Transformação de sistemas: porquê nossa mensagem emperra?

PalavraEsse texto é endereçado àqueles que vivenciaram crises religiosas e se propuseram a rever a teologia aprendida, a tentar criar novos rumos para nossas crenças e religiosidade. Creio que só se dá ao trabalho de rever teologia quem realmente se importa com ela. Creio que só se lança a criticar instituições e a religiosidade quem teve, de algum modo, uma experiência de fé profunda – que hoje já não encontra voz nos discursos de antes. Especialmente, este texto é para aqueles que são de minha comunidade religiosa e que desejam construir uma nova casa para acolher os cansados, os abandonados e os desabrigados

Semana passada pude ler o texto de Piero, irmão de comunidade, parceiro de casa. O título é provocativo: Matar nosso Deus! (você pode acessá-lo clicando no hiperlink), mas não se assuste. Dos muitos comentários que o texto recebeu, o que mais me chamou a atenção foi um  que pinçava um único ponto: Deus como objeto de nosso amor. Não sei se esse é a tese central do texto – na minha leitura, o problema que Piero percebeu tinha mais a ver com a fixação de Deus -, mas será este o gancho para trabalharmos aquilo que me parece ser fundamental e que nos falta, enquanto novos teólogos, para transmitirmos nossa mensagem: sistematização do discurso, a produção de um sistema significativo de justificação. A análise que faremos deverá ser entendida como exemplo, como possibilidade, e par compreendermos o que chamo de “sistema” e de “sistematização” (explicação que devo a alguns companheiros).

Amadurecemos muito e somos capazes de perceber as falhas das teologias tradicionais ou teologias correntes. Fazer o diagnóstico e encontrar o problema se tornou quase fácil. O que temos muita dificuldade de fazer é mergulhar na raiz, nos caminhos que nos levam aos equívocos, aos erros. Temos dificuldade de perceber o que está por trás do que aparece. No texto do Piero e no comentário, há uma crítica muito importante: Deus não pode ser objeto de nosso amor. Nos aparece um problema: Deus não pode ser objeto, não é objeto. E o que deveria nos incomodar é “porque dizemos que Deus é objeto de nosso amor?”. Qual caminho tomamos para chegar a essa conclusão (chamar Deus de objeto) e deixarmos essa crença passar desapercebida, sem que colocá-lo como objeto nos assuste? Esta é a raiz do problema, onde precisamos trabalhar: é o sistema significativo de justificação (o método) que no encadeamento lógico nos leva a essa conclusão. Aí precisamos trabalhar!

No fim de semana, em uma mensagem, o pastor contou uma história em que um homem perguntou para ele “para quê Deus serve?“. Para chegarmos a esse tipo de questão, existe uma estrutura que sustenta a crença, a justifica. Ela precisa ser trabalhada. A dificuldade que temos é que diagnosticamos o problema, percebemos que algo está errado, mas na hora de solucionar, tomamos o mesmo caminho de sempre. E aqui começamos o trabalho de sistematização de uma nova teologia: olhemos para o caminho que tomamos para solucionar os problemas e modifiquemos ele.

Rubem Alves percebeu que a teologia protestante clássica tinha problemas: ela isentava os homens das catástrofes e das maravilhas do mundo, da história. Os homens eram espectadores da história, sendo Deus o agente, o sujeito de tudo e em tudo. Alves, então, resgata a tradição protestante-europeia (que também era base da teologia clássica) e propõe o homem como sujeito da história, como sujeito-histórico. Isso é revolucionário e transformador frente as interpretações enraizadas em nossa religiosidade, mas não reformula o método de justificação de nossas crenças: manteve a relação sujeito-objeto, transferindo o papel de sujeito de Deus para a humanidade. Na tradição, Deus é sujeito em oposição ao objeto História, enquanto que em Rubem Alves o homem é sujeito em oposição ao objeto História. Claro, estou fazendo uma generalização. Porém, a relação Deus-homem tanto em uma quanto em outra, não existe. Aliás, não existe relação: há apenas oposição.

O que não criticamos e deixamos passar desapercebido é esse sistema: sujeito-objeto. Em oposição ao sujeito, só há objeto. É a filosofia e a teologia moderna: o sujeito, Eu, que se opõe e domina, conquista, o objeto, aquilo que não-é-Eu. O Próximo, que deve ser amado como a mim mesmo, por exemplo, é entendido como objeto de amor do Eu, do Mesmo. Mas, o Próximo, o Outro, Outra Pessoa, é objeto? É quem se opõe à mim e precisa, como método de trabalho, ser dominado, conquistado? Precisa “servir para alguma coisa”? Não há relação homem-Deus, Deus-homem, homem-Homem, porque para além do sujeito, nesse sistema, só há objeto.

Eu sou uma totalidade que existe e tudo o que é oposição à mim precisa ser adequado, explicado e controlado por mim – sujeito. Essa é a base de produção teológica, o fundamento do sistema. Para transformarmos pedagogicamente nossa teologia, nossa mensagem, os significantes de nossas crenças, precisamos alterar o caminho, o método, o sistema.

Minha proposta é conseguirmos transformar a oposição sujeito-objeto em relação sujeito-sujeito: o Próximo é sujeito, para além de mim, não totalizável, não controlável, não conquistável. O Próximo é a voz que me perturba, que me faz perceber que o mundo não é meu e nem capaz de se encaixar à mim. Não me oposiciono a objetos, somente, mas também me relaciono com sujeitos, Outros sujeitos – que estão para além de mim. É percepção e reconhecimento do sujeito como sujeito, do Outro sujeito, daquele que também age e não cabe em mim. É transformarmos oposição em relação. Relação que tensiona o Eu, o Mesmo. Não sou só, há vida par além de mim.

É desenvolvermos a ferramenta e a proposta de relacionalidade: estamos em relação com sujeitos. Deus não é e nem pode ser objeto de meu amor; é sujeito com quem estou em relação: relação aberta, que corre o risco de ser quebrada no instante que a objetifico. Amar é a manutenção da separação entre Eu e o Outro, entre Nós. Amar é manter esse espaço de liberdade, esse vazio entre Um e Outro, espaço em que o Espírito sopra e renova a Vida. O Próximo está em relação comigo, não em oposição. Não é objeto de meu amor, mas eu devo amor à ele: cuidado com sua vida, com a separação que há entre nós; não devo dominá-lo, controlá-lo, conquistá-lo. Amá-lo, só.

Se formos capazes de transformar essas estruturas profundas, os sistemas que justificam os significados e produzem significantes para nosso discurso, nossa mensagem, creio não encontrarmos tantos limites à conversa. Creio que conseguiremos transmitir nossa mensagem. Creio que teremos nova voz, nova teologia, nova significação. Enquanto trilharmos os mesmos caminhos, nunca conseguiremos convidar outros para andar em novos. Precisamos ir mais a fundo. Não adianta andar pelo mesmo lugar, sempre, e esperar chegar a novos lugares. É necessário mudarmos o caminho, repensarmos nossa trilha! Nossa teologia emperra e tem emperrado porque não conseguimos produzir novos significados, novos rumos que sustentem e deem voz à fé e à espiritualidade vivida por nós em nossas comunidades. Outro sistema significativo de justificação pode produzir novos significados.

Nosso desafio é trabalhar para além. Nosso desafio é nos relacionarmos. Nosso desafio é sermos criativos: produzirmos uma nova casa para acolher os cansados, os abandonados e os desabrigados. Não é rearranjar os atores de um sistema, mas mudar o sistema. Não é mudar quem é o “sujeito” e quem é o “objeto”, mas transcendermos o método de oposicionalidade (dialético) para uma relacionalidade (analético). É sairmos para uma nova organização discursiva: entre sujeitos. Pode parecer bobo, pequeno, fútil. Supérfluo. Mas é essa “bobagem” que sustenta e organiza aquilo que falamos. Apenas produziremos novos significados com novos significantes e um novo sistema significativo de justificação.

Obrigado Piero por escrever e compartilhar suas crenças com nós, outros sujeitos. Para quem quiser se aventurar em novas possibilidades, recomendo alguns livros inspiradores: Método para uma filosofia da libertação, de Enrique Dussel, e Ética comunitária, do mesmo autor. Também Totalidade e Infinito, de Emmanuel Lévinas (tem na internet), Humanidade e Razão, de José Luiz Pérez, e Sujeito e sociedades complexas, de Jung Mo Sung. Obras que com certeza inspiraram este texto.

Bruno Reikdal Lima

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