia hipócrita de teólogos evangélicos

alfonsin_claima20101125_0152_8Uma verdade não é uma verdade sozinha. Ela tem corpo sentido e “testemunho” através da vida de quem a profere. O “eu sou a verdade” de Cristo é uma afirmação materialmente mais dura do que parece: eu vivo o que falo e falo o que estamos vivendo. O logos que se faz carne e habita requer que quem o siga seja testemunho vivo, ou melhor, mártir: encarne a mensagem. O crivo de verdade não é a palavra escrita, mas a Palavra Viva, que se renova a cada manhã enquanto a vivos a vivem. “O trabalho liberta” até é uma expressão válida; mas como lema cunhado acima dos portões de Auschwitz, torna-se mentira assassina. Dizer que “profecia é denúncia contra os poderosos” é verdade na boca de Dom Pedro Casaldáliga, mas tem sido falsidade peçonhenta nos textos de líderes e teólogos evangélicos

Textos tem sido escritos, mensagens pregadas, desculpas armadas e vídeos produzidos por lideranças e “estudiosos” evangélicos afirmando que “profecia é denúncia aos poderosos”, com uma ressalva importante: os poderosos são necessária e exclusivamente os “reis”. Os sacerdotes, os ricos e líderes curiosamente não entram na conta. Pior que isso, é ver que esse discurso está sendo apropriado para dizer que é função da igreja ser “denunciadora”, e por isso deve se afastar das instituições políticas: assim é capaz de “denunciar”. Denunciar quem, especificamente? Quem estiver no Governo. A partir de uma análise ou consciência politica? Não. Apenas seja contra as instituições políticas: “elas são sujas por natureza”. A função de denúncia da Igreja está sendo utilizada não para politizá-la,  mas para desarticular seus membros: o efeito gerado é o afastamento das decisões políticas, o distanciamento “do que está acontecendo lá fora”, no mundo. Na verdade, esse discurso não é para durar para sempre: é oportunismo religioso para denunciar única e exclusivamente o governo que está aí agora. Por quase 100 anos de evangelicalismo no Brasil, pela primeira vez curiosa e coincidentemente profecia está sendo “entendida” e apresentada como “denúncia”.

Além de hipocrisia e apropriação indevida, é desonestidade e violência à história de santos que lutaram verdadeiramente para propor e defender a profecia como e enquanto denúncia contra os poderosos. A verdade é que das décadas de 60 até ontem, dizer que a Igreja tinha o dom profético de denunciar os poderosos e os opressores era coisa “comunista” e pecaminosa, que atentava contra a ordem da Igreja e a proposta de um “reino”. Até ontem, para o movimento evangélico, profecia era falar do futuro. Até ontem, eram os católicos insurgentes da Teologia da Libertação que falavam essas coisas de “denúncia” e utilizavam expressões como “poderosos” e “opressão”.

Não sou católico. Sou evangélico. Mas sou devedor e admirador dos santos revolucionários inspirados por Deus que fundaram e fundamentaram numa teologia profunda, concreta, material e comprometida a profecia como denúncia contra os poderosos. Dizem que a última afirmação teológica de Dom Hélder foi “não deixem morrer a profecia”. Perseguido pela Ditadura, amigo íntimo de Paulo Freire, protetor e defensor da Teologia da Libertação dentro da estrutura conservadora da Igreja Católica Apostólica Romana, Dom Hélder entendia como o “pedagogo dos oprimidos” que “profecia é compromisso histórico […] Somente podem ser proféticos os que anunciam e denunciam comprometidos permanentemente num processo radical de transformação do mundo, para que os homens possam ser mais”. Profecia enquanto denúncia exige comprometimento radical, histórico e constante: só é verdadeira a profecia na boca de quem encarna a Palavra. José Comblin, também perseguido pelos militares e pela própria Igreja por denunciar as estruturas de opressão, para quem entendia que Paulo determinava a profecia como dom mais importante, essa encarnação não é abstrata, é concreta,  real. Assim, quanto à mensagem profética de Cristo diz:

“Há uma tendência de espiritualizar a mensagem de Jesus como se o Reino de Deus se limitasse aos bons pensamentos, às boas intenções ou às virtudes morais. O Reino de Deus é moral porque é material. O pecado é material e a salvação também é material. O pecado é a fome, a violência, a dominação, a desigualdade, a exclusão. O Reino de Deus é o fim da pobreza, a igualdade, a paz. mas, para torná-lo presente, haverá muita luta, muito sofrimento, muitos fracassos e muitas vitórias, incluindo perseguição e morte. Jesus não promete repouso, tranquilidade, satisfação de todos os desejos […] A Igreja deve oferecer aos mais desesperados o testemunho de sua esperança. Ela é o povo que permanece acordado e vive a esperança mostrando-a no meio das criaturas humanas mais desesperadas e excluídas”.

Antes e fundamental para se dizer que a “profecia é denúncia contra os poderosos” é o comprometimento radical com os excluídos! É isso que possibilita, encarna e determina a denúncia. Quem são os poderosos? O Estado? As instituições políticas? O Governo? O Mercado? É opressor, dominador ou poderoso todo sistema que oprime, exclui e marginaliza: gera oprimidos. Não é um ou outro, esse ou aquele. Tomando posição e se comprometendo com o oprimido, sabe-se contra quem é necessário levantar denúncia. É a partir da experiência dos excluídos, tal qual os profetas fizeram! É a partir dos pobres. É trazer de volta a vocação de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar as boas-novas aos pobres, anunciar libertação aos presos, restaurar a vista dos cegos, dar liberdade aos oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor”.

Infelizmente a denúncia conveniente de teólogos e pastores evangélicos tem outra função: não mais libertar o excluído, mas atacar o Governo enquanto distancia a igreja das decisões políticas, da comunidade política, da organização popular e de coletivos. Cria um muro para preservar um gueto pseudo-sacro-santo. Na minha própria comunidade religiosa tive que ouvir isso! Discurso vazio que afasta as pessoas da vida de verdade, da responsabilidade e comprometimento com a comunidade de vida que circunda e permeia a comunidade religiosa. Discurso que cria rebanho alienado ao invés de incentivar a participação política, formação de quadros honestos, gente que no futuro possa ser bom governante, bom cidadão, comprometido com o pobre e combatente contra a corrupção. Fazer isso pra quê? Melhor é afastar o povo das únicas instituições que organizam a sociedade e podem ser ferramenta e instrumento para a melhoria da vida da população.

O que está por trás desse discurso fácil e cômodo dos líderes evangélicos é uma analogia indevida e limitada entre “reis” e “governantes”. Ou seja: apenas os “governantes” são os poderosos opressores. Pior que isso, é perceber que as cabeças das autoridades se revelam politicamente mal formadas: pensam que as prerrogativas da monarquia foram transferidas para o Estado na República. Pelamor! A denúncia profética é contra os poderosos: líderes sociais ou políticos, sacerdotes e ricos que oprimem o Povo. A denúncia não é, portanto, contra os cargos, mas contra a OPRESSÃO, a favor dos EXCLUÍDOS. Sem este fundamento, é mero artifício político enfraquecedor da cidadania e que limita, ainda mais, as possibilidades dos oprimidos tomarem caminhos que possibilitem sair da opressão. Como Enrique Dussel escreve:

“O pecado a ser denunciado não é exclusivamente individual; o pecado não é apenas social, histórico, institucional, relação social, mas também, além disso, o pecado se organiza, tem consciência de si, funciona como sujeito […] o essencial é compreender sua práxis histórica, a de seus mensageiros (Mateus 25:41) que são também os dominadores, os pecadores, os ‘ricos’… ‘Os príncipes das nações as dominam e os poderosos as oprimem’ (Mateus 20:25). A práxis do pecado, a dominação (constituir-se como ‘Senhor’ do outro alienado) se institucionaliza através das estruturas políticas, religiosas, ideológicas, econômicas. Não há um pecado religioso de um lado e uma falta política ou econômica secular de outro. Toda dominação ou falta contra o outro é pecado contra Deus! É falso separar o pecado de um lado e as estruturas e instituições históricas de outro; porque essas são as maneiras concretas como Satã exerce seu reinado neste mundo, através dos seus anjos: os homens que dominam seus irmãos. O pecador, o ‘rico’, o dominador é o ‘enviado’ do Príncipe deste mundo para institucionalizar seu reinado; quer dizer, as estruturas históricas do pecado como ‘relação social'”.

O problema não é o Estado, o Mercado, a igreja, a Escola… O problema é a dominação, a opressão, a exclusão: ela deve ser denunciada. A profecia como denúncia está sendo utilizada para distanciar-nos, nós, enquanto fiéis, destas estruturas e da participação nelas para transformá-las, para denunciar o pecado e lutar com o excluído, com o pobre, com o oprimido. Não é denúncia “ao rei”: é denúncia à opressão, seja do rei, do líder, do sacerdote ou do rico! Isaías, por exemplo, a cada capítulo enxovalha os ricos e os sacerdotes. Habacuque ataca os líderes do povo e os sacerdotes. Amós vai até o palácio não para se distanciar da política, mas para criticá-la a partir do povo, dos excluídos, dos que estão “aqui fora”. Continuar lendo

Nasci para ser senhor de engenho: o colonizador que habita na gente

1214065231310_f“O que nos forma são as instituições”, é o que Jessé Souza tem apontado. Não somos filhos do encontro mágico ou trágico do branco com o negro, do índio com o branco, do negro com o índio. Esses encontros são possibilitados por uma estrutura ou sistema instituído entre os sujeitos. É assim que o que nos forma são as instituições. O que funda o Brasil que vivemos hoje não é o encontro entre pessoas: é a exploração colonial e, principalmente, a instituição da escravidão. É ela que regula a sociedade por mais de 400 anos, media as relações entre os sujeitos, estabelece a divisão de trabalho e sustenta crenças, direciona a construção das cidades, organização no campo, formação das famílias, costumes…

Somos filhos da escravidão. Não se apagam 400 anos com uma canetada de princesa. Como Joaquim Nabuco profetizou: nunca seremos uma nação enquanto não superarmos as marcas da escravidão. Para ele, isso levaria uns séculos… Mas para a gente, não! Afinal, escravos já foram “abolidos”, mesmo. Ahá! Exatamente isso: não foi a escravidão “abolida”, os escravos é que foram abolidos. Abolição da escravatura foi jogar gente do nada para o nada. A força de trabalho que sustentava o modo de produção foi jogada fora, só! Houve mudança estrutural? O sistema foi golpeado radicalmente? Não. Literalmente, foi para “inglês ver”. A estrutura se mantém: as correntes são postas de lado e substituídas por uma coisa inusitada: salário (mínimo). O que prende o escravo/empregado ao senhor-de-engenho/patrão não é mais a lei do chicote, mas a necessidade de moeda para comprar pão.

São as instituições que nos formam. Escravos são abolidos, mas a instituição da escravatura não foi substituída, suprimida ou “revolucionada”: houve uma transformação, sem crise sistêmica. Somos filhos e fruto da escravidão. Isso não aconteceu há milhares de anos, foi ontem, enquanto fomos o último país a abolir a escravidão: 1888, três anos antes de nos “tornarmos uma República”. Aliás, como nasce essa República? Da revolta social? Povo? Não; Golpe Militar. Ninguém viu e nem ficou sabendo. Jornais da época relatam que as pessoas se perguntavam se era comemoração do dia da Independência fora de época. Ninguém, viu, participou ou entendeu que raio era aquilo.

O que nos forma são as instituições! É um Estado republicano que nasce de um golpe militar e que tinha como estrutura centenária a exploração abusiva da terra, a escravidão, o massacre social. Uma igreja colonial que mantém as crenças, os costumes e as práticas religiosas do tempo de escravidão inalteradas (e o país era católico! Todo nascido crescia nessa igreja, aprendia essa religião). Escola era para rico e nobre. Filho de senhor de engenho ia estudar em Portugal, dar um rolê na França, voltava para cá para ser médico, advogado, parlamentar ou manter o trabalho de fazendeiro senhor-de-engenho do pai. E a população de verdade? A “galera”, o “povão”? Ou com chicote nas costas, ou sendo funcionário/capataz, ou ralando muito para conseguir vender o fruto de seu trabalho, coisa pouca, para os donos da escravidão. Nasce na casa grande, no comércio ou na senzala. Mas livre? Daquele jeito que a lenda de indivíduos felizes e contentes, ninguém no mundo nasce, não. Somos formados pelas instituições!

No mestrado estamos trabalhando Teoria Crítica. Uma das perguntas norteadoras é “como é possível nascer um sujeito fascista?”. Isso tem deixado a gente bem agoniado. Mas, adaptando um pouco à nossa história, nossa terra e nossa cultura, a pergunta aqui é “como é possível nascer um sujeito colonial?”. As tensões políticas tem apresentado faces de nossa estrutura subjetiva que a gente normalmente finge não ver: temos em nós senhores-de-engenho, capatazes e escravos. Criei indevidamente esses três modelos teóricos de sujeito, a lá um esqueminha weberiano sem vergonha. Parece que tendemos mais para um lado, para outro… Temos em nós os três em diferentes medidas e situações. A questão é: somos sujeitos coloniais, e as instituições que nos formam nos forçam a isso. Continuar lendo

Manifestações e amadurecimento político

12abr2015-manifestantes-estendem-faixa-com-a-frase-nao-precisamos-de-reforma-politica-durante-ato-contra-o-governo-da-presidente-dilma-rousseff-na-avenida-paulista-em-sao-paulo-o-protesto-foi-142888É comum o frase-pronta de que as manifestações de junho-julho de 2013 acabaram em nada, não geraram transformações. Mas seria possível imaginar as Ocupações das escolas em São Paulo no fim do ano passado sem aquela experiência política popular explosiva e tão expressiva? A instabilidade política que vivemos hoje teve data de início: junho-julho de 2013. Ali o “Estado intocável” foi ferido – e depois que uma divindade sangra, perde seu poder aos olhos dos homens. Foi uma possibilidade de abertura política, mas com ela sempre vem a reação de desespero por “reorganização” do status quo. Um político de velha guarda e um que acabou de garantir sua cadeira mágica não vão querer perder sua majestade…

Os privilégios de uma cadeira na direção do Estado foram questionados. O fundamento e funcionamento do próprio Estado foram questionados. Essa é a “instabilidade”: podemos tanto seguir para uma experiência política popular legítima de libertação, quanto para a reorganização e fechamento político regido por uma elite política oportunista. É a ambiguidade de cada experiência. E como paradigma de atividade política fica um quadro com dois caminhos: Ocupações de escolas por secundaristas e manifestações “sem-bandeira”.

As manifestações de 2013 foram dirigidas e organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL). Um coletivo estruturado, com objetivos e projetos claros. Quem aderisse à manifestação sabia o porque se estava manifestando: contra o aumento do preço das passagens. Era esse o objetivo, o grito e a função do movimento. Ele inchou de repente. Muita gente foi à rua para manifestar junto ao MPL contra o aumento; mas ao mesmo tempo afirmavam que “não era pelos 20 centavos”. Apesar da contradição, ao entrarmos para a manifestação junto ao Passe Livre, gritávamos os mesmos gritos e exigíamos o mesmo que era exigido. O recuo por parte do Estado foi a vitória do movimento e das manifestações. E elas acabaram ali? Por um lado, sim: o MPL tinha como objetivo claro e discurso hegemônico a luta pelo preço do busão. Por outro, não: aqueles que aderiram por mais do que o preço do ônibus sentiram a necessidade de continuar frentes de luta.

O problema é que o MPL tem tempo de projeto e organização. Não começou ontem, mas é um coletivo organizado, politizado e com planejamento claro. O discurso é hegemônico e a participação junto ao movimento requer a adesão a esse discurso. Mesmo quem dissesse naquele tempo “não é pelos 20 centavos”, no exercício político público exigia os 20 centavos. Essa era a luta política. Assim, participação e movimento político requerem esse princípio: discurso hegemônico claro e objetivo. Requer projeto organizado coletivamente.

As Ocupações das escolas no ano passado foram um ato verdadeiramente político. Um banho e uma aula de Política em excelência dada por adolescentes a nós, jovens, adultos e velhos que não temos noção e nem formação política madura – apesar da idade. Minimamente houve uma organização com objetivos, projeto e discurso hegemônico: contra a reorganização das escolas proposta pelo Estado. Todos os secundaristas exigiram isto. Se articularam. Tudo o que era dito por um aluno respondia e era assumido por todos. Isso é uma atividade política! Não eram indivíduos fazendo alguma coisa; era um coletivo de alunos, uma comunidade politizada. Todos sabiam o que queriam e o que seria feito. Logo que o Governo recua, acaba o movimento. Continuar lendo

Sacrifícios e atividade política

USA. God, Inc.

Cada dia que passa a o que Carl Schmidt concluiu a respeito da política moderna se torna mais certeira: o Estado moderno é estruturalmente teológico. Dogmas, ritos, entidades supremas, hierarquias ficas e a eterna disputa pela “legitimidade” (quem é eleito como o “certo” de acordo com a vontade divina). Mas Schmidt entendia “política” como atividade exclusiva do Estado – sua conclusão parte da leitura do Leviatã, de Hobbes. Mantendo a ideia, mas sacando política como atividade do “Estado ampliado”, incluindo a ação dos sujeitos envolvidos enquanto cidadãos, como propõe Gramsci, por exemplo, uma estrutura teológica também explica bem nossa recente experiência política brasileira. Pelo jeito, a velha formulação de Marx em que “a crítica teológica é a primeira crítica política” vale muito

Nas aulas de Temas de Filosofia Política que estão acontecendo lá no mestrado nesse quadrimestre, temos discutido bastante a relação Psicanálise-Política para entender a ação dos sujeitos: porque agem ou não agem de determinada maneira em suas situações. Quais seriam os mecanismos de controle do “aparato psíquico” dos sujeitos e quais as possibilidades de saída, de libertação. Mas o interessante aqui é: mesmo que sejamos controlados, regrados, disciplinados e tudo mais, as pulsões contidas vão para algum lugar. Na Psicanálise, nos referimos comumente à sexualidade. Aqui, vamos dar outra roupagem para ajudar na troca de ideia: aquilo que movia os rituais públicos de antigamente também acaba escoando para algum lugar! Religião (apesar de ser jogada como uma eleição ou preferência privada) sempre foi experiência comunitária e pública: eram momentos corporais de excitação ou sofrimento em conjunto experienciados e praticados em cultos. Assim, mesmo que a prática institucional seja confinada no campo “privado”, aquele, digamos assim, impulso religioso que é público e comunitário não se confina e nem se isola nas quatro paredes de uma igrejinha na esquina, num terreiro, casa ou templo.

Sacrifícios eram (ou são) rituais públicos em que toda a comunidade se envolvia. Eram práticas primordialmente religiosas, mas tinham caráter e implicações políticas, sociais, econômicas e culturais. Como René Girard mostra, toda a tribo ou comunidade participava ativamente da experiência; no desespero por um bom ano ou para pagar uma dívida com o divino, o mais puro era escolhido como oferta aos deuses em troca de segurança para um tempo na vida. Esse era um tipo de sacrifício: de purificação ou pureza. O intuito era manter segura e estável a vida comunitária. Mas também havia outro tipo de sacrifício: o de raiva-vingança. Quando a comunidade estava irada com uma situação ou com um considerado excessivamente culpado, sacrificava este sujeito para apagá-lo da terra, superar o mal. Era o sacrifício mais violento, impetuoso. De qualquer modo, havia sacrifícios; prática comunitária, religiosa e política.

Pois bem, não temos mais o rito sacrificial público. Quando se é exigido algum tipo de oferta, ela é individual, de auto-flagelo, quase que uma religiosidade liberal: cada um cuida do seu e faz o que quer com ele. Mas a experiência ou o impulso que culmina nesse ritual público não encontra mais sua “casa” oficialmente. E ele vai para onde? Para algum lugar…

Jung Mo Sung e Fraz Hinkelammert trabalham muito a questão do sacrifício. Um dos pontos centrais é: o Mercado exige diariamente sacrifícios humanos para sua manutenção, que são tolerados e como a garantia do bem de todos. São nossos sacrifícios de purificação modernos: a morte e o sofrimento dos marginalizados pelo Mercado e dos oprimidos por trabalhos insuportáveis é visto como efeito colateral, como paga para a aposta de futuro melhor e garantia da vida segura e minimamente estável de agora. Como diríamos: “pimenta no ¢* dos outros é refresco”. Esse sacrifício não rende muita polêmica ou atenção: ele é fruto de desespero, total falta de esperança. É costume indiferente que assumimos como parte da vida e como a atitude que nos garante a continuidade da própria vida (ou do próprio sistema em que vivemos). É o sacrifício de purificação: uns pobres coitados inocentes acabam tendo que morrer para fazer a roda girar.

Mas o sacrifício de vingança, esse sim, ganha capa de jornal e torcida. Uns contra, outros a favor dos sacrificados, o momento do show segurando a tensão e a excitação para o clímax e a urgência do final horroroso faz nascer na boca do estômago dos participantes do rito a necessidade da morte. Tem que haver vingança, o mal deve ser estirpado. Qual mal? Aquele que parece estar num único sujeito. No fundo, a vingança não apaga o mal, mas o sacrifício dá a sensação de que ganhamos mais um tempo aplacando a ira dos deuses. O pecado foi resolvido com a morte de mais um que merecia.

O problema é que o mal continua; e o próximo sacrifício de vingança já entra na história em potência. O de pureza ou desespero está acontecendo todo dia, a todo instante. E a vida política caminha acriticamente repetindo os ritos sacrificiais sem saber o que está acontecendo e nem se deveria acontecer. Nossa vida política está praticando esses sacrifícios: condescendente com a morte, ativista da vingança. Uma das loucuras é que nada está sendo efeito  pelos adoradores; todo o esforço e performance é realizado pelo sacerdote, seus auxiliares, talvez o “chefe” e alguns figurões. O povo, os fiéis, apenas assistem. Não se sentem representados pelo sacerdote, pelos auxiliares ou pelo chefe, mas se sentem eles próprios estes atores – e não o são!  O povo é no mínimo torcedor; no máximo a faca que imola a vítima do sacrifício: pois é só com a permissão e desejo dele que um sacerdote teria coragem de meter a lâmina na garganta de alguém. Continuar lendo

Talvez sejamos os primeiros brasileiros

criança_muitasbocasnotrombone2O povo brasileiro de Darcy Ribeiro já é e está eternizado. O trabalho encantador e inspirador de traçar raízes históricas e antropológicas da gente que mora aqui abre janelas, enche nosso pulmão de fôlego e vontade de ser brasileiro. Vontade, desejo, pois não o somos. Não somos Povo brasileiro, somos nascidos no Brasil. Não conhecemos e nem reconhecemos nossa História: nem do país e nem de nossa própria casa. Não sabemos nosso lugar no tempo e no mundo. Não temos uma identidade, não carregamos uma mesma marca, não somos daqui. Todos nos sentimos desterrados. Estamos em falta, o Brasil está em falta. Falta um Povo, de gente que vive de uma História recente e não consciente

Recentemente propus para alguns amigos que reconstituíssemos as histórias de nossas famílias. Todas elas eram absurdamente diferentes. Cada um tinha uma ascendência diferente, uma mistureba de etnias diferentes e de tradições religiosas diferentes. Ao mesmo tempo, eramos todos brasileiros, paulistanos e paulistas. Nos sentíamos parte de um mesmo grupo por estarmos próximos, mas nossas histórias, crenças e experiências não nos conectavam.

Meu bisavô por parte de pai, nasceu no início do século XX em Minas Gerais. Era de uma família de ex-escravos: um negro de quase 2 metros de altura. Seu casamento com minha bisavó foi um pouco estranho: foi até uma tribo guarani que ainda existia no interior, perto da vila em que morava, tomou-negociou uma ídia baixinha de pouco mais de 1,50 m e levou ela embora contra sua vontade. Minha bisavó sofreu nessa estranheza de relação abusiva-não-amorosa. Deles nasceu meu avô, Vicente, lá na década de 30 (não sabemos quando ele nasceu, pois não tinha certidão de nascimento: teve seu primeiro documento para casar no cartório, mas ninguém sabia qual era a sua real idade. Quando ele faleceu, há 11 anos, discutimos por um tempo a respeito de sua provável idade). Assim, meu avô era cafuso.

Seu Vicente, cafuso, casou-se com uma branca de família ibérica vinda para o Brasil em busca de terra. Ela faleceu depois de ter dois filhos; então Vicente se casou a prima de sua mulher, minha vó, Jandira. Em 1964, nasceu meu pai, Eliel. Qual a sua etnia? “Branco” ou “Caucasiano” que não é…

Por parte de mãe, tive um bisavô filho de um nordestino de ascendência islandesa com uma alemã. Este bisavô, Alfredo, se casou com dona Tereza, filha de um polonês com uma mestiça paraense. Tiveram meu avô, Alberto, que se casou com uma portuguesa de Braga filha de uma portuguesa com um francês que veio para o Brasil nos anos 50. Em 1968, tiveram a Gi, minha mãe. Dessa mistura, nasceu uma branca, com uma carga genética europeia, mas de qual etnia? Qual sua “nação”? Onde se imaginaria numa mesma família alemães, poloneses, islandeses, um francês, uma portuguesa e mestiços?

Esta história familiar começa coincidentemente com a instauração da República no Brasil. É do início do século XX pra cá. Nesta bagunça, eu, particularmente, me sinto um legítimo brasileiro, talvez, o primeiro da família…

Todos os meus progenitores tem sua história e cultura enraizada em outro lugar. Nesta terra, não estavam em sua terra. Talvez minha bisavó indígena estivesse em sua terra, sua própria cultura; mas meu bisavô fez o favor de desterrá-la. Ele mesmo, sendo filho de ex-escravos, nunca esteve na própria terra: era filho de desterrados que trabalhavam na terra de outros como e enquanto escravos. Não eram livres. Tinham saudade de uma terra que nunca puseram os pés e, ao mesmo tempo, só conheciam este chão que pisavam e não era deles. Mesmo no caso dos europeus, nenhum veio como amante da terra ou com plano de criar e produzir alguma coisa aqui: vieram para explorar e garantir a sobrevivência. Aqui nunca foi seu lugar, os vizinhos nunca foram seu próprio Povo.

Acho que em minha avó portuguesa essa postura fica mais evidente: veio para cá em busca de condições de vida melhores, para superar a pobreza da família na periferia lusitana de um tempo totalitário e garantir sustento por aqui: tirar o que for possível para viver. Explorar, querendo ou não. O Brasil deve “dar alguma coisa”, “garantir” recursos para a sobrevivência. Quando não o faz, perde seu status de terra e imediatamente é problema, obstáculo, inútil. Ninguém se sente brasileiro: Brasil é sempre “terceira pessoa” a ser explorada ou que nos oprime.

A ascendência alemã de meu bisavó veio para o Brasil no projeto republicano de “branqueamento da população”, no sul. Veio em busca de usar a terra. Os ibéricos, também. O filho de escravos, pela primeira vez, tentaria garantir o seu espaço. A índia não resiste ao ataque e sofre nas mãos dos “brasileiros” que abusam dela. Os poloneses fugiram de guerras, vieram para cá sem querer vir. Ninguém estava, esteve ou estará preocupado com a terra, com a gente, com o futuro, com a cultura. Todos se aproximaram circunstancialmente; mas não há estrutura de Povo ou possibilidade de Povo. Continuar lendo

A Bíblia Política: último comentário a Miquéias

alfonsin_claima20101125_0152_8Este é nosso último texto em busca da Bíblia Política: último comentário à Miquéias. Para quem tem lido e acompanhado nossos textos anteriores, algumas questões estão claras: há uma denúncia à cidade e à sua organização por parte de Miquéias. A cidade está corrompida, os sacerdotes, os líderes, os ricos e os governantes são corruptos. A cidade boa, Terra Prometida, Sião, foi construída com sangue – a um custo muito caro! Miquéias, então, enquanto denuncia, cria uma outra Sião, construída a partir da Justiça. Esta cidade boa anunciada se torna uma ferramenta crítica: é olhando para a possibilidade sem-lugar de algo melhor que somos capazes de encontrar e criticar a corrupção aqui. Assim, é possível criar um plano estratégico real e concreto para superar os problemas da cidade: um plano de luta. Agora, por fim, encontraremos o fundamento principal para a construção da cidade

Assim, este texto tem dois momentos: 1. proposta de uma leitura de Miquéias, deixando apenas os trechos (perícopes: divisão do texto bíblico) indicados para que quem quiser, faça sua própria interpretação final. 2. Uma avaliação do método do Encontro de Estudo Bíblico, suas implicações, produções e possibilidades. Cremos que teorizar o que fizemos possibilitará transmitir nossa prática e, quem sabe, reproduzir este movimento em outros lugares e momentos.

Agora, então, deixaremos apenas os trechos indicados para que cada um faça sua leitura. Tendo em conta o que foi construído até aqui (os comentários anteriores e seus significados -por exemplo, a diferença entre o Povo e a nação, o sentido de utopia, etc.), cabe uma conclusão e leitura autônoma, própria. Fica como dica alguns passos metodológicos: 1. Não leia os subtítulos e os números de versículo e capítulo, pois são apenas indicações para facilitar encontrar os textos. Podemos criar nossos próprios subtítulos e organização dos versículos e capítulos; 2. Faça perguntas ao texto, como ‘quem está falando?’, ‘para quem está falando?’, ‘o que ele quer dizer com ‘x’?’…; 3. Anote suas “hipóteses” de resposta às perguntas, mas deixe que o texto te diga se suas hipóteses estão corretas ou não. Deixe ser surpreendido pelo que está lendo. Segue nossa divisão de texto seguido de subtítulos criados por nós, como indicação de possibilidade de leitura:

O QUE DEVE SER PRATICADO NA CIDADE?

“Com o que eu poderia comparecer diante do Senhor e me curvar perante o Deus exaltado? Deveria oferecer sacrifício e holocausto de um bezerro? Ficaria o Senhor satisfeito com milhares de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o meu filho mais velho por causa da minha transgressão, o fruto do meu corpo por causa do pecado que eu cometi? Ele mostrou a você, oh Homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus.” [Miquéias 6: 6 – 8]

OS RICOS NÃO PRATICAM  A JUSTIÇA

“A voz do Senhor clama contra a cidade; é sensato temer o Seu Nome!  Ouçam, tribo de Judá e assembleia dos cidadãos! Na casa do ímpio não há o tesouro da impiedade e a medida falsificada que é maldita? Poderia alguém ser puro com balanças desonestas e pesos falsos? Os ricos que vivem entre vocês são violentos; sua gente é mentirosa e as suas línguas falam enganosamente. Comerão, mas não ficarão satisfeitos: continuarão de estômago vazio. Acumularão, mas não preservarão nada: entregarei tudo o que guardarem à espada. Plantarão, mas não colherão: vão espremer azeitonas, mas não se ungirão com azeite. Espremerão uvas, mas não beberão vinho.” [Miquéias 6:9 – 15]

OS GOVERNANTES, OS JUÍZES E OS CIDADÃOS NÃO AMAM A FIDELIDADE

“Estou na desgraça! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha: não há nenhum cacho de uva para provar, nenhum figo novo que tanto desejo. Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue: cada um caça o irmão com uma armadilha. Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita o suborno, os poderosos impõe o que querem. Todos tramam em conjunto! O melhor deles é como o espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos. Chegou o dia anunciado por suas sentinelas, o dia do castigo de Deus. Agora reinará a confusão entre eles. Não confie nos vizinhos, nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça, tenha cuidado com o que diz, pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora contra a sogra. Os inimigos do Homem são seus próprios familiares. Mas quanto a mim, ficarei atento ao Senhor, esperando em Deus, o meu Salvador, pois Ele me ouvirá” [Miquéias 7: 1 – 7]

A CIDADE NÃO ANDA HUMILDEMENTE COM O SENHOR

“Não se alegre, cidade, minha inimiga, com minha desgraça. Embora tenha caído, vou me levantar. Embora esteja morando nas trevas, o Senhor será a minha luz. Por eu ter pecado contra o Senhor, suportarei a sua ira até que ele apresente a minha defesa e estabeleça meu direito. Ele me fará sair para a luz, contemplarei sua Justiça. Então a minha inimiga o verá e ficará coberta de vergonha. Ela me disse: ‘Onde está o Senhor, teu Deus?’. Meus olhos verão sua queda, ela será pisada como o barro nas ruas. O dia da reconstrução dos seus muros chegará, o dia em que se ampliarão suas fronteiras virá” [Miquéias 7: 8  – 11]

MAS O POVO SERÁ CUIDADO

“Pastoreia teu povo com o teu cajado, o rebanho da tua herança que vive à parte numa floresta em verdes pastagens […] Quem é comparável a você, Deus? Você que perdoa o pecado e esquece a transgressão do remanescente da sua herança. Você que não permanece irado para sempre, mas tem prazer em mostrar amor. De novo terá compaixão de nós; pisará em nossas maldades e atirará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Mostrará fidelidade a Jacó e bondade a Abraão, conforme prometeu sob juramento aos nossos antepassados em tempos antigos” [Miquéiias 7: 14 – 20]

Encontros de Estudo Bíblico:

I. O início

O Encontro de Estudo Bíblico é fruto da exigência de adolescentes de uma comunidade cristã. Eles apresentaram o desejo, ou até uma demanda, de continuar ou fortalecer seu processo de formação religiosa. A partir da queixa de haver uma lacuna ou ausência de trabalho com os conteúdos bíblicos e elementares para uma comunidade religiosa, criou-se o primeiro Encontro. Como experiência exitosa, mas ainda não estruturada, este espaço serviu como abertura à possibilidade de se trabalhar verdadeira e efetivamente a leitura e interpretação Bíblica. Depois de um tempo, com trabalhos pontuais e melhor estruturação teórica e técnica, foram realizados mais 2 Encontros. Duas coisas intrigantes: 1. a lacuna comunitária na formação religiosa dos adolescentes; 2. o desejo de se estudar a Bíblia como livro-fonte da religiosidade. “Por fora” da comunidade, alguns dos participantes procuraram modos de trabalhar a leitura e interpretação bíblica, mas foram insuficientes – o que indica uma possível lacuna da religião no trabalho de formação de sua juventude. Continuar lendo