Esquerda e direita: vamos organizar a discussão

De uns tempos pra cá, uma série de situações críticas e ações políticas acirraram posicionamentos ideológicos e intensificaram o uso dos termos “esquerda/direita”. Talvez por tradição, falta de novas categorias, paciência ou necessidade de atacar imediatamente antagonistas políticos, sei lá, a análise e as acusações bipolares reduziram debates, conversas e limitaram nossa capacidade de produção de conteúdo e propostas para soluções de problemas. Mas depois da prova do ENEM nesse fim de semana, em que questões que tocavam o tema do feminismo foram consideradas doutrinação de “esquerda”, temos que organizar a casa. Pior, quem se considera de “esquerda” comemorar uma questão feminista e se sentir representado por ela, também preocupa. Estamos nos reduzindo e reduzindo nossos debates

Assim, nesse texto a ideia é tentar propor uma “organização da nossa casa”. Ironicamente, é exatamente pela ordem ou norma da casa, economia, que precisamos começar a discussão. Uma das marcas do século XX é a “doutrina econômica”. A defesa ideológica de um livre mercado e diminuição do aparelho do Estado contra a defesa de uma planificação econômica e fortalecimento das instituições políticas, marcaram os blocos estadunidense e soviético: bem-vindos à Guerra Fria. É claro que a guerra não pode ser resumida a isso. Porém, a redução do debate ao modo como deve ser organizada a economia determinava, em última instância, se determinado grupo era de direita ou de esquerda.

Tanto direita quanto esquerda reduziam seu discurso à economia. A “doutrinação” das escolas de formação liberal-neoliberal e das escolas socialistas-comunistas restringiam o problema à economia. Nesse sentido, as duas discordavam do modo como se deve “organizar” o mundo, mas tinham um pressuposto comum: o que é o mundo. No caso, a economia.

Desse jeito era fácil determinar na década de 90 quem era “esquerda” e quem era “direita”. Estávamos girando tradicionalmente sobre o conteúdo econômico – e ele se confundia com o político. Nesse ponto, como leitor de Marx, preciso criticar a esquerda, que a-criticamente permitiu reduzir sua bandeira às questões de Mercado, considerando ingenua e erroneamente a política como uma “superestrutura” menos importante e a economia como “infraestrutura” fundamental – coisa que não faz sentido nenhum! Dogmaticamente produziu uma doutrina irrefletida e limitada, dando, inclusive, o braço a torcer para a doutrina econômica de direita…

Hoje as questões sociais, as discussões políticas, lutas por direitos e tudo mais não se restringem à economia. O “fim da história” de Fukuyama (que hoje voltou atrás em sua afirmação no início dos anos 2000) pode se tornar um marco interessante: com o fim da disputa econômica, na “vitória”  de um dos lados, parecia mesmo que os problemas tinham acabado. Não porque efetivamente não existiam mais, mas porque o excesso de olhares para a economia e exclusivamente para a economia limitaram o óbvio: no mundo há mais do que Estado e Mercado.

Guerras, direitos civis, questões religiosas, imigração, globalização e exclusão, as inúmeras disputas morais e mais uma infinidade de coisas surgiram, do nada, na nossa frente. O mundo não tinha chegado ao “fim”, mas nossa cabeça. O mundo “bipolar” limitado à economia não cabia mais. As coisas estavam complexas. Novos sujeitos, novos atores, novas gerações. Nosso século XXI. Nele não cabem mais as reduções, mas não desenvolvemos outras categorias que nos permitam entender o que é que está acontecendo e onde nos posicionaremos?

Nesse sentido encontrei em Dussel um marco categorial complexo, impressionante, cativante e profundo. Não necessariamente ele dá conta dos problemas, mas apresenta caminhos distintos dos tradicionais. Além da originalidade de posição a partir da América Latina, vamos tentar utilizar algumas de suas propostas para “organizar a brincadeira”. Não estamos mais falando de “direita e esquerda” reduzidas ao campo econômico. Falaremos de processos de libertação que se co-determinam simultaneamente em diferentes campos com diferentes atores. Continuar lendo

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Instituições: é assunto importante, meu filho!

_44888007_47b519f6-694d-4d4b-8481-a594af65deafO processo de institucionalização não é necessariamente consciente ou planejado. Instituições são fruto de relações complexas, interdependentes, estruturadas em efeitos intencionais e não-intencionais das ações de pessoas. Problemas surgem e, enquanto os resolvemos, vamos produzindo e tomando parte de instrumentos (mediações) que possibilitam mantermos ou remanejarmos nossas vidas em sociedade (sempre). Dessas interações, das soluções de problemas, dos efeitos intencionais e não intencionais, nascem as instituições

Instituições não são intrinsecamente “um mal”. São objetos, instrumentos, ferramentas concretas que surgem de nossa vida como humanos – no jeito que Aristóteles definiu: animais racionais e políticos. Primeiro: somos animais. Segundo: somos políticos, porque vivemos em “muitos” ou “como muitos”, sempre em relações sociais (ninguém nasce sozinho ou do nada). Terceiro: racionais, porque somos capazes de planejar através de sons articulados com significação e confiança o que faremos e como faremos determinadas ações a fim de resolver problemas. Bem, lá nos primórdios da vida “de gente”, quando se está vivenciando o processo natural de constituição do homo sapiens, os clãs e as famílias se reúnem e precisam de planos para realizar a caça e não morrer de fome. Temos um problema: a fome; e uma solução: caçar de maneira organizada. Essa organização para caçar (em que um espera com uma lança, outro dá o sinal para o ataque, outro utiliza algum instrumento diferente e tudo mais) já é uma proto-instituição. É uma divisão do trabalho rudimentar. Assim a “caça” e o “modo de caçar” se tornam uma ferramenta para a comunidade. Respeitar os serviços e as funções, executando deveres e desfrutando dos direitos de se alimentar, surge a possibilidade de manutenção da vida do sujeito humano e da comunidade.

Assim também a agricultura, que já exige uma organização muito mais complexa. As ordens de culto, liderança, rituais, determinações sobre o incesto, negócios de troca, proibição do homicídio e do roubo… Instituições que nascem com um propósito: cumprir com o dever de manter, reproduzir e desenvolver a vida humana. Claro que essa análise não é minha. É com uma história semelhante (e bem mais densa) que Dussel instaura a origem e a função das instituições. Elas são instrumentos desenvolvidos na, pela e para a sociedade humana com a função de realizar a vontade-de-viver dos sujeitos.

Tomando as categorias de “vontade geral” de Rosseau e “vontade-de-poder” de Nietzsche, Dussel faz uma interpretação complexa e profunda em que percebe que essas vontades são, na verdade, o “querer-viver” da espécie humana – e seu modo de realidade é o que temos desenvolvido em nossa história. Queremos viver e continuar vivendo: temos desejo por vida. Não individual, isolada, de um estado de natureza fictício; mas sempre comunitário, evolutivo, progressivo participante e dependente dos processos naturais de adaptação, seleção natural e etc. Numa história e filosofia bem materiais, descobrimos que instituições fazem parte desse nosso modo de realidade, modo de vida humano. São nossas “ferramentas”, nossas “adaptações”, as mediações que nos permitem sobreviver como espécie, como comunidade, como humanidade. As instituições, assim, são criações que deveriam possibilitar a vida.

Quando estas instituições não realizam mais esta função, se tornam opressoras, obsoletas e precisam ser refeitas, transformadas, recriadas. A vontade de viver da comunidade precisa materialmente de um veículo, um instrumento, que a permita se realizar. Quando se tornam um péssimo veículo, não funcionam mais como instituições; perdem seu caráter verdadeiramente político, humano. Quando a instituição perde sua originalidade, sua função, o motivo ou a causa pela qual ela foi criada (para possibilitar a vida da comunidade), ela se “fetichiza”. Melhor: ela se corrompe. Corrupção é quando uma instituição ou uma instância de poder toma a si mesma como causa, como fonte, como origem, e não cumpre mais a função para a qual foi instituída. Continuar lendo

Teologia do poder corrompido

portinariEm alguns rascunhos de teologia antigos, encontrei uma proposta que hoje, mais madura, me é muito cara. O fundamento de uma teologia não é a “crença”, mas a experiência viva e necessariamente comunitária de fé. Vivemos determinadas experiências em comunidade, concretamente e em situações precisas, que se tornam a base, o chão, o firmamento do desenvolvimento teológico posterior. Aí, sim, entram as “crenças”. É depois de uma experiência viva, comum, cotidiana e encarnada que se desenvolve em forma de discurso uma teologia, uma sistematização de expressões de fé, dogmas, etc. Meu pai dizia: primeiro você se converte, depois vem alguém te dizendo o que você deve fazer ou repetir…

A experiência primeira de fé é comum, viva, espontânea e concreta. É a “epifania”, o momento místico cheio de emoção, corporalidade, concretude. Isso deveria ser o que nos firma. Logo em seguida aprendemos e/ou desenvolvemos um discurso teológico; afirmações de fé e dogmas. Assim, o que possibilitou nossa conversão não foram as palavras ou afirmações teológicas isoladas, mas a experiência comunitária viva, de verdade, corporal, dura, em um determinado dia e momento. A fé se funda nesse dia. Isso não se muda, não transforma. Mas o discurso, sim. A teologia que vem em seguida não é menos autêntica: ela só não é a “verdade” ou o fundamento da fé. Ela pode ser fruto, produto da vida concreta e real, da experiência que vivemos em determinado dia, mas nunca o próprio fundamento.

Quando o discurso teológico, as afirmações de fé, tomam a si mesmas como o fundamento da fé – como se fossem elas a causa de nossa conversão e não a experiência encarnada com o Cristo -, vivemos uma fetichização da fé: uma corrupção da experiência religiosa. Isso não desmerece uma em detrimento da outra; só devemos colocá-la em seus devidos lugares, suas posições. Enrique Dussel apresenta uma estrutura análoga: a experiência de fé encarnada é entendida como teologia fundamental (ou primeira), mas no processo de libertação do povo é necessário uma instituição mais complexa que se faça meio de possibilidade para a continuação da vida de fé. A partir de uma fé viva, é-se preciso uma vida de fé – e para que ela aconteça, são necessários meios: o desenvolvimento de uma Teologia estrita, em outras formas além daquela primeira, determinada.

O discurso teológico, assim, muda e se transforma enquanto são exigidos pela experiência de fé concreta e viva novos e outros meios que possibilitem a vida de fé. Os movimentos de renovação, reforma, revolução ou reavivamento na história das comunidades de fé cristãs podem ser entendidos dentro desta categoria: as experiências vivas de fé, concretas, reais, diárias e comuns da comunidade precisavam ou exigiam outros meios além dos que estavam à disposição para que a vida de fé prosseguisse. Era necessário produzir, criar, nova instituição: em forma de rito, discurso, música, igreja… Assim como na vida do sujeito de trabalho vivo em Marx precisa produzir meios que possibilitem a reprodução e continuidade da vida, a experiência de fé viva precisa produzir meios que possibilitem a vida de fé.

O subtítulo do livro As obras do amor, de Soren Kierkegaard, é “algumas considerações cristãs em forma de discursos”. Isso já ensina para a gente bastante coisa: o discurso é uma forma,  não o conteúdo. Kierkegaard propõe em sua filosofia o “além”: uma exterioridade que excede qualquer totalidade de um sistema. Seja discurso, seja parede, seja música, seja experiência científica… Há uma excedência que constitui verdadeiramente o conteúdo. A vida é o conteúdo, o fundamento último. As considerações posteriores são meios que possibilitam a reprodução do sujeito que vive – seja religiosamente, produtivamente, politicamente, etc. O discurso é importante e crucial; porém não é o fundamento. Assim como a igreja, o culto, uma música, o Estado, a escola, o mercado… São  meios, são formas, mas não fundamentos.

Precisamos ter isso bem claro em nossas experiências cotidianas. Tomar uma instituição como fonte, fundamento, é corromper a experiência viva e da vida: fetichizar as experiências, subjugar os sujeitos à religião, à política, à pedagogia, à economia. Estas instituições são meios para os sujeitos; não o contrário! Continuar lendo

Aos 26

2626 de agosto, 26 anos (apesar da cara de 17). Um dedinho a mais que 1/4 de século. Não sou capaz e nem estou pronto para “aconselhar” ou dizer que sei alguma coisa sobre a vida. Tudo o que falo, tenho plena consciência de que está bem delimitado em mim e nas minhas experiências próximas. Comecei a ter a sensação de que consigo reconstituir minha história de maneira diferente, reorganizar meu passado. Mas só. Isso é bom. Cai a máscara de “maduro”, entra a de “adulto”: não posso direcionar sabiamente a vida de Outro, mas sei onde a minha está fincada. Hoje sei em que chão meus pés pisam; e é este chão que venho compartilhar…

Ano passado, antes de completar 25, vivi intensamente crise: frustrado por não conseguir acelerar minha independência financeira e me estabelecer profissionalmente, e desiludido com os espaços que me constituem – igreja, universidade, escola, família. Ouvi uma música que dizia: “Há 10 anos eu planejava conquistar o mundo, 10 anos se passaram e eu não conquistei […] Não imaginava que chegaria aos 26 sem norte ou sul”. O som bateu. As pernas tremeram. Tive medo de chegar assim nos meus 26. Frustrado, desiludido… Com medo de perder até o encanto: a paixão pela filosofia, o amor por minha comunidade, minha vocação e a fé. A única segurança que eu tinha: gente.

Meu avô me ensinou uma coisa rara e para mim muito cara: “quem tem amigos não precisa de dinheiro”. É verdade. Tomei chacoalhões de irmãos. Fui cuidado. Lutaram comigo e por mim. Devo muito à minha casa, ao meu irmão-mais-velho e à minha linda magrinha. Eles me constituem. Devo muito a companheiros e companheiras que cuidaram e cuidam de mim sem nem eu saber. Acreditaram mais em mim do que eu mesmo. Esse é o fundamento primeiro do chão que eu piso: eu sou, porque nós somos. É ubuntu, que quem me ensinou a viver e entender foram outros dois irmãos-reis: Jarino Junio e Pedro Conceição. Gente que me constitui como sujeito. Não somos isoladamente; só somos em relação. Nasci dependente de mãe, pai, família e casa. Fui dependente de professores, amigos, mestres, comunidades… Gente que me construiu, me constituiu, me ajudou e ajuda a me tomar como sujeito, como pessoa.

Somos, sempre, em comunidade. Dussel define sujeito como sendo sempre intersubjetivo: só é em relação e comunitariamente – não existe gente que vem “do nada”. Sempre vem de alguém. Os chacoalhões, as caminhadas, as conversas, o cuidado e o carinho encheram e enchem o espírito. Força nova, vida nova, outro combustível – sem preço! Comecei uma pós em Ciência Política. Prestei processo seletivo no Mestrado para Filosofia Latino-Americana. Segundo fundamento do meu chão: nossa paixão precisa ser útil para a comunidade em que vivemos. Tive fôlego porque vi que alguém apostava em mim e, do mesmo modo, meu trabalho deveria se direcionar, sempre, para alguém. Nossa produção não é para nós mesmos, mas sempre para alguém. Minha linda magrinha me inspira e me motiva. Quero ser um presente para minha casa. Quero ser útil para minha comunidade, meu povo. Estou estudando Dussel, com a paixão pela filosofia firme, porque tenho o dever de produzir algo que possibilite a vida dos meus, dos outros. Como Dussel disse: “ser útil é uma relação”. Continuar lendo

“O político”: trecho do projeto

 10568902_770775982960838_6013329346446243723_nO intenso e delicado momento do Brasil – de eleições conturbadas, escândalos de corrupção, manifestações sociais, greves, debates sobre reformas políticas, representação e legitimidade do poder – tem colocado em evidência e recorrentemente trazido à mesa as discussões sobre o político e a política. Se por princípio não se pode determinar que algo “está errado”, pode-se, pelo menos, afirmar que algo está acontecendo. A partir desse ponto, resta responder qual o fundamento disso que está acontecendo – e o lugar onde nos posicionaremos para trabalhar a questão é de suma importância

Em Enrique Dussel encontramos a tese central de que a fundação ontológica da crise do político é a fetichização do poder. Esta fetichização é origem do entendimento do político (conteúdo) e da política (atividade) como dominação e como corrupção. O autor comenta que o “conceito do político supõe primeiramente a descrição ontológica do poder político, conceito que passa inadvertido e que na Modernidade se identificou frequentemente com a dominação”. Esta dominação é fruto de uma corrupção originária: quando os executores do poder (que, como veremos, será explicitado por Dussel com a determinação de potestas) tomam a si mesmos como fonte do poder (que, por sua vez, será, na verdade, a comunidade política determinada como potentia) – o que caracteriza a chamada fetichização. O resultado é: “fetichizado o poder delegado […] toda outra corrupção é possível”.

O desenvolvimento teórico que conduz a essa tese tem como ápice de sua sistematização a obra Política de la Liberación, dividida em três volumes: Historia mundial y crítica, Arquitectónica e Crítica – sendo que o terceiro ainda não foi publicado. O primeiro volume procura compor um novo paradigma histórico para a filosofia política. O segundo, por sua vez, procura descrever ontologicamente o fundamento do poder político. Em seguida, a pretensão é que se critique o que fora construído anteriormente. Por nossa parte, situar-nos-emos no momento metódico de explicitação dos fundamentos do político – desenvolvido no segundo volume da obra.

“É tempo de descolonizar a cabeça” – assim o filósofo latino-americano dá início à primeira aula do curso de filosofia da libertação na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), em 28 de janeiro de 2015. A conhecida e cada vez mais pesquisada crítica à filosofia europeia construída por Dussel, com seu método analético de filosofia, propõe que a exterioridade do sistema hegemônico seja o ponto de partida – tomada de posição que caracteriza a filosofia da libertação. Deste modo, tomando os rumos gerais do método, para compreendermos o que está acontecendo não devemos lançar mão das categorias do próprio sistema – ainda mais na questão do político, pois, como vimos, seu conceito passou inadvertido pela Modernidade enquanto compreendido como dominação. Mas, posicionando-nos para além dele, faz-se possível a explicitação de seu fundamento e sua articulação, abrindo caminho para uma crítica direcionada, efetiva e concreta.

No “Prólogo” ao segundo tomo da Política de la Liberación, Dussel escreve:

“Nesta Arquitectónica, exporemos de maneira abstrata e como introdução ao volume da Crítica de maior complexidade, mais concreta, uma descrição fundamental, ontológica, dos momentos que têm relevância para uma política global, planetária, por sua vez observada de modo especial a partir da periferia, do Sul, e particularmente desde a América Latina. Será toda uma implementação do poder político, que irá ocupando o campo político até chegar ao final […] havendo dado conta suficientemente, levando em consideração os momentos necessários, de uma “ordem do político vigente” , anterior, de maneira abstrata e sem contradições ainda; sem conflitos, metodicamente postergados para a seção seguinte da Crítica.”

Seu propósito, portanto, neste momento arquitetônico, é descrever os fundamentos do político de maneira complexa, necessária, mínima e suficiente – momento abstrato de descrição ontológica. A disposição das categorias que constituem o político permitirá a compreensão de sua crise: sua corrupção originária e o entendimento fetichizado do poder como dominação. Além disso, no passo metodológico seguinte, a crítica concreta da libertação encontra caminho aberto. É o processo de “ascensão do abstrato ao concreto” – expressão que Dussel empresta de Karl Marx.

Interpretando criticamente os Grundrisse, Dussel encontra o seguinte quadro: “Marx pode ver com novos olhos, pode criticar o próprio ser do capitalismo […] a partir de uma exterioridade prática que lhe exige explicitar para os oprimidos uma teoria que explique aos trabalhadores o fundamento de sua alienação”. Isso significa que, para Dussel, Marx pôde construir um novo sistema de categorias que permitia explicitar o fundamento escondido porque tomou posição de exterioridade ao sistema capitalista – posição dos trabalhadores, alienados. Tendo-o feito, possibilitava a crítica ao próprio sistema.

Do mesmo modo, o filósofo latino-americano estabelece que, guardadas as proporções e a analogia epistêmica necessária, faça-se o mesmo quanto à filosofia política. Então, como citado, é necessário nos posicionarmos a partir da periferia – a América Latina, o Sul como exterioridade, como possibilidade crítica ao poder como dominação e à corrupção originária. Deste lugar de exterioridade, devemos observar a “ordem do político vigente”, descrevendo ontologicamente suas determinações, suas categorias articuladas, seu fundamento. Estas categorias e determinações colocam em questão a origem ontológica do político e permitem melhor compreensão do processo de fetichização do poder político.

Dussel também recorda que Marx descobriu a “comunidade vivente” como categoria fundamental – a via de acesso à distinção entre “trabalho vivo” e “trabalho objetivado”. Mantendo pedagogicamente o processo de analogia, sempre levando em conta as diferenças dos âmbitos da economia e da politica, afirma:

“Assim como a crítica da economia política de Marx partia da “comunidade de viventes” dos que trabalham, e onde cada trabalhador era considerado como “trabalho vivo” […] da mesma maneira a crítica da filosofia política da libertação parte de uma categoria fundamental que organiza todo o sistema das categorias restantes. Esta categoria é a do poder político.”

Deste modo, Dussel nos indica que, no desenvolvimento da política da libertação, a categoria fundamental é o poder político. As demais categorias que compuserem o sistema serão dispostas em torno desta centralidade. Continuar lendo

Concreto, material, teoria, prática… Diferenças necessárias

grafite arte urbana QBRK (11)[8]Utilizamos uma série de termos para organizar nossos discursos, projetos, propostas e justificar nossas ações. O significado destes termos precisa sempre estar bem determinado: saber suas posições, oposições e diferenças é fundamental para delimitarmos nossas justificativas: nossos sistemas significativos de justificação. Muitas vezes lemos a oposição entre “teoria e prática”, mas sem sabermos as determinações de cada termo. Trabalhamos sem refletir como dada a diferença entre “material” e… Qual o oposto de material? Aliás, qual a diferença entre “material” e “concreto”? É comum ver estes termos como sinônimos e confusos. Por exemplo: soa estranho uma “teoria prática”? E uma teoria “concreta”? Uma abstração “material”? Bem, é preciso organizar…

Aqui entra boa parte do trabalho filosófico: produzir e organizar sistemas significativos de justificação. Me arriscando nesse exercício, seguem algumas diferenças e oposições que creio serem relevantes para a organização de nossos projetos, discursos e ações. Ao final do texto, cito as fontes de onde tiramos o seguinte quadro:

Prático x Poiético

Normalmente trabalha-se a diferença entre “teoria e prática”. Mas, após ter contato com Enrique Dussel, ver suas interpretações e indicações, encontrei uma proposta muito interessante: prático em oposição ao poiético. Para Dussel, lendo Aristóteles, prática é a produção de alguma coisa que tem como direção final outra pessoa. É o trabalho relacional. Poiético, por sua vez, é o trabalho pelo trabalho, a produção pela produção. Quando um sapateiro produz para entregar o sapato para alguém determinado, é um exercício prático. Quando um trabalhador de uma fábrica de sapatos produz sapato por manutenção da produção, é poiético. Tal diferença é importante porque rompe com uma limitação: a impossibilidade comum de se desenvolver uma “teoria prática”. A produção teórica que tem como direcionamento uma “pessoa determinada”, é, sim, prática. Já a produção teórica pela produção teórica, voltada ao próprio exercício produtivo, é “teoria poiética”.

Teoria x Empiria

Teoria é distinta de prática e poiética, diferente e oposta à empiria. Teoria é o trabalho “contemplativo”: a produção reflexa de organização de esquemas, sistemas, discursos, modelos… É a representação esquemática de determinada situação que possibilita uma experimentação sem consequências radicais e imediatas. Oposto à empiria: que é a experiência radical, determinada, concreta que altera imediatamente e sem possibilidade de regressão e digressão a situação experienciada. Não é exercício representativo, mas direto, imediato.

Material x Sistêmico

Material é o “núcleo duro” trabalhado: seja poieticamente, praticamente, em exercício teórico ou empírico, é aquilo que de modo bruto, em sentido especial “internamente indissociável”, que abre possibilidade para um ponto de partida seguro para o trabalho, a produção, o exercício. Então seja um tanto de barro na mão de um artesão, seja madeira na mão do marceneiro ou o “conceito geral” em Marx, é este núcleo o “material”. Marx consegue fundar seu materialismo histórico e seu materialismo dialético ao estipular/determinar o “homem trabalhador em geral”: qual o núcleo histórico que constitui qualquer trabalho efetivamente? A resposta, a constituição do “trabalho em geral”, possibilitou a entrada material na história do homem. O contrário, tradicionalmente, sempre foi tomado como “o ideal” ou “o espiritual”. Entretanto, depois de revoluções científicas, tecnológicas, etc, estes termos perderam certo significado. Neste sentido, tomando certo cuidado na interpretação de Bourdieu, o termo “sistema” explica melhor: já não é um núcleo duro a ser trabalhado, mas as relações institucionais, pessoais, estruturais… Enfim, as determinações relacionais nas quais certo objeto está imerso. Não seria mais o “trabalho em geral”, seguindo o exemplo de Marx, mas o trabalho no “sistema capitalista”; as regras do jogo e como se comportam suas “peças”. Estas regras não são “materiais” como núcleo bruto, mas são compreendidas e compreensíveis na relação: nas situações, ações e efeitos que surgem entre os “objetos”, os “materiais”, os “atores” do sistema e no sistema. Continuar lendo